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Entrelaçando a vida, o amor, o saber, a cultura, a liberdade, a religião e a morte construímos o tecido das nossas vidas. Em O Tecido do Outono, António Alçada Baptista dá-nos a conhecer, na companhia das mulheres que amou, os fios do tecido da sua vida entre os trinta e os setenta anos. Contudo, as imagens do passado do autor são reconstruídas pelo olhar presente, transfigurando, em cada momento, o padrão e a textura do próprio tecido. Alçada Baptista confessa-nos que quanto está com "um ataque agudo de razão" sente que não é mais do que "uma acumulação de experiências, de conhecimento, de recordações individuais e colectivas unidas pelo fio da memória" (p. 16). Esta interessante visão do ser contrasta com as restantes abordagens religiosas e existenciais neste romance. Contudo, ao longo da leitura, a religião, o amor e o ser ganham uma nova dimensão: são um caminho constantemente construído e não um destino. O escritor caracteriza o lamento dos portugueses, com imensa piada, ao descrever a história do velho juiz que, completamente surdo, continuava a frequentar cafés e tertúlias. Ao questioná-lo sobre a forma como entrava nas conversas, o juiz dizia-lhe: "É muito fácil. Eles falam, falam, eu não os percebo, mas digo-lhes sempre: "Ó homem, não faça caso, deixe lá, não faça caso...". É que eles estão-se sempre a queixar!" (p.81). Terá este lamento, com características messiânicas, dos portugueses ensurdecido os poderes e transformado a sociedade numa entidade sem rostos e sem calor? Estaremos destinados a nos transformarmos num "depósito de palavras que deviam ter sido ditas e que não dissemos porque não tivemos ninguém para as ouvir" (p.159)? Este romance, que faz do envelhecer uma arte, é uma leitura obrigatória para todos os seres humanos que não têm medo de envelhecer. António Alçada Baptista António Alçada Baptista nasceu na Covilhã, a 29 de Janeiro de 1927. Fez os estudos básicos e secundários com os Padres Jesuítas, em Santo Tirso, e licenciou-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, em 1950. Antes do 25 de Abril dirigiu a Livraria Moraes Editora, de 1957 a 1972 e fundou a revista O Tempo e o Modo, que também dirigiu de 1963 a 1969. Amigo de Marcelo Caetano, foi candidato a deputado pelo distrito de Castelo Branco, em 1961 e 1969, e adido cultural de Portugal no Brasil. Após o 25 de Abril, dirigiu jornais (O Dia, Edição Especial) e colaborou assiduamente noutros jornais (A Capital, Semanário, Jornal do Brasil), na televisão e na Rádio Comercial. Foi presidente do Instituto Português do Livro e agraciado, pelos relevantes serviços prestados à cultura, por vários galardões, dos quais se destacam o da Ordem Militar de Cristo, em 1983, e a Grã-Cruz da Ordem do Infante, em 1995.
Bibliografia
- Documentos Políticos, 1970
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