CAPÍTULO 4

                Bem cedinho, mais ou menos umas nove horas da manhã, a Priscila ligou para o Zac. É claro que ele estava dormindo e, por causa disso, não ouviu a primeira vez que o celular tocou. Aquela manhã ela não tinha ido para o colégio porque estava com muita cólica. Então resolveu ficar em casa. Tentou ligar de novo e desta vez, o Zac ouviu. Tirou o braço de baixo das cobertas e apanhou o celular no criado-mudo.

– Alo? – com a voz completamente sonolenta.

– Oi, Zachary. Te acordei?

– Quem é?

            O Zac estava com muito sono para reconhecer a voz de qualquer pessoa.

– Nossa, a sua amizade com a Fer já está tão forte que você nem lembra mais de mim? – a Priscila disse, num tom de brabeza.

– Pri? Oi – o Zac deu um pulo da cama. Não sei se interessa, mas ele estava sem camisa.

– Ah, lembrou quem sou eu?

– Pri, pára com isso. 'Cê sabe que não tem nada a ver.

– Te acordei?

            Bom, com certeza não fui eu quem ela tirou da cama.

– Imagina, não tem problema. Eu estava mesmo querendo falar com você.

– Ah é?

– Você ainda está chateada comigo?

– Digamos.

Com'on, babe... i love you, you know that. Não tem porquê você ficar achando que eu tenho alguma coisa com a Fãr. Ela é minha amiga e só.

– Sei... eu vi como vocês estavam conversando ontem.

– Conversando, Pri. Se você tivesse entrado e a gente tivesse se beijando, aí sim você teria motivos para estar com tanta raiva de mim.

– Eu não estou com raiva de você, seu gay. Tô com a situação.

– Então por que 'cê brigou comigo de novo? – ele perguntou, num tom triste de voz.

            A Priscila ficou em silêncio.

– E também, o Isaac tá super a fim da Fãr – o Zac disse.

– Tá, é?

– Uh huh.

– E ela? Quer ficar com ele?

– Quer, claro.

            Putz, que mentira...

            A Priscila ficou em silêncio um pouco, pensando.

– Será que dá pra gente ficar juntos direito agora, sem brigar mais? – ele falou, todo meigo.

– É, acho que sim... – se derretendo inteira.

– Então depois do almoço a gente se vê.

– Tá bom, Zac.

I love you, babe.

– Eu também. Tchau.

            O Zac então desligou o telefone e voltou a dormir. Mas será que você percebeu o que ele nem notou? A Priscila ligou porque sabia que a conversa seria deste jeito. Ela não precisaria dizer nada. Por isso, dava a impressão de que ela não estava correndo atrás dele nenhum pouco. Se ela realmente não estivesse, nem teria ligado. A Priscila era apaixonada pelo Zac e realmente acreditava que tratando-o desta maneira, o teria sempre junto dela. Sabe aquela coisa de menina que acha que quanto mais pisar em homem, mais gamados eles vão ficar? Em partes, isso pode até ser verdade, mas me diga quem é que gosta de ser mal tratado? Eu sou mais a favor de uma relação saudável. Bom, mas isso funcionava no caso da Priscila. O problema era que o Zac, além de muito carente de amigos, era no sentido amoroso também. Ele precisava da Priscila porque ela era a única coisa que ele tinha. Só que o Zac precisava de mais atenção, de maiores cuidados, de alguém que tivesse mais paciência com a personalidade difícil dele (quer dizer, ele só tornava-se uma pessoa difícil quando pisavam no calo dele. Aí eu diria que ele ficava dificílimo). A última coisa de que ele precisava era ser pisado. E a Priscila era craque nisso.

