É na atitude frente a essa falha que o trabalho de Cavalheiros se destaca sutilmente desse contexto. Porque nesse acordo do trauma comum, em que o passado é falho e o futuro uma repetição impotente da melancolia, toma-se por pressuposto que não há lugar para uma opinião geral, mas confissões (de culpa e de socorro). Espera-se conquistar empaticamente o outro, em um sentido humano e próximo. Mas em Luiz esse sentimento romântico é tratado com a frieza de um experimento científico.

Não conheço até agora, um único trabalho de Cavalheiros que use elementos diretamente biográficos, algo que nos conecte à sua vida particular. A possível exceção é a utilização do eletrocardiograma de um teste de esforço em Mundo Invencível 3. No entanto, nessa exceção, encontramos a negociação importante para a sua poética, entre o corpo e a máquina (o sentimental filtrado pelo inumano). É notável o número delas que utilizou : a copiadora, o relógio, o eletrocardiógrafo, a máquina fotográfica. Muitas delas, máquinas de reprodução. Mesmo aqueles seus trabalhos que não se utilizam de uma máquina, implicam no próprio processo, seu tipo de funcionamento. Várias vezes são uma mecanização da memória.

Imagens Relembradas é exemplar. É a reconstituição sensível e precária, através do desenho/"aquarela", de um original, a fotografia, que já era per se a reconstituição/invenção de um momento. A tinta usada é conseguida através da dissolução química das imagens originais. A reconfiguração mental e física funcionam em reciprocidade, imperfeitas e insuficientes, mas é a tentativa do reter o sentido, oque importa.

E quais imagens despertam esse processo? Imagens menos que comuns. Imagens abandonadas por outros, preteridas por esses de suas histórias individuais.

Numa operação de extrema pessoalidade, no resgate do passado através de um ato sensível, espera-se uma referência que afirme e identifique o Sujeito e o artista, visto que "...one cannot challenge the trauma of another." Mas isso não acontece. Descobrimos distanciamento nesse ato carregado de emoção. Passamos a percebe-lo como estudo, um experimento de laboratório sobre a memória, não sua atuação em primeira instância. O esforço por reconstituir algo que não tem nenhuma importância afetiva ou intelectual (no caso, as fotos abandonadas por outros) é quase oposto ao que vem sendo realizado pelas poéticas surgidas nos últimos anos. Prescinde a identificação pessoal entre artista e público. Abre mão do eu narcísico para o qual os dramas pessoais se expandem publicamente, em favor de uma curiosidade generalizante sobre os princípios que informam esses dramas.

Esse distanciamento não subtrai a sentimentalidade, palavra tabu para a arte nos anos 60/70, regra geral nas últimas décadas. O sentimental foi readmitido por esses artistas novos-românticos, através da qualidade de suas obras (Leonilson, Felix Gonzales-Torres). Mas em Luiz Cavalheiros esse sentimental é temperado pela notação científica conceitual, e não é acesso `a persona do artista.

Como as velas de Mundo Invencível. Quando estão em funcionamento, cumprindo seu destino, estão também perdendo sua condição de potência. Estão no processo de desaparição. São um experimento da deterioração, do acaso e da irreversibilidade da decadência. Porém, sob a placa de vidro, resta a metade intacta, a amostra de comparação.

É ali que o artista está.

 

 

1 "obsession with memory is prevalent in much contemporary art." A afirmativa está desenvolvida em BENEZRA, Neal;VISO, Olga. "Distemper : Dissonant Themes in the Art of the 1990s". Hirshorn Museum : Washington DC-USA.1996. 2 FOSTER, Hall. The Return of the Real - The Avant-Gard at the End of the Century. The MIT Press : Cambridge, USA;London, England. 1996. 3 Sobre esse trabalho consultar meu texto "Apreensão do Tempo : A Poética de Luiz Cavalheiros" in Anais ....Editora da UFRJ : 199...4 Sobre o assunto cunsultar : DEITCHER, David. "Sense and Sentimentality" in Parket n44/1995 . Parket : Zurich, New York, Frankfurt.

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