| REPORTAGENS |
| NA NOITE HÁ 30 ANOS JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO – 21/06/1987 |
| O garoto que em Salvador fugia da escola para ir ao encontro da música veio para São Paulo "por acidente". A impressão de uma cidade "fria e fechada" logo se desfez. "Fui conhecendo as pessoas e vi como tinha gente boa." Isso foi há quase 30 anos e daqui ele nunca mais saiu. Com seu inseparável violão, cantou em quase todos os bares de São Paulo, pêlos quais já viu passar três gerações. O cantor e compositor Geraldo Cunha pertence à noite paulistana, que faz parte dele. E depois de tanto tempo convivendo com histórias que só a noite guarda para seus freqüentadores, não poderia ser diferente. |
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| Geraldo chega a classificar três tipos de bêbados que tem de enfrentar. O "agressivo", segundo ele, é o pior. Do tipo que se dirige ao cantor gritando "sai daí que você não canta nada". Para esse, ele já tem até receita pronta. Reclama no microfone da pessoa inconveniente e começa a cantar baixinho, "até que o pessoal pede silêncio a ele". O bêbado "chato" na sua definição, é aquele que chega junto do artista, começa a conversar e não para mais de falar. "Acaba não me deixando cantar", diz em tom bem-humorado. "Quer agradar tanto, abraçando e fazendo elogios, que se torna chato." Mas é com o bêbado "gostoso" que Geraldo não se incomoda. "Ele é imprescindível no ambiente." Esse é, em sua opinião, o verdadeiro boêmio, "aquele que sabe beber, é alegre, comunicativo, canta ' junto com a gente e sabe tudo". Mas não só de bêbados vive a noite. Ela traz também muitas emoções, como algumas que Geraldo não esquece. Tudo começou quando cantava na boate Michel, em 1962, seu primeiro emprego na noite paulistana. Localizada na rua Major Sertório, “era a boate mais chique de São PauIo" Foi lá que a curta temporada de Geraldo, de apenas 13 dias, coincidiu com o show do cantor de jazz norte-americano Billy Eckstine. "Eu ficava lá para vê-lo." Da Michel não parou mais. Passou pelo Bon Soir na praça Roosevelt, pelo restaurante espanhol Pierrot, até chegar, em 63, no João Sebastião Bar, onde dividia as apresentações com Pedrinho Mattar, Geraldo Vandré e Quarteto Wanderley. O Bar Terraço, Bar Bossinha e o Terceiro Whisky, onde canta até hoje também tiveram a presença de Geraldo. "Foram todos muito bons", diz, mas "as coisas mais gostosas da noite" para ele aconteceram no Jogral, onde assistiu empolgado a muitos desafios, na forma de repentes entre Paulo Vanzolini e Luiz Carlos Paraná. Foi também lá que Geraldo conheceu Elis Regina. Mas se tiver de destacar o que mais lhe marcou durante todos os anos da noite, ele conta um episódio que aconteceu no mesmo bar. O cantor norte-americano Oscar Peterson fazia uma temporada no Teatro Municipal e depois do espetáculo ia para o Jogral terminar a noite. Em uma delas, Geraldo teria de se apresentar. "Mas eu não queria tocar para ele, me sentia envergonhado." A maneira que encontrou para evitar isso foi trocar a vez com os demais cantores, "mas quando chegou três horas da manhã, não tive mais com quem trocar". E a alternativa foi cantar e tocar num ritmo mais tranqüilo, para não chamar a atenção de Peterson "Comecei a cantar Bossa na praia de minha autoria com Pery Ribeiro Ele reconheceu a música, se levantou para me cumprimentar e pediu para tocar comigo. Fiquei traumatizado" Peterson no piano e Geraldo no violão acabaram tocando duas músicas. |