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O verdadeiro cavaleiro

Santarém, Novembro de 1989, Escola Prática de Cavalaria (EPC). Fui chamado ao gabinete do Tenente Coronel Salgueiro Maia (esse mesmo, um dos capitães de Abril). Dirigi-me para o seu gabinete com algum nervosismo e bastante curiosidade. Ainda me recordo da primeira troca de palavras:

� Meu Tenente Coronel, dá licença?

� Aspirante Marques, você é arquitecto, não é?!

� Não, meu Tenente Coronel, estou a estudar "design".

� É o mesmo. A Cavalaria vai comemorar cem anos. � preciso organizar uma exposição sobre materias de instrução militar e fazer o inventário do museu, no âmbito das comemorações.

Não que ele não soubesse a diferença entre um arquitecto e um "designer". Não era isso que estava em discussão, mas sim a possibilidade de se fazer a exposição. Comecei, desde logo, a sentir o lado prático deste homem.

� Venha comigo! - disse ele - Vamos ver os espaços e o Museu, para poder começar já a trabalhar.

Foi a partir daqui que, durante um ano, estive a trabalhar com Salgueiro Maia.

Claro que era motivo de orgulho poder conviver com o homem, que eu já admirava por questões históricas. Compreendi porque é que este homem teve um dos principais papéis no desfecho do 25 de Abril de 1974 e comecei a sentir nesse momento que, de alguma forma, mudaria a minha vida.

Era um homem de voz forte, sério nas expressões, mas extremamente humano na sua relação com as pessoas. Conseguia mobilizar, cativar e envolver-nos facilmente nos seus projectos. Comentava-se que ele era o "Comandante da EPC"; a sua presença sentia-se no ar. Era, também, o Relações Públicas do Quartel.

Nunca falou, nem eu lhe perguntei, sobre o 25 de Abril.

Em alguns momentos, senti que podia reconstruir, através da sua presença, os acontecimentos do 25 de Abril. Era com extrema clareza que associava a sua presença a esses momentos. Salgueiro Maia planeou a operação sobre um mapa turístico de Lisboa. Saiu de Santarém na noite do dia 24 de Abril de 1974, após a radiodifusão de músicas, como "E depois do adeus", "Grândola Vila Morena" e outras, que ficaram ligadas a esta data. Depois de receber instruções do Major Otelo, comandou a coluna militar até ao Terreiro do Paço, onde cercou os Ministérios e mais tarde o Quartel do Carmo, onde se havia refugiado Marcelo Caetano. Este foi um dos episódios mais marcantes e de maior tensão que Salgueiro Maia soube conduzir com extrema calma, firmeza, e determinação.

E foi este homem que, horas mais tarde, ao som do megafone disse:

��peço o favor de retirarem da zona, para podermos reunir as forças, organizar a coluna e terão muitas oportunidades para vitoriar��.

E saiu de "cena", para travar várias lutas, pois pagou o preço de quem quebra a hierarquia militar (o que o deixou de fora na corrida por um lugar mais alto). A maior luta de todas, a sua doença, começa a declarar-se em 1989/90. Começam, então, as idas às "Consultas Externas".

Veio a falecer no ínicio de Abril, o mês que marcou a sua vida. Quarenta e oito anos de existência (tantos quantos durou o regime que ajudou a derrubar) chegaram-lhe para se tornar imortal nas nossas memórias, na nossa história.

Esta é a minha pequena homenagem a um homem simples, que contribuiu, com certeza, para a minha forma de pensar sobre aqueles que agem sem se preocuparem com a sua ambição pessoal.

Carlos Marques
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