CONHEÇA UM POUCO DO NOSSO BRASIL
PICO DA NEBLINA
A imagem da Amazônia como uma região de relevo uniforme
é real apenas em parte. Em toda sua extensão, o Rio
Amazonas tem uma declive de apenas 65 metros, mas a região
possui também as maiores altitudes do país, como o
Pico da Neblina, com 3014 metros.
SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA
Depois de séculos de decadência, a população
indígena brasileira voltou a crescer nos anos 90. São
300.000 índios de 210 etnias diferentes.
Nenhum outro município tem presença de indígenas
tão intensa quanto São Gabriel da Cachoeira, onde
95% dos 30.000 moradores são índios.
TABATINGA
As fronteiras na Amazônia são uma ilusão. Os
poucos postos policiais nem de longe controlam quem e o que entra
no país. Tabatinga, na fronteira com a Colômbia, é
uma conhecida porta de entrada da cocaína no Brasil, mas
muito pouco é feito para combater o tráfico. Para
controlar o contrabando e o tráfico, o governo pretende gastar
1,4 bilhões de dólares num sistema de radares por
satélite chamado SIVAM.
NOVO ARIPUNÃ
Numa área da floresta Amazônica equivalente ao tamanho
de alguns quarteirões existem mais espécies vegetais
que em toda a Europa. É o último lugar no mundo onde
ainda se descobrem novas espécies de mamíferos. Na
Região Amazônica, foram achados sete novos macacos
desde 1990, o último deles, no ano passado, às margens
do Rio Aripuanã. Só no Parque Nacional do Jaú,
foram descobertas nos anos 90 doze novas espécies de peixes,
duas de roedores, dois tipos de sapos e duas árvores ignoradas
pela ciência.
XAPURI
A cidade de Chico Mendes sofre com a decadência da produção
de seringa, dominada pelos países do Sudeste Asiático.
O ciclo da borracha, de 1879 a 1912, foi responsável pelo
maior período de riqueza da região e provocou a ocupação
do Acre, que era território boliviano até o início
século.
RONDÔNIA
Última grande fronteira de migração no país,
Rondônia aumentou a sua população em mais de
dez vezes nos anos 80, na mais desordenada ocupação
de território no Brasil moderno. 0 resultado foi a devastação
de 23% das florestas do Estado, num ritmo que pode acabar com todas
as matas nativas nos próximos dez anos.
RORAIMA
Com população menor que a cidade paranaense de Maringá,
o Estado tem um morador para cada quilômetro quadrado. A maior
riqueza é o ouro encontrado no subsolo da reserva ianomâmi,
motivo de mais de dez anos de conflito e garimpo ilegal. Dos 30.000
garimpeiros que exploram ilegalmente a área ianomâmi,
apenas 2.000 continuam por lá. Em toda a Amazônia,
os garimpeiros despejam mais de 20 toneladas de mercúrio
nos rios a cada ano.
RIO AMAZONAS
Com 6.868 quilômetros de extensão, é o maior
rio do planeta, com 1.100 afluentes. Carrega 200.000 metros cúbicos
de água por segundo, o suficiente para encher toda a Baía
de Guanabara em menos de três horas.
A cada cinco semanas, o Amazonas despeja no oceano uma quantidade
de terra igual a um Pão de Açúcar.
MANAUS
Criada para levar indústrias para o Norte do país,
a Zona Franca de Manaus fracassou economicamente e contribuiu para
o inchaço da cidade, que dobrou de população
desde 1980. Hoje, Manaus concentra metade da população
do estado do Amazonas, com 1,5 milhão de habitantes e muita
miséria.
ALTA FLORESTA
Mais de 25 milhões de bois são criados na Amazônia,
a maioria em Mato Grosso. A cada ano, uma área do tamanho
de 120 campos de futebol é queimada para renovar os pastos.
