cfcxcx
(Primeira
parte)
(1900)
DIE
TRAUMDEUTUNG
von
Dr.
SIGMUND FREUD
--------------------------------
FLECTERE
SI NEQUEO SUPEROS, ACHERONTA MOVEBO.
--------------------------------
LEIPZIG UND WIEN.
FRANZ DEUTICKE.
1900
---------------------------
INTRODUÇÃO
(2)
BIBLIOGRAFIA
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1900 Die Traumdeutung.
Leipzig e Viena: Franz Deuticke. Págs. iv +
375
1909 2ª ed. (Ampliada e revista.)
Mesmos editores. Págs. vii389.
1911 3ª ed. (Ampliada e revista.)
Mesmos editores. Págs. x + 418.
1914 4ª ed. (Ampliada e revista.)
Mesmos editores. Págs. x + 498.
1919 5ª ed. (Ampliada e revista.)
Mesmos editores. Págs. ix + 474.
1921 6ª ed. (Reimpressões
da 5ª ed., exceto pelo novo prefácio e 1922
7ª ed. pela bibliografia
revista.) Págs. vii + 478
1925 Vol. II e parte do Vol.
III de Freud, Gesammelte Schriften. (Ampliada
e revista.) Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler
Psychoanalytischer Verlag. Pág. 543 e 1-185.
1930 8ª ed. (Ampliada e revista.)
Leipzig e Viena: Franz Deuticke. Págs. x + 435.
1942 Em volume Duplo II &
III de Freud, Gesammelte Werke.
(Reimpressão da 8ª ed.) Londes: Imago Publishing Co. Págs.
xv
e 1-642.
(b)
TRADUÇÕES INGLESAS:
1913 Por A. A. Brill.
1915 2ª ed. Londess; George
Allen & Unwin; Nova Ioque: The Macmillan Co. Págs. xii + 510.
1932 3ª ed. (Completamente
revista e em grande parte reescrita por vários colaboradores não especificados.)
London:
George Allen &
Unwin; Nova Ioque: The Macmillan Co. Pág. 600.
1938 Em The Basic Writings
of Sigmund Freud. Págs. 181-549.
(Reimpressão da 3ª e. com a omissão de quase todo o Capítulo
I.) Nova Ioque: Random House.
A atual tradução
para o inglês, inteiramente nova, é de James Strachey.
Na realidade, Die
Traumdeutung apareceu pela primeira vez em 1899. Esse fato é mencionado
por Freud no início de seu segundo artigo sobre Josef Popper (1932c): “Foi
no inverno de 1899 que meu livro sobre a interpretação dos sonhos (embora
sua página de rosto estivesse pós-datada com o novo século) finalmente surgiu
diante de mim”. Mas agora temos informações mais exatas por sua correspondência
com Wilhelm Fliess (Freud, 1950a). Em sua carta de 5 de novembro de 1899
(Carta 123), Freud anuncia que “ontem, finalmente, o livro apareceu”; e
pela carta precedente parece que o próprio Freud recebera de antemão dois
exemplares, cerca de uma quinzena antes, um dos quais enviara a Fliess como
presente de aniversário.
A Interpretação
dos Sonhos foi um dos dois
livros — Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1950d) foi o
outro — que Freud manteve mais ou menos sistematicamente “atualizados” à
medida que foram passando por suas edições sucessivas. Após a terceira edição
da presente obra, as alterações nela feitas não foram indicadas de maneira
alguma, o que produziu um efeito algo confuso sobre o leitor das edições
posteriores, visto que o novo material às vezes implicava um conhecimento
de modificações dos pontos de vista de Freud que datam de épocas muito posteriores
ao período em que o livro foi originalmente escrito. Numa tentativa de superar
essa dificuldade, os editores da primeira edição das obras completas de
Freud (as Gesammelte Schriften) reimprimiram a primeira edição de
A Interpretação dos Sonhos em sua forma original num só volume, e
enfeixaram num segundo volume todo o material que fora acrescentado depois.
Infelizmente, contudo, o trabalho não foi efetuado de modo muito sistemático,
pois os próprios acréscimos não foram datados e, com isso, grande parte
da vantagem do plano foi sacrificada. Nas edições subseqüentes, voltou-se
ao antigo volume único e não diferenciado.
