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Viagem pelas margens do rio Arade

Ainda por este rio acima...

"Embarcámos no �cais do Fialho� onde estava um lugre a carregar de sucata. O barqueiro aferrou um dos remos, eu o outro, e a canoa, ao favor da maré, fez a proa a Portimão, e lá foi subindo o rio, que lampejava ao sol como uma grande chapa de vidro."(Guia de Portugal, 1927)

Iniciava assim Júlio Dantas, três quartos de século atrás, a subida do rio Arade. Podíamos iniciá-la hoje do mesmo modo. Em canoa, se assim quisermos, observados os conselhos que o nosso colega Carlos Gomes nos deu n' O GRÉS inaugural, no barco turístico do Sô João ou numa qualquer lancha pouco avantajada em calado. Partimos neste passeio atentos aos sinais que o homem ao longo dos tempos foi deixando pelo rio, ao seu património construído, testemunho duma relação que parece hoje divorciada. Não seremos exaustivos nas referências: nem é o lugar, nem esse o nosso objectivo.

Comecemos do início. Partamos da actual marina, para assim poder observar, mais de perto, o Castelo de S. João do Arade e a Fortaleza de Santa Catarina de Ribamar, trinco defensivo imposto pela permanente pirataria dos séculos XVI e XVII por estas bandas. Frente ao bonito casario em anfiteatro que é Ferragudo, na outra margem, não fossem frades Franciscanos Observantes os seus fundadores, o Convento de Nossa Senhora da Esperança, clama moribundo que o salvem da ruína. � sua volta, a cidade de Portimão. Passamos agora a velha ponte rodoviária, inaugurada após acesa reivindicação local e regional em 1876, que pôs fim às velhas barcas que ligavam ambas as margens. Na nossa frente a bonita ponte ferroviária (1915), as salinas de Portimão e as carcaças das velhas fábricas conserveiras da Mexilhoeira Grande que em meados deste século faziam a riqueza da região. Começam agora a ver--se alguns dos muitos moinhos de maré que o Arade conheceu. Subindo o rio, à nossa mão direita, o moinho do Bispo, o de António Aleixo, o moinho do Alcindo, recordam-nos tempos em que as marés, sem contrapartidas poluidoras, punham em funcionamento motores hidráulicos, cuja invenção se perde na Antiguidade: os rodízios (mais tarde também os rodetes). Bem perto, junto da moderna e elegante ponte rodoviária, à vista da Igreja de Santiago de Estômbar e do Convento do Praxel (Parchal), as grutas chamadas de Ibn Ammar, esse grande poeta de língua árabe, atestam presença pré-histórica por aqui. A paisagem é a partir de agora senhora e raínha. Nas encostas quase despidas de árvores, aqui e ali pontuadas por afloramentos rochosos, o maquis mediterrânico das daroeiras e das estevas, junto às margens as morraças e os juncos. Aproximamo-nos da gruta da Velha das Castanhas, curiosidade geológica a que a lenda acrescentou mistério. Os marinheiros mais afoitos (e que à Velha tenham prestado tributo!) podem tentar, então, uma incursão e paragem nas Fontes de Estômbar. Local de moinhos, fontes de água límpida, aprazível lugar para um piquenique e um mergulho na velha caldeira do moinho restaurado.

Saindo deste braço do rio, e seguindo para montante, chegamos ao ilhéu de N� S� do Rosário, na confluência da ribeira de Odelouca com o Arade. Vestígios romanos, ruínas de um cais e de uma provável ermida atestam vida neste abandonado lugar de hoje. Foi sítio de paragem, com certeza, início de lanço com portagem, quiçá, para quem o rio subia. Estreitam-se as margens, proliferam os juncos e canaviais. Aqui e ali, dormentes ao sol, enormes cágados(?), debicando o lodo brancas garças. Já se vê ao longe o branco casario de Silves, derramado na encosta coroada pelo castelo. � nossa esquerda o serro da Atalaia, sentinela da cidade em outras épocas. Mais à frente aflui a ribeira do Almarjão, aguarda esperançado em melhores dias o moinho do Valentim. Desconfiado, porém, não lhe reserve o destino a sorte de Cilpes, o povoado amuralhado pré-romano que ali bem perto a Rocha Branca conheceu. Já nos chega o cheiro dos pomares, o perfume da cidade das laranjas e das nespereiras de Matamouros, a quinta que foi antes o único convento que Silves possuiu. Aproximamo-nos da velha Xelb. Mais uma curva do rio e o lugar traz-nos à memória a lenda do Pego do Pulo. Chegámos. Atraquemos onde antes tantas barcaças corticeiras descansaram do seu vai-vem, à vista dos arcos da velha ponte medieval. Conquistemos, então, a cidade em direcção ao castelo, passando pelas velhas casas da baixa, pelo Museu de Arqueologia ou pelo recente Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês. Mas antes, e se o passeio nos abriu o apetite, apreciemos a boa gastronomia e doçaria que a cidade oferece nos seus inúmeros restaurantes e pastelarias.

Estamos em Silves, disfrutemo-la, aguardando pela maré.

Manuel Castelo Ramos
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