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Fruir a Cidade

- Passa! Passa! Estou aqui sozinho.
- Chuta agora!
- Golo!

Era a algazarra da miudagem na "nova baixa" da cidade, a nova zona das lojas, com calçada portuguesa e sem trânsito automóvel. Apesar do cenário, com um ar mais condizente com os tempos modernos, os miúdos parecem ser sempre os mesmos e continuam a ameaçar as mesmas montras e a reagir da mesma forma aos que lhes apontam os perigos ou criticam a sua actividade.

Sinto-me naquela idade e viajo já no tempo, recuando até ao quintalão do Vasconcelos, logo a seguir ao Correio, e aos meus jogos de futebol ou às experiências de cinema com uma lâmpada cheia de água e uma lanterna, projectando as "fitas", que comprávamos ao Domingos Baião na fábrica dos pirolitos. Essas "fitas" eram bocados de sonho dos filmes que tínhamos visto no Teatro Mascarenhas Gregório, o "Cinema", ou na Esplanada do Jardim ou, ainda mais tarde, no barracão do Mariani.

Hoje já não há o quintalão do Vasconcelos, há blocos de apartamentos; já não se projectam filmes tão rudimentares, pois a imaginação é povoada pela televisão, pelo vídeo ou pelos computadores; ler também é fastidioso, a não ser que sejam só imagens.

Voltemos a futebol, que não se cingia ao quintalão do Vasconcelos. Esse era o "estádio" da minha equipa, a dos Correios. Havia ainda os "estádios" da Cerca da Feira, do Jardim, da Mata, do Cinema e até o do Silves Futebol Clube, alugado às fatias transversais ao Sr. Chico ou à Sra. Perpétua, os roupeiros daquela época. Mas onde eu gostava de ir jogar futebol era ao Cinema, isto é, à rua Cândido dos Reis, ali mesmo em plena rua. Eu confesso. Até nem era pelo futebol. Sou mais destas coisas de pensar e imaginar. A minha intenção era penetrar nos segredos do edifício do cinema ou simplesmente sentar-me na rua, quando me cansava de jogar, e ficar a ver aquela fila de prédios tão iguais e tão diferentes, quase cada um de sua cor, harmoniosamente confluindo, até perder de vista, esbatendo-se nos muros das fábricas, lá ao fundo. Era quase um caleidoscópio. Brincava com os olhos, fechando um pouco, abrindo depois, esfregando-os para entrever a rua com a vista coada pelas lágrimas. Aquela rua era mesmo diferente de todas as outras!

E os arredores!?

A fonte férrea e a ribeira do Enxerim ou então a Ilha da Sra. do Rosário e o Moinho do Valentim, para a pesca do caranguejo e umas banhocas refrescantes. Mas inesquecível é mesmo a Levada. Aí o rio corria limpo desde a serra, sem influência marcante das marés, salobras. A água corria por montes e vales ainda sem fosfatos ou venenos para a mosca, o escaravelho, a borboleta, a formiga, ... A água era mesmo límpida ali, na Levada, junto ao Pego da Nogueira e as tardes de Verão eram longas e quentes, e convinha deixar secar as cuecas, não fosse a mãe descobrir onde passáramos a tarde.

Ainda hoje fruo a minha cidade. Passeio por ela amiudadamente. Visito o rio praticamente todos os dias. Desfruto os seus largos, os seus recantos, os seus jardins, as suas ruas, os seus edifícios. Há coisas de que gosto, outras de que nem tanto, mas que não são graves, e até há outras pessoas que apreciam, mas abomino o desmazelo ou a falta de respeito.

As margens dos rios são domínio público e o seu acesso deve estar garantido. Não é verdade?

Como posso fazer para ir até à Levada ou ao Pego da Nogueira? Saltando muros ou cancelas? Enfrentando cães? Arriscando um desaguisado com o suposto proprietário? Aqui está um assunto que deve ser corrigido sob pena dos ditos proprietários aparecerem para aí a reivindicar direitos, porque ninguém usa os caminhos, que já vedaram, há mais de não sei quantos anos.

- "Mas quando quiser pode pedir licença que não levanto problemas?" Terei que pedir licença para passar num caminho que me pertence por direito?

Será que poderemos voltar a passear junto ao rio, a montante da ponte nova? Quando será isso?

A Rua Cândido dos Reis está considerada como de interesse arquitectónico no Plano Director Municipal. Por alturas do 25 de Abril foi permitida a construção de um edifício que não deveria servir de exemplo a nada nem a ninguém, pois é um autêntico atentado ao bom gosto e à harmonia de uma das mais belas e características ruas de Silves. Esta rua é um valioso património da Silves corticeira, de uma das mais importantes épocas da nossa cidade. Os atentados arquitectónicos que ali se produzirem, e a que a rua está sujeita por ausência de um plano de pormenor, serão irreversíveis.

O cuidado que vários proprietários da rua já demonstraram em algumas intervenções que ali tiveram lugar e o louvável restauro da Fábrica do Inglês não foram usados como exemplo para o edifício que se começa a erguer ao lado do tal prédio a que fiz referência. O mau exemplo daquele edifício está a servir a edificação de um prédio, bonito ou feio não interessa, mas que não cabe naquela rua sob pena de se provocar um atentado a uma das mais belas e ricas memórias desta cidade.

Será que ainda iremos a tempo de salvar a rua Cândido dos Reis? Haverá bom senso para parar aquela obra?

António Baeta Oliveira

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