Um pouco mais sobre os povoadores

 

Segundo Francisco de Paula Ferreira de Rezende, em "Minhas Recordações", a família Monteiro de Barros era possuidora de minas em Congonhas do Campo. Quando o ouro começou a escassear, o Comendador Manoel José Monteiro de Barros pediu e conseguiu do governo um grande número de sesmarias para si e para seus filhos, incluindo até uma filha que estava por nascer. E todas as terras desde o rio Pirapetinga pequeno, até o Pirapetinga grande, desde a fazenda do Socorro até a Pedra Bonita e a fazenda de Santa Rosa, nas imediações da atual freguesia de Santa Ana do Pirapetinga, tornaram-se terras dos Monteiros de Barros. Antes de mudar-se o Comendador mandou construir a fazenda da Providência, onde se localizava a estrada de ferro da Leopoldina, tarefa que ficou a cargo do Capitão Quirino Ribeiro de Avelar Rezende e João Ferreira da Silva, genros do comendador. E daí espalhou-se a colonização do lugar, principalmente com gente da própria Minas, vindos das proximidades da Serra do Espinhaço, desde Itabira e Congonhas do Campo até Rio Preto.

Entretanto, em nossas pesquisas não encontramos concessão de sesmarias que abonassem estas informações. Conforme se poderá ver em Efemérides, outros foram os primeiros sesmeiros do lugar.

A mulher de Manuel Antônio de Almeida morreu quase centenária. Ele sobreviveu-lhe e morreu maior de cem anos. Em 1861 Manuel Antônio ainda estava forte e nas festas de São João ainda trepava pelo mastro (pau de sebo) com quase a mesma facilidade que seus netos. Na véspera de morrer ainda andava à cavalo sem nenhuma companhia, falando sozinho, planejando casamento ou queixando-se das moças que pretendiam casar-se com ele. Manuel Antônio "morreu porque quis; pois tendo nas pernas umas feridas já bastante antigas, de repente embirrou em querer curá-las; e quando elas de todo se finaram ele também morreu".

Também estas informações não correspondem ao que encontramos em documentos. A esposa de Manuel Antônio morreu antes dos 80 anos e ele próprio morreu aos 90 anos. Estamos preparando uma biobrafia atualizada sobre a vida deste povoador de Leopoldina.

O Capitão João Gualberto Ferreira Brito, genro de Manuel Antônio, tornou-se o membro mais importante da família dos Almeidas, dos Britos e dos Netos. Ninguém podia vender nada sem a sua autorização. Quando se falava apenas Capitão, todos sabiam referir-se a ele. Pouco antes de morrer foi condecorado com o oficialato da Rosa por decreto imperial. Mas na verdade ele nunca foi capitão, pois na Guarda Nacional nunca passou de um simples soldado raso. Ele tornou-se capitão por decisão do povo. Na revolução arrebentada em Barbacena em 1842, os municípios do Pomba e do Presídio logo aderiram e espalhou-se que os rebeldes destes dois lugares iriam invadir o Feijão Cru, onde ainda não havia Guarda Nacional. Os habitantes do Feijão Cru então se armaram e se reuniram. E precisavam de um comandante. Numa discussão sobre a necessidade de terem o tal comandante, um dos presentes sugeriu o nome do compadre João Gualberto, sugestão que foi aprovada por todos. "E desde aquele dia o capitão João Gualberto ficou sendo não só um capitão, mas ainda um capitão como nenhum outro; porque, no império do Brasil, não havia nem um poder, nem mesmo o do imperador, que fosse capaz de demití-lo".

