CAPÍTULO 5
–
Zac! Zac, acorda!
O
Walker gritava no ouvido do filho, chacoalhando um monte. E nada do Zac dar um
sinal de vida. Ele até resmungava umas coisas, dava umas viradas, mas era só.
O Isaac e o Taylor estavam do lado, chamando pelo nome do irmão também.
–
Mas por que o Zac não levanta, meu Deus? – o Walker falou sozinho. – Vocês
por acaso foram dormir tarde ontem? – já bravo.
–
Não, pai, claro que não – o Isaac respondeu, cinicamente.
–
Ele deve estar cansado, pai, é isso – o Taylor complementou.
–
É, deve ser isso... mas ele não pode dormir até tão tarde. Já são nove da
manhã e nós precisamos tomar café. – O Walker pensou um minuto. –Taylor,
pega lá um copo d'água e traz aqui.
–
Você vai jogar água no Zac?
–
Vou, Tay. Não sei mais o que fazer para esse menino acordar.
O
Taylor obedeceu e voltou com um copo d'água fria. O Walker virou o copo todo de
uma vez. Logo que a água entrou em contato com a pele e escorreu para o pescoço,
o Zac deu um pulo da cama e acordou assustado, de boca aberta, respirando
acelerado.
–
Finalmente, filho – o Walker sorriu, aliviado.
–
Por que eu tô molhado? – o Zac ficou perguntando, meio dormindo ainda.
–
Nós tivemos de jogar água em você pra você acordar. Você não levantava de
jeito nenhum – o Tay explicou.
–
Putz, que sono escroto, meu... – o Zac disse, esfregando os olhos.
–
Filho, se troque e desça tomar café, ok? Estamos esperando você lá no
restaurante do hotel – o Walker falou, dando um beijo na testa de Zac antes de
deixar o lugar. O Isaac saiu com o pai.
–
Tá, Zac, fala a verdade. Que horas você foi dormir ontem? – o Taylor
perguntou, diretamente.
–
Ontem? Bom se tivesse sido ontem. Eu estava deitando e o sol estava nascendo.
–
Você tá falando sério? – o Taylor arregalou os olhos.
–
Não, é que toda Quinta-feira sem falta eu acordo morto, cheio de olheiras, com
a vista podre e o corpo cansado, mesmo indo dormir cedo, tipo uma doença que eu
tenho – o Zac ironizou. – Claro que é sério. Olha a cara que eu tô,
Taylor.
–
Tá, desculpe... – o Taylor disse. – Você e a Fãr ficaram conversando até
esse horário?
–
Não, a gente ficou tentando descobrir a finalidade do apêndice.
–
Zac, quando você acorda de mau humor, você acorda de mau humor. Porra!
–
E quando você tira o dia pra fazer pergunta cretina, você...
–
Tá, tá, já entendi.
Silêncio.
–
Vai tomar um banho. 'Cê tá com uma cara terrível – o Taylor aconselhou
antes de sair do quarto.
O
Zac odiava quando ele dormia pouco. Ele estava fadado, agora, a ficar com uma
olheira horrível e um mau humor insuportável o dia todo também. Ele passou a
mão pelo rosto e respirou fundo. Como sempre acontece com todas as pessoas que
acordam, antes de levantar, o Zac ficou olhando para um ponto fixo, sem piscar.
E lembrou do beijo que ele deu na Fernanda.
–
Mmm... aquilo foi muito bom – ele falou sozinho.
Não,
ele não estava gostando dela, mas não podia negar que tinha curtido muito o
beijo da Fer.
–
Eu acho que eu preciso beijar a Fãr de novo – ele concluiu, para só então
levantar e correr para baixo do chuveiro.
A
Priscila já estava nos estúdios com o pai desde de manhã cedo. Não tinha ido
para o colégio mais uma vez por pura manha, o que aliás, a sua mãe era ótima
para obedecer, a cada uma delas.
–
Pai, a que horas ficou marcado de eles estarem aqui no estúdio?
–
Às 2. Calma, filha, daqui à pouco eles estão aqui.
–
Quê?! 'Cê acha que eu tô perguntando porque eu estou louca para ver o Zac?
Imagine, claro que não. Eu só acho um absurdo atrasarem tanto assim.
–
Filha, é uma e meia.
–
Eu sei disso – ela mentiu, um pouco perdida.
