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Augusto Martins do � de Brito, mais conhecido entre os seus fiéis por Padre Brito, vive em São Bartolomeu de Messines há já oito anos, altura em que assumiu o cargo de Pároco dessa freguesia e da freguesia de São Marcos da Serra. Numa altura em que a Igreja Católica atravessa um tempo de profunda reflexão - o Ano Santo do Jubileu -, com o Papa João Paulo II a pedir a todos os fiéis que sigam o seu exemplo de conversão e arrependimento, para entrar num novo milénio com uma nova força, O GRÉS conversou com este sacerdote, um homem simples e sereno, que tem cativado os jovens da sua paróquia e conquistado o respeito de todos os que o conhecem. O GRÉS - Não sei se o Padre Brito está dentro de todo o pensamento da Igreja do Algarve, porque eu penso que a Igreja algarvia é um caso à parte e pelo que conheço do Sr., está um pouco ao lado dela, que é conservadora, ou está além do conservadorismo e o Sr. Padre parece estar para lá disso tudo, está na "Idade Moderna". O que é que pensa da Igreja nos dias de hoje?
G. - E a Igreja algarvia, em particular? P.B. - Penso que a Igreja algarvia, em particular, estará na vanguarda da Igreja portuguesa. Provavelmente, porque foi a primeira ou das primeiras a ir mesmo ao fundo da crise. A falta de vocações, a descristianização da população, etc... Acho que se adiantou em relação ao resto do país. Julgo que essa fase ainda vai acontecer no norte e, portanto, aqui, tem havido um grande esforço e concretamente o actual Bispo tem feito um esforço de reevangelização e de exigência de seriedade no trabalho da Igreja. G. - Disse há pouco que a Igreja do Algarve foi pioneira. Mas o que é que em termos concretos se fez para enfrentar esses problemas que estão a ser colocados à Igreja Universal? P.B. - Em primeiro lugar e, o principal de tudo, penso que foi uma exigência imposta às pessoas. Nós aceitamos toda a gente, pois é evidente, a Igreja está para servir o povo, de um modo muito particular o povo de Fé, o povo de Deus, mas sabe que a partir, penso eu, da Revolução Industrial, os leigos foram aos poucos e poucos tomando consciência, discutindo uns com os outros e levantando dúvidas e muitos afastaram-se. A Igreja manteve-se, até ao Vaticano II, com uma linguagem morta, a linguagem latina. O povo não acompanhou isso e, portanto, herdámos uma tradição muito boa, muito positiva, mas não entendida pelas gerações modernas: as procissões, as vias sacras, o terço, tudo isso foram formas que a Igreja utilizou em tempos antigos para colmatar a falta de uma linguagem actualizada, falta da linguagem vernácula. A partir da altura em que tudo passa a ser na nossa linguagem, há um desfasamento grande entre a Sagrada Escritura, concretamente a vivência do Evangelho e as práticas das procissões, que não dizem nada à juventude. � folclore!... E, entretanto, a Igreja do Algarve, precisamente, passa a não negar, com certeza, os Sacramentos a ninguém, mas a exigir que quem os recebe tenha uma mínima formação. E nas paróquias onde isso tem sido mais vivido, vemos que aparecem grupos grandes de cristãos, realmente muito mais conscientes. G. - Mas isso ainda não é generalizado... P.B. - Ainda não é generalizado, mas penso que actualmente aqui no Algarve já não se baptiza ninguém "à mangueira", "deitar água por cima, só por deitar água por cima"... E também já não se casa de qualquer maneira! O que acontece muitas vezes, é que o nosso povo não está ainda preparado para isso e, portanto, revolta-se um bocado contra estas exigências e ainda encontra alguns colegas, concretamente noutras Dioceses, que vão fazendo isto. G. - Qual lhe parece dever ser a postura de um Sacerdote nos dias de hoje, perante esses problemas? P.B. - Eu falo por mim! [Ri-se] Eu escolhi para meu lema: "ser cristão entre os cristãos", ser igual aos outros. Agora, admito perfeitamente que existam outras formas de ver e de viver. G. - Mas tenta fazer a diferença entre a Igreja antiga e o que