O maior número
de acréscimos versando sobre qualquer assunto isolado é constituído, sem
dúvida, pelos que dizem respeito ao simbolismo nos sonhos. Freud explica,
em sua “História do Movimento Psicanalítico” (1914d), bem como no início
do Capítulo VI, Seção E (pág. [1]) desta obra, que chegou tardiamente a
uma compreensão plena da importância dessa faceta do assunto. Na primeira
edição, o exame do simbolismo limitou-se a algumas páginas e a um único
sonho modelo (dando exemplos de simbolismo sexual) no final da seção sobre
as “Considerações sobre a Representabilidade”, no Capítulo VI. Na segunda
edição (1909), nada foi acrescentado a essa seção; mas, por outro lado,
várias páginas sobre o simbolismo sexual foram inseridas no fim da seção
sobre “Sonhos Típicos”, no Capítulo V. Estas foram consideravelmente ampliadas
na terceira edição (1911), enquanto o trecho original do Capítulo VI continuou
ainda inalterado. Eraevidente que uma reorganização há muito se fazia necessária,
e, na quarta edição (1914), uma seção inteiramente nova sobre o Simbolismo
foi introduzida no Capítulo VI, e para ela transpôs-se então o material
sobre o assunto que se acumulara no Capítulo V, junto com grande quantidade
de material inteiramente novo. Não se fizeram quaisquer modificações na
estrutura do livro nas edições posteriores, embora outro grande volume
de material tenha sido acrescido. Após a versão em dois volumes (1925) —
isto é, na oitava edição (1930) — alguns trechos da seção sobre “Sonhos
Típicos” no Capítulo V, que haviam sido totalmente abandonados numa fase
anterior, foram reinseridos.
Na quarta, na quinta,
na sexta e na sétima edições (isto é, de 1914 até 1922), dois ensaios de
autoria do Otto Rank (sobre “Os Sonhos e a Literatura Criativa” e “Sonhos
e Mitos”) foram publicados no final do Capítulo VI, mas foram posteriormente
omitidos.
Restam as bibliografias.
A primeira edição continha uma lista de cerca de oitenta livros, e à grande
maioria deles Freud faz referências no texto. Esta lista permaneceu inalterada
na segunda e na terceira edições; porém, na terceira, uma segunda relação
foi acrescentada, contendo cerca de quarenta livros escritos desde 1900.
Daí por diante, ambas as listas começaram a aumentar rapidamente, até que,
na oitava edição, a primeira delas continha cerca de 260 obras, e a segunda,
mais de 200. Nessa fase, somente uns poucos títulos da primeira lista (pré-1900)
eram de livros realmente mencionados no texto de Freud, enquanto, por outro
lado, a segunda lista (pós-1900, como se pode inferir das próprias observações
de Freud em seus vários prefácios) não pôde realmente atualizar-se de acordo
com a produção de escritos analíticos ou quase-analíticos sobre o assunto.
Além disso, muitas das obras citadas por Freud no texto não eram encontradas
em nenhuma das duas listas. Parece provável que, a partir da terceira
edição, Otto Rank tenha-se tornado o principal responsável por essas bibliografias.
Uma carta de Freud a André Breton, datada de 14 de dezembro de 1932 (1933e),
declara explicitamente que, na quarta edição e nas que vieram a seguir,
as bibliografias ficaram inteiramente a cargo de Rank.
(2) HISTÓRICO
A publicação da
correspondência de Freud com Fliess permite-nos acompanhar a redação de
A Interpretação dos Sonhos com certa riqueza dedetalhes. Na “História
do Movimento Psicanalítico” (1914d), Freud escreveu, rememorando seu lento
ritmo de publicação nos primeiros tempos: “A Interpretação dos Sonhos,
por exemplo, foi concluída, em todos os seus aspectos essenciais, no começo
de 1896, mas só foi escrita no verão de 1899”. Da mesma forma, nas notas
introdutórias a seu trabalho sobre as conseqüências psicológicas da distinção
anatômica entre os sexos (1925j), ele escreveu: “Minha Interpretação
dos Sonhos e meu ‘Fragmento da Análise de um Caso de Histeria’ (1905e)…
foram sustados por mim — se não durante os nove anos impostos por Horácio,
ao menos por quatro ou cinco anos, antes que eu permitisse que fossem publicados.”
Estamos agora em condições de ampliar e, sob certos aspectos, corrigir essas
rememorações, com base em provas contemporâneas do autor.