É uma técnica improdutiva, porque a cada doze anos
o solo fica tão pobre que nem a grama cresce mais
RODOVIA TRANSAMAZÔNICA
Inaugurada em 1972, a estrada foi uma das principais tentativas
de incentivar a ocupação da região. A intenção
era ligar João Pessoa, na Paraíba, à divisa
do Brasil com o Peru. Seriam mais de 5 000 quilômetros de
estrada, superior à distância de Nova York a Londres.
Surtos de malária, o avanço da mata e os ataques dos
índios acabaram com o sonho. Hoje, pouco mais de 1 000 quilômetros
de estrada de terra esburacada são trafegáveis.
PARAGOMINAS
Uma em cada três árvores tropicais do mundo está
na Amazônia. 0 mais danoso projeto de exploração
dessa madeira ocorreu em Paragominas, onde 400 empresas derrubaram,
desde 1980, 15.000 quilômetros quadrados de floresta - mais
que a metade da área de Sergipe.
TAILÂNDIA
A cada ano, a ação de madeireiras e de pecuaristas
derruba uma área superior a metade de Alagoas. Tailândia,
uma cidade com quarenta serrarias trabalhando vinte horas por dia,
é o novo pólo madeireiro no Norte do país.
VALE DOS CARAJÁS
Região com um dos maiores potenciais minerais do mundo, Carajás
tem jazidas de ferro, exploradas pela Companhia Vale do Rio Doce,
e de ouro, na área de Serra Pelada.
A Vale do Rio Doce protege a última faixa de floresta contínua
da região, ameaçada pela invasão de grupos
de sem-terra.
Um raio X na mata
Com orçamento de 1,4 bilhão de dólares,
o SIVAM vai criar uma gigantesca rede de informações
sobre a Amazônia. Veja como o novo sistema irá funcionar:
AVIAÇÃO CIVIL
Por causa da pouca potência dos radares atuais, viajar pela
Amazônia de avião é duas vezes mais arriscado
que no resto do país. Com a implantação do
Sivam, mesmo aviões de vôo raso, como os usados pelos
traficantes, serão monitorados.
USUÁRIOS
Mais de 1 600 instituições já se inscreveram
para receber os dados do SIVAM. A lista inclui órgãos
do governo envolvidos na questão amazônica, como o
IBAMA e a FUNAI, até ONGs que acompanham o nível dos
rios da região.
SATÉLITE
Oito satélites de meteorologia e de acompanhamento ambiental
passarão informações para os radares do SIVAM.
Dessa forma, a informação sobre uma grande queimada
chegará às autoridades poucas horas depois de a fumaça
ser detectada.
RASTREAMENTO AÉREO
Os cinco aviões Embraer, encomendados para o projeto, possuem
sensores capazes de registrar imagens através da copa das
árvores. Eles serão usados tanto para captar informações
sobre a qualidade do solo como para localizar grupos perdidos ou
ações policiais na selva.
RADARES
O SIVAM terá vinte radares, sendo que cinco deles já
funcionam para o serviço de tráfego aéreo.
Eles vão receber os dados coletados pelos sensores e satélites
e retransmiti-los em tempo real.
Revista Veja, 23/05/2001
Amazônia Tesouro Verde
Ah! Brasil, como te amo
São tantas belezas
Praias e mulheres bonitas
Amazônia, o Pulmão do mundo
Está entre nós
Tem ouro, cacau, cana de açúcar e café
Tudo que se planta dá
Nessa terra que Deus abençoou
Mas, como imaginar
Crianças sem um teto para morar
Mendigos sem ter o que comer
Jogados à própria sorte
Sem saber ler, ou escrever
Falta lar, falta pão
Falta também educação
Para o povo que vive
Nesta imensa nação.
