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Entrevista com o Director Regional de Agricultura

Silves, capital da citricultura

A Quinta do Camacho, antigo Viveiro Municipal, na cidade de Silves, vai transformar-se na sede do Centro Tecnológico de Citricultura. O GRÉS entrevistou o Director Regional de Agricultura do Algarve, Dr. João Ferreira e dá a conhecer aos citricultores do concelho de Silves e demais interessados os projectos deste novo Centro Tecnológico.

O GRÉS - Como surgiu a ideia da constituição do Centro Tecnológico de Citricultura?

Dr. João Ferreira - É uma reivindicação antiga do Algarve dispor de uma estrutura de investigação e experimentação ligada à citricultura. O governo anterior decidiu aceitar o desafio de promover a ideia de criar no Algarve uma Estação Nacional de Citricultura. Avaliadas as actuais condições económicas e sociais e as características das estações nacionais (que são organismos da Administração Pública, que nem sempre respondem com celeridade, com objectividade aos problemas), entendeu-se optar pela criação do Centro Tecnológico de Citricultura no Algarve (CTC).

G - Porquê no Algarve?

J. F. - Porque o Algarve tem a maior área citrícola nacional, cerca de 18 mil hectares, num total de 24 mil. Era no Algarve que os citricultores, as organizações de produtores, a sociedade civil, mais exigia a presença desta estrutura. Este Centro Tecnológico permitirá conciliar a flexibilidade e ligeireza destas estruturas com uma actuação adequada a responder com rapidez às exigências e ao ritmo da própria sociedade. Foi neste sentido que se criou o CTC, associação privada sem fins lucrativos, em que foi possível reunir no Algarve cerca de 50 associados.

G - Quais as entidades que assumiram este projecto?

J. F. - A Universidade do Algarve, todas as organizações de produtores de citrinos do Algarve, todas as indústrias de sumos do Algarve, várias câmaras municipais, caixas de crédito agrícola, associações de produção integrada, associações ligadas ao sector agrícola, cooperativas, a própria distribuição.

G - Quais são os objectivos deste centro?

J. F. - Estas entidades têm três objectivos para este centro: um primeiro objectivo está associado à investigação e experimentação relacionada com a citricultura; um segundo objectivo está relacionado com o papel de apoio técnico, de apoio à gestão e de apoio à produção, à indústria e à distribuição, em termos de informação e o terceiro objectivo é a comercialização dos citrinos. Um dos aspectos que o CTC irá tratar é o desenvolvimento de um programa de promoção e "marketing" dos citrinos, quer a nível nacional quer a nível internacional.

G - A decisão sobre a localização deste centro, em Silves, foi pacífica?

J. F. - Todas as decisões têm sido tomadas no CTC por unanimidade, o que não invalida que não tenha sido objecto de discussão a decisão de instalar a sede na cidade de Silves, no Concelho de Silves. As vantagens de Silves, em relação a outros concelhos, pareceram-nos tão evidentes e tão substanciais que, de facto, para tomar a decisão não houve qualquer dúvida. O Concelho de Silves é o maior concelho citrícola do país. É, no Algarve, o concelho que tem, comparativamente, o maior número de unidades de organizações de produtores, que na sua área geográfica tem o maior número de associações de produção integrada. Por outro lado, o concelho de Silves tem sediada a maior unidade industrial de transformação de citrinos. Para além disso, o Algarve tem tido um processo de desenvolvimento muito colocado sobre o litoral; os concelhos mais do interior têm sido um pouco arredados dos investimentos em equipamentos e em estruturas de âmbito regional ou nacional. Logo, foi nossa intenção que a localização do Centro Tecnológico no concelho de Silves fosse um acto justo, legal e valorizasse um dos concelhos mais do interior. Entendeu-se ser em Silves, porque a Câmara Municipal teve a visão de ceder um espaço, a Quinta do Camacho, para começar a funcionar o centro. A Câmara Municipal de Silves deu um contributo decisivo para o nosso trabalho, na medida que era propósito do Ministério da Agricultura que um centro tecnológico desta natureza tivesse uma autonomia, uma independência, mesmo física, da Direcção Regional. Ficou deliberado que a sede seria em Silves mas quando for oportuno será decidida a criação de pólos e Tavira coloca-se como um potencial interessado em vir a instalar um Pólo do Centro Tecnológico de Citricultura.

