Fundo da Página

Os Passos dos meus passos

(Alcantarilha e Silves)

As procissões dos Passos, até cerca dos meus dez anos de idade, surgem-me à mente de duas formas diferentes. Não consigo restabelecer qual das duas formas é a mais antiga, qual a que me faz evocar os mais remotos sentimentos, mas são perfeitamente distintas as imagens e as sensações que cada uma delas me desperta.

Em Alcantarilha, onde vivia com os meus pais, o Prior Montes, acolitado pelo Zézinho Sacristão, permitia-nos penetrar em zonas que não nos eram facultadas noutras épocas do ano. Toda aquela malta pequenina, da minha idade, tinha acesso ao mundo da descoberta e da aventura do que ficava por detrás dos altares, por detrás dos santos, por detrás do que habitualmente só nos era permitido ver pela frente. Era um mundo misterioso e não era sem receio que nos aventurávamos pelo corredor que saía da sacristia e conduzia às traseiras da capela-mor ou até mesmo, para os mais afoitos, ao sótão sob o telhado. Em arcas e outras caixas de madeira eram preservados dos olhares indiscretos da criançada as coroas de espinhos, as lanças com esponjas, supostamente cheias de vinagre, os martelos que teriam pregado os pés e as mãos do Senhor, as escadas que ajudariam a retirar Cristo da cruz , as cordas que, à volta da cintura, apertariam as pequeninas túnicas roxas que iríamos envergar naquela procissão do Senhor dos Passos.

Em Silves recordo a alegria de um fim-de-semana diferente. As minhas tias possuíam, no rés-do-chão das "Casas Grandes", frente à ponte, uma mercearia e uma casa de pasto. Dormir em Silves era sair da nossa casa e dos nossos quartos habituais e pernoitarmos em casa das minhas tias no "quarto grande", onde dormíamos todos; eu e os meus irmãos em colchões improvisados no chão.

Na manhã de Domingo era a azáfama da chegada das freguesas que vinham dos mais remotos lugares da freguesia: do Poço Barreto, da Vala, do Vale da Vila, da Horta da Ribeira, dos Bastos, eu sei lá....

- Menina Bia! Menina Beatriz! Menina Laura! Podemos deixar aqui as coisas?

As "coisas" eram os sapatos velhos que calcorreavam os poeirentos caminhos até chegar a Silves ou a roupa que se trocava por outra mais nova, mais lavada e mais condizente com a solenidade da festa dos Senhor dos Passos.

Depois eram as amêndoas da Páscoa e os miúdos das freguesas lambuzados pelas amêndoas de cinco tostões (umas amêndoas grandes, que mal cabiam naquelas bocas pequeninas), até chegar a nossa vez de ficarmos também assim, bem lambuzados.

Chegava a hora dos preparativos do Passo do Francisco António. Era assim conhecido o do meu avô. O carregar e montar o altar, as toalhas e os paramentos, as velas, as flores e o vestir das nossas indumentárias: de anjinho para a minha irmã e de São Luís para mim, as que recordo melhor.

A procissão dessa altura, ainda não havia avenida junto ao rio, vinha até ao Largo onde hoje se situa o Mercado Municipal e encaminhava-se para o Largo Coronel Figueiredo, junto à ponte repleta de gente, anunciada pelos vizinhos do outro lado da rua, com casas mesmo sobre o rio, o Zé Vicente, ou da outra esquina em frente, a Aurora Pombo. A procissão, longa e silenciosa, aqui ou além pontuada pelo rufar de um tambor, aguardava, antes de entrar na rua Mouzinho de Albuquerque, que o padre, sob o pálio, acompanhado por um grupo de músicos, se dirigisse ao Passo do meu avô e aí se desempenhasse a cerimónia de uma passagem da Paixão, numa toada musical triste, dramática e angustiante, como a que voltei a recordar nestes Passos do ano 2000.

Incorporados no cortejo seguíamos então até à Sé.

Quão diferente era esta Igreja daquela outra de Alcantarilha!

Aqui já não era a aventura e o mistério da descoberta do que fica por detrás das coisas, era o esmagamento da dimensão, da grandiosidade de uma Sé que fora episcopal, da minha identificação com os que neste mesmo lugar me antecederam, de um orgulho silvense que de pequenino começou a despertar em mim e que me fazia acreditar na frase tantas vezes ouvida e repetida: "Passos em Silves; Semana Santa em Sevilha".

Hoje a religiosidade tem uma prática mais íntima, não vive da exterioridade das procissões, mas a tradição religiosa ainda exige estas evocações solenes dos passos da vida de Cristo. A procissão do enterro do Senhor, à noite, no centro histórico desta cidade de Silves, com as matracas ressoando sob o arco do Torreão da Almedina, anunciando as opas escuras, as velas tremeluzentes, os quadros, tombados, da Igreja da Misericórdia, a tumba do Senhor, num ambiente de tom medieval, ou ainda a procissão da manhã do Domingo de Páscoa, florida, recebida entre janelas alindadas por colchas multicores, com os vestidos novos das raparigas ainda mais bonitas, são ainda uma atracção que a todo o custo evito perder.

A Semana Santa de Sevilha é um dos maiores cartazes turísticos de Espanha. Apesar de turística, é uma manifestação religiosa e respeitada como tal. Fico a pensar, às vezes, quando se fala em turismo cultural e em turismo de qualidade, do belo cartaz turístico que seria a Semana Santa em Silves, numa época que, de ano para ano, atrai um maior número de turistas nacionais e estrangeiros.

António Baeta Oliveira
Topo da página


� � �   Anterior       Índice       Seguinte   � � �

This page hosted by Get your own Free Home Page

Hosted by www.Geocities.ws

1