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A 16 de Junho de 1940, as ruas de Bordéus encheram-se de gente que fugia. A França tinha sido invadida pelos Nazis e a população, sobretudo os judeus, queriam ir para bem longe. Aristides de Sousa Mendes era, então, o Cônsul Geral de Portugal em França e tinha ordem do governo português, liderado por Salazar, para não passar vistos que permitissem a entrada em território português de cidadãos provenientes de países participantes no conflito. Mas o Cônsul não foi capaz de obedecer. A sua natureza humana e generosa sobrepôs-se a qualquer Circular oficial. �Quando aparece alguém como Aristides de Sousa Mendes podemos acreditar que a Humanidade ainda existe. Sempre que há guerras e horrores, há também a esperança, que nos chega através destes homens e mulheres�, afirmou António Moncada de Sousa Mendes, neto do Cônsul, durante um jantar organizado pelo Rotary Clube de Silves, na Fábrica do Inglês, no passado dia 26 de Outubro. O neto do diplomata português e o Conselheiro da Embaixada de Israel em Portugal, Reda Mansour, vieram a Silves a pedido deste Clube, que todos os anos, em determinadas épocas, destaca algumas pessoas e as suas actividades, durante as suas reuniões. Ambos traçaram o perfil e expuseram os factos que fizeram de Aristides de Sousa Mendes um homem especial e perseguido. Tudo começou no tal dia 16 de Junho de 1940. Aristides de Sousa Mendes, ao sair do consulado português em Bordéus, viu-se cercado pela multidão. Entre as pessoas, encontrou um amigo, o Rabi Krueger, pai de cinco filhos e pensou que tinha de fazer algo por ele. Levou-o para o consulado e depois de reflectir, decidiu que iria desrespeitar a ordem de não emitir vistos só para salvar aquela família. Ao propor isto ao Rabi, ele terá respondido que só aceitaria se Sousa Mendes desse vistos a todos os seus irmãos que estavam na rua. Conta o neto que, Aristides de Sousa Mendes �percebeu imediatamente que os irmãos eram todos os que viviam o mesmo infortúnio: serem perseguidos e não hesitou, pois considerou que os irmãos devem ajudar-se em circunstâncias difíceis�. Imediatamente, com a ajuda dos funcionários do consulado, da mulher e dos filhos mais velhos, Aristides de Sousa Mendes montou uma operação de emissão de vistos: os passaportes eram recolhidos em sacos e o Cônsul despachava sem parar. Começou por assinar com o nome completo, a certa altura passou a assinar Sousa Mendes e, por fim, já só assinava Mendes. Depois, foi feito um carimbo especial, para que o processo pudesse ser ainda mais rápido. Entretanto, por ser o Cônsul Geral de Portugal em França, contactou os outros consulados e deu ordens para que fossem também emitidos vistos. No entanto, o Cônsul de Bayonne, recusou-se a cumpri-las e, depois de muita insistência, apresentou um motivo que impedia a atribuição dos vistos: falta de pessoal. Aristides de Sousa Mendes meteu-se no carro e apresentou-se, em Bayonne, a um colega boquiaberto, dizendo-lhe que agora já tinha mais um funcionário. O Cônsul passava vistos na rua, dentro do carro, em qualquer situação e a qualquer pessoa que tivesse o aspecto típico dos que fugiam da guerra. Ao todo, entre judeus, perseguidos políticos ou apenas cidadãos que fugiam do fogo das armas, calcula-se hoje que Sousa Mendes terá salvo perto de 30 mil pessoas. E nunca cobrou um escudo que fosse para passar os vistos, embora muitos lhe tivessem oferecidos quantias consideráveis. �A atitude do Cônsul Sousa Mendes revelou uma grande coragem, pois, ao decidir salvar a vida desses refugiados, ele sacrificou o seu futuro e, o que é mais trágico ainda, o futuro da sua família�, referiu Reda Mansour, Conselheiro da Embaixada de Israel em Portugal. Na verdade, Sousa Mendes acabou por morrer na miséria, depois de ter sido afastado do seu cargo e impedido de exercer advocacia e os seus 14 filhos foram forçados a emigrar. Só na década de 70 se conheceu em pormenor a situação deste diplomata e, em Portugal, se compreendeu a importância do seu gesto, pois em Israel ele recebeu em 1966 o título de "Justo entre as nações" e tem um lugar de destaque no Yad Vashem, o Instituto israelita dedicado ao estudo e à preservação da memória dos mortos na segunda grande guerra. Aliás, o Governo israelita tem patrocinado inúmeras iniciativas para relembrar o nome do Cônsul português: exposições, lançamento de edições especiais de selos de correios, tradução de obras literárias e peças de teatro sobre a sua vida. António de Sousa Mendes, o seu neto, também nos disse que em breve a RTP vai pôr no ar uma série de 14 episódios sobre o seu avô e que em França se prepara a realização de um filme sobre a sua vida. Os presentes neste encontro de homenagem, entre os quais podemos destacar João Leal (representante do Governador Civil), José Manuel Pearce de Azevedo (ex-Cônsul britânico no Algarve), Ralf Pinto (representante da Comunidade Judaica do Algarve) e Francisco Aleixo (representante do Governador do Distrito Rotário), ficaram visivelmente impressionados com tudo o que foi dito sobre este homem. Iniciativas destas, no caso levadas a cabo pelo Rotary Clube de Silves e pela sua Presidente, Maria de Lurdes Marreiros, são importantes para que se faça justiça a uma personalidade que marcou o nosso século e para que, tal como afirmaram Reda Mansour e o neto de Aristides de Sousa Mendes, �se continue a procurar a justiça� e �a manter a fé na Humanidade, mesmo nas horas mais sombrias�.
Sandra Moreira
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