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Simulação de vôo: um exercício de abstração

A noite estava chuvosa com estouros de trovoada e ventos. O diálogo a seguir seria perfeitamente plausível.

Piloto: Centro Curitiba, 3022.
Centro: Prossiga 3022.
Piloto: Estamos com turbulência moderada no nível 290. É possível descer para um nível de vôo mais baixo? 3022.
Centro: No momento não é possível. Tráfego em nível abaixo do seu, 2 horas, a 10 milhas, cruzando. Aguarde.
Piloto: Ciente. 3022.
Centro: 3022 pode fazer um desvio para proa 080? Isto apressaria sua descida.
Piloto: Negativo, senhor. Esta proa nos colocaria na linha da formação. 3022.
Centro: Ciente. Neste caso mantenha a presente até novo contato.
Piloto: Ciente. Manterá a presente e aguardará. 3022.

O controlador está em seu posto de trabalho, no terceiro sub-solo do edifício do centro de controle, diante de uma grande tela circular onde pontos luminosos indicam o movimento do tráfego aéreo numa região extensa. Junto a cada ponto caracteres indicam altitude e velocidade dos aviões. Algumas manchas luminosas evidenciam regiões de formações de tempestades. Com um simples movimento do apontador ele pode saber a distância entre um avião e outro, qual a proa ideal para determinado objetivo, e muitos outros parâmetros. Concentrado em sua tarefa ele não tem qualquer noção sensorial sobre o que está acontecendo lá fora. Não sente o barulho da chuva, não vê qualquer lampejo de relâmpagos, não sabe se está frio ou se faz calor. Sem qualquer informação dos sentidos, ele tem pleno conhecimento do que ocorre na vasta área de seu controle.

Na cabine do 737, que nesse momento sacode, vibra, sobe e desce, e sofre correções contínuas do competente piloto automático, comandante e co-piloto olham a fraca luz que ilumina o painel de instrumentos e acompanham com interesse a figura do radar meteorológico. De nada adiantaria olhar para fora. A escuridão total é cortada periodicamente pela luminosidade dos raios que provêem aparentemente de todas as direções. O comandante já informou ao pessoal da cabine para suspender o serviço de bordo e avisou os passageiros que estavam atravessando uma formação, procurando fazer a voz mais calma do mundo. O lanche a bordo, como se sabe não se destina a alimentar pessoas já super alimentadas, tem apenas duas funções: reduzir a angústia e tornar mais caro o preço da passagem aérea.

O que vemos nisso é que controlador e tripulação não têm um contato direto, sensorial, com o mundo real. É verdade que a tripulação está sob o efeito desagradável das vibrações e desvios causados pela turbulência, mas sua consciência de como escapar das condições lhe é informada por um instrumento que "vê" muito mais longe, o radar meteorológico, e, se autorizada, poderá escapar regulando o piloto automático para uma altitude e uma proa convenientes. O altímetro e a giro-bússola a manterá informada sobre a ação do PA. O controlador, a quem cabe a autorização, dará a informação no momento adequado, evitando uma colisão muito provável com outro avião voando em sentido cruzado e altitude inferior.

Todo esse esquema funciona com telas de CRT (Cathodic Ray Tube) ou LCD (Liquid Crystal Display) e um vasto sistema de comunicações. Tudo muito semelhante ao que acontece quando você está diante do seu monitor de vídeo ligado à Internet. Vamos considerar a coisa da seguinte forma: existe um mundo considerado real, onde são geradas as tempestades e onde voam os aviões, e existe uma representação deste mundo, expressa nos instrumentos em mãos de controladores e pilotos, onde atuam os agentes de todo o processo. O nosso tempo faz com que os fatores do mundo chamado real sejam, com cada vez maior precisão, representados no aparato dito virtual. Compare isto com a situação de um piloto de ultra-leve decolando de uma pista de grama numa tarde ensolarada de domingo. Neste caso tudo, ou quase tudo, é sensação.

A humanidade, desde sua remota orígem e até muito recentemente, tem vivenciado sua interação com o mundo através dos sentidos, do contato direto com os objetos à sua volta. É natural que seu cérebro se tenha desenvolvido com esta experiência. Só que no humano se desenvolveu um outro fenômeno, a razão. O mundo pode ser apreendido por meio dos sentidos, mas a apreensão do que está além destes é feita pela razão. O que a sorte nos deu o privilégio de presenciar é que a nossa razão produziu meios de apreender a realidade muito além dos nossos sentidos. E mais, permitiu que pudéssemos simular a realidade, de maneira tão presente quanto o real em si. Podemos afirmar hoje que é perfeitamente possível recriar uma realidade inteiramente semelhante ao real real, fazendo com que nossos monitores e nosso aparato de comunicações reproduzam para a nossa razão a tempestade, o outro móvel que voa em sentido cruzado, o vento, a chuva, e tudo o mais. Podemos até "sentir" a angústia causada por voar dentro de uma turbulência.

