DI�RIO DAS TORMENTAS
(Um dos contos do livro. Todos os textos que comp�em esta obra possuem um certo teor psicol�gico.)
T�tulo deste Conto

GALA
  Desde h� muito incito meus sonhos. Visto-me de magnata com o fraque da orquestra. Olho-me no espelho. Assimilo-me. Aspiro-me. Assumo o tom solene da filarm�nica que nunca vi. De quem seria este fraque?
   �Deito-me no catre imundo do pal�cio improv�vel. Pens�o Modelo � o nome da pocilga. Pal�cio Modelo � como a trato, munido de um cinismo exasperante.
   Das primeiras vezes, ap�s calar o abajur, vi-me numa urna fun�rea. Fraque de morto - com uma cangalha assim, morre-se bem.
   E passei a finar todas as noites: de morte matada, de morte morrida, de morte buscada. A cada qual um tipo de solenidade.
   Depois, enfadei-me de tantas ex�quias. Acordava sempre cheirado a rosas, a palmas, a cravos. Inundado de l�grimas vi�vas, roxo dos tr�mulos belisc�es maternos - acorda filho... �s t�o mo�o ainda.
   Emergia destes turbilh�es f�nebres com a eleg�ncia maculada. Pobre fraque que ainda hoje n�o sei de quem foi. Quantas viagens fiz no aconchego da tua nobreza? Quantas gl�rias eternas colhi no apurado aconchego do teu cabedal herdado? Fui Juiz, doutor e at� presidente, quer mais?
   � certo: tenho nutrido minhas fraquezas com o teu alinho, estimulado meus sonhos com o teu esplendor.
   Olho-te no espelho. Assimilo-te. Aspiro-te.
   L� vou eu dentro de ti como um amante sob medida. N�o me pertences de todo, mas acolhe-me como se eu fosse o �nico.
   Algum dia h�o de te reclamar, eu sei. Mas por hora, vamos sonhar. A orquestra nos contempla, deita-te comigo. Espera, calarei o abajur.
Sinopses das Obras 50 Anos de Jornalismo
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