Além de várias
referências dispersas ao assunto — que, em sua correspondência, remontam
a pelo menos 1881 —, as primeiras importantes publicadas sobre o interesse
de Freud pelos sonhos aparecem no curso de uma longa nota de rodapé ao primeiro
de seus casos clínicos (o da Sra. Emmy von N., com data de 15 de maio),
nos Estudos sobre a Histeria, de Breuer e Freud (1895). Examina ele
o fato de que os pacientes neuróticos parecem ter necessidade de associar
umas com as outras quaisquer idéias que porventura estejam simultaneamente
presentes em suas mentes. Prossegue ele: “Não faz muito tempo, pude convencer-me
da intensidade de uma compulsão dessa espécie à associação, a partir de
algumas observações feitas num campo diferente. Durante várias semanas,
vi-me obrigado a trocar minha cama habitual por uma mais dura, na qual tive
sonhos numerosos ou mais nítidos, ou na qual talvez não tenha conseguido
atingir a profundidade normal do sono. No primeiro quarto de hora depois
do acordar, recordava-me de todos os sonhos que tivera durante a noite e
me dei ao trabalho de anotá-los e tentar solucioná-los. Consegui relacionar
todos esses sonhos com dois fatores: (1) com a necessidade de elaborar quaisquer
idéias de que só tivesse tratado de modo superficial durante o dia — que
tivessem sido apenas mencionados, e afinal não tivessem sido tratados; e
(2) com a compulsão de vincular quaisquer idéias que pudessem estar presentes
no mesmo estado de consciência. O caráter absurdo e contraditório dos sonhos
pode ser investigado até a ascendência não controlada deste segundo fator.”
Infelizmente, não
se pode datar esse trecho com exatidão. O prefácio ao volume foi escrito
em abril de 1895. Uma carta de 22 de junho de 1894 (Carta 19) parece implicar
que os casos clínicos já estavam concluídos nessa ocasião, e isso certamente
já havia ocorrido em 4 de março de 1895. A cartade Freud dessa data (Carta
22) é de particular interesse, por dar o primeiro vislumbre da teoria da
realização de desejo: no decorrer dessa carta, Freud cita a história do
“sonho de conveniência” do estudante de medicina que se acha incluído nas
pág. [1]-[2] deste volume. Entretanto, foi somente em 24 de julho de 1895
que a análise de seu próprio sonho com a injeção de Irma — o sonho modelo
do Capítulo II — estabeleceu essa teoria em definitivo na mente de Freud.
(Ver Carta 137, de 12 de junho de 1900). Em setembro desse mesmo ano (1895),
Freud escreveu a pimeira parte de seu “Projeto para uma Psicologia Científica”
(publicado como apêndice à correspondência com Fliess), e as Seções 19,
20 e 21 do “Projeto” constituem uma primeira abordagem de uma teoria coerente
dos sonhos. Ele já inclui muitos elementos importantes que reaparecem na
presente obra, tais como (1) o caráter de realização de desejos dos sonhos,
(2) seu caráter alucinatório, (3) o funcionamento regressivo da mente nas
alucinações e nos sonhos (o que já fora apontado por Breuer em sua contribuição
teórica aos Estudos sobre a Histeria), (4) o fato de o estado do
sonho envolver paralisia motora, (5) a natureza do mecanismo de deslocamento
nos sonhos, e (6) a semelhança entre os mecanismos dos sonhos e dos sintomas
neuróticos. Mais do que isso, contudo, o “Projeto” traz uma indicação clara
do que é, provavelmente, a mais crucial das descobertas dadas ao mundo em
A Interpretação dos Sonhos — a distinção entre os dois diferentes
modos de funcionamento psíquico, os Processos Primário e Secundário.
Isso, contudo,
está longe de esgotar a importância do “Projeto” e das cartas a Fliess escritas
em relação a tal “Projeto” em fins de 1895. Não é exagero afirmar que grande
parte do sétimo capítulo de A Interpretação dos Sonhos e, de fato,
dos estudos “metapsicológicos” posteriores de Freud só se tornou plenamente
inteligível a partir da publicação do “Projeto”.
Os estudiosos dos
escritos teóricos de Freud têm estado cientes de que, até mesmo em suas
especulações psicológicas mais profundas, encontra-se pouco ou nenhum debate
sobre alguns dos conceitos mais fundamentais de que ele se vale:
conceitos, por exemplo, como os de “ energia psíquica”, “somas de excitação”,
“catexia”, “quantidade”, “qualidade”, “intensidade”, e assim por diante.
Praticamente, a única abordagem explícita de uma discussão desses conceitos
nas obras publicadas de Freud é a penúltima frase de seu primeiro trabalho
sobre “As Neuropsicoses de Defesa” (1894a), no qual formula a hipótese de
que “nas funções mentais, deve-se distinguir algo — uma carga de afeto ou
soma de excitação — que possui todas as características de uma quantidade
(embora não tenhamos meios de medi-la) passível de aumento, diminuição,
deslocamento e descarga, e que se espalhasobre os traços mnêmicos das representações
como uma carga elétrica espalhada pela superfície de um corpo”. A escassez
de explicação dessas idéias tão básicas nos escritos posteriores de Freud
sugere que ele presumia que elas fossem uma coisa tão natural para seus
leitores quanto eram para ele mesmo; e devemos nossa gratidão à correspondência
com Fliess, publicada postumamente, por lançar muita luz precisamente sobre
esses pontos obscuros.
