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KID ABELHA ANUNCIA NOVO COMEÇO COM 'PEGA VIDA', PRIMEIRO CD
DE INÉDITAS DA TERCEIRA DÉCADA DO GRUPO RIO - George Israel, Paula Toller e Bruno Fortunato, o Kid Abelha, se lançam numa nova etapa de carreira a bordo do CD ''Pega vida'', o primeiro de inéditas desde ''Surf'' (2001). No começo do ano eles encerraram a temporada de dois anos e meio do ''Acústico MTV'' com números de fazer inveja em pleno domínio da pirataria. Foram 600 mil CDs e 100 mil DVDs, além de 1 milhão de ingressos vendidos apenas em shows da banda, sem contar os festivais.
PARA COMPOR, BANDA RECORRE AO VELHO ENSAIO. ALIÁS, O QUE É
SER VELHO PARA O KID ABELHA? RIO - Além da presença de um novo produtor, Paul Ralphes, que também assumiu o baixo na gravação, o Kid Abelha inovou ensaiando bastante a maior parte do repertório de "Pega vida", uma prática adotada no Acústico, e gravando todo mundo junto. Apenas quatro músicas foram criadas dentro do estúdio. Apesar de terem ficado quatro anos sem gravar um álbum inteiro de inéditas - o Acústico tinha três inéditas - eles não tinham um monte de músicas para escolher. Quando entra no processo de produção, a banda liga o botão da composição e vai em frente. - Com esse tempo todo a gente já conseguiu um mínimo de concentração para o trabalho rolar bem forte. Antigamente, a cada disco a gente tinha a insegurança do 'será que a gente consegue fazer, não estou tendo idéia'. Agora, a gente faz e tem que ter um prazo, senão fica fazendo show e não sei o quê - diz Paula e George emenda: - O que impressiona é que a gente fica um tempão sem se deparar com esse momento de criar junto, mas é muito rápido em relação ao que gera de trabalho. A gente começou a fazer e logo tinha oito músicas. Depois de quatro anos, você está com energia disponível para chegar esse momento de gerar coisas novas. Dentro desse processo de criação, entregue a Paula (letras) e George (músicas), os dois contam que muitas vezes são tomados por alguma idéia que guardam ligando para casa e deixando recado na secretária eletrônica para recuperar mais tarde. Paula gosta de trabalhar em casa, no seu cantinho, burilando as idéias, às vezes faz uma melodia tosca que nunca mostra ao George, aliás só mostrou uma vez e o resultado foi "Eu tive um sonho" (nada mal hem?). Paula não inventa personagens, ela gosta de compor na primeira pessoa, mesmo correndo o risco de atribuírem todas as letras a uma experiência pessoal dela. - Não tenho medo nenhum, imagina, se fosse atriz seria a mesma coisa. Eu não gosto de 'eu acho', 'talvez'. É 'eu faço', 'eu sou', fica direto e bem claro o que quero dizer. São letras pensadas como músicas e não como poesia. Paula conta que gosta de pegar coisas do cotidiano: - Eu gosto de ser de momento, você se concentrando nas coisas que te moveram naquele momento, temas gerais de proximidade com a natureza, o sexo, a vida, o prazer e a generosidade. Num desses flagrantes, "Eu tou tentando", ela fala em tentar ser brasileiro e tentar saber como é isso. - É uma ironia, uma pressão sobre nós, brasileiros, principalmente os urbanos. Uma maneira de questionar essa culpa, como se só as coisas genuínas de primeira geração fossem importantes. A única música de fora é "Será que eu pus um grilo na sua cabeça?", de Guilherme Lamounier e Tibério Gaspar. À menção do nome Tibério, alguém comenta que ele deve estar velho e a quarentona Paula rebate: - O que você chama de velho? (risadas) George ataca: - Velho é quem tem 20 anos a mais que a gente. Não importa a idade, importa a diferença de idade. Daí se emenda para uma questão: se a garotada que gosta de Detonautas e CPM22 também se amarra nos 'coroas' do Kid. - Uma parte gosta. Os mais radicais acham a gente comercial, mas a gente sempre faz show em dobradinha com essas bandas e não tem essa hostilidade que se poderia