se vive nos dias de hoje?!... Um Sacerdote tem que fazer uma leitura muito actualizada... P.B. - Sem dúvida nenhuma! Por isso não pode fazer uma vida isolada do mundo! G. - Gostaria, se possível, que o Padre Brito me desse uma definição de Pastor. P.B. - Pastor é alguém que está atento ao rebanho, no caso concreto, ao povo que lhe está confiado e que é capaz de fazer o que Jesus fez, ou de tentar fazer o que Jesus fez: viver as alegrias e as tristezas dos seus fiéis. G. - A Igreja tem-se penitenciado ultimamente pelos problemas que aconteceram ao longo da sua existência e mais propriamente, há cerca de um mês, o Papa João Paulo II pediu perdão ao mundo, e particularmente aos Judeus, por aquilo que aconteceu durante a II Guerra Mundial. Como é que vê essa questão: mais como política ou como religiosa? P.B. - Vejo-a como uma questão religiosa e do pouco que consegui "apanhar" dessa visita à Palestina e do relacionamento do Papa, quer com os Judeus, quer com os Palestinianos, senti pena que, realmente, fosse feito um grande aproveitamento político - que tem todo o direito de existir - e que não se seguisse realmente o homem peregrino, que está a tentar aproximar os cristãos, as várias Igrejas cristãs, mas também as outras religiões. Penso que foi uma pena essa parte ficar obscura. Agora, acho que foi bom o Papa reconhecer e dar esse testemunho, concretamente agora, na Quaresma, de reconhecer erros que a Igreja cometeu e com tanta humildade. Acho que foi muito positivo e que é um exemplo para os cristãos se reverem, a nível pessoal, a nível familiar. G. - A Igreja está a atravessar um momento especial, o Jubileu, um Ano Santo. Como é que está viver isso? Qual é a importância para si de um Ano Santo e como é que a Igreja do Algarve tem, este ano, transmitido para fora a imagem de uma Igreja que quer ser mais viva, mais dinâmica? P.B. - Eu já conheci vários Anos Santos e nunca me disseram nada, confesso! Este ano, tem sido feito, pelos Bispos, um esforço grande de preparação. Foi precedido por três anos de preparação e nós temos aqui mesmo ao lado, plantada em frente do Museu João de Deus, uma oliveirinha que assinalou o início da caminhada... Eu ri-me muitas vezes e chamo a atenção das pessoas para isso. Ofereceram-nos um campo para escolher uma oliveira e os jovens foram apanhar aquela, provavelmente porque era a mais fácil de apanhar, não sei! O que eu sei dizer é que foi muito criticada, porque era "velhada" e nunca mais dava, era uma asneira e que aqui merecia uma árvore bonita...
G. - Como é que vê a falta de Sacerdotes na Igreja? Será que isto vai evoluir no sentido de existirem na Igreja Padres homens e mulheres? Será que vai haver falta de Padres por não se deixarem entrar mulheres para o sacerdócio? Como é que vê este assunto? P.B. - Com sinceridade, eu tenho muita dificuldade em ver a mulher como Sacerdote. Penso que, se Jesus Cristo quisesse efectivamente mulheres sacerdotes, ele tinha no grupo que o acompanhou - a começar pela Mãe, por Maria Madalena, etc. -, gente capaz de se colocar ao lado dos Apóstolos. G. - Não podemos esquecer-nos da época em que Cristo viveu... P.B. - Não, não podemos! Eu estou a dizer que também penso que teologicamente é possível. A mulher tem uma sensibilidade diferente da do homem! Por mais que queiram ser iguais - não me interpretem mal! - a mulher e o homem completam-se e felizmente que a mulher não é igual ao homem, nem ele igual à mulher, porque quando se aproximam demasiado há um desiquilíbrio. Penso que Jesus Cristo, no seu Projecto, não teve nos seus horizontes colocar a mulher como sacerdote. Agora, quanto à falta de sacerdotes nos dias de hoje e como ultrapassar a questão... A Igreja tem o que tem. Pois, se a Igreja não está evangelizada, se as pessoas não são capazes de dar os filhos à Igreja, é evidente que não pode haver sacerdotes, mas também penso que se caminha para o surgimento de sacerdotes mais ao serviço do Evangelho, que não vejam na sua vida sacerdotal uma