Canções de
Um
Auto-Exilado
À
minha mãe
ILUSÕES
Os espias e os guardas,
Os fugitivos das noites vazias.
O frio doloroso da insubmissa ingratidão
E a saudade que vitimiza os corações.
Nesta terra somos todos atores,
Estrelando em uma tragicomédia pós-moderna:
Mentiras, verdades,
Esperança e desespero.
A velocidade dos carros em ruas bucólicas
E a propaganda de estandartes ilusórios.
O tempo não pára.
O mundo gira em torno de si
Como se fosse chegar a algum lugar,
Mas nunca saímos daquele ponto no mapa
Da
Eternidade.
Quero viver essa ilusão até que possa voar.
Voar sobre a serenidade da existência.
Nunca mudamos, nós nunca mudamos.
Nutrimos os mesmos sonhos nutridos há séculos.
A vida é um refúgio adormecido há tanto.
Aparentemente ninguém pode despertá-la
Com
um beijo.
Por que mesmo com tantas pessoas ao meu redor
Sempre senti-me tão só?
Estrangeiro em uma terra distante é tudo o que sou.
Frustrado por ninguém ver o que vejo.
Desesperado por não entenderem minhas idéias.
Mas o poder de sete dragões de fogo me acompanha.
Aprendi a esconder-me dos olhos dos espias e guardas.
Finjo ser um psicótico em permanente delírio,
Nesta terra de atores que sempre repetem
As
mesmas falas.
Quero viver esta ilusão sem fim.
Deixe-me viver esta ilusão até que possa voar
E lá do alto vislumbrar a serenidade da existência.
(Biloxi, Mississippi, setembro de 2004)
SEGREDOS
Meu caminho é meio perdido,
Mas ninguém nota para onde vou.
As cartas que escrevo e nunca envio
Revelam segredos nunca repetidos.
Mas ninguém sabe. Eles não sabem.
Tantas vezes já fui embora,
E eu nunca retorno, eu nunca retorno.
Pra todo rosto que já cruzou meu caminho,
Eu guardo uma diferente canção na memória.
Eu sempre finjo que esqueci, mas nunca esqueço.
Eu nunca choro em público,
Pois em público não mostro minhas fraquezas.
As pessoas que amo julgam minha frieza
Como um sinal de minha falta de sensibilidade.
Se todos soubessem o quanto choro!
Em minh’alma não há amargura.
Creio que minha vida é um presente sem preço.
E cada manhã recebo a oportunidade de recomeçar.
Cada dia é uma janela com vista
Para uma outra paisagem do existir.
Eu beijo lábios proibidos.
Meu amor é pecaminoso aos olhos dos santos.
Mas não foi minha escolha, minha natureza não escolhi.
Não creio que o objeto de meu afeto seja um mal.
Ele não é um mal.
Tenho vinte e seis anos e já vi metado do mundo,
Mas confesso que nunca deixei meu próprio reino.
Construí meus limites e sempre tive temor
De cruzar as fronteiras que me protegem.
Talvez eu não seja tão são como pensava.
Eu adoro esta cidade que chamam de capital do mundo.
Sempre volto aqui para explorar a sensação de medo.
São seis da tarde e está tão frio.
Mais uma vez estou rodeado de tanta gente.
Mas sinto-me tão só.
AS
RUAS ANTIGAS
Minhas lembranças caminham
Pelas ruas antigas até atingir o cais.
Não há mais antigas ruas.
Só construções pós-modernas,
Sem vida, sem história.
Minha vida, encapsulada entre quatro paredes,
E controlada pelos avanços digitais,
É o resultado de recortes do passado.
As ruas pelas quais caminhei,
Os jogos que brinquei em minha infância,
A família que não vejo há tanto,
E essa saudade melancólica que faz-me sofrer.
Esta, sim, é a vida que me restou.
A vida que finjo não existir.
A existência que disfarsa-se em um sorriso falso.
Onde estão aquelas ruas antigas
E seus edifícios seculares a desmoronar?
Não sinto o aroma da glória do passado
Nas trágicas cenas do presente distante.
