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   Página dos alunos de Gestão de Negócios e Tecnologia da Informação - FGV Campinas

 

A vida dura na Internet

Por trás das cifras bilionárias, há um cotidiano difícil para muita gente que trabalha no universo digital. Pensando em entrar nele? É bom saber certas coisas antes

Por Laura Somoggi

É bem possível que você esteja pensando em trabalhar em alguma empresa ligada à Internet. É um campo dinâmico, moderno, empolgante, um terreno cheio de oportunidades e no qual quase tudo está por fazer. O comércio eletrônico vai transformar a economia. As empresas tradicionais precisam entrar na rede - se não o fizerem correm o risco de ser arrasadas pelas companhias digitais. Muitos profissionais trocam seus empregos para criar os próprios sites. Alguns até ficam milionários, e em pouco tempo. Bem... você já ouviu essa conversa dezenas de vezes. Tudo isso é verdade. Mas é só um lado da história. O outro, do qual pouco se fala, é bem menos charmoso. Se você quer mesmo trabalhar na Web, é imprescindível conhecê-lo.

Trabalhar na Internet é duro, muito duro. Os problemas aqui também viajam à velocidade do e-mail. Numa empresa comum, as reclamações chegam por telefone, uma por vez. Na Internet, desabam aos milhares de uma tacada só. Como é um negócio novo, que geralmente começa pequeno, os empreendedores têm de acumular funções que vão do presidente ao office-boy. Têm de preparar o conteúdo, encontrar parceiros, descobrir colaboradores e fornecedores, negociar contratos, rechear o site, batalhar descontos, consertar o computador, responder e-mails, esclarecer dúvidas, estudar propostas de novos negócios, batalhar anunciantes, patrocínio e investidores. Tudo isso sozinho, ou com um ou dois ajudantes, que trabalham por oito ou nove. O tempo é curto. Há coisas demais a fazer. Poucos ganham dinheiro. Muitos carregam o piano. E nas empresas grandes, ricas em prestígio e recursos? O panorama, em termos de ambiente de trabalho, é igualmente difícil.

Nem a americana Amazon.com, a maior livraria virtual do mundo e um dos melhores símbolos de sucesso de que se tem notícia no mundo digital, escapa disso. Por trás do glamour bilionário de Jeff Bezos, o criador da Amazon, há centenas de "peões digitais" fazendo o trabalho pesado, na maioria das vezes sob pressão, em luta constante contra o relógio e as planilhas que medem a produção individual. A Amazon vende livros, discos e brinquedos para 13 milhões de clientes espalhados pelo mundo. Pense um pouco, agora, na quantidade de trabalho pesado envolvida no processo de fazer cada produto chegar à casa de quem o encomendou. Calcule o número de clientes aflitos que enviam e-mails perguntando por que a encomenda ainda não chegou - ou por que a fatura contém um erro, quando tal livro estará disponível, como proceder à troca de endereço... A quantidade de mensagens urgentes é tão gigantesca que a Amazon.com teve de criar um sistema de cotas, na esperança de que os funcionários conseguissem atender todo o mundo. Para dar uma boa nota de desempenho ao empregado, a empresa espera que ele responda a 12 e-mails por hora. Detalhe: é preciso responder com uma solução. "Somos avaliados pela quantidade de mensagens que conseguimos responder", diz Manuel Miranda, que trabalha no atendimento da Amazon.com. Aquela conversa de muito-obrigado-breve-entraremos-em-contato não vale. Se o peão digital responder menos de 7,5 e-mails por hora leva uma advertência. Se continuar assim...

Se você mal consegue administrar a pilha de papéis em cima da mesa, o que dirá de uma fila infinita de e-mails? Num fim de semana em setembro do ano passado, 11 000 mensagens (!!!) ficaram acumuladas nos computadores da Amazon. Rob Gannon, o gerente de atendimento, deu três dias para que a fila ficasse em menos de 100 e-mails - isso desprezando a tonelada virtual de mensagens que chegaria nesse período. A frase de estímulo de Gannon a sua equipe: "Vocês têm esse objetivo. Eu tenho esse objetivo. Nós todos sofreremos as conseqüências se falharmos na nossa meta". A vida é dura.