India puri, por Rugendas                                                    Indio puri, por Rugendas

Os índios puris habitavam toda a região da Mata. Eram pacíficos e muito atrasados. Viviam em completa nudez, não conheciam a rede e portanto dormiam no chão, em buracos cavados na terra que, com o uso, pareciam envernizados. "...tudo quanto os índios que aqui habitavam, de melhor chegaram a realizar, se reduzia a alguns pequeninos ranchos de beirada ao chão; e que não passavam de duas simples forquilhas afincadas no chão, sobre as quais se atravessa um pau em forma de cumeeira e sobre a tal cumeeira depois de encostam alguns outros paus fazendo as vezes de caibros, e sendo afinal cobertos com qualquer coisa sobre a qual a água possa correr, vem por este modo a ficarem servindo ao mesmo tempo de teto e parede". Geralmente a cobertura era de folhas de palmito.

Eram pescadores, com uma linha sem anzol, na ponta da qual se amarravam minhocas. Em águas mais fundas usavam redes feitas com o fio do tucum ou com a embira da embaúba branca. Também pescavam com timbó ou com balaios de boca larga que possuíam uma armadilha para fechar a tampa quando o peixe entrasse. Nadavam muito bem, construíam jangadas e eram capazes de, montados em um pau, atravessarem qualquer rio, exceto os lugares de cachoeira.

Pouco plantavam: favas de mangalê, caratinga, batatas doces, bananas da terra e milho. Alimentavam-se de mel, frutas, raízes, principalmente a raiz do caratinga.

Eram grandes corredores e muito bons caçadores. Andavam sempre agachados. Contribuíram para acabar com a caça na região.

Os índios puris só tinham como arma a flecha e o bodoque. Após o parto as mulheres iam se banhar na água fria e os maridos guardavam o resguardo. Alguns furavam orelhas, lábios e pintavam todo o corpo com uma tinta que diziam ser azul.

Aos poucos foram se misturando aos brancos, encarregados que eram de alguns serviços, pagos com cachaça. O principal serviço era derrubar a mata. Não há registro de brigas em cartório. Desapareceram aos poucos ou por emigrarem para o Espírito Santo ou por causa do sarampo, porque ao sentir a febre eles se atiravam na água fria e daí a epidemia ter feito tantas vítimas entre eles.

Os puris eram mansos e excelentes nadadores, o que os distancia das características dos Aimorés, que eram guerreiros e tinham horror a água.

Em 1861 já quase não se viam veados nem antas na região do Feijão Cru. As onças também eram raras. Encontravam-se, esporadicamente, jabutiricas, muitos porcos do mato (queixadas e catetes), pacas e caça de pena, cotias, jacús, raros inhambús e jaós, e mais raramente ainda macucos. E havia um grande número de puris na fazenda da Soledade que pertencia ao capitão Quirino e outra aldeia em Tebas, na estrada que ia para Rio Pardo. Um chefe dominava quarenta famílias. Esse chefe era o branco Camilo José Gomes, que viveu entre os puris no período entre 1810 e 1860.

A vida no Feijão Cru era extremamente difícil. O milho era a base da alimentação de homens e animais. E não havia plantação no lugar. Eles tinham que comprá-lo, caro, em São José do Paraopeba, Pomba ou Ubá, localidades muito pobres, onde até um juiz de paz costumava andar só de ceroulas. Para conseguir sal era ainda mais difícil. Dadas as dificuldades de conseguir o mínimo necessário, os primeiros habitantes se reuniram e abriram uma picada para alcançar a povoação do Angú, a partir da fazenda da Providência.

As primeiras atividades econômicas eram o plantio de mantimentos necessários ao consumo e algodão para que se fizessem as roupas.

Francisco Pinheiro, quando veio para o Feijão Cru, trouxe de Valença algumas sementes que deram origem ao plantio de café. Os demais habitantes demoraram um pouco para perder o nojo e plantá-lo. Posteriormente a plantação cresceu muito e era exportada através de São Fidélis, Magé ou pelo porto da Piedade, até que a estrada de ferro chegasse.

Fizemos questão de registrar o que encontramos em literatura sobre estes personagens. Estamos preparando nossos próprios textos, baseados em fontes documentais, que brevemente disponibilizaremos neste site. Neles se poderá ver, entre outras coisas, que o plantio de café em Leopoldina teve início ligeiramente diferente do que os clássicos registraram.

 

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