            Depois do almoço, o Hanson teria uma gravação para um outro programa qualquer, que para eles não fazia a menor diferença. Parecia tudo igual, o mesmo saco de sempre. A Priscila estava lá quando eles chegaram e, antes das gravações começarem, ela e o Zac ficaram juntos o tempo todo. Sempre estavam abraçados, ou se beijando, ou andando para lá e para cá de mãos dadas. Nossa, você tinha que ver como o Zac estava. Ele sorria de orelha à orelha. A felicidade dele chegava a contagiar. A Fernanda desta vez achou melhor não ir, apesar de ter recebido uma ligação do Isaac. É que naquele tarde, o Zac nem tinha lembrado de ligar para ela porque estava feliz demais por estar de bem novamente com a Prizinha dele. Depois do programa gravado, eles correram para uma entrevista com uma revista direcionada às adolescentes, cuja era uma promoção que a mesma organizara. A Priscila foi, mas desta vez não pôde ficar tão junto assim do Zac.

            Depois disso tudo, o Eddie deixou a Priscila em casa. No caminho de volta ao hotel, o Isaac ia reclamando:

– Poxa, eu nem vi a Fãr hoje...

– Quem? – o Walker quis saber.

– Uma amiga minha que o Ike tá apaixonado... – o Zac explicou, enfatizando o "minha".

– Se você quiser convidá-la para jantar conosco... – o Walker ofereceu.

É que ele estava planejando jantar em uma churrascaria famosa da cidade. Ele ouvira que a comida do Brasil era excelente e não via a hora de experimentar um típico churrasco daqui.

– Jura?! Posso mesmo? – o Isaac ficou todo feliz.

– Pode, claro... mas vai a família toda. Se ela não se importar...

– Claro que não, a Fãr é gente fina pra caramba – o Zac disse, também gostando da idéia.

– Tesão – o Isaac comemorou.

– E será que eu podia convidar a Pri, pai? – o Zac perguntou.

– De jeito nenhum, Zac. Já está indo muita gente.

– Mas por quê não? A Fãr vai, que que tem a Pri ir também? – o Zac disse, indignado.

– Não, Zac, não insista. Você passou o dia inteiro com essa menina. Chega por hoje, não acha?

            O Zac ficou puto com aquilo. O Isaac sempre foi o mais protegido pelo Walker dos três. Se tivesse sido o Zac a dar a idéia de levar a Fernanda, o Seu Hanson jamais teria concordado.

            Chegaram no hotel, o Zac ainda estava bicudo. O Taylor, nessas horas, não dizia nada, porque quando o Zac ficava bicudo, ixi... não adiantava nem a Priscila ir lá pedir para ele animar. Não tinha o que tirasse aquele bico.

– Zac, empolga. A gente vai jantar fora do hotel, cara – o Taylor tentou animá-lo. – E a Fãr vai junto, a sua melhor amiga. Vai ser divertido.

– Eu sei, mas porra, o pai sempre protege o Isaac p'ressas coisas! Sempre! Duvido que se tivesse sido eu que tivesse dado a idéia de levar a Fãr, o pai ia aceitar!

– Então agradeça que foi o Isaac, porque o pai deixou. Vai, liga logo pra ela... – jogando o celular para o Zac. – ... e larga de ser mimado.

            O Zac pensou em contestar o "mimado" que o Taylor disse, mas achou melhor não. Discou os números da casa da Fernanda e ela logo atendeu. Feito o convite, o Zac foi se trocar. Ficou combinado que eles passariam pegar a Fernanda em casa, mesmo ela querendo ir direto, com a Mariliz, que a levaria sem problemas. "Mas Fãr, se 'cê chegar lá e dizer que está esperando pela família Hanson para jantar com eles, o cara vai rir da sua cara e não vai deixar você entrar. Vai pensar que você é uma fã" o Zac explicou para ela. Aí, ela concordou.

            Quando era umas oito horas da noite, o telefone da Fernanda tocou. Era o Eddie, dizendo que já estava na frente da casa dela esperando-a. Ela deu os últimos retoques no visual, se despediu da mãe e foi.

– Se divirta, filha!

– Eu vou, mãe, pó dexá!

