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Silves conjuga-se em tempo de Outono

Para mim, Silves é tempo de Escola e de Outono.

As minhas mais remotas memórias dos primeiros tempos da minha adolescência, quando já me começo a reconhecer como um rapazinho, têm o cheiro da terra molhada após as primeiras chuvas, o aroma da azeitona a caminho do lagar, os odores da castanha assada ou do óleo das "farturas", envolvidos no bulício e nas novidades da Feira de Todos-os-Santos, o prazer de ficar na rua a brincar e ser surpreendido pela noite, que chega mais depressa, a magia do acender da iluminacão pública... tudo como se o tempo parasse, se suspendesse e eu me quedasse num limbo, numa outra dimensão. Evoco, também, a alteração do ritmo da cidade.

A quietude e a pasmaceira do tórrido Verão, cedia então lugar ao bulício e à animação de gente jovem, rapazes e raparigas, encaminhando--se para a Escola, vindos das bandas do rio e da ponte velha, em algazarra esfuziante.

E esta cidade, que vira sucumbir uma próspera indústria corticeira, com uma economia incapaz de gerar trabalho, os olhos postos no regadio que a Barragem haveria de trazer, animava com o início da Escola. Era a Escola Técnica, a criar empregados para os bancos, para as instituições públicas, para os mais variados serviços, para as grandes empresas metalúrgicas e siderúrgicas, que a grande metrópole lisboeta absorveria.

Os alunos eram oriundos dos mais distantes e variados lugares do nosso concelho, de São Marcos a Armação, e vinham ainda, em grande número, de Portimão, de Lagos, de Albufeira e até das zonas fronteiriças do Alentejo.

Estes estudantes alimentavam todo um comércio ligado à prestação de pequenos serviços, como almoços, lanches, material de papelaria, divertimentos, quartos para os de mais longe.

A cidade foi vivendo nesta quietude morna, vendo os seus fllhos partir à procura de melhores dias e melhor vida, porque aqui, em Silves, havia trabalho para poucos.

Passou quase um século sobre a criação da então chamada Escola Elementar de Comércio e Indústria (1920) que, as sucessivas reformas educativas foram chamando de Escola Comercial e Industrial, Escola Polivalente, Escola Técnica e, actualmente, Escola Secundária, que ainda mantém alguma influência entre os alunos mais velhos, mas agora confinando o seu raio de acção aos limites do concelho. Parece que novos horizontes se começam a abrir.

Embora o desassoreamento do rio Arade continue como uma miragem apetecida, apresentam pisos mais convidativos e um ar mais de acordo com os novos tempos, as várias vias de acesso á cidade; alinda-se a beira-rio, com espaços ajardinados e largos passeios; inicia-se a construção do Largo que irá substituir o que já fora ruína de velhas fábricas, e foi por longos anos a vergonha que oferecíamos como sala de visitas a quem por aqui passava; surge um Hotel a fixar turistas; as ruas de comércio estão mais atraentes, com novos arruamentos e outras intervenções que se projectam para breve (PROCOM); novos bairros e novas construções prometem-se, na periferia; a Fábrica do Inglês regista no escasso espaco de três meses, o elevado número de 300 mil visitantes; reabilita-se a memória do nosso passado com a construção do Museu Municipal de Arqueologia e agora do Museu da Cortiça e seu Centro de Documentação, e tem já projecto para a sua sede o Centro de Estudos Luso-Árabes (CELAS), ligado à Universidade do Algarve; está já de pé uma Escola Profissional e erguem-se as paredes de um centro de ensino superior, o Instituto Piaget.

De entre todos os empreendimentos e benfeitorias com potencialidades para gerar perspectivas de progresso económico e social, há a destacar a nova Escola - o Instituto Piaget -, que a curto prazo acrescentará a Silves uma população escolar da ordem dos 2500 alunos, a solicitar apartamentos, restaurantes, bares, lojas e toda uma rede de prestação de serviços.

Já pouco cheira a terra molhada, o alcatrão não a deixa respirar, desapareceu o aroma da azeitona e seus lagares, vão-se diluindo os odores da castanha assada e das "farturas" e a Feira já não traz novidades, mas é de novo a Escola a dar ânimo, ou a reflectir a chegada de um novo ciclo de vida para a nossa cidade. O nosso próximo Outono despertará na esperança de melhores dias.

* Escrevi estas linhas no passado Outono. Aproximamo-nos agora, a passos largos, de mais uma Primavera, esquecendo já os rigores de um Inverno que teima em não ir embora e que parece ter congelado as minhas melhores expectativas: o Largo das Finanças, agora de Al-Mu'tamid, só mudou de nome, o Instituto Piaget não abriu as suas portas, o CELAS e o PROCOM continuam no papel. Será que temos mesmo de esperar pelo próximo Outono para despertarmos na esperança de melhores dias?

António Baeta Oliveira
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