A
Priscila estava aflita, na verdade, porque o Zac não havia ligado para ela
ainda, o que era de se estranhar bastante. Porém, bastou ela pensar nisso mais
uma vez para o celular tocar.
–
Alo? – a Pri atendeu afobada.
–
Hey, babe.
–
Zac! – Ela não conseguiu esconder a alegria.
–
Desculpe não ter ligado antes, mas é que eu só fui acordar de verdade, de
verdade, agora.
–
Ah, foi dormir tarde ontem, é?
–
É, mais ou menos...
–
Ficou pensando em mim até que horas, hein Senhor Zachary? – ela brincou.
O
Zac só então percebeu que, desde o momento que deixara a Priscila em casa
noite passada, não voltara a pensar nela por um segundo que fosse. Estava muito
ocupado conversando com a Fernanda e sentiu-se muito mal por isso.
–
Claro. Por que motivo você achou que fosse? – ele mentiu.
–
Oh, babe... I love you.
–
Eu também.
–
Você vai demorar muito para vir pra cá?
–
Nah... daqui a pouco a gente chega aí. Beleza?
O
Zac disse "beleza" como quem queria terminar a conversa por ali. Isso
irritou a Priscila profundamente.
–
Zac, 'cê tá querendo me cortar ou é só impressão minha?
–
Na verdade, eu tenho que ir agora, Pri...
–
Ah é? E pra isso precisa ser tão grosso?
–
Grosso? Mas eu só disse beleza!
–
Mas você quis dizer um monte de coisas com isso!
–
Olha, Priscila, hoje eu tô num mau humor fudido e não tô a fim de discutir
com você! 'Cê quer brigar, liga pro Disk Mortal Kombat e mete o pau por lá!
Mas no meu ouvido não, ok?!
A
Priscila não sabia nem o que dizer. Desligou o telefone na cara do Zac aos
prantos.
–
Alo? Pri, desculpe, eu...
TU...TU...TU...TU...
–
Merda! – ele jogou o celular na cama, nervoso.
O
Hanson estava chegando no estúdio quando eram duas horas da tarde em ponto.
Hoje seria um programa infantil cujo seria gravado para passar apenas no Sábado
à tarde. O local estava, como sempre, lotado de fãs. O Zac estava muito
nervoso. Parecia que até a pressão atmosférica pressionava contra ele. Ele
sentia o corpo cansado, a vista doía e seus olhos não paravam de pescar. Além
da forte maquiagem que foi necessária para disfarçar bem as olheiras.
Entrando
no camarim, o Zac já conseguiu avistar a Priscila sentada, segurando as pernas,
de cabeça baixa. Respirou fundo e dirigiu-se até ela.
–
Oi... – ele disse, em pé frente à ela.
A
Priscila levantou o rosto cheio de lágrimas, mas voltou a olhar para o chão.
–
Pri, desculpe... eu não queria ter gritado com você no telefone. É que eu
dormi muito pouco, o meu pai me acordou com um copo d'água na cara, eu tô
morrendo de sono e tô muito mau humorado. Por favor, me desculpe, babe. Eu não quis...
A
Priscila então levanta o rosto, fazendo-o parar de falar. Ela não chorava
mais, mantinha sua expressão neutra. O Zac ajoelhou-se porque sentiu que ela
estava dando este espaço para ele.
–
Pri, eu amo você mais do que tudo nesse mundo. Eu odeio brigar com você, você
sabe disso. Eu juro que não queria gritar com você hoje no telefone...
Ela
não dizia nada.
–
Pri, please...
–
Tudo bem, Zac. Eu fiquei triste no começo, mas... – ela levantou. – ...tô
melhor agora.
O
Zac só suspirou e foi atrás dela. Para a Priscila ficar normal com ele de novo
foi uma sentença. Ele teve de repetir umas 7000 vezes o quanto ele a amava, o
quanto ele estava triste e arrependido por ter gritado com ela, como ele
precisava dela para viver... Resumindo, o Zac se humilhou um monte de novo e a
Priscila ainda saiu de vítima na história. A Fernanda logo chegaria ao estúdio
a convite do Isaac, que não agüentava de vontade de vê-la. E não deu 15
minutos, a Fer apareceu lá no camarim, usando aqueles crachás enormes de papel
que identificavam quem tinha acesso aos bastidores.
– Olá, meninos – a Fer entrou falando.