Quando os primeiros viajantes do deserto tiveram que aventurar-se na terra ressecada, na vastidão onde tudo é areia e céu, tiveram que pôr em prática sua capacidade de abstração. Somente a observação das estrelas e do sol lhes permitia trilhar o caminho correto. Não adiantava consultar os sentidos para saber se deviam ir para lá ou para cá, tudo era igual. Depois, quando construiram artefatos para se lançar às águas, foi necessário também descobrir que o mundo era cortado por linhas magnéticas e que, com um instrumento adequado, a agulha magnética, seria possível manter uma direção e um sentido. Mas ainda era necessário saber, a qualquer momento, onde se encontravam no vasto mundo, e foi preciso mais abstração, até que culminou no GPS.

Quando falamos a pessoas não ligadas à simulação de vôo e pouco afeitas ao exercício da abstração, percebemos logo o abismo que nos separa. É muito comum alguém nos fitar com olhar incrédulo e nos achar dignos de pena por viver uma ilusão de um jogo de computador sem nada a ver com o voar em aviões. Essas mesmas pessoas utilizam frequentemente o transporte aéreo, sem ter parado uma vez sequer para pensar em como um avião decola de Guarulhos à noite e as entrega sãs e salvas no Afonso Pena em menos de uma hora.

A razão humana trouxe o poder da abstração, ou seja , a possibilidade de conceber uma atividade real em antecipação, e de criar mecanismos mentais para reproduzir tais atividades, tornando-as previsíveis e reprodutíveis em ambiente artificial. Um altímetro instalado num painel de um avião em vôo é uma abstração. O ponteiro indica que estou a 29 mil pés e eu acredito plenamente nisto, embora seja noite e não tenha qualquer condição de fazer uma avaliação visual sobre minha distância ao solo. Mesmo que fosse em dia claro, minha avaliação seria totalmente subjetiva, não teria qualquer condição de dizer que estou a 29 mil ou a 14 mil pés. Ora, qual a diferença de um altímetro em um painel de um avião voando, o mesmo altímetro em um painel de uma escola de instrução de vôo e a representação dele numa tela de computador? No primeiro caso reproduz uma grandeza do mundo dito real, no segundo representa uma situação hipotética, recriada por um modelo bastante preciso do mundo real e no terceiro caso faz a mesma coisa que o segundo em forma de imagem plana.

Acho que o poder de abstração é variável entre as pessoas. Como disse, nosso cérebro foi formado pelo contato direto com o mundo, por meio dos sentidos. Fazer inferências sobre este contato, criar leis de generalização, especificar isto em linguagem matemática e modelar a realidade é tarefa da razão. Aquela história anedótica de que Isaac Newton teria descoberto a lei da gravitação universal quando lhe caiu uma maçã sobre a cabeça é bastante significativa. Quantos seres humanos teriam o poder de abstração para inferir de um episódio desses uma lei tão importante e fundamental. Quem pode imaginar a idéia de um átomo, que nunca foi e nunca poderá ser visto por nossos olhos?

Este tema pode ser um tanto pesado para um forum de simuladores de vôo, mas, quando me sento diante do computador, coloco meus pés sobre os pedais, ajusto os fones de ouvido e o microfone, vejo as nuvens se configurarem de maneira semelhante ao que posso observar pela janela, aperto a tecla do microfone e faço o contato com o controlador pelo Roger Wilco, começo a achar que o mundo está modelado de forma apropriada. Isto não me leva, em absoluto, a uma situação alucinatória, de substituição de uma realidade por outra, não me tira nem um pouco da plena consciência espacial e temporal em que vivo, apenas possibilita que ações que nunca me seriam possíveis no mundo dito real possam ser reproduzidas com detalhes, e que exijam de minhas habilidades e de minha capacidade de raciocinar e criar quase tanto quanto exigiriam em situação real.

É claro, um simulador não pode simular a responsabilidade, as conseqüências terríveis de um acidente, um simulador não pode recriar a emoção. Um simulador fala pouco à sensação e muito à abastração. Um simulador, quando bem utilizado, é a essência abstrata do mundo real, mas é fugaz, como a fotografia o é em relação à cena representada, como a voz e a imagem do senador explicando o inexplicável pode chegar aos meus olhos e ouvidos através da televisão.

Penso que o crescimento da atividade de simulação de vôo, feita possível pelos excelentes recursos gráficos e computacionais que dispomos hoje nos computadores domésticos, e, fundamentalmente, com o aparecimento da Internet, possibilitaram a recriação em detalhes do mundo real. E isto vem trazendo também alguns preconceitos. Por exemplo, não entendo como alguém pode achar melhor usar um daqueles simuladores que se usam em escolas de aviação em relação a um simulador em computador, com ATC e cenários bastante próximos da realidade, quando o objetivo é condicionar a mente do aluno a relacionar o mundo com os instrumentos de bordo. Não vejo porque não se possa usar cenários dos simuladores para ministrar aulas de geografia. Por que não posso comprar um CD com cenário de uma região, ao invés de um mapa. Cenário feito com precisão, por cartógrafos, onde ao passar o "mouse" sobre um acidente geográfico, se quiser, uma pequena janela seria aberta com informações. É claro que não eliminaria a necessidade da boa leitura e não substituiria o esforço necessário para estudar, mas, quem disse que não precisamos estudar, e bastante, para usar bem um simulador de vôo?

Sensação e abstração permeiam todas as nossas atividades, em maior ou menor grau. Eu acredito que a simulação de vôo pode, sim, reproduzir muito bem a parte da abstração e também uma parte da sensação.

David Melim - 30/04/2001

 

 

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