Capítulo 1 - Primeira pétala
Eram 5:30 ... mas já estava de olhos bem abertos. Rolava
de um lado para o outro ... Sentia claramente o cansaço, e mesmo
assim não conseguia voltar a dormir.
Procurava uma posição boa para o cobertor, os
lençóis, o travesseiro ... E quando enfim conseguia sentir-se
cômoda, como se o problema fosse mesmo a posição das
coisas na cama, parava quieta.
Então repassava a cena, como tantas vezes fizera nos
últimos dias.
E sempre aquele senso de que faltava algo ...
O ursinho parecia observá-la, do canto do quarto.
Seu ato impulsivo ... ir até lá, encará-lo,
e deixar transparecer um pouco do que sentia, tinha seu mérito,
mas passava longe do suficiente. Ganhara aquele ursinho, que olhava longas
horas sempre que a saudade apertava. Ganhara também um rápido
contato com aquele que, agora sabia, amava.
Porém, o contato tinha sido rápido demais, apertando
mais seu coração ao invés de aliviá-lo.
E o ursinho não poderia substitui-lo, nem fazer correr
mais rápido o tempo, até um reencontro.
Tinha partido faziam alguns dias, e já parecia muito.
Por que sentia-se tão incomodada?
Faltava algo, ela sabia bem o que era. Faltava dizerem um ao
outro exatamente o que sentiam, mas também sabia que nenhum dos
dois tinha culpa daquilo. Ela havia descoberto esse sentimento tardiamente,
e fez o máximo que pôde fazer.
Quanto a ele, não sabia ...
Nenhum dos dois tinha culpa ...ou tinha? Pensava se talvez não
tivesse um pouco de culpa...
Não era improvável. Sua distração
já era bem conhecida de todos. Numa conversa com Tomoyo, a amiga
tinha listado vários sinais que ele dera de seu amor, e ambas haviam
rido um bocado de como Sakura era tapada.
Os dias correram, e isso perdeu a graça.
Sentia-se tola, a mais tola de todas. Não percebeu o
que todos já tinham percebido, e isso lhe custou um tempo precioso.
Quem sabe se não fosse tão avoada ... poderia ter ganho mais
que um ursinho...
Quem sabe ... quem sabe ... quem sabe ...
Definitivamente, sua distração, que ela mesma
sempre levou na brincadeira, agora a fazia enxergar-se como uma garota
burra e infeliz.
É ... estava mesmo deprimida.
Até o ursinho parecia adquirir uma feição
triste.
Como ele estaria agora? Conseguia distrair-se um pouco pensando em coisas bobas, do tipo "O que ele está fazendo exatamente nesse momento?" , "Quem são os amigos dele lá?" , "Será que está pensando em mim também?"
Será ...?
******
- Você está distraído.
- Desculpe ...
- Se é assim, melhor nem começarmos.
- Não! Por favor ... eu ...
- Vai se concentrar?
Não se assustou com a rispidez. Wanshu era assim mesmo.
- Vou sim ... vou tentar.
Recolocadas as máscaras de proteção, voltaram
ao duelo de bastões.
Em vão ... logo Shaoran tornou a cair no chão.
Wanshu nada disse, limitando-se a lançar-lhe um olhar
de reprovação.
Shaoran baixou os olhos, envergonhado.
- De pé.
Colocou-se de pé, rapidamente, mas permaneceu olhando
o tatâme.
Sentia-se realmente mal de estar se comportando daquela forma,
mas era impossível evitar.
- O treino de hoje está terminado.
Não havia como apelar da sentença, e nem tinha
porque fazer isso.
Curtas palavras sobre Wanshu ... homem de pouco mais de 40 anos,
gozando já de algumas mechas grisalhas, de bom físico e extremamente
habilidoso na arte que mestrava, era severo como sensei, mas afável
e gentil como pessoa.
Já havia notado que tinha algo de errado com seu pupilo
naquele dia, e esperava encerrar o treino logo para inspecionar-lhe com
mais cuidado.
- Shaoran ...
A máscara já retirada, prosseguia sem encarar
seu mestre ...
- Sim, sensei.
- Vamos nos sentar.
Sentaram no tatâme, Li sempre mantendo uma postura respeitosa,
mas fugidia.
Wanshu aproximou-se, olhou seu rosto demoradamente ... olheiras
...
- Dormiu mal de novo ...?
- Sim ... infelizmente ...
- Notei que você não estava apenas distraído,
mas também cansado ...
- ...
- Já pode me falar o motivo de sua distração,
ultimamente?