Não
deu nem dois segundos, a Priscila apareceu com o Zac. Ele entrou em pânico
porque achava que ia dar mais porrada. Mas sabe que não? A Pri cumprimentou a
Fernanda na boa, bem educada, normal mesmo. Todo mundo estranhou, mas achou
melhor daquele jeito. Chegava de brigas por aquela uma hora. É que a Pri estava
achando que a Fernanda e o Isaac estavam juntos, por isso não encrencou. O Zac
cumprimentou a Fer também, e ninguém falou mais nada sobre ele e a Pri estarem
brigados há alguns minutos atrás. Aí o clima ficou meio chato. Às vezes, ser
educado pode ser mais difícil do que ser qualquer outra coisa. Como as duas ali
não eram mais amigas, não era de tudo que podiam conversar. Precisava-se
iniciar um assunto básico, geral, sem direcionar a ninguém. E claro, de
maneira muito polite.
–
Mas e aí? O que vocês fizeram ontem à noite de bom? – a Priscila perguntou.
Putz...
ela não podia ter perguntado isso. Tudo, menos isso. Cada ser humano presente
naquela sala sabia que ninguém podia dizer a verdade. Mas o Zac não queria
mentir. Mentir era feio e sempre acabava mal no final.
–
A Fãr foi lá hotel e ficou lá um tempo –
o Zac disse.
–
Aaaah... bem que você me contou dela e do Ike, Zac – a Priscila sorriu para
ele com um ar de vitoriosa.
–
Pois é.
A
Fernanda não entendeu muito aquilo de "você me contou dela com o
Ike" e iria procurar saber num futuro próximo. O Isaac abriu um sorrisão
e disse:
–
Eu e a Fãr estamos quase casando já, né Fãr?
–
Ahm... – ela não sabia o que dizer.
O
Zac olhou para a Fernanda e abaixou a cabeça devagarinho e bem discretamente
pedindo que ela confirmasse. Ela espremeu os olhos, entendendo então do que
aquilo se tratava. Era uma mentira coletiva.
–
Claro – a Fer finalmente falou.
Então
chegou a hora do Hanson entrar no ar. O cenário, que tinha atrasado um monte,
finalmente estava pronto. O Walker já tinha reclamado da demora, mas não
adiantava porque se estava atrasado, estava atrasado e não tinha muito o que
ele pudesse fazer a respeito.
Eles
ficaram lá praticamente a tarde toda. Estava tão chato assistindo àquela
gravação que a Priscila até puxou uns papos com a Fernanda. Claro que ela
conversou, respondeu às perguntas que a Priscila fazia do modo que ela
responderia alguém que não conhecesse. Tudo pronto, o Hanson podia ir embora.
A Fernanda iria voltar para casa, apesar do Isaac ter insistido para ela ficar,
e o Zac sairia com a Pri. Talvez ele fosse para a casa dela, ficar por lá um
pouco, mas não sabiam de nada porque tudo dependia do Walker. O Taylor e o
Isaac também iam tratar de fazer alguma coisa já que lá fora começava a
anoitecer ainda, era muito cedo.
Quando
a Fer chegou em casa, a mãe dela quase morreu de tanta alegria.
"Finalmente vai passar uma fim de tarde com a sua mãe", a Mariliz
disse brincando, mas com todo aquele fundo de verdade.
...
Às 7:36 da noite exatamente o Zac deixava a casa da Priscila. O Eddie o
esperava com a van na frente da casa dela quando ele saiu pela porta, chateado
de novo, com as mãos nos bolsos.
–
Poor kid... – o Eddie falou sozinho.
Ele
sabia porque o Zac estava daquele jeito. Até o Eddie sabia das histórias dele
com a Priscila. E sentia muito pelo garoto porque o segurança considerava
demais os três, pois trabalhava com o Hanson fazia algum tempo já. Dos
guarda-costas da banda, ele era o mais antigo, estava há três anos com eles, e
o mais querido pela família toda.
–
Hey, Zac – Eddie cumprimentou-o sem
muita emoção, percebendo a tristeza do menino. – Are you ok, kid?
–
Mais ou menos... – o Zac falou olhando para baixo. – Tá muito tarde já,
Eddie?
–
Não. São 7:40. É cedo.
–
Então me deixa na casa da Fãr, por favor?
–
There you go, kid.