            O Eddie fora buscar a Fer sozinho porque o carro que eles iam sair era outro, cujo estava no hotel assim como a família inteira. Chegando lá, a Fernanda se surpreendeu primeiramente com a quantidade de pessoas que estavam indo jantar fora. Era muita gente mesmo. Foi apresentada para cada um. Não precisa nem dizer que isso levou um tempinho, mas todos foram simpáticos com ela. Depois, foi a elegância de todos ali que chamou sua atenção. Consegui notar os diferentes estilos que tinham cada um dos irmãos. O Isaac era mais fino. Usava sempre roupas mais reservadas. O que era o contrário do Taylor, que abusava nos acessórios e usava roupas bastante chamativas. O Zac tendia mais para o chic também, mas preferia roupas mais justas, porém discretas. A Fernanda amava sobreposições. E era o que ela usava naquela noite.

– Fãr, você acreditaria se eu dissesse que você está simplesmente magnífica esta noite? – o Isaac elogiou-a, como não podia deixar de ser.

– Ahm... 'brigada – sem jeito.

            A família toda entrou em uma das vans e na outra entraram os outros seguranças, com a exceção de Eddie, que acompanhava os Hanson no mesmo veículo que eles. O produtor dos três, que os acompanhava especialmente naquela temporada no Brasil, estava indo jantar junto.

– Ele é gente boa? – a Fernanda perguntou, olhando para a cara séria de Christopher Sabec.

– É, mais ou menos. Com a gente sim – o Zac explicou.

            Algumas fãs seguiam o carro. Até teve um momento em que um conversível parou ao lado da van cheio de meninas que gritavam e acenavam para o Hanson. Foi divertido até, porque eles acenavam também e riam. O Zac colocava a cara no vidro e as meninas no carro riam e gritavam muito.

            Chegando à churrascaria, eles foram muito bem atendidos. Foram levados até mesas mais reservadas, em um lugar particular dentro do próprio restaurante. Sentaram-se todos e a comida começou a chegar logo em seguida. O jantar estava ótimo. A Fer foi a primeira a parar de comer, porém o Zac, nossa, esse se enterrou nas picanhas e filés mignons.

– Zac, mas 'cê é bom de garfo, hein? Meu Santinho... – a Fer falou, rindo.

            Haviam servido vinho, então os quatro estavam mais do que alegres. Falavam muita besteira e riam à toa. O Isaac era um pouco mais resistente à bebida, por isso encontrava-se em um estado mais sóbrio. O Walker conversava com o empresário dos meninos sobre como iam as vendas do Cd novo no Brasil. Nas palavras do próprio Sabec, "estamos vendendo muito mais do que o esperado. Se ficarmos aqui mais um tempo, mais uns dias, podemos atingir um nível ainda maior de vendas". O Walker adorou a idéia, afinal, era de dinheiro que estavam falando.

            Durante a refeição, houveram alguns problemas com umas fãs que ficavam gritando na janela próxima à mesa deles. Até o momento em que o Taylor encheu-se daquilo e pediu para que um garçom colocasse alguma proteção que as impedisse de vê-los. E foi o que foi feito.

            Então eles pagaram a conta e resolveram cumprimentar as fãs que estavam lá fora. Eram poucas, então puderam distribuir autógrafos e apertos de mão. A Fernanda ficou com o Eddie, olhando de mais longe. Uma das meninas que estavam ali no meio, em cima dos três, era amiga da Fernanda e a reconheceu. Como ela já tinha pegado autógrafo, aproximou-se dela para cumprimentá-la.

– Fer? Oi, menina, 'cê também veio ver o Hanson? – a garota perguntou.

– Oi, Flávia, nossa que coincidência te encontrar aqui – a Fernanda disse, meio sem saber o que dizer.

            O Eddie já ficou esperto observando logo ao lado.

– Não sabia que você era fã do Hanson, Fer.

– Mas eu não sou. Vim jantar só.

– Com ele? – apontou para o Eddie.

– É, também.

            O dono do restaurante apareceu e começou a pedir educadamente para as garotas saírem, já que todas já haviam conseguido seus autógrafos. A Flávia não viu isso porque ficou conversando com a Fernanda. Ela só viu mesmo quando o Zac se aproximou delas e disse:

– Vamos, Fãr?