Nem mesmo ouço o som nasal
De minha língua materna,
A mesma na qual gritei meus primeiros ais.
Pobre de mim! Pobre de mim!
Tenho pena desta patética criatura
Na qual me tornei.
Este solitário desbravador de segredos ocultos,
Perdido além-mar, sem um mapa para o guiar.
Este homem que agora chamam por outro nome,
Um nome estranho aos ouvidos de meus pais.
E que não tem mais ruas antigas pelas quais caminhar.
Camaleão
Mutante
Por que tudo que digo
Parece já ter sido dito antes?
Por que os vencedores são conhecidos
Antes mesmo de o jogo começar?
Não somos iguais.
Não sou sempre assim.
Feche os olhos e verás a verdade.
Cerre os lábios e abra os ouvidos.
Por que a cena sempre se repete?
Os personagens são sempre os mesmos.
Por que jogamos hoje os mesmos
Jogos que jogamos um dia antes?
Não gosto de repetições.
Reconstruo-me a cada nova manhã,
Visto uma nova máscara
E vivencio outra realidade.
Sou assim, é assim que sou:
Um camaleão mutante.
Sempre uma nova cor,
Uma face nova a cada manhã.
CANGACEIRO
Não posso te dar ao que chamam amor,
Mas posso fingir, sei que posso fingir.
Não posso forçar meu coração a aceitar
O que me queres dar, Não me podes forçar.
A mim não podes forçar.
Sou um cangaceiro de parabelo na mão,
Pronto a lutar contra os invasores estrangeiros.
Sou o descendente dos Tenórios, valentes senhores.
Cujas lutas estão para sempre registradas
Nas páginas dos anais dos séculos.
A mim não podes forçar, não a mim.
Não me podes exigir uma rendição.
Sou lutador, não me rendo sem antes guerrear.
Assim me ensinou minha mãe.
Por isso durmo com meu candeeiro sempre aceso.
DESEJOS E ANSEIOS
Só queria amar.
Queria amar,
Sem que meu amor
Fosse interditado por
Essas regras que não criei.
Queria amar
Sem temer punição.
Queria amar
Sem ser perseguido
Pela solidão,
Que tanto insiste
Em fazer-me companhia.
Queria sorrir
Sem que meu sorriso
Recebesse um mau pago.
Queria falar,
E queria que minhas palavras
Fossem compreendidas.
Queria entoar um canto
Que fosse ouvido
Em terras longínquas.
E voar sobre o mar
Sem medo de cair.
Queria começar
Sem ter de me preocupar
Com o fim.
E correr sem me cansar.
Queria acreditar
Sem duvidar,
E viver sem ter de pensar
Em consequências.
Queria ter um dia inteiro
À beira mar,
Sentindo a água fresca
Lavar meus pés.
Queria ser livre!
UM
DIFERENTE PALCO
Não sei onde estou.
Não sei em que parte do meu passado
Abandonei minha personalidade.
Essa face refletida no espelho
Não é minha.
Nem sequer parece comigo.
Para onde caminho,
Aonde vou, não sei.
Sei que atravesso um vale profundo,
Tendo deixado tudo pra trás:
Minha vida, minhas melhores recordações,
Ensacadas em uma mala de náilon.
Saí só com a passagem de ida.
Não sei se há volta.
Acho que não há volta.
Se pudesse, reescreveria minha história.
Teria dito a verdade antes.
Teria contado que gostava de meninos.
Teria me desculpado menos por ser eu mesmo.
Teria gritado quando tive raiva.
Teria assumido menos culpas alheias.
Não sei exatamente porque
Menti pra mim mesmo, Mas sei que agora sinto-me só.
Sozinho em uma terra estrangeira.
Talvez seja a vaidade de minha inconstância.
Ou talvez saudade de algo que nunca conheci.
Que tipo de pessoa sou?
Onde estou?
Eu não consigo usar meu idioma
Com a fluência que costumava ter.
Eu não oro com a fé que tinha antes.
É tudo tão estranho. Tão diferente.
Não tenho platéia. Não tenho platéia.
