90 ANOS DA COLÔNIA CONSTANÇA - VII

COLÔNIA CONSTANÇA - criada em 12.04.1910

Neste mês em que se comemora, além do aniversário da cidade, os 90 ANOS DA CONSTANÇA, resolvemos fazer um resumo daquilo que escrevemos para a Gazeta, na série de artigos sobre a colônia.

Mas antes de entrarmos pela Colônia Constança, núcleo que acolheu o maior número de imigrantes na cidade, é preciso relembrar que a chegada dos primeiros imigrantes ao município de Leopoldina é bem anterior. Data do final do século XIX.

O Jornal O Leopoldinense, de 1881, já se referia a imigrantes espanhóis que o Dr. Domiciano Ferreira Monteiro de Castro fizera embarcar da Corte para a Fazenda do Socorro, de propriedade do seu irmão Tenente Vicente Ferreira Monteiro de Barros.

Há que se mencionar, ainda, Luigi Giuseppe Farinazzo e Giocanna Giacomelle, imigrados em 1886 com os filhos Giuseppe, Giovanni, Maria e Giacomo.

RAZÕES DA MIGRAÇÃO

É bom reler a história da época e entender as razões da vinda desses imigrantes. Lembrar que, antes da Lei Áurea, já havia um movimento em busca do trabalhador livre, conseqüência principalmente da libertação dos escravos maiores de 60 anos e da Lei do Ventre Livre. Os fazendeiros sentiam que o abolicionismo crescia e eles perdiam a mão de obra escrava, fundamental na colheita do café, a maior riqueza da região.

Os imigrantes eram a solução. E o governo começou a incentivar a imigração. 

Mas nem todos os imigrantes europeus se adaptavam ao regime de trabalho imposto pelos fazendeiros. Alguns conseguiam ser repatriados, outros iam e, tempos depois retornavam ao Brasil e outros, ainda, quando chegavam à Hospedaria que os acolhia no percurso de volta ao Porto, assinavam contrato com fazendeiro de outra região e desistiam da viagem de volta.

Porque imigrantes ITALIANOS ?  

Dois fatores principais contribuiram para a imigração italiana. O primeiro deles estava lá na Itália. Era a miséria que assolava algumas regiões rurais do norte do país, agravada pelas intempéries e pela chegada do capitalismo no meio rural, responsável pela concentração das terras nas mãos de grandes proprietários. A soma desses problemas acabaram por obrigar a migração, para outras regiões ou para a América.

O segundo fator estava do lado de cá do Atlântico. A necessidade, de colonizar o Brasil e, de substituir a mão de obra escrava. A soma dessas necessidades levou o governo brasileiro a incentivar e até financiar a vinda de colonos. E a propaganda, feita na Itália, de que aqui existia terra fértil e barata, foi a chave para o grande fluxo.

Assim, "fazer a América" (fare l’america), como se dizia, virou o sonho daqueles italianos. 

E para se ter uma idéia do vulto dessa migração, segundo Thomas Sowell, citado por Rosalina Pinto Moreira, historiadora da cidade de Astolfo Dutra, no seu livro "Imigrantes ....Reverência"(pág. 24), "doze milhões de italianos emigraram, principalmente para as Américas, no maior êxodo de um povo na história moderna".

E o espírito reinante na época bem se define na despedida deles da Itália:

" Nós, italianos trabalhadores, alegres partimos para o Brasil, e vós que ficais, ó donos da Itália, trabalhai empunhando a enxada, se quereis comer !" 

Uma longa história e muito cara aos imigrantes de Leopoldina.

A FORMAÇÃO DA COLÔNIA CONSTANÇA

São estes imigrantes, chegados a Leopoldina até vinte anos antes da fundação da Constança, que se constituíram na primeira população daquele núcleo agrícola. 

No início, poucos conseguiram comprar os lotes. A maioria formou a população de agregados, citados nos relatórios da Diretoria de Agricultura, Terras e Colonização.

Consta que a Constança vinha sendo planejada desde 1909 e foi constituída a partir das fazendas Constança, Boa Sorte, Onça (parte) e Puris (parte), adquiridas pelo Estado. Relatório da Diretoria da Agricultura, Terras e Colonização, de 1909, assinado por Guilherme Prates, informa que "Acha-se situada no districto da cidade de Leopoldina, a quatro kilômetros da estação da estrada de ferro. Fundada em terras das fazendas annexadas e denominadas Constança, Sobradinho, Boa Sorte, Onça e o sítio Puris, que o Estado adquiriu. Tem área de 17.437.500,00 metros quadrados, dividida em 60 lotes, com cerca de 25 hectares cada um e um logradoiro público."