             A Flávia ficou olhando aquilo, tentando entender.

– Ahm... Zac, essa aqui é a minha amiga Flávia.

– Ah, oi – ele disse, simpático.

– Oi, beleza? – a Flávia cumprimentou, espantada, mas sorrindo.

            Eles conversaram ali mais um tempo, até que o Walker os chamou e eles tiveram de ir. Já de volta ao hotel...

– Fãr, vamo' lá com a gente no quarto. Tá frio hoje para ficar aqui embaixo – o Zac convidou.

– Sério? 'Cê tá me convidando para subir?

– Não, na verdade eu estou trabalhando em uma nova piada sobre quartos de hotéis então quis ver se funcionava com você. Claro que é sério e claro que eu estou te convidando! – ele riu.

            A Fernanda subiu com eles pela primeira vez para conhecer o famoso corredor que tinham reservado exclusivamente para a família Hanson. O quarto onde os meninos estavam dormindo era enorme e muito bonito.

– Uau... – a Fernanda exclamou ao adentrar no lugar.

– Senta aí, Fãr – o Isaac disse. – Fique à vontade.

            Ela sentou no sofá enorme, creme que havia na frente de uma instante chiquérrima com uma puta televisão. O Taylor e o Isaac fecharam-se cada um em um cômodo do quarto para trocaram-se. O Zac sentou ao lado da Fernanda, pois achava que não seria muito educado se ele saísse também e a deixasse sozinha.

– Mas e aí, tudo bem com você e a Pri? – a Fer perguntou.

– Uh huh, tudo – ele respondeu, sorrindo.

– Que legal, Zac. Por isso que 'cê tá feliz assim.

– Ah, mas eu fiquei feliz também por você ter ido com a gente lá hoje – o Zac sorriu.

– Woohoo! – ela gritou, fazendo-o rir. – Fãr tá podendo!

– Mas é sério – rindo ainda. – Estava muito divertido. A gente riu um monte com você.

– Vocês riram?! Vocês?! Meu filho, fique você sabendo que eu ri muito mais do que todo esse povo junto! – Ela referia-se à família. O Zac ria mais, porque sabia que a Fer estava meio alcoolizada. – Imagine... não vem me dizer que vocês riram mais do que eu porque isso é muito mentira! Eu não sei fazer piada em inglês, tá?! E vocês? Hein? Vocês são americanos! Se vocês não fizerem piadas em inglês, 'cês tão na merda. Agora eu não,... – Parecia mais um daquelas ataques dela de falar e explicar e de provar o quê ela pensava.

– Tá bom, Fãr, tá bom... eu acredito em você, tá?

– É bom mesmo.

            O Zac adorava ficar conversando com a Fer porque, além de eles rirem muito, ele sentia uma amizade enorme por ela. Mas muito grande mesmo. Ele sentia-se muito bem perto dela, pois sabia que ao lado da Fernanda, ele jamais seria mal tratado ou ficaria aborrecido com alguma coisa.

– Bom, mas sério agora... se for possível... – a Fernanda disse.

– Eu sou uma pessoa séria.

– Claro, Zac e eu sou a Madonna.

– Madooonna, quanto tempo! – abraçando-a.

            A Fernanda deu uma gargalhada. O Zac tinha dito aquilo com muita espontaneidade, ficou engraçado.

Beautiful Stranger... – ela lembrou da música.

Oh, thanx! – ele agradeceu, cínico.

– Hahahahaha...

– Como vai a Lourdes Maria?

– Ah, ela anda com uma diarréia braba, sabe... Coisa de criança.

                E por aí iam as viagens deles.

– Bom, mas acho melhor eu indo, Zac... – a Fernanda disse, levantando.

– Não!! – ele deu um grito e a puxou para o sofá de novo.

– Que isso?! – ela disse, rindo.

– Se você levantar desse sofá mais uma vez, você é uma pessoa morta! – ele brincou.