O Eddie gostava da
Fernanda. Não tinha conversado com ela muitas vezes, mas sabia do bem que ela
fazia para o Zac, principalmente quando ele não estava nos melhores dias da
vida dele. Quando o Eddie parou na frente do prédio da Fer, viu umas meninas
suspeitas por ali que podiam muito bem serem fãs de Hanson.
–
Zac, você fica aqui que eu vou descer interfonar para a Fernanda e só então
você sai.
O
Zac balançou a cabeça, concordando. O Eddie saiu do carro e entrou na
portaria. Ele só escreveu num papel o número do apartamento para o porteiro
ligar e este deu o interfone para que Eddie falasse. A Mariliz atendeu:
–
Pois não?.
–
May I talk to Fãrnanda?
A
Mariliz demorou um pouco para associar que a pessoa na linha falava em inglês.
–
Ai... eu não falo inglês – a Mariliz falou baixinho. Tinha entendido o que o
homem havia dito, mas não sabia como responder.
–
Is she there? – ele perguntou.
–
Yes – ela gaguejou um pouquinho. – Please... ahm...
O
Eddie devolveu o telefone para o porteiro. Ele conversou com a Mariliz pelo
Eddie e, depois de muitas mímicas, o porteiro informou que quem quer que fosse
que queria falar com a Fernanda podia subir.
–
O Zac tá aí? – a Fernanda não acreditava. – Mas tá cedo ainda. Ele ia
sair com a Priscila...
–
Bom, ele tá aí – a Mariliz disse. – Eu vou lá para o meu quarto terminar
o meu ponto cruz. Você fica a vontade com ele aí, tá? Mas não tãããão a
vontade.
A
Fernanda riu e sua mãe foi para o quarto. Alguns segundos depois, a campainha
tocou. Ela foi toda feliz atender, com aquele sorrisão alegre na cara. Mas
quando abriu a porta, o sorriso murchou porque o Zac estava chorando. O
semblante dele era de profunda depressão. As lágrimas caíam sem parar, mas
ele estava sério, magoado, com uma expressão que entristecia qualquer um que
realmente se importasse com ele. A Fer ficou parada olhando para o amigo,
tentando descobrir o motivo por tantas lágrimas estarem caindo. E não precisou
pensar muito para chegar à razão daquilo tudo: a Priscila.
–
Entra, vem.
A
Fernanda fechou a porta e ficou olhando para o Zac parado no meio da sala dela,
usando um moletom preto bem largo, com as mãos nos bolsos, esperando que ele
dissesse alguma coisa.
–
Desculpe aparecer assim, sem avisar, Fãr, mas é que eu precisava muito falar
com você. Eu não queria ter de fumar para me acalmar.
A
voz dele estava rouca de tanto que o Zac fazia força para segurar o choro.
–
Tudo bem, você pode aparecer quando você quiser – ela disse baixinho, ainda
espantada.
–
Você deve estar ocupada, né? Eu acho que eu não deveria ter vindo... – o
Zac falou.
–
Não, você deveria ter vindo sim.
O
Zac estava fazendo tanta força para segurar o choro, que algumas das palavras
saíam falhas quando ele falava. A garganta dele doía por causa do choro
entalado. Só que aí ele não agüentou mais segurar tanto e soltou tudo o que
ele estava guardando, toda a raiva, a mágoa, a tristeza, a revolta, a ira,
tudo. E começou a chorar que nem uma criança, bem ali na frente da Fernanda.
–
Zac – ela disse, desesperada, sem saber o quê fazer.
O
Zac correu abraçar a Fer e segurou ela muito forte. Ela abraçou ele pelo pescoço
e deslizava as mãos pelo cabelo dele, sentindo aquela tristeza dentro dela
tomar conta por ver o amigo naquele estado. Ele soluçava no ombro dela, chorava
alto e apertava a Fernanda cada vez mais contra ele, como se temesse que ela
fosse embora e o deixasse sozinho. Precisava sentir que tinha alguém ali,
consolando-o e entendendo o quê ele estava sentindo. Ninguém melhor do que a
Fernanda para isso.
–
Fãr... me ajuda... tá doendo demais – ele sussurrou gaguejando de tanto
chorar.
–
Calma, Zac... – a Fer falou, sentindo-se mais amiga do Zac do que nunca.
