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Micail Kulic* era Engenheiro Mecânico na sua terra natal, Zhitomin, uma cidade a 100 km de Kiev, na Ucrânia. Desenhava peças de autocarro numa fábrica, que entretanto fechou. �Não há trabalho, não há salários, não há vida. Quando há trabalho não há dinheiro�, diz. Como Micail, há dezenas de outros trabalhadores provenientes de países do Leste europeu, África e do Brasil (a grande maioria dos imigrantes clandestinos que entram em Portugal vêm deste país, segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras -SEF) a trabalhar no Algarve, mais precisamente no nosso concelho. Ocupam-se nas mais diversas tarefas e profissões, desde a construcção civil, à hotelaria, à agricultura, a qualquer actividade que lhes garanta aquilo que não têm nas suas pátrias: meios de subsistência. A maioria destes homens provenientes do Leste têm habilitações superiores, normalmente licenciaturas nos mais diversos ramos, como acontece com Micail e com Nicolai*, um Russo, de Rostov, que tem o diploma de Engenheiro Civil e um pequeno curso de carpintaria. Está em Portugal há cinco meses e há cerca de um mês e meio começou a trabalhar como ajudante de carpinteiro. Já no que toca aos brasileiros e africanos, as coisas não são bem assim, com a famosa excepção dos dentistas. Muitos vêm do Nordeste do Brasil, uma zona extremamente pobre, afectada há mais de vinte anos por uma seca devastadora, que deixou sem recursos uma população que, no interior, subsiste essencialmente da agricultura. Os africanos, marroquinos e argelinos, buscam Portugal como uma porta de entrada para a Europa, sobretudo para os países de expressão francófona, que lhes são mais próximos, uma vez que já foram suas colónias. Os que provêm da África negra já habitualmente buscavam as nossas terras, desde que se deu a descolonização e, nomeadamente, a partir do momento em que se realizaram grandes obras públicas, nas décadas de oitenta e noventa (as auto-estradas, ponte Vasco da Gama, Expo, entre outras) e em que se deu um aumento significativo da construção civil. Todos sentem dificuldades na entrada no país. �Foi muito díficil. Tive visto turístico, para duas semanas, que já acabou há muito tempo e fiquei aqui. Tive muitos problemas na fronteira Portugal/Espanha, por duas vezes, com o serviço de estrangeiros�, constata Miacail num português ainda "a dar os primeiros passos". A maioria, tal como este ucraniano, vem apenas com um visto de turista. Arriscam, até conseguirem um emprego e só depois (e esta situação não é das mais frequentes) tentam legalizar-se. Outros vão ficando até que o SEF os detecte e os expulse do país. Nicolai, no entanto, está numa situação diferente, pois o seu actual patrão é um homem compreensivo e que teve pena deste russo de meia idade, já com três filhos na Universidade, que deixou para trás. Fez-lhe um contrato de trabalho e já foi, por iniciativa própria, à Segurança Social para tentar legalizá-lo. Micail continua ilegal, apesar de já estar em Portugal há 11 meses e de manifestar o desejo de permanecer aqui. Mas nem todos os patrões são como o de Nicolai. A grande maioria vê nestes trabalhadores apenas a oportunidade de obter mão-de-obra barata. Trabalham muitas horas (demasiadas) e ganham pouco. O próprio Sindicato dos Trabalhadores da Construcção Civil tem denunciado nas últimas semanas inúmeras situações destas, chegando a apresentar o caso extremo de trabalhadores que ganham cerca de 40$00 por hora, o que por dia ronda os 300$00. Se tivéssemos que traçar um perfil de um imigrante clandestino tipo poderíamos dizer que seria um homem na casa dos vinte - trinta anos, com família no país de origem e que tem o desejo de regressar. A maioria vive em quartos alugados, que partilha com outros nas mesmas circunstâncias. Tentam economizar o máximo possivel para enviar para as famílias, como é o caso de Nicolai, que, apesar de ganhar o salário mínimo nacional (67 300$00) e pagar o seu alojamento e alimentação, ainda manda todos os meses dinheiro para os filhos que estão a estudar na Rússia. Todos os anos, são expulsos de Portugal cerca de 4 mil estrangeiros e muitos mais (provavelmente outros tantos, de acordo com o SEF) estarão em condições de também serem expulsos. Apesar disso, aqueles com quem O GRÉS falou são unânimes em afirmar que gostam do nosso país e das nossas gentes. �Estive em muitos países da Europa. Alemanha, Polónia, Roménia, Bulgária, gente toda diferente. Os portugueses, em geral, estão sempre prontos a ajudar, sempre a sorrir. Gosto de viver aqui. Gosto de Portugal. Gente boa, clima bom, muito trabalho�, volta a tentar explicar Micail Kulic, no seu português infantil. Estes homens continuam a enfrentar dificuldades e o desconhecido para poderem ... viver.
Margarida Bôto
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