Você pode pensar que isso só ocorre nos Estados Unidos, país mais habituado ao comércio eletrônico, ou em sites gigantescos como a Amazon. Engano. O Brasil já entrou nesse ritmo. De acordo com Roberto Alves, gerente de atendimento do ZAZ, segundo maior provedor de Internet no país, o site recebe cerca de 1 000 e-mails e 13 000 telefonemas por dia. Os funcionários, além de cuidar disso, têm de selecionar anunciantes, escolher convidados para o chat, avaliar o retorno dos anúncios virtuais, dar assessoria aos franqueados em todo o país, fechar contratos com parceiros de negócios, entre muitas outras coisas - e geralmente tudo ao mesmo tempo. Pequeno exemplo: na meia hora em que a VOCÊ s.a. levou para entrevistar Paulo Sérgio Silva, diretor de publicidade do ZAZ, ele atendeu ao seu celular quatro vezes para falar de negócios. Isso sem contar as interrupções para tirar dúvidas de colegas, os telefonemas na sua mesa e parte dos 150 e-mails que recebe diariamente. "Trabalhar na Internet parece uma maratona - só que com o pique de corrida de 100 metros rasos", diz Martín Escobar, diretor de novos negócios do Submarino, site de vendas de livros, CDs e brinquedos.

Transportando para a vida real, isso significa uma jornada de 12, 14, 16 horas diárias, às vezes até nos fins de semana. É certo que muitos profissionais fora da Internet também têm essa carga pesada. Diretores de grandes empresas, operadores de mesa de bancos, entre muitos outros, também trabalham num ritmo alucinado. Padeiros acordam às 3 da manhã para fazer o pão. Abrem as portas às 5 e meia. Ficam o dia todo no balcão. Fecham às 10, e ainda vão preparar a massa do pão para o dia seguinte. Depois acordam de madrugada e começam tudo de novo. A diferença entre a Internet e as padarias ou as mesas de operação é que a Web, supostamente, deveria exigir mais trabalho mental do que físico, menos esforço e mais produção - enfim, deveria ter mais soft e menos hard. Além disso, a Web nunca fecha. Dependendo da personalidade da pessoa, ela também não desliga nunca. Nem em casa, nem no domingo. "Como nosso negócio funciona 24 horas por dia, até o departamento comercial recebe pedidos em horas pouco convencionais", diz Márion Strecker, diretora de produtos do Universo Online, UOL, maior provedor do país, dos grupos Folha e Abril, que edita a VOCÊ s.a. Paulo Silva, diretor de publicidade do ZAZ, passou por um episódio que mostra que nem só o pessoal de tecnologia tem duplas ou triplas jornadas. Ele e sua equipe ficam ligados no trabalho o tempo todo. Certa vez, num sábado à noite, Silva mandou um e-mail contando o bom desempenho do mês para dez pessoas. Quatro responderam na hora. Primeiro detalhe: era sábado à noite. Segundo: a mensagem não foi para o endereço pessoal de cada um, e sim para o e-mail da empresa. Terceiro: o e-mail estava aberto. "Nem eu acreditei!", lembra Silva. É certo que ninguém é obrigado a ser assim. Mas é certo que o ambiente da Web favorece esse tipo de coisa. Sem perceber, muita gente acaba trabalhando mais do que seria o normal.

A Internet, por esse aspecto, funciona como um vício. Como todo vício, traz conseqüências inevitáveis: filhos, maridos, esposas, amigos, esportes, lazer, sono - tudo fica em segundo plano. Não são poucos os episódios que mostram que a vertigem da Internet pode ter um efeito devastador sobre tudo que se pareça com uma vida saudável. A história de Rodrigo Santaliestra serve de amostra. Ele tem 30 anos e é gerente de tecnologia de criação do UOL. É o responsável por manter o site do UOL sintonizado com as últimas tecnologias do mercado, em termos de som, imagem e animação. Como se o trabalho no UOL não fosse suficiente, ainda arranjou mais trabalho: montou com Márcia, sua mulher, um site que vende reproduções de quadros famosos, o ArteEmCasa.com.br. Juntando um trabalho com o outro, passa 14 horas por dia na frente do computador. Espalhada pela casa, montou uma rede de quatro computadores. Já chegou a ficar 40 dias seguidos sem parar para descansar. "Estava num ponto em que, se estivesse com sede e não tivesse água no bebedouro, eu era capaz de chorar", acredita ele.


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