Onde estou? Onde estou?
PERDIDO
Nas ruas de Londres perdi a inocência,
Perdi a inocência nas ruas londrinas.
Fugir de casa, não sei se foi certo.
Perdi minha alma nos clubes de Amsterdã.
Perdi a vergonha nos clubes holandeses.
Nada me resta. Tudo se foi.
Perdi minha identidade em um inverno nova-iorquino.
Na capital do mundo perdi-me de vez.
SÓ
SAUDADE
O que fiz com os dias de minha juventude?
O que fiz com os meus dias felizes?
Agora, não há nada,
Não há mais ninguém.
A saudade é o que me restou.
A lembrança de tudo o que podia
Ter feito,
A recordação de tudo o que
Não disse,
Me atemoriza.
Sinto um vazio,
Só preenchido pelas vozes do passado,
Pelo alto volume das canções esquecidas,
E o bater de um coração solitário.
Só há saudade, só a saudade!
Perdi a esperança
De me reconciliar com o que se foi.
Mas gostaria de dizer que sinto muito
Àqueles a quem causei algum mal,
Apesar de estarem tão distantes.
Sei que há um preço para tudo,
Mas o meu é muito alto.
Estou tão só,
Só há silêncio aqui,
Só saudade!!
ESTUCHO
Musco nos corredores do tempo
Onde há muito esvaíram-se as memórias,
E onde não há culpa, não há vergonha.
Amanhã será novo dia,
E eu poderei voltar a mágoa que deixei.
Minha viagem foi um estucho,
E a vida, navífraga como é,
Impede-me de navegar.
Ai, Ai! Ai de mim!
Olha a lágrima que derramei:
Tão quente, tão traiçoeira!
O vento não me deixa abrir os olhos
Para ver a face dos que choram.
Quero morrer. Quero daqui sair.
Não me agrada essa imagem carmesim
De dor, de sofrimento.
FUGITIVO
Vivo como fugitivo
Aqui, tão longe de tudo que conheço
E de todos que amo.
Vejo que não há liberdade.
Ninguém é realmente livre.
Liberdade é uma ilusão
Criada por mentes ociosas,
Prestes a esquecer
Tudo o que foi-lhes ensinado.
Se realmente existisse,
Não teríamos de nos esconder,
Não teríamos de usar uma
Máscara de falsidades
Para sermos aceitos.
Mas quem se importa?
Me acostumei a ser
O que sou.
Me acostumei
A me esconder.
A solidão no escuro da noite
É uma boa companhia,
Quando o fantasma da saudade
Tenta assaltar-me.
A ilusão de poder
Voar como um pássaro solitário
Me fascina,
Mas sinto-me
Obrigado a me esconder.
Sinto-me obrigado
A fugir dessas pequenas ilusões
Que me tornam vulnerável.
INCERTEZA?
Não sei mais o que é certo,
Não sei mais no que devo acreditar.
A vida é tão diferente
Do que me disseram que seria:
As formas, os aromas, a velocidade...
Hoje vejo que não há só
O branco e preto das regras
Que me foram ensinadas.
Vivi tanto tempo dentro da bolha
Na qual cresci,
Que sinto-me como um bebê
Dando os primeiros passos.
Ainda não decifrei todos os segredos
Que há entre o céu e a terra.
Mas desejo viver a vida,
Desejo viver minha vida
Com amigos a meu redor.
Quero mudar com o passar do tempo.
Quero me olhar no espelho,
E ver a beleza dos meus olhos,
Que outros já viram.
Quero aprender palavras novas,
Pra que minhas conversas
Sejam menos dissílabas.
Quero ter coragem
De dizer que mudei de idéia.
Só quero ser eu mesmo...
Não me sinto confuso,
Só não acho que encontrei
A verdade ainda.
INVERNO EM MANHATTAN
Mais um inverno nestre outro Nordeste
Impede que rosas vermelhas floresçam.
A branca neve congela o que
fora, antes, um coração,
E a saudade, aquele exclusivo sentimento
dos amantes, relembra-me a distância.