– E se eu quiser fazer xixi?

– Eu tô falando sério, garota! – ele gritou, brincando.

            Então a Fernanda ameaçou levantar, só que o Zac voltou a puxá-la com força, fazendo-a cair sentada novamente em seu lugar. Ela tentou várias vezes e ele a puxava sempre.

– Zac, pára! – a Fernanda falou, beliscando a cintura dele. Nisso, o Zac deu um pulo para trás, caindo deitado. – Eu não acredito... Zac, você tem cócegas?

– Claro que não! Imagine se eu vou ter cócegas!

            Ela apertou-lhe a cintura mais uma vez e o Zac voltou a pular no sofá.

– Não creio! O Zac Hanson tem cócegas. Não tem vergonha, não menino?? Um marmanjo desse tamanho!

– Ah, Fãr, não enche! – rindo.

            Então a Fernanda passou a fazer cócegas no Zac e ele ria muito alto. Até que eles cansaram, sentaram direito novamente e ficou um silêncio básico de quando alguém está pensando numa nova brincadeira.

– Hohohoho, eu sou o Papai Noel. – Parecia que o Zac já tinha pensado em alguma coisa.

– Quê?!

– Papai Noel, minha filha, não conhece, não?

– Ah... claro...

– Você foi uma boa menina este ano?

– Cadê o meu presente?

– Dã, é por isso que eu estou perguntando se você foi uma boa menina!

– Ah, tá... Claro que eu fui – sorrindo, cínica.

– Quer ver o que o Papai tem aqui pra você? – com uma cara de tarado.

– Depende... só se for uma Barbie.

– O Papai Noel vai te mostrar what is really fucking good in life – com a mesma cara de tarado.

            A Fernanda deu um tapão no braço do Zac e começou a se matar de rir. Foi aí que saíram dos cômodos o Isaac e o Taylor, já de pijama.

– Nossa, que que 'cês tanto riem aí, hein? Cara, Zac, 'cê tá berrando! – o Taylor falou.

– Berrando? Nossa, "berrando" foi bondade sua. O menino está quase atravessando a barreira do som com as gargalhadas dele – o Isaac disse.

– Não, é sério... eu tenho que ir pra casa. Aproveitar que ainda não é muito tarde, vou ligar para a minha mãe me buscar.

– Ah, Fãr, fica aê – o Zac disse.

– É, Fãr, por favor – o Isaac implorou com a maior cara de coitado.

– Mas é que é sacanagem com a minha mãe, gente... coitada, ela não tem obrigação de ficar acordando de madrugada todo dia pra vir me buscar.

– Então deixa que nós levamos você. Eu peço pro Eddie te deixar em casa – o Zac propôs.

– Mas o Eddie também não tem obrigação de acordar de madrugada – a Fer observou.

– Ih, quanto a isso, esquenta, não, Fãr, porque o Eddie tá acostumadásso – o Taylor disse.

– Vocês têm certeza de que não tem problema?

– Uh huh. Vai, liga pra sua mãe e diz que 'cê vai ficar – o Zac meio que mandou, estendendo o celular dele.

            A Fernanda pensou um tempo, mas não resistiu. É claro que ela queria ficar lá com eles. Estava muito divertido. A Mariliz deu graças a Deus porque não teria de buscar a filha às duas da manhã como sempre ela tinha. O Zac guardou o celular depois que a Fer desligou e foi colocar o pijama. Depois ligaram a TV e pediram para o serviço de quarto para levarem pipoca. Estava estranho só a Fernanda com roupa mais social e eles três lá, de pijama. Sentindo que ela não estava muito confortável, o Isaac emprestou um moletom dele enorme para ela. O Zac ficou morrendo de ciúmes, ameaçou ficar bicudo, mas mudou de idéia só de ver o sorrisão da Fernanda, depois de já ter colocado a vestimenta, rindo das piadas que o Taylor estava fazendo sobre uma mulher da televisão.

            Começou a ficar mais tarde. O Taylor olhou no relógio e já era quase duas da manhã.

