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Livro do Mês

Para sempre

Vergílio Ferreira
Livraria Bertrand
Preço: 2500$00

...Há autores que permanecem e permanecerão eternamente nas nossas memórias.

Há, igualmente, obras que resistem à veloz ferocidade dos nossos dias. Para Sempre, de Vergílio Ferreira, é uma delas. Adormece diariamente sobre a minha mesa de cabeceira, para, de quando em vez, ser relida, uma, duas, as vezes que o ruído prevalece sobre a reflexão. Sinto, então, uma imperiosa necessidade de revisitá-la.

E, à distância de treze anos, a profunda luz deste romance, própria dos que têm o dom de descer às grutas mais escuras da alma para exorcizar os fantasmas, ganha, cada vez que lhe (re)pego, em terapêutica intensidade...

..."Há uma palavra qualquer que deve poder dizer isso, não a sabes - e porque queres sabê-la? É a palavra que conhece o mistério e que o mistério conhece - não é tua. De ti apenas o silêncio sem mais o eco de uma música em que ele se reabsorva... Não és grande, terás apenas a mania das grandezas? Como queres igualar-te ao imenso e imperscrutável? O dia acaba devagar. Assume-o e aceita-o. É a palavra final, a da aceitação. Só os loucos e os iludidos a não sabem. Não sou louco. Não são horas da ilusão. Vou fechar a varanda. É uma tarde quente de Agosto, ainda não arrefeceu. Pensa na grandeza que pode haver na humildade. Pensa. Profundamente, serenamente. Aqui estou. Na casa grande e deserta. Para sempre."

O autor consegue criar, através da fluência que imprime à narrativa e do ritmo das revelações interrompidas, uma atmosfera de sombras, que dá ao leitor uma indescritível sensação de ausência/presença, de eterna desco-lagem do real. Para Sempre será, também e cada vez mais, uma imperativa viagem ao interior de cada um de nós. Desde que tenhamos tempo. E coragem.

Vergílio Ferreira faz (e sublinho faz, porque os verdadeiros autores são imortais ) parte desse grupo de escritores errantes, oriundos da intimidade e da melancolia, a que pertencem nomes de origem e escolas tão díspares, quanto os de Jorge Luis Borges, Marguerite Yourcenar e/ou - o sempre uno mas diverso - Fernando Pessoa. O comum nestas vozes, entre tantas outras, é a capacidade de (re)dizer o mundo, à parte os lugares concretos. É o mergulho no frémito, no culto das ruínas que nos leva a descobrir o travo da alegria das coisas, sobretudo as de maior dor.

- E agora? Estou parado à varanda, dos quatro pontos cardeais, para sempre, dependente de uma renovada leitura...

Gabriela Rocha Martins

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