A ilusão é o que acalenta meus dias,
Enquanto fujo do frio cruel de Manhattan,
Ouvindo uma gravação recente de Djavan.
Quando quero ficar feliz,
Penso na areia da praia de Boa Viagem,
E nas caminhadas noturnas pelo calçadão.
Nem a boemia do Soho,
Nem a luxúria de Times Square
Alcançam a imensidão do Atlântico
No outro Nordeste onde nasci.
O
DIA DO JULGAMENTO
O Dia do Julgamento é hoje,
Para aqueles que controlam os Poderes,
E os que amordaçam os sofridos corpos
Dos inocentes filhos da terra.
Hoje é o dia no qual o sangue dos mártires
Clamará desde os cofins da terra por vingança.
Os tambores da Bahia de Todos os Santos,
O beat dos mangues do Recife,
E as vozes dos filhos dos orixás
Serão ouvidos finalmente.
Não há lugar onde poderão se esconder,
Como o Tiradentes de outrora,
O Grande Mártir,
Terão suas cabecas erguidas como troféu
À Vitória.
LEMBRANÇAS
SAUDOSAS
Estou, agora, longe da terra que viu-me nascer.
As vozes que ensinaram-me
A articular as palavras que falo
Estão distantes.
Fecho os olhos para recordar
Onde outrora caminhei.
Mas as lembranças perderam-se
Nos corredores do passado.
Eu daria tudo, faria qualquer coisa
Para ouvir a beleza lírica de
Minha lusa língua uma vez mais.
Meu Deus, por que a vida há de ser
Tão complicada?
Por que tive de vir tão longe
Para descobrir que já era feliz?
A gente onde estou é néscia.
Eles repudiam-me com seus olhares.
Minha voz denuncia-me como estrangeiro.
Mas não tenho medo.
Quando preciso de forças,
Penso no Redentor com seus braços abertos
Sobre a Cidade Maravilhosa;
Penso no balançar das folhas dos coqueiros
Da Praia da Boa Viagem;
Penso na Chapada dos Guimarães
Que sempre quis conhecer.
Penso em minha mãe,
À quem nunca tive coragem de dizer adeus.
NOVO
SÉCULO
Caminho por uma rua escura,
Iluminada apenas pelos luzeiros celestes.
As fachadas dos edifícios coloniais
Atestam que alguém já aqui esteve.
Mas vieram os conquistadores,
Com suas construções disformes de aço.
A beleza se foi. Foi-se a beleza.
Deixou-nos aqui, com a febre do Novo Século.
Não sabemos nada.
Não mais conhecemos os mistérios.
A beleza, que antes era a Deusa Entronizada
Dos
corações humanos,
Foi abandonada pela futilidade
De um pós-modernismo vazio e frio.
Todos morremos,
Pois uma vez a beleza nos deixa,
A vida perde o sentido.
As ruas, com seu povo oprimido,
Testifica a meu favor.
Desprezamos o dom dos céus,
Por temer o esforço da manutenção.
Abandonamos a beleza das formas e da linguagem.
As palavras com as quais cortejávamos
Foram diminuídas a letras sem significado.
A poesia não mais faz folia em nossas vidas.
Essa é a febre do Novo Século.
A era fútil do abandono da Deusa Beleza.
VIVA
Viva!
Viva a lágrima que é sincera!
Viva!
Viva a saudade, palavra tão lusa,
Sentimento tão humano!
Viva a Vida!
Objeto tão inexplicável,
Com faces tão variadas.
Viva o céu! Viva o Mar!
Viva o Cruzeiro do Sul!
Viva o Cristo Redentor!
Viva o Brasil!
Viva a memória do que é belo!
Viva a Garota de Ipanema! Viva!
Viva aquilo que me faz ser quem sou!
Viva a dor! Viva o riso!
Viva o desejo! Viva o sonho!
Viva o anseio de algum dia voltar!
Viva o que há! Viva o que há de ser!
Viva!
RECIFE
A imagem noturna do Recife
Não me sai da lembrança.
Os rios, o porto, os prédios seculares,
Todas as marcas impressas
Nas paredes dos prédios e monumentos
Que fizeram parte da história.
