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Da sede e outros males

�A cidade de Silves tem cercado,
Cujos campos o bárbaro lavrava.
(...)
..., co'a gente em sede acesa�

                                                        in Os Lusíadas
                                                        Luís de Camões

O que é uma cidade? O que se comemora quando se celebra o dia municipal, dia da cidade e do concelho? Estas interrogações foram tidas em conta, certamente, quando o Concelho de Silves optou por comemorar o dia de 3 de Setembro de 1189 e adoptar esta data como feriado municipal.

� sabido, que a cidade de Silves (apesar de ser nomeada por outros nomes) já existia muitos antes de ter sido conquistada pelos antepassados políticos, religiosos, militares e culturais dos actuais representantes dos poderes nomeados. Em 1189, era, contudo, uma capital muçulmana. Comemora-se, portanto, não a glorificação de uma cidade milenar, mas a primeira conquista dos actuais (e na sua perspectiva eternos) detentores do poder político, económico, religioso e cultural da cidade e do concelho de Silves.

Quando se comemora a conquista de um valor, como é o caso do 25 de Abril associado à liberdade, comemoramos os pilares da construção de uma sociedade, mas quando se comemora a conquista de um bem, comemora-se, na maioria das vezes, o sofrimento dos povos (conquistados e conquistadores), vítimas da sede de poder e de rapina dos vencedores. Será que a cidade de Silves e o seu concelho comemoram no dia 3 de Setembro a sede e outros males? Esta sede eterna que, ainda hoje, afoga a cidade nas areias que conquistaram o rio Arade.

Quando comemoramos o dia 3 de Setembro de 1189, comemoramos o confronto de Silves (altamente deficitário para a cidade) com os guerreiros europeus, vindos do norte, em busca dos tesouros do sul, a caminho da reconquista dos lugares santos e, deste modo, da glorificação da civilização europeia e cristã.

Silves só pode comemorar, nesta data, os valores da civilização europeia e ocidental e não os valores (que provavelmente não estão identificados) da cidade. Porque não é possível comemorar os valores (quaisquer que eles sejam) de uma cidade, quando essa comemoração nos remete para: �a sede, o pior dos males de uma cidade assediada� (História de Portugal, Alexandre Herculano); o incêndio dos navios e das casas das gentes ribeirinhas; a destruição e saque da cidade, das suas riquezas, do seu saber e dos seus templos religiosos; as violações das almas e dos corpos e a morte das gentes e dos animais.

Se comemorar Silves é sinónimo da glorificação da civilização ocidental, então esta data é a ideal, dado que em 3 de Setembro de 1189 os antepassados directos da União Europeia passaram por aqui, mas se pretendermos homenagear a cidade, devemos mudar de data, evitando o risco de comemorarmos a sede e outros males.

António Manuel Guerreiro

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