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Entrevista com o Director do Centro de Saúde

�Vamos ter um internamento novo�

 

 

 

 

A Saúde é uma das áreas que, normalmente, gera maior insatisfação nas populações.

O GRÉS entrevistou o Dr. Victor Sobral, médico e director do Centro de Saúde de Silves, na tentativa de compreender a perspectiva da administração de saúde do nosso concelho em relação ao mesmo.

 

 

 

 

O GRÉS - Num sábado do mês de Julho, às onze e trinta da manhã, o Serviço de Atendimento Permanente (SAP) é o único departamento do Centro de Saúde de Silves a funcionar?

Dr. Victor Sobral - Aos sábados, no concelho, o SAP é o único, funciona como um serviço de urgência, aberto 24 horas todos os dias do ano e, porque estamos no Verão, a Extensão de Armação de Pêra está aberta para tratamentos de enfermagem, como salvaguarda dos veraneantes e triagem de situações urgentes.

G - Porque é que o Posto de Atendimento de Praia de Armação de Pêra, junto à praia, não abriu este ano?

V. S. - O antigo Posto de Praia não tinha condições de higiene. Por isso, este ano, centrou-se tudo na Extensão de Armação de Pêra, devidamente apetrechada de equipamento médico. Esta alteração foi divulgada e as pessoas foram informadas. No caso de ocorrer algum problema de praia existem, também, outras instituições como o Instituto de Socorro a Náufragos e os Bombeiros Voluntários, que asseguram o transporte entre a praia e os serviços de saúde. Além disso, existe o CODU - Central de Emergências, que coordena, a nível do Algarve, os casos de emergência. Neste ano, optou-se por centralizar os serviços; provavelmente, no futuro, temos de criar um Posto de Praia com melhores condições.

G - Está previsto algum apoio aos utentes no transporte entre a praia e o Centro de Saúde?

V. S. - No encaminhamento, a pessoa tem que agir por si, têm que existir laços de solidariedade, pessoas que transportam outras. Isso é inato, é expontâneo. Não é por não haver o Posto de Praia que as pessoas ficam mais mal servidas.

G - Valorizou as instalações da Extensão de Armação de Pêra. Nas outras freguesias do concelho as condições são idênticas ou são necessárias novas instalações?

V. S. - Praticamente todo o equipamento tem vindo a sofrer grande melhoramento. A última extensão nova, feita de raiz, foi a de Tunes. A informação que eu tenho é que se pensa para Pêra, muito provavelmente, uma extensão nova e para Alcantarilha e o Algoz, apesar de não estar nada pensado. Com o tempo terá de haver melhoramentos que podem envolver, também, outras instituições, como a autarquia.

G - Está prevista em PIDDAC uma verba para o serviço de internamento no Centro de Saúde de Silves. Para quando o início desta obra?

V. S. - O que eu sei é que em Silves vamos ter um internamento novo, reclamado há muito tempo e que muito provavelmente irá arrancar no próximo ano. Há todo um planeamento de funcionamento em rede e a ARS Algarve projectou um internamento novo para Silves e outro para Loulé, os concelhos do Algarve que abrangem maior área rural. Há que olhar pelo interior do Algarve, investindo nos Centros de Saúde que têm vocação de apoio ao interior algarvio.

G - Uma das principais queixas da população, nomeadamente de Alcantarilha, é a falta de pessoal médico e de enfermagem. Ainda existem carências ou a situação já está resolvida?

V. S. - Existem carências, o quadro de pessoal ainda não está totalmente preenchido, quer da parte médica, quer da parte de enfermagem, quer da parte administrativa. Existem concursos a decorrer e outros que estiveram abertos, mas que não surgiram candidatos. Abrimos duas vagas para médico e só uma é que foi preenchida. Insere-se na nossa política de saúde, enquanto os quadros não estão totalmente preenchidos, criar um serviço de apoio, de modo a não deixar as pessoas desprotegidas. Nós lutamos, muitas vezes, não tanto pela insuficiência de recursos médicos, mas pela acessibilidade das pessoas, que passa pela disponibilidade de transporte e pela disponibilidade económica. Muitas das vezes não é tanto a falta de médico. O problema é que as pessoas, especialmente dos meios rurais, estão muito limitadas aos horários dos transportes que não se ajustam aos horários das consultas. Nós apanhamos com a culpa da falta de meios que a pessoa tem para ser assistida por nós, mas que não resulta de insuficiências nossas, mas que também caracterizam a doença.