Ele
ficou mais um tempo ali, chorando no ombro da Fer angustiado, deixando sair toda
a mágoa dele e as lágrimas todas que ele havia segurado nesse tempo todo de
brigas com a Priscila. A Mariliz uma hora saiu do quarto e ficou parada olhando
a cena na porta do corredor, assustada. A Fer fez sinal para ela sair e a
Mariliz voltou para o quarto correndo, antes que o Zac a visse ali e se sentisse
desconfortável.
A
medida que ele foi se acalmando, foi soltando-se da amiga e afastou-se dela, com
o olhar baixo e os cabelos todos desarrumados.
–
Tá melhor?
Ele
fez que sim com a cabeça.
–
O seu ombro tá todo molhado e cheio de ranho – ele disse, querendo
descontrair um pouco.
–
Ah, coisa básica... – ela riu.
Os
dois sentaram no sofá. A Fer perguntou o que tinha acontecido e ele começou a
falar, falar, falar muito. Desabafou sobre um monte de coisas, não só da
Priscila. Às vezes ele ameaçava chorar de novo e a Fernanda segurava forte a mão
dele. O Zac chorava, mas sentia-se mais seguro. Era bom contar os problemas para
uma pessoa que ele tinha certeza que estava realmente ouvindo. Ele falou da
Priscila, das brigas que a Fernanda não sabia que tinham acontecido, se
desculpou por ter mentido que ela estava ficando com o Isaac, falou do pai dele,
da relação ruim que ele tinha com o Isaac, do quanto ele tinha medo de ficar
sozinho, de como ele odiava ser famoso, de quanto ele queria ser livre, da
preferência que o Walker tinha pelo filho mais velho, o Isaac... Mas o assunto
principal era a Priscila:
–
A gente nunca se vê. E quando se vê, ela parece que só quer brigar. Eu não
sei porque ela faz isso. É impressionante como a Pri nunca acredita em mim.
Nunca! Ela sempre duvida que eu gosto dela, sempre faz o maior drama... É uma
merda – o Zac falava.
A
Fernanda ouvia tudo com a maior atenção. De vez em quando, ele ficava quieto e
dava um espaço para ela opinar. Só que a Fer não sabia se dizia o que
realmente pensava ou o que ele queria ouvir. Mas o Zac estava triste demais e
ela sabia que aquele não era o melhor momento para falar umas verdades.
–
Zac, a Priscila é apaixonada por você. Ela te ama. Só que ela tem um jeitinho
um pouco mais complexo de demonstrar isso pra você. O problema é que ela não
dá valor a esse sentimento que você tem por ela, que é tão grande, e acaba
te destratando. Mas ela não faz por mal, é só o jeito dela. Ela andava
brigando mais com você por minha causa mesmo. Quando a gente era amiga...
Aí
a Fernanda contou tudo para o Zac que a Priscila falava para ela no tempo em que
eram melhores amigas. Ele até que se animou um pouquinho, mas a tristeza das
constantes brigas que eles vinham tendo ainda chateava o Zac.
A
Fer ia falando, falando... Ele gostava do jeito cuidadoso com que ela falava.
Dava uma segurança nele e uma vontade de não se preocupar mais tanto assim
porque as coisas iam se ajeitar aos poucos.
Uma
hora, a Fernanda estava comentando sobre o problema de relacionamento do Zac com
o Walker, comparando com a vida dela, porque ela passou pelo mesmo quadro com a
separação dos pais. O Zac estava sentindo-se muito amigo dela naquele
instante, como um daqueles momentos em que a amizade fica aflorada e a gente
precisa fazer alguma coisa para demonstrar que adora aquele nosso amigo. Então
ele deitou no colo dela e ficou quietinho, ouvindo ela falar. A Fernanda não
esperava por aquilo, mas continuou falando, explicando, contando de como estava
tudo bem agora entre ela e pai dela e que ia ficar tudo bem para o Zac também.
Depois ela ficou em silêncio um pouco para ele poder pensar em tudo o quê eles
tinham conversado naquelas já passadas duas horas. Nisso, a Fer também ficou
refletindo e se surpreendeu ao perceber o quanto o Zac era sensível e do quanto
ele precisava de atenção. Apesar de o Zac ser bastante nervoso e se estressar
muito fácil, sempre com aquela imagem de machão, ele era muito frágil. Ainda
mais por ele gostar tanto da Priscila, que fazia tanto mal para ele, estava
ainda mais sensível do que o normal.