Mas a criação da Colônia ocorreu mesmo em 12.04.1910, através do Decreto Estadual nº 2801.

Para a sua constituição o Governo adquiriu a fazenda Boa Sorte, por exemplo, com 122 alqueires, em 02.03.1909, conforme o Annuario Historico Chorographico de Minas Gerais daquele ano. Em julho de 1910 incorporou à Colônia as terras da Fazenda Modelo D. Antonia Augusta e, no ano seguinte, as das fazendas Palmeiras e Santo Antônio do Onça, esta última adquirida da Câmara Municipal, conforme a Gazeta de 30.06.1911. Segundo o relatório de 1911, a Fazenda Santo Antônio foi adquirida em 1910.

Inicialmente foram demarcados 60 lotes. No ano seguinte contavam-se 65 e, em 1911, o número aumentou para 68. Com a aquisição da fazenda Palmeiras a colônia passou a contar com 73 lotes. Destes lotes, ao final do exercício de 1912, apenas 64 estavam ocupados, sendo apenas um por título definitivo.

Esses lotes, devidamente cercados e com uma casa de morada coberta de telhas, foram vendidos, principalmente aos imigrantes, que ali passaram a cultivar toda sorte de produtos, a maioria deles para serem vendidos na cidade ou, na "venda de secos e molhados", do Sr. Augusto Timbiras, que ficava na entrada da Boa Sorte e que se transformou num verdadeiro entreposto comercial para uma vasta região.

As casas da Colônia tiveram como modelo (planta) as da Colônia Vargem Grande, uma colônia que já existia, nas proximidades de Belo Horizonte.

Sabemos que entre novembro e dezembro de 1909, com 15 lotes preparados, foram instaladas na Constança onze famílias de colonos, sendo 8 alemãs (38 pessoas), 1 austríaca (7), 1 portuguesa (3) e 1 brasileira (8 pessoas). Essa população era formada por 31 pessoas do sexo masculino e 25 do feminino.

A Gazeta de 17.04.1910 informa que no mesmo mês da criação da Colônia foram deferidos os pedidos de lotes dos colonos Friederich (Fritz) Zessin, August Kraucher (Krauger), Karl Thiers, Franz Havier, August Schill, João Gerhim, Hermann Richter, Bruno Trache, Hermann Kunse (Krause) e Erust (Ernest) Lang. Informa ainda que o lote nº 41 foi cedido a Augusto Mesquita, que João Carminatti pretendia os de números 58 e 59 e que o lote 64 havia sido adquirido por Manoel Gomes Pardal (Pradal).

Dos 16 colonos assentados no primeiro ano, 7 a abandonaram, tendo sido inscritos como devedores. Outros dois abandonaram a Colônia no ano seguinte.

Os dados censitários extraídos dos Relatórios Anuais da Presidência da Província de Minas Gerais, informam que a população da colônia era a seguinte:

Ano

1909

1910

1911

1912

1913

1914

1915

1916

1917

Habitantes

56

255

386

426

664

596

836

1048

1065

A colônia produzia café, arroz, feijão, mandioca, cana de açúcar, milho, amendoim e fumo. Seu rebanho era composto de 444 leitões, 80 bovinos, 59 cavalos, 79 cabritos, 2.703 galináceos e 51 patos. E de tudo que produziam, os colonos entregavam 20% ao governo, como forma de pagamento de suas dívidas. 

Como mostra da importância da colônia é de se citar o entreposto comercial que foi a Casa Timbiras, cujo prédio ainda hoje existe, embora com outra destinação; a construção da igreja de Santo Antonio, na Onça, que está completando 85 anos de idade; e o fato de, em 1911, Leopoldina ter contado com um Agente Consular Italiano, o Sr. Angelo Maciello, representante de S.M Rei da Itália. Mas a maior contribuição dela, está na influência dos descendentes das famílias italianas, que ainda hoje habitam a cidade, as olarias (fábrica de tijolos e telhas), a fábrica de vassouras e tamancos, moinhos de fubá, muita polenta, cubu, futebol e um pessoal trabalhador como poucos.

OS ADMINISTRADORES

A Colônia Constança era dirigida por representante do governo, responsável pela venda dos lotes, recebimento das prestações e organização da colônia. E consta que o primeiro deles foi o Sr. Fernando Sellani, familiar de Santo Sellani, que ocupou o lote 60, a partir de 11.06.1910 e que permaneceu no posto até outubro de 1909.

O governo nomeou, então, Guilherme Prates que, segundo a Gazeta de 27.05.1911, permaneceu no cargo até 16.05.1911, quando foi transferido para a Colônia Santa Maria, em Sobral Pinto/Astolfo Dutra.