– Nossa, meu, tá mó tarde – o Tay disse. – Boa noite pra vocês, durmam bem...

            O Isaac também estava cansado:

– É, eu vou indo também... Tchau, Fãr.

            Ele foi dar um beijinho no rosto dela, mas quando estavam bem próximos, ele virou o rosto e o beijo pegou na boca. Foi bem rapidinho, até porque a Fer deu um pulo para trás de susto porque não esperava por aquilo. O Zac, que estava bem ali do lado, ficou de cara:

– Ike! Porra, que isso?!

– Ah, a Fãr gostou. – O Isaac olha para a Fer. – Vai dizer que você não gostou? – perguntou, na maior cara de pau.

– Boa noite, Ike – ela disse.

– Boa? Depois dessa, vai ser a melhor noite da minha vida.

            A Fernanda sorriu, achando graça do jeitinho dele. Ele e o Taylor bateram as mãos, como meninos sempre fazem, querendo dizer "Boa, cara", e foram dormir.

– Meu, por que 'cê não deu uma porrada nele?

– Ah, Zac... ele só queria dormir bem... deixa ele – ela disse, sorrindo.

– Sei.

            Silêncio.

– Posso fazer uma trança no seu cabelo? – a Fer perguntou.

            O Zac olhou para ela com uma expressão que reprovava a idéia:

– Claro que não. Faz mal pros fios.

             A Fernanda soltou uma gargalhada, mas controlou a altura, afinal tinha gente dormindo.

– Tá bom, Zac... então deixa eu mexer nele.

– Mmm... tá.

            Ele virou de costas e a Fernanda começou a acariciar aquelas madeixas loiras.

– Meu, como 'cê tem cabelo! E é mó grosso.

– Como tudo em mim, aliás.

– Ai, meu santo... homens e suas manias de ficar provando masculinidade.

            O tempo ia passando e eles cada vez conversando mais e mais. Nem viam a hora passar. A todo momento um perguntava ao outro se estava com sono, mas a resposta era sempre a mesma: "Nem tô. Mas se 'cê quiser dormir...", eles diziam. Falavam de tudo um pouco.

– Você também gosta?! Não acredito! Você comprou o último Cd??

– Não comprei... a mesadinha não deu, mas tô querendo comprar logo que der.

            E falavam, falavam, riam, comentavam, falavam. Como já estava tarde, eles tinha que sussurrar porque se o pai do Zac soubesse que ele ainda estava acordado, nossa, ele podia considerar-se morto, deserdado, fudido e mal pago.

– Qual foi o melhor menino que você já beijou?

– Ah... eu não lembro se teve "o" melhor, mas eu lembro de um que até que foi legalzinho.

– Você gostava dele?

– Zac, o que você tá pensando que eu sou?? É claro que não! – ela brincou, fazendo o Zac rir. – Brincadeirinha... hehe... É, eu acho que gostava sim. Mas me decepcionei um pouco com o beijo dele. E você?

– Se eu gostava do cara?

– Dããããã! – ela riu.

– Tá, deixa eu ver... Eu gosto do beijo da Priscila, mas teve uma menina que eu fiquei no Texas que, minha mãe... que beijo era aquele...?

– Sei lá, acho que eu nunca fiquei com um menino que realmente fosse aquela coisa de "noooossa, que beijo, puta que o pariu, que beijão, nossa, eu nunca beijei ninguém assim, gente, que língua perfeita, que lábios macios, que tesão" – o Zac riu dela. – Você acha que 'cê beija bem? – ela perguntou.

– Ah, sei lá... acho que sim.

– Põe a língua pra fora.

– Quê?! Pra quê?! – o Zac não entendeu.

– Pra eu ver se 'cê beija bem.

            Ele colocou todinha, como quando a gente vai no médico e ele manda fazer "aaaah". A Fernanda ficou observando a língua do Zac um tempinho.

– 'Cê beija bem sim – a Fer falou convicta.

– Como você sabe? – o Zac perguntou, intrigado, após guardar a língua.

