A MATRIA-TINTA: dois estgios: fluxo e imobilizao

Fluxo: uma procura pela forma. Camaleoa, sua aparncia tambm a sua histria, ela por onde passou.

As mudanas geradas na sua visualidade no alteram a sua integridade.

Seus obstculos so episdios, ela passagem.

reinveno de si a partir do espao, sua natureza transformao.

 

Imobilizao:

Extenso material = dimenso temporal de sua criao.

O aspecto formal decorrncia do percurso, que s se interrompe quando da secagem.

tornar visvel os vrios estgios da ao, um Muybridge que pudesse ser um continuum.

Um todo: um corpo para o tempo.

 

A INVISIBILIDADE: substncia branca em paredes brancas, continuaes.

A parede, de suporte, vira continuidade no trabalho, um escorrer dos contornos.

O olho no pode apreender distanciadamente, deve haver aproximao fsica que permita o destrinchamento.

Os trabalhos, que brotam sutis brancos sobre branco, so pequenas aparies (bolhas dgua).

 

A tenso entre o fluxo e o molde.

NORMGRAFOS: a linguagem verbal como (no) conformadora da experincia, esta, derramamento.

Um tanto, e um to grande, e um tantas coisas, que se houvesse um nome para isso seria o nome de todas as coisas.

A matria-tinta passa pelos orifcios em forma de letra do normgrafo mas no se torna letra.

capaz de atravessar as coisas, mas no se conforma nelas, se transforma por causa delas.

 

A gua (= a palavra): quase invisvel, mas filtro.

 

A gua (= pensamento): envolve, sustenta e infiltra os normgrafos, mas estes, contidos, parecem mais claros que aquilo que os contem.

 

Os espelhos: so as possibilidades de contato com a nossa prpria aparncia.

S que copiam o mundo ao contrrio, somos fadados a conhecer a ns mesmos atravs de um informante no confivel.

Assim como fadados a usar as palavras, sabendo que nos trairo, que sua natureza incapacidade.

MAAM: a matria-tinta vem da parede para o espectador, um jorro, transborda o objeto, o bico-da-mamadeira-do-seio-da-chupeta.

As alturas calculadas pelo parmetro do corpo.

todo convite, um fluir de si para alimentar o outro, generosos (os seios berninianos eternamente prdigos).

 

AS LUVAS: represadoras da carne, agora so o recheio.

Sua elasticidade, que no servia ao conforto e aconchego, mas para mxima aderncia, testada ao absurdo.

Querem segurar, empurrar, tensionar e o esforo parece que as vai consumindo, no gotejamento branco em que se dissolvem.

Outras oram, silenciosas e crdulas (mas incongruentes).

 

A norma, o molde, a ordem, desfeitos.

A expanso, o fluxo.

As folhas que vo tomando as vores geomtricas de um jardim abandonado.

 

Cyriaco Lopes/1997

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