O cheiro de chuva nas manhãs de verão,
O movimento frenético dos automóveis.
Quem ousaria esquecer?
Amo-te Recife.
Simplesmente amo-te.
Quando estamos juntos,
Nos odiamos mutuamente;
Quando separados, chamas-me,
E não posso resistir a teu chamar.
2003
Tiros e bombas,
E lágrimas e sangue,
E destruição e cidades desoladas.
Que mundo lindo o que criamos!
Violência e morte,
E ameaça e abandono,
E contágio e doença.
Nossa ciência é de grande utilidade!
Imaginação e verdade,
Conhecimento e ignorância,
Bem e mal.
Todos necessitamos de algo.
A Lua e Marte,
O Sol e o Espaço,
O Mar e outras terras.
Quero me sentir em casa aqui mesmo!
VINTE E SEIS
Canto à minha terra,
Ao Leão do Norte que me amamentou
Com seus rios poluídos,
A correr de suas tetas.
Canto ao litoral quente,
Onde chorei de desespero
Por noites e noites.
Canto às recordações que
Sempre quis esquecer.
Às divas do passado
E ao Teatro de Santa Isabel.
Canto ao Cais, tão sujo, tão promíscuo,
À tirania da rica Zona Norte.
Canto a tudo o que sempre odiei,
E a tudo o que sempre me fascinou.
Se pudesse voltar no tempo,
Teria incluído em minha bagagem,
Um pouco da areia da praia
Que me viu tornar neste homem
De, agora, vinte e seis anos.
Mas, agora o que me resta
É cantar aos meninos e meninas
Que brincam nas areias da praia,
E aos casais que passeiam
Pelo calçadão iluminado.
Eu sou este mistério,
Nem tudo amo,
Nem tudo eu respeito.
Uma força misteriosa
Me força a vagar pelo mundo,
Sem destino.
Sempre um outro aeroporto,
Ou outra estação.
Sou de qualquer jeito,
Sem formato oficial.
Por isso eu canto.
Canto ao caos no qual minha vida
Se tornou.
Canto à solidão que conheço
Tão intimamente.
Canto a todos os diferentes
Credos que já professei.
A todas antagônicas idéias
Que já defendi.
Canto ao amor que não conheci
No decorrer destes vinte e seis anos.
Canto às realidades paralelas que
Construi para me defender
Do mundo exterior.
Sou assim.
Sem restrições, sem limites.
Gosto de ver o tempo passar.
Vou para onde vai o vento.
Minha família nunca me entedeu,
E, na verdade, não espero que alguém
Entenda minha loucura.
Perambulei pelas ruas misteriosas
Da vida que eles não conheceram.
Já estou cansado.
Mas quero tudo o que puder alcançar.
Tenho um sinal em minha testa
Que diz: Perigo!
Pois tenho o dom de quebrar corações,
Desde menino, creio.
Tenho vinte e seis,
Mas todos esperam perfeição
De minha parte.
Não tenho receio de não ser perfeito,
De não ser o homem que esperam que seja.
Canto aos erros que cometi,
E canto aos erros que ainda cometerei.
Canto aos meus vinte e seis anos.
FEZ
No escuro da noite
Recuso-me a apertar a mão
Do
destino.
Caminho pelas ruas,
Ouvindo os sons perigosos da vida
Que apenas confirmam
O que sempre soube.
Eu nunca vi a face de Deus,
Pelo menos não o Deus
Que dizem viver nas alturas.
Mas sei que vi um anjo
Deitado no chão frio
Em Fez, ontem à noite.
Tudo o que ensinaram-me
Sobre
a verdade e a mentira
Estava errado.
Nada é tão claro como me fizeram crer;
Nem mesmo a solidão é tão dolorosa.
Eles estavam errados,
Todos estavam errados.
Estou sentado de onde saíram
Para descobrir o magnífico oásis.
O ar quente do deserto
E essa zaytuna escura sobre meu corpo
Fazem-me sentir parte desta terra,
Para onde vim em busca de respostas.