carreira, uma profissão, mas algo de vocacional e de serviço aos outros. G. - � do conhecimento geral, aqui em Messines, que tem um bom relacionamento com os jovens, o que não acontece em todas as paróquias do concelho. Mais ainda, tendo em consideração que já não é muito jovem e estará numa faixa etária média dos restantes párocos algarvios, como é que faz essa aproximação dos jovens? P.B. - Eu tentei aproximar-me deles. Eles tanto vêm aqui às dezenas largas, mais de uma centena, como de repente desaparecem... Os jovens são assim e temos que os aceitar assim e felizmente que são assim... Eles ligam-se muito a alguém que lhes mereça confiança. Eu tentei conquistar-lhes a confiança, tentei organizar encontros com eles, fui com eles em campismo para Itália, aceitei que eles me atirassem à piscina, que brincassem comigo e que eu brincasse com eles. E recordo com saudades esse grupo, porque esse foi um tempo de grande crescimento deles e de grande abertura comigo. Foi muito bom! Se calhar, hoje não tenho condições pessoais para fazer uma experiência assim. A idade e a doença, sobretudo, não me têm ajudado muito. Reconheço que o grupo que neste momento está aqui em catequese não tem um relacionamento tão bom comigo, como o anterior, reconheço... G. - Não lhe parece que as práticas religiosas, as missas, as celebrações cativam pouco os jovens hoje? P.B. - Parece-me, preocupa-me muito isso! Parece-me! G. - Hoje, apercebemo-nos um pouco dos hábitos brasileiros, com o caso do Padre Marcelo Rossi, que talvez seja um caso extremo, em relação à Igreja portuguesa e, se calhar, até pensa assim, mas não lhe parece que se a Igreja tivesse umas celebrações mais vivas, os jovens e a população em geral, se sentiriam mais "puxados" a irem receber algo mais, que não o mero ritual? P.B. - Penso que o principal é termos capacidade para pegar no Evangelho, a nossa base de trabalho, e aplicá-lo aos dias de hoje. Eu não tenho nada contra essas experiências brasileiras, pelo contrário, mas penso que aquilo é um bocado espectáculo. Eu não vejo o Padre Rossi preocupado com a Libertação dos mais pobres. Vejo--o a arrastar multidões para um espectáculo, aquilo é um negócio e penso que passa muito por nós sermos capazes de aplicar o Evangelho à vida de hoje e é possível que as pessoas não distingam a participação nos ritos litúrgicos do resto da vida. De outra forma, não andamos aqui a fazer nada! G. - Mas se calhar o Padre Rossi está a falar a linguagem de hoje e tem gente atrás dele a canalizar o dinheiro para fins sociais... P.B. - Sem dúvida!... Sem dúvida!... G. - A Igreja continua a ter uma missão social? P.B. - Sem dúvida nenhuma!... E temos que acreditar que tem! �s vezes não é bem vista! �s vezes está escondida e outras julga-se que por trás está o Estado ou outras instituições e, se calhar, é mesmo a Igreja! G. - Ou muitas vezes não se dá a conhecer!... Podemos aplicar o ditado popular: "Não é com vinagre que se apanham moscas". E, como dizia há pouco, a Igreja tem que falar a linguagem de hoje. Por exemplo, a Igreja tem hoje ao dispor um grande poder, a Comunicação, que é usado por outras religiões e por outras Igrejas e parece-me que a Igreja Católica, pelo menos a portuguesa, tem investido pouco na criação de meios de comunicação próprios... P.B. - E eu reconheço uma grande incapacidade da minha parte nesse aspecto. Há quanto tempo eu gostaria que, por exemplo, existisse aqui um Jornal na Paróquia?!... G. - Como é que o Sr. Padre vê o lançamento de um novo Jornal no nosso concelho? Apesar de nenhum Padre ter aceite o nosso convite para o lançamento de este novo projecto... P.B. - Há sempre uma esperança que haja um Jornal que seja capaz de se manter neutro, mas que saiba lidar com os problemas da terra, da região que se propõe defender, portanto eu acho muito bem e vejo com grande esperança o surgimento do GRÉS.
Sandra Moreira, Ana Cristina Santos,
Margarida Bôto e Avantino Moreira
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