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Cadê a pista?

Céu azul. Nenhuma nuvem acima de mim. Porém, abaixo, não havia nada. O mundo havia se escondido de mim sob o manto de alguns milhares de pés de uma tenebrosa camada de nuvens, ornada com uns cumulunimbus em um ou outro lugar.

Vou cruzando o lago Michigan, já baixando para ao menos 5.000 pés. O combustível está acabando e a situação é crítica. Pelo rádio sou informado de que praticamente todo o estado de Illinois está sob forte chuva, e em absolutamente todos os lugares, mesmo onde a chuva já está mais amena, as condições são super críticas. Em Midway está chovendo, com neblina junto às pistas... Em Champaing, mais ao sul, não há neblina, porém a chuva está forte demais.

O silêncio na fonia, numa das terminais mais congestionadas de todo o mundo, é assustador. Apenas alguns aviões cruzando o Estado em direção às suas alternativas. Quem me dera agora ter no tanque alguns litros a mais de gasolina para poder subir de volta ao meu tranqüilo nível de cruzeiro e deixar toda esta tormenta para trás...

Desde que deixei o FL140 para trás estou nadando por entre esta espessa camada de nuvens, que em momento algum me oferece alguma abertura para que eu possa me tranqüilizar um pouco. Me lembro que uma vez me disseram que o segredo é manter a calma. Mentira, o segredo é ignorar que se estar nervoso e agir com calma. Em O'Hare as condições também não estão nada convidativas. O teto é de apenas 200 pés e a visibilidade não ultrapassa 100 metros.

Com minha modesta quantidade de combustível, tudo o que posso fazer é esperar por melhores condições ou tentar um pouso. Peço para o Controle para tentar a aproximação ILS e vou descendo sob minha responsabilidade, consciente de que nestas condições só mesmo a arremetida é um procedimento sensato. Nivelado a 2.000 pés intercepto o Localizer algumas milhas fora. Vou mantendo minha atitude, ainda que contra a vontade de toda atmosfera ao meu redor, até que começo a ver a barra do Glide ganhar vida. Imediatamente começo a reduzir para iniciar a descida, lembrando o tempo todo que os trens de meu pequeno Saratoga só devem ser comandados abaixo de 130 nós, uma velocidade baixa demais quando comparada à velocidade de cruzeiro do avião.

Um pouco à direita, aumentando um pouquinho a razão de descida... E enquanto tento manter a velocidade do avião, já com uma segunda posição de flape, vou assistindo a um belo bailado das agulhas do meu ILS... Enquanto ambas estão mais ou menos cruzadas, não fico muito preocupado, pois sei que estou em meu caminho e que está tudo limpo à frente. 1000 pés de altitude agora, mais cerca de 300 e estarei no chão. Algumas correções no ILS, velocidade ok, configuração ok, Glide perdido e manetes à frente! Quando vi estava ficando baixo demais, e o pior é que já havia há muito deixado minha MDA para trás.

Porém alternar para onde agora? Midway? Chuva forte ainda, nem pensar... Subi e retornei para mais uma tentativa, um tanto quanto impressionado por chegar a tão poucos pés da pista sem nenhuma visão à minha frente. Em breve o teto poderia piorar também aqui em O'Hare, e sem muita esperança de que melhorasse pelas proximidades, lá estava eu tentando mais um pouso.

Reduzindo velocidade, trens baixados... Mistura rica! Já estava há muito tempo... Entre a tensão de configurar o avião e manter minha pequena máquina enquadrada no ILS venho descendo... Mais atenção agora... Oh meu Deus, quem me dera ter mil olhos... Horizonte ok, velocidade ok, olha o climb! Corrige a descida, aumenta um pouquinho a potência. Caramba, não deixa o Localizer escapar!


Saio da camada ainda com o ILS centrado, sem entender e sem ter tempo para pensar em como consegui isso, mas ainda nada à minha frente. De repente algumas tímidas luzinhas aparecem como pontos solitários denunciando que estou no rumo certo. Avisto as luzes verdes da cabeceira da pista quase no último instante mas ainda sem enxergar o asfalto. Até que, já sobre a pista, avisto o chão e meio que num susto inicio bruscamente meu arredondamento. Porém agora que já estou visual vou arredondando tranqüilamente para um toque suave... Como li no último livro do casal Moss: "É preferível se estar no chão desejando estar no céu do que estar no céu desejando estar no chão".

Sempre fiz aproximações com visibilidade mínima no Flight Simulator, porém este sempre será um procedimento super crítico e que exige 110% de atenção a tudo. Quando a coisa realmente complica, e isso leva apenas um mínimo e imperceptível instante, não se deve hesitar em arremeter, é manete à frente sem dúvida! Porém não há nem nunca haverá atitude mais saudável do voar para uma alternativa onde o tempo esteja melhor.

Adriano Axel - 05/11/1999

 

 

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