Da Santa Maria, na mesma data, veio o diretor Félix Schmidt, que administrou a Constança por um curto período pois, em 30.06.1911 veio a falecer.

Assumiu o cargo, a partir daí, o Sr. Climério Duarte Godinho, que já exercia a função de auxiliar, desde julho de 1909 e que permaneceu até a total quitação dos financiamentos dos lotes e emancipação da colônia, ocorrida em 03 de março de 1920.

O Sr. Climério residiu na sede da Colônia, que funcionava na antiga fazenda Boa Sorte, hoje de propriedade de João Bonin, onde funcionava a escola pública que atendia às famílias dos colonos e que se transformou na atual E. M. Climene Godinho.

Outro nome que esteve ligado à administração da colônia é o de João Ventura Gonçalves Neto, que foi também juiz de paz em Leopoldina.

Famílias dos Colonos

Já reunimos dados sobre algumas famílias italianas. De outras, continuamos pesquisando e aguardando a ajuda daqueles que possuem documentos sobre elas. Aqui vamos falar, de forma resumida, sobre algumas delas.

O colono Jesus Salvador Lomba, a quem foi financiado o lote 4 da Colônia Constança, casou-se com uma descendente de italianos: Maria Madalena Lorenzetto.

No lote 7, vamos encontrar a família de Francesco Carrara e Santa Bordin. Foram pais do colono Vitorio Carrara casado com Elisabeth, de Emilio e Massimiliano.

A família Colli, que se instalou na Constança no dia 28.12.1910, no lote 12 e tem como os mais antigos, Francesco Colli e Perina Gallazo, pais de Angelo, Marcelina e Santa, entre outros, é natural de Veneto, na Itália e que chegou ao Brasil em 1910. Dela fazem parte, Santa Colli, que foi casada com o italiano Marino Bronzato. Sua irmã Marcelina Colli, que se casou com Jacinto Bonin e, Angelo Colli, casado com Anna Zangilorami (Sangirolami).

No lote 20, vamos encontrar o colono Luigi Marcatto, casado com Anna Ceoldo. Ela era filha de Camilo Ceoldo e Maria Baldan, irmã de Domenico, Luiza, Antonio, Filomeno, Michele, Rodolfo, Teresa e Regina. Seu irmão Rodolfo Domenico casou-se com Teresa Righetto, e Teresa casou-se com Virginio Meneghetti.

O lote 23 foi ocupado por Fortunato Bonini. Casado com Maria Darglia, foram pais de João Bonini já referido acima e casado com Maria Carolina Fofano, e Antonio Bonini casado com Isaura Pereira das Dores.

Luigi Meneghetti foi o colono do lote 25, financiado a 14.06.1910. Casado com Maria Verona, foram pais de Felice, Oliva, Domenica, Giuseppe, Agostino e Madalena. Oliva casou-se com Paschoal Domenico Fofano, pais de Maria Carolina Fofano casada com João Bonini. Agostino casou-se com Camila Estevam, pais de Isolina Meneghetti casada com Euclides Togni.

Família numerosa, também, foi a de Antonio Gottardo, que nasceu na Itália em 1842 e chegou ao Brasil em 1888, acompanhado de sete filhos. Consta que sua mulher, Thereza Guerra, morrera em Vigonza, no Veneto. Em 1894, Antonio decidiu retornar à Itália. Os seus dois filhos menores provavelmente haviam falecido. Sua filha Regina havia se casado com Achilles Meneghethi e deste casamento nascera a neta Angelina. Antonio, com as duas filhas (Regina e Maria), o genro e a neta, empreendeu o caminho até o Porto de Santos (SP). Antes do embarque porém, morreu Achilles. Em março de 1896 a família desembarcava novamente no Brasil e no dia 17.03.1896 deixava a Hospedaria Horta Barbosa, em Juiz de Fora, com destino à propriedade de Brando & Irmão, em Ubá. Durante este período em que esteve na Itália, os outros filhos de Antônio Gottardo permaneceram em Leopoldina, trabalhando em diversas fazendas. Em 1897, Antônio finalmente retornou a Leopoldina com as duas filhas e a neta.

Tudo indica que Antonio Gottardo não chegou a fixar residência na colônia Constança mas, seu filho Giovanni Battista Gottardo, que se casou com Constança Meneghetti, com certeza foi colono. Giovanni instalou-se com a família na colônia, nas proximidades do campo de futebol do Boa Sorte, lote nº 26. Seu neto, Fortunato (Natinho) Gottardo, filho do Giovanni, casou-se com Avelina Sangalli (Zangali), filha de Agnelo (Angelo) Giulio Sangalli e Maria Carolina Sangirolami (Zangirolami). Avelina era neta, pelo lado paterno, de Giuseppe Sangalli e Rosa Vigaró, que chegaram ao Brasil em 1894 e foram contratados pela Câmara Municipal de Leopoldina.