O garoto silenciou, e baixou mais ainda a vista. Sua fisionomia
tornou-se tensa. Wanshu não surpreendeu-se ... não esperava
mesmo que ele dissesse qualquer coisa.
Desde que voltara do Japão, estava sem a antiga concentração
que fizera dele um prodígio. E quando questionado sobre o porquê,
a reação era sempre a mesma - o silêncio.
- Não vai falar mesmo, não é?
Coçou o queixo devagar ...
- Me desaponta um pouco ...
Só então olhou o mestre, um pouco curioso ...
- Desaponta ...?
- Li ...
Fez uma pausa.
- Treino você já tem alguns anos, e você
sempre teve em mim um amigo. Esperava que confiasse mais ...
- Não é isso ...
- Escute. Não pergunto as coisas por curiosidade. Pergunto
porque você me preocupa. Sempre te achei resoluto até demais
para alguém com tão pouca idade. Agora te vejo incerto.
Havia escutado tudo quieto, e sua feição mudou
de tensa para triste. Não bastasse seu dilema interior, agora sentia
que desapontava ao mestre, e duplamente - como aluno, e como amigo.
- Não faça essa cara. Respire fundo.
- Desculpe ...
- Não se desculpe tanto. Mais faria se me dissesse o
que está acontecendo.
Observou a expressão de Li por um momento.
Foi fácil deduzir ...
- Já se vê que não me dirá nada,
mais uma vez ...
Fez-se o silêncio no imenso dojo.
******
Tomou um susto com o despertador ...
7:00
Mal moveu-se, e sentiu o corpo pesado, prova da noite mal dormida.
" Pelo menos um cochilo ..."
Com muito esforço, pôs-se de pé.
Olhou o recanto de Kero ... continuava dormindo.
- Sakura!
Seu pai chamava ...
- Vamos com isso! Logo a Tomoyo vai estar aqui!
Não estava no humor ideal, mas tinha prometido a ela
que iria ver sua apresentação. A própria Tomoyo viria
buscá-la, para irem juntas até o teatro onde aconteceria
o evento.
Tratou de arrumar-se. Talvez até conseguisse distrair
um pouco a cabeça, e conversar com uma amiga era sempre bom nessas
horas.
Só não conversaria antes da apresentação.
O amor de Tomoyo por ela era tão grande, que se deixasse transparecer
sua tristeza, poderia prejudicar a performance da amiga. Fingiria uma cara
bem alegre, e não tocaria no assunto.
- Bom dia, pai.
- Bom dia, minha filha!
Sakura descia a escada devagar. O entusiasmo de Fujitaka quebrou-se
assim que viu-lhe o rosto ...
- Você não está com uma cara nada boa, filha
... - disse preocupado, enquanto preparava o café.
- Não dormi muito bem ...
- É ...? Pensei que monstrengas tivessem a cara assim
mesmo ...
- Touya!
- Sim, monstrenga?
- Não sou monstrenga!!
Retrucou mais áspera que o habitual.
- Que falta de humor ...
- Touya!
Os dois silenciaram à voz do pai.
- Deixe-a em paz, certo?
- Mas era só uma brincadeira, pai ...
- Eu sei, mas hoje não. Sua irmã não está
boa hoje ...
Resmungou algo, e continuou comendo. Fujitaka serviu o café
de Sakura e sentou-se ao seu lado.
Comeu sem observá-la. Não queria fazê-la
sentir-se mais estranha do que já vinha sentindo-se nos últimos
dias. Aguardou que ela terminasse. Touya, bom observador, já havia
percebido na irmã um humor pior que o usual, e se arrependera da
brincadeira. Tanto que, antes de sair, dirigiu-se a ela e deu-lhe um beijo
na testa ...
- Desculpe, maninha ... vê se fica melhor,ok ?
Sakura limitou-se a acenar com a cabeça.
- Filha ... oque há de errado com você?
- Ah, pai ... nada ...
Os dois já tinham terminado, e Fujitaka agora encarava
sua filha, buscando diálogo. Não uma explicação
propriamente, pois já sabia o motivo daquilo tudo. Touya já
falara, muito contrariado, do afeto entre Sakura e o garoto de Hong Kong.
No entanto, mesmo sabendo o motivo, nem por isso ficava menos preocupado.
Procurava manter serenidade em seu semblante. Não faria bem algum
a Sakura ver o pai deprimido também.
- Nada, filha?
Estendeu a mão até alcançar-lhe o rosto.
- Esse rostinho diz o contrário ...
Realmente, Sakura tinha uma expressão cansada, e seus
olhos pareciam desprovidos da vivacidade de sempre.