imaginar - diz George. - Agora com esse negócio de DVD tem um público que não compra mais CD, só DVD, e a gente sabe de um público de criança de quatro anos que fica vendo o DVD 50 mil vezes como se fosse "A pequena sereia", acho que pela parte visual. Uma mãe me falou que o filho dela tinha visto 600 vezes, ela não agüentava mais - acrescenta Paula. - Outro dia, uma mãe me mostrou o filho dela, sei lá, três anos, e disse que ele adorava o DVD da gente. Aí virou para o garoto e pediu para ele dizer quem eu era. E ele (imita criança): 'George Israel'. E ele sabia todas as músicas - complementa Geroge. Os fãs de DVD não ficarão desamparados. No final de junho sai um DVD com as músicas do disco gravadas com público em São Paulo e alguns extras, entre eles "Teletema" e "Aumenta que isso aí é rock'n'roll", o hino roqueiro de Celso Blues Boy. Dá-lhe Kid.
Já nos rádios, "Poligamia" fala das delícias do sexo com vários amantes, sem ciúmes, sem desperdício de neurônios. A canção, da dupla Paula Toller/George Israel (que compôs todas as canções inéditas do disco), ainda contribui para o idioma com o pronome "eus" ("Vamos gozar/ Vamos viver/ Vocês e eu/ Eus e você"). Ótima sacada. O sexo está presente ainda em composições como "Eutransoelatransa" e "Strip-tease". Segundo a cantora Paula Toller, o disco é sobre as coisas boas da vida, como a proximidade com a natureza e a dedicação ao outro ("Ter prazer em dar prazer", diz a faixa-título), além do sexo propriamente dito. Mais à vontade como letrista, ela usa nas canções um lado galhofeiro que sempre mostrou em entrevistas e shows, mas que raramente aparecia no repertório. Paula e o Kid continuam românticos e urbanos, como se vê na melancólica e bela "Peito aberto" e em "Fala meu nome". A banda regrava "Será que eu pus um grilo na sua cabeça?", de Guilherme Lamounier e Tibério Gaspar, talvez numa tentativa de repetir o sucesso de "Na rua, na chuva, na fazenda" (incluída no disco "Meu mundo gira em torno de você", 1996), de Hyldon. Até o arranjo é parecido, mas a canção pouco acrescenta ao disco. Mão do produtor galês Paul Ralphes se faz sentir Além de um passo à frente nas letras, o Kid investe em uma sonoridade mais roqueira, talvez fruto da produção do galês Paul Ralphes. As guitarras de Bruno Fortunato (um dos melhores de sua geração, geralmente discreto no som pop do Kid) estão mais à frente, e o baixo de Ralphes (que gravou o instrumento em quase todas as faixas na ausência do antigo titular, Rodrigo Santos, ocupado com sua banda principal, o Barão Vermelho) dá uma sacudida no som. Isso, apesar de tornar o disco mais interessante e bem tocado, cria um certo abismo entre as canções mais agitadas e as baladas. Fortunato ainda mostra o que sabe no slide, em duas músicas, e George Israel fica mais no violão. O saxofone, marca registrada do Kid, aparece em apenas quatro faixas. Sem deixar de ser kid (criança, em inglês), o trio, passados seus 20 anos de carreira, mostra que está taludinho. KID ABELHA AMADURECE, COM SEXO E NATUREZA Grupo trata de temas mais adultos do que o habitual em Pega Vida, que tem 11 canções inéditas e uma regravação
Na faixa-título, uma das boas baladas do CD, há outro componente que converge para esse eixo vital: a dedicação ao outro. "Não é tão complicado ter prazer em dar prazer", diz trecho da letra. "Sempre procurei ser muito direta, falando na primeira pessoa e sem ficar relativizando as coisas. Entre as coisas que proponho é ser clara, provocar e esperar para entender o que as pessoas acham disso", diz a cantora. Outra característica retomada pelo grupo é a de trazer para sua linguagem canções alheias. Desta vez Paula, George e Bruno Fortunato reavivam Será Que Eu Pus um Grilo na Sua Cabeça? (Guilherme Lamounier/Tibério Gaspar), de 1973, nos moldes de Na Rua, na Chuva, na Fazenda (Hyldon), do álbum Meu Mundo Gira em Torno de