G - A crescente informatização dos serviços não poderia minimizar essas insuficiências?

V. S. - Está prevista uma informatização em rede entre o Centro de Saúde de Silves e as suas extensões. Este processo vai ser desenvolvido pela ARS, mas envolve um grande investimento e não lhe sei dizer para quando está previsto, provavelmente com o início do internamento.

G - O médico de família abrange a totalidade da população do Concelho de Silves?

V. S. - O médico de família, por força da lei, vê-se obrigado a assistir a uma lista de 1500 utentes; depois só o poderá fazer voluntariamente. Neste momento existem alguns incentivos para os médicos que querem ter listas mais alargadas, mas, na verdade, não tem resultado muito. Daí haver algumas manchas de utentes sem médico de família (Ver quadro). A doença, em termos médicos, não é muito complicada: ou há situações crónicas continuadas, que têm que ser acompanhadas, ou há situações urgentes, que têm que ser tratadas no sítio onde estão concentrados os melhores equipamentos de socorro. Por isso, temos o SAP 24 Horas, onde, muito brevemente, em termos de emergência médica, teremos o Raio X a funcionar, um desfibrilhador (para tratamento de paragens cardíacas) que custou 5 mil contos e um ventilador. Estes equipamentos requerem formação dos médicos e outros profissionais, que temos tido dificuldade em coordenar, de modo a assegurar a assistência no centro de saúde, nas extensões e no SAP.

Utentes inscritos no Centro de Saúde do Concelho de Silves
Freguesias Com Médico Sem Médico TOTAL
Extensão de Alcantarilha 1096 483 1579
Extensão de Algoz 1997 86 2083
Extensão de Armação de Pêra 3522 35 3557
Extensão de Pêra 1187 6 1193
Extensão de S. B. Messines 5862 1251 7113
Extensão de S. M. Serra 1520 0 1520
Silves
 
8714 910 9624
Extensão de Tunes 1442 0 1442
TOTAL GERAL 25 340 2771 28 111

G - A população de Silves considera inferior o serviço prestado no actual Centro de Saúde quando comparado com o antigo Hospital de Silves. Existem razões objectivas ou, hoje, as expectativas da população são superior e mais exigentes?

V. S. - As pessoas não são mais exigentes, necessitam é de mais coisas. Hoje, mais do que nunca, a saúde entra, também, no consumismo de qualquer família. Antigamente havia um conhecimento popular, um acreditar na sua auto-suficiência. Agora não é assim. Agora, a pessoa tem uma tontura e vem logo ao médico. Antigamente, nos hospitais, existia um acreditar submisso no profissional, no médico. Hoje, o doente discute com o médico. O doente, antes de se queixar, já vem dizer o que quer. Há uma inversão das situações. Houve uma evolução muito rápida no ter as coisas e agora há alguma dificuldade em geri-las. Julgo que isto não se resolve nem numa, nem em duas gerações, mas no futuro com o apoio da educação para a saúde. Nós evoluímos em tudo, resolvemos situações que não se resolviam anteriormente. Hoje, podemos fazer determinadas cirurgias que não se faziam no Algarve e hoje faz-se no Hospital do Barlavento Algarvio (HBA), que tem outro tipo de aparelhagem.

G - Contudo, existe, por vezes, uma falta de coordenação entre os diferentes serviços?

V. S. - Às vezes, existe alguma dificuldade nossa de nos articularmos com o HBA, com médicos de outras especialidades (que não a clínica geral). Eles também têm muita dificuldade, porque são poucos e é aí que muitas vezes há uma certa espera e o doente é obrigado a ir ao privado. É evidente que o doente no privado é logo atendido, mas depois serve-se da clínica geral do público para fazer os exames complementares, o que gera alguma descoordenação nos nossos serviços. Estamos a estabelecer protocolos entre o Centro de Saúde de Silves e algumas especialidade do HBA. Neste momento, já temos protocolos com o Serviço de Obstetrícia, de Ginecologia e, ainda por assinar, com o Serviço de Urgência Pediátrica.

G - Descreva-nos um situação que lhe tenha dado imenso prazer na sua actividade profissional.

V. S. - Não posso dizer que tenho prazer em tudo, mas tenho prazer naquilo que faço. É evidente que tenho situações que não correm tão bem, mas não quer dizer que isso seja um desprazer. Eu gosto do que faço e tenho dificuldade em dizer alguma coisa, em especial, que me tenha dado prazer, porque eu gosto do que faço.

António Guerreiro
Margarida Bôto

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