Por alguma razão
Deus continua a esconder-se
Por trás de um véu imaginário.
Eu vejo tanto sofrimento e tanto delírio,
Mas sei que em alguns minutos,
Na estrada de volta à Fez,
Encontrar-me-ei com a verdade.
Já estive em tantas diferentes terras antes,
Mas nenhuma é como esta.
Sinto-me como o Sebastião d’outrora.
Aguardando o tempo para retornar
Ao mistério desmistificado
Pelas vozes do silêncio.
Sou estrangeiro aqui,
Neste mundo que chamam realidade.
Não consigo conformar o meu pensar
À essas normas que não criei.
Fez fascinou-me,
Mas prefiro a voz silenciosa
Do deserto de imensidão prodigiosa.
NOVA
ORLEANS
Sento-me em frente à janela
De onde posso ver o imenso lago.
Não sei o seu nome,
Pra mim é só um lago desconhecido.
Há uma certa incerteza
Quando se está em uma nova cidade.
Eu decidi não desfazer as malas,
São só dez dias. Só dez dias.
A cidade é bela.
Sinto-me como se estivesse na Europa
Uma
vez mais.
Mas estou em Nova Orleans,
Na infama Louisiana do Golfo.
As ruas são lindas aqui,
E são quase tão antigas quanto as da Cidade Velha,
A Antiga Cidade de onde vim.
Eu queria que pudesses ver o que vejo.
Mas, na verdade, nem mesmo sei mais
Onde
estou.
Nossos caminhos separam-se
Em algum lugar do passado.
Eu não sei onde estou,
Pra mim tudo é saudade.
Sinto-me tão distante de tudo e de todos.
Minha vida mudou:
Um amontoado de roupas am malas de náilon
É o que possuo.
Meu lar é uma fila de embarque e um quarto d’hotel.
Esta cidade é só mais uma parada.
Um minúsculo ponto numa página obscura
Do livro de minha existência.
Sempro digo que temo a solidão,
Mas por alguma razão estou sempre a correr.
Sempre a fugir das pessoas que amo.
Eu sinto muito se pareço tão perdido,
Perdição sempre foi o melhor destino
Pra mentes impacientes como a minha.
Eu não sei esperar,
Tenho sempre que ir para outro lugar.
SONHADOR
BOÊMIO
Como um raio, eu apareci num dia de chuva
E desapareci com a mesma velocidade.
Tudo o que mais amo,
E tudo o que mais odeio
Estão no Recife da minha infância.
Naquelas ruas sujas e enigmáticas,
Na face do povo bom e sofrido,
Nas recordações, que como um fantasma alegórico,
Perseguem-me.
Sou filho de uma quase-perfeita mãe,
Trabalhadora incansável, madre vigilante.
Meu pai, um músico sonhador,
De quem aprendi que todo sonho tem um preço,
Não vejo há muito.
Deixei minha cidadela em busca de sonhos liberadores,
Temendo que minha mãe descobrisse que eu,
Sua desequilibrada cria,
Era também um sonhador boêmio.
Vaguei por tantas terras estrangeiras,
Meus pés já se perderam por rotas repentinas,
Mas minha mente sempre encontra-se
Nas recordações empoeiradas do passado.
Tenho ao meu lado as velhas canções de Djavan
E as novíssimas gravações de Maria Rita
A lembrar-me quem sou,
Um brasileiro, agora estrangeiro,
Num mundo que amedronta-me.
TEU
SORRISO ILUMINADO
Sempre vi-te a sorrir,
Mesmo nos dias chuvosos,
Mesmo quando o furacão de setembro
Nos atingiu,
E quase nos dirigiu ao desespero.
Tu sorrias,
Sorrias teu sorriso iluminado.
Sorrias teu sorriso apaixonado.
Sorrias teu melhor.
Tudo bem.
Tudo bem se isso não durar.
Porque se não for verdade o que diz
Teu sorriso iluminado,
Mesmo assim trouxeste-me alegria.
Desbravaste meu coração valente e resguardado.
Construíste uma ponte que quebrou
O isolamento no qual encontrava-me.