Refletir na atual situação
O homem é o único animal
que cospe na água onde bebe
O homem é o único animal
que mata para não comer
O homem é o único animal
que corta a árvore
que lhe dá sombra e frutos
por isso está de condenando
à morte
(Palavras do Velho do Rio - Meu Pai, Benedito Ruy Barbosa)
... Bem-vindo à bioeconomia. Um mundo no qual o Brasil tem
uma vantagem competitiva inigualável: a riqueza da sua biodiversidade.
A variedade de espécies de plantas e animais existentes nos
ecossistemas brasileiros contém um tesouro biológico
de genes, moléculas e microorganismos. Os genes são,
cada vez mais, a matéria-prima das biotecnologias que se
espalham pela indústria farmacêutica, agrobusiness,
química industrial, cosmética, medicina botânica
e horticultura. O crescente mercado mundial de produtos biotecnológicos
movimenta entre 470 bilhões a 780 bilhões de dólares
por ano. No Brasil. o setor ainda é pequeno - cerca de 500
milhões de dólares por ano - mas seu potencial não
tem limites.
Segundo a ONG Conservation Intemational,
dos 17 países mais ricos em biodiversidade do mundo (entre
os quais figuram Estados Unidos, China, Índia, África
do Sul, Indonésia, Malásia e Colômbia), o Brasil
está em primeiro lugar disparado: detém 23% do total
de espécies do planeta.
Só para comparar, a Suíça
tem apenas uma planta "endêmica" (que só
existe lá), a Alemanha, 19 e o México, 3.000. O Brasil
tem 20.000, apenas na Amazônia. Além disso, há
as espécies vegetais, de mamíferos, aves, répteis,
insetos e peixes da Mata Atlântica, do cerrado, do Pantanal,
da caatinga, dos manguezais, dos campos Sulinos e das zonas costeiras.
Apenas 5% da flora mundial foi estudada até hoje e só
1% é utilizada como matéria-prima. A biodiversidade
brasileira, portanto, é o cofre de um patrimônio químico
inexplorado de remédios, alimentos, fertilizantes, pesticidas,
cosméticos, solventes, fermentos, têxteis, plásticos,
celulose, óleos e energia, além de moléculas,
enzimas e genes em número quase infinito. Em outras palavras:
o Brasil pode ser a Arábia Saudita da Opep biológica.
Há três anos, o biólogo
Moacir Bueno Arruda, chefe da Divisão de Ecossistemas do
Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA), dedica-se a um cálculo
imponderável. Com a ajuda do Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas (IPEA), Arruda está estimando o valor patrimonial
da biodiversidade brasileira. A tarefa só termina em 2002,
mas já há uma estimativa na mesa: 2 trilhões
de dólares, quatro vezes o Produto Interno Bruto do país.
O cálculo de Arruda não tem a pretensão de
ser exato.
É uma aproximação.
Ele tenta quantificar o valor dos recursos naturais existentes nas
unidades de conservação brasileiras e os "serviços
ambientais" que eles prestam (como regular o clima, gerar água
potável e produzir alimentos). "Os produtos naturais
têm seu preço", diz Arruda. "Seu valor aumenta
na medida em que são úteis ao consumo humano e às
atividades econômicas ".
Essa é a ficha que está caindo agora na cabeça
de muita gente. Considere os seguintes empreendimentos em andamento:
Em Minas, o fundo FIR Capital Partners,
que dispõe de 75 milhões de dólares para investir,
prepara o lançamento de um projeto de varredura das espécies
nativas do cerrado.
A FAPESP está aplicando 14 milhões
de reais no programa Biota para estudar as espécies do Estado
de São Paulo em diálogo com seus Projetos Genomas.
Em Manaus, os 18 milhões de
reais que serão investidos no Centro de Biotecnologia da
Amazônia (40% já construído) darão um
choque de qualidade na indústria química regional.
No Rio de Janeiro, a Extracta conclui,
para a Glaxo, testes sobre a reação de oito agentes
de doenças às 30 000 substâncias do seu banco
de espécies da Mata Atlântica.