– Porque você tem língua grande.

– Tenho?

– Tem.

– E só por isso eu beijo bem?

– Digamos que a sua chance de beijar bem aumenta em 80% com este dado.

– Aaaah... quero ver você agora.

            A Fernanda colocou a língua para fora.

– Ai, eu não sei dizer se você beija bem – ele falou observando a língua dela.

– É só você ver se a minha língua é grande – ela disse, com a boca aberta.

– Tá, só não precisa babar em mim.

– Ai, seu idiota! – a Fer reclamou, rindo, já com a língua guardada. – Eu não babei!

– Tô zoando, garota. Anda, põe essa língua pra fora logo.

            A Fernanda obedeceu.

– Mmm... é, não sei ver isso pelo seu método – ele falou.

            Ela fechou a boca mais uma vez, agora definitivamente.

– Mas eu posso tentar pelo meu – o Zac falou.

            Quando a Fernanda estava pensando em perguntar sobre a técnica cuja o Zac falava, ele inclinou-se e encaixou sua boca à dela. E como estando decidido a beijá-la mesmo, ele abriu bem a boca e a Fer pôde logo sentir a firmeza com que ele esfregava sua língua na dela. Ele beijava com violência, indo com sua cabeça para a frente e para trás, abrindo e fechando sua boca, movendo rápido sua língua e puxando os lábios da Fernanda vez ou outra. Ela estava chocada, olhando a situação com os olhos arregalados, vendo o Zac ali, concentrado no que estava fazendo. Era preciso acompanhá-lo no beijo porque o Zac não era nada fraco. Ele não a tocou com as mãos por nenhum momento, assim como ela também não o fez. Era apenas boca à boca. E ainda, não era um beijo carinhoso, era apenas um beijo. Mas isso não quer dizer, necessariamente, que não estava bom. O Zac gostou do beijo da Fer e teria continuado por mais um tempo, se ela não tivesse empurrado-o de leve pelos ombros. Os dois ficaram se olhando um tempo. O Zac sorrindo e a Fernanda indignada.

– Zac, você tá louco?!

– Te apresento o meu método – limpando as laterais da boca.

– O quê?!?

– Quer jeito mais fácil de saber se alguém beija bem do que beijando?

– Meu, 'cê podia ter avisado, pelo menos. 'Cê quase me mata de susto.

– Se eu tivesse avisado, 'cê ia ficar com aquelas coisas de... – Ele então afina a voz. – "Imagina, que horror! A gente é só amigo. Um beijo pode significar muitas coisas, blá, blá, blá" e merdas desse tipo que mulher tem mania de dar muita atenção.

– Cara, mas por que 'cê me beijou desse jeito? De repente? Do nada?

– Sei lá, acho que fiquei curioso.

– Curioso? Pra saber o quê?

– Ah, muitas coisas... Como é beijar uma amiga, por exemplo.

– E?

– E pra comprovar se você beija mesmo bem.

– Cara, 'cê é doente...

– Ah, Fãr, pára que eu sei que 'cê gostou – o Zac sorriu, maroto.

– Mas 'cê é muito convencido mesmo... – ela riu.

Silêncio.

– Mas eu beijo bem ou nem? – ela perguntou.

            O Zac ficou olhando para ela, com um sorrisinho no rosto, fazendo o maior mistério.

– Fala, Zac!

– Digamos que se você não tivesse interrompido, eu teria te beijado mais um pouquinho.

– Woohoo!

            Ele riu. Silêncio. O Zac disse:

– E também, você acabou de experimentar aquele melhor beijo que você disse que nunca tinha provado na sua vida.

– Ai, Zac! Que nojo de você, seu escroto! – a Fernanda brincou, dando com a almofada na cabeça dele.

            Quando eles olharam para a janela, o sol estava nascendo. O Zac correu ligar para o Eddie, que apareceu rapidinho e já levou a Fernanda embora. Depois de se despedir, o Zac correu para o quarto e deitou antes que o seu pai o visse acordado.

- - > Capítulo 5

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