Fundo da Página

O figo, venerado e esquecido

A figueira é originária do Oriente e foi espalhada por todo o planeta, mas muito em especial por toda a bacia do Mediterrâneo. É das mais antigas culturas conhecidas e referenciadas em documentos como a citação na Bíblia no Antigo Testamento e o seu fruto, o figo, era muito apreciado.

A figueira, é bom que não nos esqueçamos, foi amaldiçoada por Cristo, que a considerou representação da esterilidade e infidelidade do povo eleito e, convém recordar que Judas, o traidor, se enforcou numa figueira.

No entanto, os Helénicos não eram da mesma opinião, uma vez que o figo fazia parte da dieta dos atletas que participavam nos Jogos Olímpicos e tanto poetas como filósofos da velha Grécia não foram parcos em elogiar esse fruto, considerado entre todos o mais sensual.

Por outro lado, em Roma, o figo tinha variadíssimas e opostas aplicações, dado que era utilizado na culinária para a confecção de bolos, na medicina para curar úlceras, problemas do foro sexual e doenças de pele.

De salientar ainda, que os romanos os comiam com presunto cozido e os usavam para engordar gansos, os Fenícios comiam-nos secos, durante as viagens por mar, e, sem dúvida, contribuíram para a sua difusão e os Coríntios, astuciosamente, misturavam os figos mais baratos com passas e vendiam-nos para Veneza, ao que se deve a expressão �meio figo, meio passa�.

Há certos frutos que embora sendo de todo o País nos fazem lembrar certa região. Está neste caso o figo, que traz sempre à nossa lembrança o Algarve.

Aqui, no nosso Algarve, a variedade de figueira mais apreciada e estimada é a que dá figos euxário, oblongos, negros de pele e de polpa carnuda e amarelada, mas que para amadurecerem precisam de ser visitados por um pequenino insecto de dois milímetros de comprimento, o Blas-tophaga psenes L., visita essa que não é mais do que uma polinização entomófila e que, na figueira, se chama caprificação. Colhem-se em Junho os figos da figueira brava (baforeira ou de toque), que nessa época contêm os ovos do insecto, e penduram-se em enfiadas (colares) aos dois e três nas figueiras a caprificar. No fim de Junho, os insectos saem em estado perfeito (adultos) dos figos de toque que vão visitar os figos da figueira euxário, que assim amadurecem no mês de Agosto. Este interessante processo foi conhecido pelos antigos e ainda hoje é aplicado no Oriente, Grécia, Nápoles, Malta e Almeria.

Para além da qualidade dos figos algarvios, é nesta região que os seus naturais criam, como autênticas obras de arte e paladar, as estrelas de figo (com amêndoas como raios) e os figos cheios (recheados com pedacinhos de amêndoa, açúcar e chocolate).

Umas e outras utilizam o figo seco, que depois de preparado é torrado no forno. Com o figo esmagado fazem-se os saborosos queijos de figo (massa de figo, amêndoa moída, chocolate, açúcar e alguns condimentos que a doceira conhece e que, em seguida é consolidado pelo calor e moldado em formas diversas).

Porém, por outro lado, quando falamos em figos vêm logo à nossa memória os pregões alfacinhas, quando ainda as ruas de Lisboa eram animadas por gentes que vinham de longe e dos arredores com o fito de venderem os seus produtos.

Ao percorrer essa Lisboa, já lá vão muitos anos, por vielas e calçadas ouvia-se a voz jovem dos saloios e das saloias apregoando: �Quem quer figos, quem quer almoçar�, ou então �Olha o figuinho de capa rota�.

O figo fresco é bastante energético (80 calorias por 100 gramas), rico em glícidos, em potássio e em vitaminas (A, B e C); maduro, apresenta pequenas gretas superficiais e resiste pouco à pressão do dedo, mas não deve estar mole demais.

A ponta rija é um bom indicador de que se trata de fruta fresca.

Os figos roxos, de pele grossa, podem acompanhar carne de porco, pato e coelho primeiro cozidos no forno, depois apurados durante alguns minutos em molho de carne.

De referir, ainda, que o fruto também serve para confeccionar a deliciosa fruta cristalizada que dá um toque muito especial ao bolo-rei e diversas bebidas fermentadas, nomeadamente a bukhc Tunisina.

Em 1887, a região algarvia produzia 14 000 toneladas de figo, cuja produção ocupava 25 295 ha de terra agrícola e milhares de postos de trabalho. O porto de Portimão era o principal meio de exportar estes figos secos seguindo-se os portos de Faro e Lagos. Em 1901, existiam cerca de milhão e meio de figueiras no Algarve, sendo 3/4 da produção para exportar.

Mas este já não é o panorama que se nos afigura hoje. Este já não é o seu tempo. Das 14 000 toneladas algarvias do princípio do século, a produção cai para as 2000 toneladas em 1975 e 1000 toneladas em 1983. Dos 24 295 ha de terra para a figueira, passa-se para os 8000 ha em 1983, queda essa que se acentua neste final de século com a construção e desenvolvimento turísticos.

A figueira encontra-se hoje quase totalmente negligenciada pelos poderes públicos e votada ao abandono.

Triste fim...

Avantino Moreira

Topo da página


� � �   Anterior       Índice       Seguinte   � � �

This page hosted by Get your own Free Home Page

Hosted by www.Geocities.ws

1