Você, de 1996. Ambas são de temática rural e foram vertidas para o reggae. Única não inédita do disco, Grilo serviu de base para a melancólica Mãe Natureza (Querência), que reflete sobre a distância que as pessoas urbanas sentem da vida campestre. "Não é tão flower power quanto a outra, mas é uma outra geração do mesmo assunto", observa Paula. O sexo reaparece em Eutransoelatransa e Strip-Tease. Como essas, outras canções estão coligadas pela temática. A autobiográfica Duas Casas trata das dúvidas de filhos de pais separados, em busca de um ponto de referência. É próxima de Órion, que disserta sobre as ambigüidades da saudade. Dúvidas, incompatibilidades e ambigüidades também surgem em letras como as de Eu Tou Tentando, Porque Eu não Desisto de Vc e Eutransoelatransa. Em algumas, Paula brinca com a grafia das palavras usando linguagem de chat virtual. "Acho importante saber a linguagem formal, mas isso está na moda, é divertido, é um código como em qualquer tribo. Só não acho que deve ser usado por ignorância. Em outras letras eu grafei 'porque' e não 'pq', para saberem que eu sei escrever direito", ironiza. Com Pega Vida, a despeito de correntes contrárias, o grupo se mantém como um dos poucos expoentes da geração revelada nos anos 80 a produzir algo atraente no pop nacional, com canções redondas e sonoridade vitaminada. E também porque, além de cunhar letras atrevidas, Paula continua cantando deliciosamente agridoce. A FILOSOFIA POP DO KID ABELHA Kid Abelha lança o CD `Pega vida´: letras de Paula Toller foram influenciadas pelos escritores Pedro Juan Gutiérrez e Michel Houellebecq Vinte e quatro anos de carreira bem-sucedida no raquítico mercado pop nacional nos ensinaram algumas lições sobre o Kid Abelha - entre elas, a de que a banda liderada por Paula Toller criou um estilo personal e competente o suficiente para atravessar incólume as variações da cena e cativar novos fãs. Então, depois de Surf/2001 (80 mil cópias), um dos melhores álbuns do grupo, e do projeto Acústico MTV/2002 (575 mil CDs e 125 mil DVDs), o Kid Abelha segue o seu caminho pop rock com Pega vida (Universal), trabalho produzido pelo galês Paul Ralphes e que atesta a maturidade de Paula Toller como autora. A influência britânica de Ralphes, há anos radicado no Rio, aparece em pequenos detalhes (acentos folk, indie pop) dos arranjos, mas as letras de Paula - sobre energia sexual (Poligamia, eutransoelatransa), natureza (Mãe natureza, Órion) e busca existencial (Eu vou tentando, Pega vida) - se destacam. Em Surf, Paula cantava o ideal surfista (e utópico) de felicidade. As letras mais realistas e prazerosas de Pega vida "foram influenciadas pela leitura do escritor Pedro Juan Gutiérrez e do filósofo Michel Houellebecq", revela por telefone. Além disso, ela, o filho Gabriel e o marido (e cineasta) Lui Farias mudaram para uma casa cercada de mata, na Gávea. Autor de Trilogia suja de Havana e O Rei de Havana, o cubano Gutiérrez tempera suas crônicas outsiders com fortes cenas de sexo. Já o francês Houellebecq, de Plataforma e Partículas elementares, acredita que o valor do homem na sociedade atual é medido por sua eficiência econômica e por seu potencial erótico. Parodiando a afirmação de Gutiérrez de que "um escritor nunca é inocente", Paula Toller é uma bela jovem senhora que, a cada novo álbum, faz um pequeno strip-tease da sua alma pop. Em junho, sai o DVD de Pega Vida: gravado ao vivo em São Paulo, traz a participação do cantor e surfista americano Donavon. "Nós mandamos o clipe de O rei do salão, ele gostou e veio ao Brasil apenas com o violão. Gravamos a participação em estúdio: uma versão em inglês de O rei do salão e It don´t matter, dele. Donavon é como se fosse um personagem do nosso disco anterior. Vive tocando e surfando pelo mundo. Ele é um freerider, é pago para surfar sem precisar competir", explica a vocalista.