A EMBRAPA está investindo 14
milhões de reais no Projeto Genoma Funcional para decifrar
o DNA da raiz de vários produtos agrícolas.
Em Uberlândia, no Triângulo
Mineiro, a americana Monsanto vai desembolsar, este ano, 40 milhões
de dólares em pesquisas de melhoramento de grãos,
híbridos e milho transgênico. Outra empresa, a suíça
Syngenta, gastará 25 milhões com o mesmo objetivo.
Fundos de investimento como o Votorantim
Ventures, o Ventana Global e o BancBoston Capital estão analisando
novos empreendimentos em biotecnologia.
A Natura, a maior fabricante nacional
de cosméticos, quer fazer parcerias com os povos do Parque
Indígena do Xingu para aproveitar seus conhecimentos e lançar
novos produtos.
A área de biotecnologia farmacêutica
do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) registrou
68 pedidos de patente em 1996, 150 em 1997 e 112 em 1998.
O governo federal lança, neste
semestre, o Programa de Biotecnologia e Recursos Genéticos.
Até 2003, serão investidos 240 milhões de reais
para fomentar o setor.
As perspectivas para o futuro entusiasmam
os empresários. "Este é o ano da biotecnologia
no Brasil", afirma Guilherme Emrich, gestor do fundo FIR Capital
Partners e fundador da Biobrás, o único fabricante
de insulina da América Latina. "Estamos diante de riquezas
brasileiras que apresentam tremendas oportunidades de negócios",
diz Phillipe Pommez, vice-presidente de inovação e
desenvolvimento de negócios da Natura.
"Basta olhar para a Amazônia
para perceber a vantagem natural do Brasil. Está claro que
os negócios com biotecnologia e biodiversidade vão
se multiplicar", afirma Paulo Henrique de Oliveira Santos,
presidente do fundo Votorantim Ventures.
Parceria Inteligente
Bioprospecção significa
muitos novos negócios para a Natura. A empresa paulista faturou
1,4 bilhão de reais no ano passado, construiu uma fábrica
ultramoderna em Cajamar, município da Grande São Paulo,
e mudou de foco. Deixou de ser uma empresa de cosméticos
para virar uma empresa de life style, dedicada à saúde,
nutrição e qualidade de vida. "Nos Estados Unidos,
o número de consultas às medicinas complementares,
como fitoterapia (terapia com plantas), homeopatia, medicina chinesa
e acupuntura, ultrapassou o de consultas à medicina tradicional
desde 1998", diz Phillipe Pommez, vice-presidente de inovação
e desenvolvimento de negócios da Natura.
Há dois anos, a Natura comprou
por 20 milhões de reais o tradicional laboratório
Flora Medicinal, do Rio de Janeiro, fundado em 1912. Com isso, incorporou
um vasto acervo sobre a flora brasileira. Recentemente, a subsidiária
carioca lançou no mercado a droga Viritiflora, um estimulante
da potência sexual extraído de plantas como a marapuama,
cipó-cravo e catuaba. A linha de cosméticos Ekos,
baseada em "ativos da biodiversidade brasileira" (buriti,
castanha-do-pará, andiroba, cupuaçu, macela, etc.)
caminha para concentrar 10% do faturamento da empresa.
Toda a matéria-prima da Natura
é extraída sob certificação da Forest
Stewardship Council, organização não governamental
que promove o manejo sustentável das florestas. Um dos projetos
engatilhados, com o Instituto Socioambiental, de São Paulo,
pretende promover os conhecimentos dos povos do Parque Indfgena
do Xingu, no Mato Grosso. "Só estamos esperando a regulamentação
da bioprospecção", diz Pommez. Para ele, a nova
lei precisa ser inteligente. "Tem de proteger o conhecimento
tradicional e os recursos da natureza. Ao mesmo tempo, não
pode fechar o Brasil e deve estimular a iniciativa privada. O negócio
é descomplicar", afirma.