–
Eu acho que a gente vai ficar mais uns dias aqui no Brasil – o Zac falou
baixinho, ainda deitado nas pernas dela.
–
Jura? Que bom – a Fernanda falou.
–
Eu não queria mesmo ir. Tá legal aqui no seu país.
–
Bem que 'cês podiam morar aqui, né?
–
É... – ele sorriu.
O
Zac levantou do colo dela com o rosto todo inchado de chorar e os cabelos
completamente fora de uma linha de coerência.
–
Zac, você está, assim, irresistível.
–
Até mesmo eu estando neste estado você não deixa de sentir atração por mim.
–
Claro, Sr. Modéstia... – ela riu. – Tá a fim de comer alguma coisa?
–
Nham – com uma cara de bobo.
–
Aceito isso como um sim.
Eles
foram para a cozinha.
–
Vamos ver o que a gente vai comer... – a Fernanda falou, olhando para dentro
da geladeira.
–
Fãr, será que eu podia dormir aqui hoje, se o meu pai deixar?
–
Claro, 'magina – sorrindo.
Ele
sorriu também, aliviado. A Fernanda continuou olhando as coisas dentro da
geladeira. O Zac levantou e ficou atrás dela. Queria ver o que tinha lá
dentro, por curiosidade.
–
Gosta de macarrão? – ela disse virando para trás. – Ou 'cê quer leite, pão,
essas coisas?
–
Sei lá... macarrão is ok.
A
Mariliz apareceu por lá mais tarde para ver como estavam as coisas. Foi bom ela
ter aparecido porque, além de ter ajudado a Fernanda com alguns detalhes do
macarrão, ela fez uma espécie de compressa para colocar nos olhos do Zac, que
estavam muito inchados. Enrolou uns cubos de gelo num pano de prato e depositava
alternadamente rente aos olhos dele. Ardia um pouquinho porque a região estava
muito sensível, mas nada que o macho do Zac não pudesse suportar. Ele estava
feliz ali, sentia-se bem tratado, seguro e não mais triste.
–
Obregado – o Zac agradeceu em
português a Mariliz pela compressa.
A
Mariliz achou graça e sorriu para ele.
–
You're welcome – ela disse umas das
poucas coisas que ela sabia em inglês.
–
Mãe, acho que o macarrão já está pronto – a Fernanda falou, olhando para
dentro da panela.
Depois
que o prato já estava quase pronto, a Mariliz voltou para o quarto para deixá-los
mais a vontade.
Terminaram
de comer, a Fernanda começou a guardar as coisas na geladeira. O Zac ajudou
colocando as louças sujas na pia para a amiga. O macarrão estava básico, mas
bem gostoso. Eles riram toda o jantar e foi muito legal. Era bom ver o Zac mais
alegre, fazendo piadas... enfim, no seu estado normal.
–
Zac, traz ali pra mim a travessa do macarrão, por favor? – a Fer pediu,
segurando a porta da geladeira.
O
Zac obedeceu. Ela guardou e fechou a porta, terminando assim de tirar a mesa.
–
Fãr – ele começou como quem queria dizer alguma coisa.
–
Hum?
–
Éééé... eu queria dizer obrigado pelo o que você fez hoje por mim.
–
O macarrão? – ela brincou.
O
Zac riu.
–
Também, mas... – rindo. – Não, sério, Fãr... valeu mesmo por ter me
ouvido, por ter me ajudado e me agüentado aqui na sua casa com os meus
problemas.
–
Zac, amigos são exatamente para essas coisas.
–
Eu sei. Você é a minha melhor amiga agora. Tudo bem que eu não sou exatamente
o cara mais cheio de amigos no mundo, mas...
A
Fernanda sorriu:
–
Tudo bem, eu entendi o que você quis dizer. E 'brigada, Zac. Você também é
um amigo muito querido.
Quando
a Fer já estava virando para sair dali, o Zac se esticou e a puxou de novo pela
cintura, trazendo-a para bem perto. Puxou com força o suficiente para ela vir
parar na frente dele, com as mãos apoiadas nos braços dele, um pouco abaixo do
cotovelo, olhando-o bem pertinho, assustada. "Ele vai fazer de novo"
ela pensou.