O pensamento conservador afirma que um disco novo do Kid Abelha não tem nada a oferecer de novo. Mas a primeira faixa de Pega Vida já pega todo mundo de surpresa. É impossível não ficar enternecido com a voz de Paula Toller confessando tentativas: "eu tou tentando largar o cigarro/...tirar o atraso/...criar meu filho/...fazer meu filme/ ...ter mais culhão". É o caso de dizer: eu também, nós também.
Virou uma espécie de convenção alardear que a música do Kid Abelha é bobinha e escapista, e que os bem pensantes a renegam porque ela não tem profundidade. Mas profundidade não é uma característica de mares, abismos e perspectivas? A música pop nasceu para durar no máximo três minutos, ser bonita, dar prazer e deixar saudades. Quando Paula Toller canta "por que é que eu não desisto de você?", a pergunta vai bater no ouvido do casal que troca um beijo apaixonado ou efêmero, que dura a eternidade do momento. Não é uma alquimia fácil de ser alcançada. O amor em suas faces é o tema de Pega Vida. Incluindo a face do prazer que não tem culpa nem medo de ser feliz e partir pra outra. Tudo dentro de músicas que soam familiares, redondinhas, fluidas, leves, diáfanas e resolvidas sem arestas, pontas e detalhes que arranham a pele. É tudo tão simples que parece fácil montar uma banda e sair por aí, ao longo de 20 e poucos anos, encantando ouvintes com palavras dóceis e maviosas. Parece que é fácil fazer sucesso esse tempo todo e passar por cima de dificuldades peludas, como ataques de descontentes, modas, planos econômicos, fechamento de gravadoras e o despeito de quem se julga superior e, bem, mais profundo. Mas todo mundo sabe que o Kid Abelha teve música arranjada por Egberto Gismonti, não sabe? Pois é. Tipo, olha o que a gente conseguiu fazer. Gismonti é top no papo cabeça de gente séria que se leva a sério e vai fundo. É isso, garotada! Gismonti se rendeu ao Kid Abelha e o Kid Abelha cultuou Gismonti. Naquele papo de que os extremos etc e tal. Pega Vida é o disco no qual George Israel, além de tudo, voltou a tocar riffs de saxofone bem Kid Abelha. São 12 faixas que passam voando, com delicadeza e desenvoltura, pela sala e pelo quarto. Dançantes, gostosas, tranqüilas. Se o disco não tem o potencial radiofônico do passado é porque eles não precisam mais de superexposição. A fama do Kid Abelha chega na frente e prepara o terreno para refrões de bubblegum. Chiclete! Pop! Saca? Ploc! O encarte ainda é bacaninha. Tem desenhos que lembram a arte sacana do Carlos Zéfiro, marcas dágua que se destacam na luz e letras impressas como se algum adolescente as tivesse escrito num blog sobre tarefas do dia-a-dia. E, cheio de charme, o Kid Abelha tem atrás de si uma seqüência de hits que contam um pouco da história do rock brasileiro.
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