Mesmo assim, não estava muito à vontade para falar
sobre isso.
- Vem cá, filha ...
Pôs-se sentada no colo do pai, agarrada a seu pescoço.
Dormiu ...
Fujitaka já estava atrasado, mas não deu a mínima.
Se a filha não estava disposta a conversar com ele sobre sua perturbadora
paixão, ao menos colo ela aceitava.
" Sakura... "
******
Só se ouvia o som do chá sendo servido.
Numa imensa sala, aluno e mestre, já de roupas comuns,
sentados à mesa, cada qual com sua xícara e seus pensamentos.
Wanshu olhava Shaoran, como se tentasse ler-lhe os pensamentos.Shaoran
olhava ou a mesa ou a xícara, nunca Wanshu.
O som cessou, o serviçal se retirou ... ficaram os dois,
sozinhos na imensa sala, e nenhum som além de um eventual canto
de pássaros.
- Li ...
Tinham ficado um tempo no dojo, e nada.
Agora estavam ali, e nada.
- Você não quer falar. Respeitarei seu direito.
- ...
- Mas preciso saber até quando você ficará
assim. Sei que talvez nem você saiba responder, mas preciso saber
se minha presença aqui terá alguma utilidade.
- É ... é claro ... eu ... não posso parar
de treinar.
- Pode sim.
Surpreendeu-se, mas Wanshu não se alterou, e sorveu lentamente
um gole do seu chá. Só depois falou.
- Você já é surpreendente para a idade.
Tem dons especiais, não só a magia, mas todo o restante de
suas habilidades. Não fará mal algum se parar um pouco.
- Mas eu não tenho ... porque parar ... - respondeu timidamente.
- Você é um aluno cabeça-dura. O ensinamento
que te passo é importante, mas o resto de sua vida é mais
importante que esse ensinamento. Precisa cuidar do resto de sua vida, antes
de voltar ao ensinamento.
- Se eu treinar ... - começou incerto - ... talvez consiga
esquecer ...
- Não te treinei para isso, para esquecer seus problemas.
Treinei-o para enfrentar seus problemas.
- Você não me treinou para enfrentar isso ...
Beberam um gole de chá cada, dessa vez se olhando.
- Nesse caso, será um aprendizado novo, que você
talvez tenha de trilhar sozinho.
- Eu sei, mas ...
- O importante é que, enquanto você não
resolver o que te incomoda, não voltará a ser como antes.
- Eu tenho medo ... de resolver e não ser como antes,
mesmo assim.
O mestre silenciou e aguardou. Li ainda diria mais alguma coisa...
- Não sou mais o mesmo, de qualquer jeito ...
Terminaram ambos o chá.
- Se você estiver feliz, isso será o mais importante.
O jovem não parecia convencido, mas Wanshu não
deu-lhe tempo ...
- Mais importante que qualquer outra coisa.
Frisou bem.
- Qualquer outra.
Depois, quase de súbito, levantou-se.
- Se quiser falar comigo, sabe onde me encontrar ...
- Sensei! O senhor já vai ...?
Wanshu virou-se, e encarou-o, uma expressão serena e
firme ao mesmo tempo.
- Há dias que vejo você assim. Reflita, e se tiver
que tomar alguma atitude, tome. De um jeito ou de outro ...
Sorriu...
- ... desejo boa sorte para você, pequeno.
E foi-se embora.
Restou Shaoran Li, ainda sentado, a xícara vazia na mão,
o olhar neutro ... não olhava coisa alguma, e sim vasculhava os
próprios pensamentos em busca de uma resolução.
" O mais importante é ser feliz "
Como tomado por alguma convicção nova, levantou-se
e saiu dali apressado.
******
- Sakura !!
Tomoyo saltou apressada do carro, ao ver a amiga, que saía
de casa naquele exato momento para aguardá-la. Sakura sorriu, e
como já era de se esperar, foi abraçada entusiasticamente.
Antes reparou no belo vestido de Tomoyo ... realmente seria uma ocasião
especial.
Não poderia perturbar a companheira com bobagens.
- Como você está, amiga ?
- Bem ... - procurou imprimir algum entusiasmo na fala.
- Tomoyo! Vamos indo ou você vai se atrasar!
Uma das "mulheres de preto" chamava de dentro do carro.
- Vem, Sakura ...
Foi praticamente puxada pelo braço ... deu tempo ainda
de virar-se e acenar para seu pai, de pé na porta. Tomoyo percebeu-o
e fez o mesmo. Foram retribuídas com um aceno discreto e um sorriso,
como já era de se esperar. Fujitaka sempre sorria.