G - Na Quinta do Camacho, cedida pela Câmara Municipal de Silves, haverá construção de novas infra-estruturas?

J. F. - Para já, o que a Câmara Municipal de Silves disponibiliza é a Quinta do Camacho, no seu todo, através de um contrato de comodato. Para, imediatamente, se funcionar vai utilizar-se, segundo informação da Sra. Presidente, aquele edifício de construção em terra, mas, logo que celebrado o contrato de comodato, a Câmara iniciará as obras nos restantes edifícios.

G - Como já referiu, um dos objectivos do Centro de Citricultura do Algarve é a promoção dos citrinos. Essa promoção vai apostar na colocação do produto em diferentes mercados e na denominação de origem da laranja algarvia?

J. F. - Quando se fala na promoção e "marketing" para valorizar, basicamente, os citrinos do Algarve é porque os citrinos do Algarve têm uma indicação geográfica protegida. Claro, que estas acções de promoção e "marketing" visarão todo e qualquer mercado que tenha potencialidade para consumir citrinos.

G - Como perspectiva a colocação da produção nos diferentes mercados?

J. F. - Para tornar mais efectiva essa linha de acção será necessário que os citricultores saibam que só as organizações de produtores poderão viabilizar a venda dos seus citrinos, melhorando ou mantendo algum preço que seja compensador. Caso contrário, torna-se muito difícil, porque quem negoceia com a grande distribuição, sabe perfeitamente que pretendem quantidades, qualidade e uma regularidade de abastecimento. Se atendermos que o nosso pomar se caracteriza por pequenas unidades de produção de citrinos, só a sua organização poderá contribuir decisivamente para que este sector da produção citrícola seja viável e tenha futuro. Se nós conseguirmos que os citricultores se organizem e que passem a falar a uma só voz por uma área significativa de produção, é possível planificar a fruta que vai para a indústria, a fruta paga, que vai para os bancos alimentares contra a fome e aquela muito boa fruta que vai para o mercado. A Direcção Regional está disponível para apoiar todos os citricultores que queiram organizar-se.

G - Além do apoio em relação à distribuição e comercialização, o CTC irá dar apoio técnico aos produtores de citrinos?

J. F. - Se as organizações de produtores de primeiro grau não responderem com eficácia e eficiência às necessidades de apoio técnico e de apoio à gestão aos citricultores, obviamente que pode ser uma linha estratégica do Centro Tecnológico. Também pode e deve prestar apoio a nível de formação, inclusivé aos técnicos existentes nas diferentes organizações de produtores.

G - Apesar deste centro ser de âmbito nacional, existirá por parte da Direcção Regional de Agricultura do Algarve alguma delegação de competências na área dos citrinos?

J. F. - Queremos um Centro Tecnológico autónomo e independente. A Direcção Regional, tendo a maior parte do capital social, não quer transformar o Centro numa outra Direcção Regional, num outro organismo público. As orientações que há do ministério é que o Centro Tecnológico saiba com a produção, com a comercialização, com a distribuição e com a indústria encontrar os caminhos para dar resposta aos problemas. É propósito da Direcção Regional fazer algumas transferências graduais, quer dos conhecimentos quer de alguns projectos que estão em curso.

G - O CTC será a face visível, em termos de actuação dos organismos sectoriais, para o futuro?

J. F. - Queremos que haja uma separação clara entre o que é a Direcção Regional e aquilo que é o Centro Tecnológico. Por isso é que se chamou à participação toda a gente que quis. Da nossa parte não existe e penso que nunca irá existir a pretensão de tutelar o Centro Tecnológico.

G - Porque é que o CTC é uma mais valia para o Concelho de Silves?

J. F. - O Centro Tecnológico é sempre uma mais valia para qualquer concelho ou cidade onde se venha a instalar. Além disso, o centro vai ter um corpo técnico, alguns funcionários administrativos, vai gerar emprego. Se for desenvolvida uma tecnologia de combate à mosca mediterrânica, este Centro Tecnológico terá uma preponderância na instalação de uma biofábrica ligada à citricultura. Para que o Centro Tecnológico seja uma mais valia, temos que trabalhar, dar contributos intelectuais e de esforço e agarrar este movimento de quem quer apoiar o Concelho de Silves.

António Guerreiro
Carlos Albano

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