Por isso tudo está bem.
Como pode ser mau o que sentimos?
Como ousam dizer que teu sorriso
É malícia danosa?
Teu sorriso fez-me sentir esperançoso,
Foste o primeiro a ouvir-me dizer
As palavras que todo amigo quer ouvir.
Fizeste-me sorrir também.
Mas meu sorriso não se iguala ao teu.
O sorriso iluminado que sorris.
O CAOS DA INCERTEZA
A beleza da vida é o caos.
O caos da incerteza do futuro,
E a aglomeração de sonhos não realizados.
A beleza da vida está na dúvida.
Na dúvida que reside na natureza humana,
E na fé num Poder Soberano.
A beleza da vida está nas pegadas na terra.
Nos rastros deixados pelo retirante sertanejo,
E a história verídica que ficou no passado.
Está na dor e na subseqüente alegria materna
Ao parir o fruto de um amor insubmisso,
E ao ouvir o primeiro chorar de uma nova vida.
A beleza da vida está nas ondas do mar,
Que no seu ciclo de interminável instabilidade,
Continua a banhar as costas de terras longínquas.
A beleza da vida está no amor, que para mim,
Tomou a forma incorpórea de uma dolorosa solidão
Que caminha livremente rumo ao horizonte desconhecido.
IMAGENS DA MINHA
HISTÓRIA
Nada respeito,
Como bem sabes.
Não respeito a ninguém.
Não me forces a te obedecer,
E às tuas regras opressoras.
Se queres saber quem sou,
Procura-me nos blocos
Do Carnaval da vida,
Lá encontrar-me-ás:
Entre a delinqüência dos sonhadores
E a anarquia da juventude insana.
Vou para onde leva-me o vento,
Envolto em marcas do passado.
Não sou frágil como pensas.
Mas também não tão forte como deveria.
Não possuo crenças absolutas,
Nem tudo é preto ou branco.
Eu busco a Deus,
E sacrifico meus desejos
Nos altares do desespero.
Eu quebro todas as regras,
Mesmo aquelas escritas em Livros Sagrados.
Sou um mito, sou o que todos temem,
Provocando a omissão das imagens de minha história.
Já causei dor e lágrimas,
E minha consciência já desconheceu noites tranqüilas.
Creio que uma misteriosa mão
Guiar-me-á rumo ao infinito,
Enquanto caminho nesta vida
Ao som de uma sinfonia interminada.
Tenho o dom de separar gladiadores,
E meus ombros estão encharcados de lágrimas alheias.
Freqüentemente ceio com meus inimigos
E durmo na cova dos leões.
Mas não tenho medo
Não temo a nenhum ser humano.
Só temo ao que não fica para sempre.
Eu quero ser um verso eterno,
Recitado nas galerias da realidade infinita.
Quero ser o mito que pulou do arranha-céu
Sem nunca tocar o chão do esquecimento.
Quero ficar para sempre.
A OUTRA AMÉRICA
O Cais de Santa Rita,
E as putas, as putas vadias.
Crianças abandonadas
Na escadaria da Catedral.
Intelectuais do antigo Ginásio,
E uma revolução que nunca iniciam.
Missionários ignorantes das terras do Norte
Cristianizando um povo cristão.
Eu deixei pra trás uma vida vazia,
Uma cidade que sempre fascinou-me,
E que sempre odiei.
A cidade de um povo oprimido
Por um sonho utópico
Que nunca se realiza.
Uma cidade suja pelo sangue
De uma geração imatura.
Eu sonho com a praia,
E anseio pela beleza do Recife Antigo.
Os prédios quase desmoronados,
E a decadência sufocadora.
Sonho com as ruas que me assustavam,
Com a violência que rouba a esperança.
Sonho com as igrejas
E seus altares sagrados.
Quero exorcizar essas lembranças,
Arrancar de minha memória
Essas recordações que só me torturam.
Mas elas parecem insistir em permanecer
Nessas bandeiras e símbolos
Que guardo em meu quarto na outra América.
©
Gibson da Costa, 1998-2005