Logo estavam as duas dentro do carro, e Tomoyo pôs-se
a tagarelar. Sakura, que também tem muito de tagarela, acabou se
envolvendo e esqueceu um pouco dos problemas.
Sabia que todos os amores mereciam atenção.
******
A apresentação tinha sido maravilhosa.
Tomoyo, a quarta atração dentre as programadas,
cantara três músicas, sempre acompanhada pelo som divino de
um piano imperial. Para quem assistiu, ficou claro que o show foi o que
foi, meio pela voz maravilhosa de Tomoyo, meio pelas mãos habilidosas
de Friedrich Gulda, um pianista famoso especialmente convidado. Na terceira
música, somou-se a isso um violino, também habilmente manejado.
Os três foram aplaudidos de pé, e Tomoyo, num gesto
inesperado, desceu do palco e foi abraçar Sakura na primeira fila.
Choraram as duas, na emoção do momento, ao som dos aplausos,
e naqueles curtos instantes, Sakura esteve distante de seus pensamentos
ruins.
Porém foram só aqueles momentos ...
Logo ao voltar da casa de Tomoyo, aonde tinha ido após
o término do show, subiu diretamente para seu quarto e deitou-se.
Lá, de olhos bem abertos, fitando o teto inexpressivamente,
veio-lhe a imagem de Li ...
... por uma afinidade dessas da vida, voltaram à sua
cabeça as notas de "La Campanella", obra de piano que encerrara
as atrações, muito depois de Tomoyo cantar.
O clássico, reavivado por uma esplêndida execução
de Gulda, tinha uma característica ímpar ... cadenciava muitas
notas rápidas para formar uma melodia lenta ... propícia
aos vôos da imaginação ...
Desde então, ficara com aquela música
na cabeça, e alguns dias mais se passaram.
Falava muito com Tomoyo pelo telefone ... a amiga tinha percebido
o que se passava, e faria de tudo para ajudar. E só mesmo com ela
Sakura sentia confiança em se abrir. Quanto a Kero, simplesmente
não se metia.
Quem ouvisse o diálogo diria que Tomoyo é um anjo.
Sakura chorava, dava voltas e voltas, confundia-se e tornava a falar coisas
já ditas ... e Tomoyo sempre lá, com carinho e palavras boas.
Aquele rostinho branco e risonho, que tanto fazia-lhe parecer uma garotinha
boba, escondia uma alma dotada de um amor sem tamanho por sua "flor de
cerejeira", de quem cuidava abrindo mão de si mesma. E uma paciência
fincada firmemente - jamais se movia, sempre estava ali, gentil e solícita.
Tomoyo sem dúvida era um anjo ...
Porém, não seria ela a conseguir tirar Sakura
da depressão em que se encontrava, e sim um singelo pedaço
de papel ...
- Sakura!
Touya chamava ...
Nem teve tempo de levantar-se ... ele já estava na porta
do quarto.
- Carta para você.
Deixou o envelope sobre a estante, e foi embora, batendo a porta
com uma violência incomum.
Sakura, curiosa, pensou em várias possibilidades ...
estranhamente, não pensou na única correta, que só
lhe viria à cabeça quando viu de onde vinha a carta...
Vinha de Hong Kong ...
Continua...
SCC (ou CCS, como queiram) foi uma série que, contra todas as
expectativas iniciais, ganhou minha simpatia.
Pois bem, eis minha primeira fic de SCC. Não tem
nenhuma pretensão, sendo apenas um passatempo. Depois de escrever
"Descaminhos da vida" (pokemón - 21 partes), fiquei esgotado. Transformar
Pokemon em algo sério, dramático e pesado não é
coisa fácil. Pior , só se fosse com Digimon.
Daí resolvi escrever algo pra distrair minha cabeça.
Primeiro veio "Garoto demais" (pokemon - 1 parte só) , uma fic curtinha,
e moderadamente picante.
Aí cansei (por enquanto) de Pokemón, e resolvi
virar-me para outra série. Veio Sakura na cabeça, e está
aí o resultado. Futuramente, quando houver retomado o fôlego,
escreverei fics bem mais desgastantes (desgastantes para mim, espero),
mas em compensação de nível melhor.
Tenho alguns planejados, mas depois falo deles (obs -
não são de SCC. De SCC só escreverei mais se esse
aqui fizer muito sucesso).
Espero que gostem.
Seja um leitor responsável. Se leu, mande-me um
e-mail. Não há estímulo que resista a leitores invisíveis.
Todo d`Preto