Outro grupo que chegou à colônia nesse ano, foi o da família Fofano. Dela fazem parte, Carlo Batista Fofano, filho de Francesco Fofano e Luiza Carrara, casado com Adele Maria Estevam, filha de Vicenzo Estevam e Maria Bedin. O casal Carlo e Adele declarou ter vindo da Itália na companhia dos pais. Este casal ocupou o lote 27 da Colônia Constança e dele descende José Fofano, casado com Regina Meneghetti. Também dessa família era o colono foi Paschoal Domenico Fofano, que ocupou o lote 8. Paschoal casou-se, em Leopoldina, com Olivia Meneghetti, filha de Luigi Meneghetti e Maria Verona e declarou ter chegado ao Brasil em 1887.

Uma das grandes famílias de italianos que vieram para Leopoldina foi, com certeza, a família Estevam. E na colônia vamos encontrá-los na pessoa de Eugenio Estevam, ocupante do lote 34. Casado com Carolina Bolsoni, Eugenio era filho de Vicenzo Estevam e Maria Bedin, e irmão de Adele Maria Estevam, casada com o colono Carlo Batista Fofano a que nos referimos acima.

Outra família de imigrantes italianos, ligados à Constança, foi a de Giovanni Casadio e Luiza Martinelli. Imigrados em 1898, foram pais do colono Giuseppe Casadio, nascido em Ravenna, e a quem foi financiado o lote 35.

Mais uma grande família na Constança: os Lupatini. A Giovanni Lupatini foi financiado o lote 39, ao qual futuramente outros lotes seriam incorporados, através de novas aquisições por parte desta família. Casado com Maria Zanetti, o casal originário de Castrezzato, na Lombardia, chegou ao Brasil em 1895 e foi contratado por José Ribeiro Junqueira para trabalhar em sua fazenda de Santa Isabel (hoje Abaíba). Junto vieram as filhas Santina, Giulia e Emma, as três casadas com italianos de sobrenome Moroni. Respectivamente Rafaele, Abraão e Abilio. Já em Leopoldina, Giovanni e Maria tiveram mais dois filhos: Giuseppe Pietro e Vicenzo Pietro. De Vicenzo, casado com Maria dos Anjos Campos, não temos maiores informações. Já o filho Giusepe Pietro é o nome representativo dos Lupatini na Constança. Casado com Maria Laecticia Campagna, filha de Giovanni Campagna e Pascoa Machina, foram pais de Maria Assunta casada com Vitorino Esteves, João Batista casado com Alice Pereira, José Pedro, Olivia Lupatini casada com Mauro Fois, Elvira casada com Geraldo Cosine, Yolanda casada com Delson Pereira Furtado, Antonio, Edson casado com Maria das Dores Couto, Oswaldo casado com Selma Aparecida Montes e Celia casada com Boanerges Nogueira.

Mas não podemos deixar de mencionar outros Lupatini que vieram para Leopoldina. Do mesmo vapor Barmida, procedente de Genova, desembarcaram no porto do Rio de Janeiro em 1895: Antonio Lupatini, sua esposa Antonia e os filhos Pietro e Giuseppe, e foram contratados pelo mesmo fazendeiro de Santa Isabel. Para lá também foi contratada, na mesma data, a família chefiada pela senhora Alba Lupatini, viajante do mesmo navio, acompanhada de suas filhas Maria e Orsola, da nora Giuseppina Rossi e de seu neto Angelo.

Da família Anzolim, tão conhecida na colônia, tivemos dois colonos: Basilio Anzolim e Giovanni Anzolim. Ocupante do lote 57, Basilio foi pai de José Anzolim e avô de Sebastião Anzolim. Giovanni ocupou o lote 55.

Angelo Pedroni foi o ocupante do lote 59, a partir de 14.06.1910. Casado com Giuseppina (Giusepa) Rizochi, foram pais de Giovanni Pedroni que se casou com Angelina Carrara, filha de Angelo Carrara e Giovana Cassiliera.

No lote 63 temos Manoel Gomes Pradal que, conforme dissemos, pode ser familiar de Giovanni Batista Pradal, casado com Ursula Dalsin e pais de Augusta Pradal, casada com Arturo Togni.

josé luiz m. rodrigues

nilza cantoni

VOLTA

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