E
ele fez mesmo. Virou o rosto de lado, abriu bem a boca e encaixou-a na da
Fernanda, beijando-a um pouco violento, roçando sua língua na dela com
rapidez, indo com a cabeça para frente e para trás, exatamente como o outro
beijo. O Zac não movia as mãos nem os braços, não tocava a Fernanda. Ela o
mesmo. O que acontecia com eles às vezes era que o Zac sentia-se tão
agradecido pela amizade da Fer que precisava demonstrar isso da maneira mais
clara possível. Sabe quando você está com o seu amigo e só um abraço é
pouco para dizer o quanto você adora ele? Era isso que o Zac sentia, que um
aperto de mão ou um tapinha no ombro da Fer não seria o suficiente para dizer
o quanto ela era sua melhor amiga. O problema era que o Zac se empolgava um
pouquinho no tempo de beijo porque ele gostava pra caramba do jeito de ela
beijar. A Fernanda às vezes abria os olhos e ficava pensando porque exatamente
ele estava fazendo aquilo pela 2º vez. Para finalizar, o Zac puxou o lábio
inferior dela devagarinho e olhou para ela, sorrindo:
–
Obrigado mesmo, Fãr.
Ela
estava com uma leve falta de ar porque, como eu já disse antes, o Zac não era
fraco, não.
–
Ahm... de nada.
–
Cara, que sono... – ele disse. – Você acredita que o meu pai me acordou com
um copo d'água hoje?
A
Fernanda riu. Ainda estava em choque, mas preferiu levar na esportiva, do mesmo
jeito que o Zac estava levando. Só não entendia como ele podia simplesmente
mudar de assunto, como se nada tivesse acontecido.
–
Vem, eu arrumo a sua cama para você poder dormir.
Antes
de deitar, o Zac ligou para o celular do Walker para pedir permissão para
dormir lá. O pai dele encheu um pouco o saco no começo, mas quando o Zac disse
que iria tentar convencer a Fernanda a ficar de uma vez com o filho preferido
dele, o Isaac, é claro que a permissão foi concedida rapidinho.
–
Às vezes é bom que o Ike seja o favorito do meu pai.
A
Fernanda apagou a luz do quarto que o Zac ia dormir, disse boa noite e fechou a
porta. Eram quase 10 horas quando o Zac foi deitar. Ele estava mesmo cansado,
mas sentindo-se muito melhor depois de tudo que ele tinha conversado e
"beijado" com a melhor amiga dele.
...
Toda
noite, era sagrado. A Fernanda levantava para tomar água. Por que aquela noite
ia ser diferente? Ela levantou devagarinho, foi para a cozinha, tomou água,
tudo normal. Na volta, aproveitou para dar uma passadinha no quarto em que o Zac
estava dormindo para ver se estava tudo bem com ele. É claro que estava, mas
ela queria dar só uma espiadinha, o que isso tinha de mais? A porta estava
entreaberta, então tudo o que ela precisou fazer foi empurrar. Acendeu a luz do
corredor para que o quarto ficasse mais iluminado e assim, ela pudesse vê-lo. O
Zac estava dormindo profundamente, com o lençol na cintura, os cabelos todos na
cara e... sem camisa. Sem camisa... putz, se não fosse esse detalhe, ela com
certeza já teria fechado a porta do quarto, voltado a dormir, tudo normalmente,
sem pensar absolutamente nada. Mas o "sem camisa" fez com que ela
ficasse por ali mais um tempinho. É, não tinha como negar, o Zac era gostoso.
Tudo bem que ele tinha uma barriguinha básica, mas o que eram aqueles braços?
A Fernanda ficou analisando ele um tempo, pensando na conversa que eles tiveram
e por um segundo, ela desejou ser a Priscila. A Fer, desde a época que elas
eram muito amigas, não entendia porquê o Zac continuava com ela, correndo atrás
dela e se humilhando do jeito que ele fazia. Bateu uma revolta suave na Fer, mas
passou logo que ela se deparou com os braços do Zac de novo, ali, jogados na
cama, lindos. Droga. O Zac era lindo sim. Ela também lembrou do beijo dele e um
daqueles arrepiozinhos atrás do pescoço, que percorrem toda a espinha fez a
Fer tremer. Mas logo depois, ela voltou a lembrar das conversas deles no hotel,
quando riam um monte juntos, muito amigos. Aí ela desencanou, fechou a porta do
quarto e voltou a dormir. Nisso, o Zac abriu os olhos e sorriu.