Naturalmente, é
impossível entrarmos aqui em qualquer exame pormenorizado do assunto, e
o leitor deve ser encaminhado ao próprio volume (Freud, 1905a) e sua elucidativa
introdução feita pelo Dr. Kris. O ponto crucial
da questão, entretanto, pode ser indicado de maneira bem simples. A essência
do Projeto de Freud estava na idéia de combinar num todo único duas
teorias de origem diferente. A primeira delas derivava, em última análise,
da escola fisiológica de Helmholtz, da qual o professor de Freud, o fisiologista
Brücke, era um membro destacado. De acordo com essa teoria, a neurofisiologia,
e conseqüentemente a psicologia, eram regidas por leis puramente físico-químicas.
Tal, por exemplo, era a “lei da constância”, freqüentemente mencionada por
Freud e por Breuer e expressa nos seguintes termos em 1892 (num rascunho
postumamente publicado, Breuer e Freud, 1940): “O sistema nervoso se esforça
por manter constante em seu estado funcional algo que pode ser descrito
como a ‘soma de excitação’.” A maior parte de contribuição teórica feita
por Breuer (outro discípulo da escola de Helmholtz) aos Estudos sobre
a Histeria foi uma complexa construção elaborada em harmonia com essas
linhas. A segunda grande teoria evocada por Freud em seu Projeto
foi a doutrina anatômica do neurônio, que estava obtendo a aceitação dos
neuroanatomistas no fim da década de 1880. (O termo “neurônio” só foi introduzido
por Waldeyer em 1891.) Essa doutrina estabelecia que a unidade funcional
do sistema nervoso central era uma célula distinta, sem nenhuma continuidade
anatômica direta com as células adjacentes. As frases iniciais do Projeto
mostram claramente como sua base residia numa combinação dessas duas teorias.
Seu objetivo, escreveu Freud, era “re-presentar os processos psíquicos como
estados quantitativamente definidos de partículas materiais especificáveis”.
Em seguida, ele postulou que essas “partículas materiais” eram os neurônios,
e que a distinção entre se acharem eles num estado de atividade ou num estado
de repouso era feita por “quantidade” que estava “sujeita às leis gerais
do movimento”. Assim, um neurônio poderia estar “vazio” ou “cheio de uma
certa quantidade”, ou seja “catexizado”. A “excitação nervosa” deveria
ser interpretada como uma “quantidade” fluindo através de um sistema de
neurônios, e essa corrente poderia encontrar resistência ou ser facilitada,
conforme o estado das “barreiras de contato” entre os neurônios. (Somente
depois, em 1897, é que o termo “sinapse” foi introduzido por Foster e Sherrington.)
O funcionamento de todo o sistema nervoso estaria sujeito a um princípio
geral de “inércia”, segundo o qual os neurônios sempre tendem a se livrar
de qualquer “quantidade” de que possam estar cheios — um princípio correlato
ao princípio da “constância”. Utilizando como tijolos esses e outros conceitos
semelhantes, Freud construiu um modelo altamente complexo e extraordinariamente
engenhoso da mente como uma máquina neurológica.
Um papel preponderante
foi desempenhado no esquema de Freud por uma divisão hipotética dos neurônios
em três classes ou sistemas, diferenciados de acordo como seus modos de
funcionamento. Desses, os dois primeiros relacionavam-se, respectivamente,
aos estímulos externos e às excitações internas. Ambos funcionavam
numa base apenas quantitativa, isto é, suas ações eram inteiramente
determinadas pela magnitude das excitações nervosas que incidiam sobre eles.
O terceiro sistema estava correlacionado com as diferenças qualitativas
que distinguem as sensações e sentimentos conscientes. Essa divisão dos
neurônios em três sistemas constituiu a base de complexas explicações fisiológicas
de coisas como o funcionamento da memória, a percepção da realidade, o processo
de pensamento, e também os fenômenos dos sonhos e dos distúrbios neuróticos.
Entretanto, as
obscuridades e dificuldades começaram a se acumular, e durante os meses
que se seguiram à redação do “Projeto”, Freud revisou continuamente suas
teorias. Com o passar do tempo, seu interesse foi-se desviando gradualmente
dos problemas neurológicos e teóricos para os problemas psicológicos e clínicos,
e ele acabou por abandonar todo o esquema. E quando, alguns anos depois,
no capítulo VII desta obra, Freud retomou o problema teórico — embora por
certo jamais abandonasse a crençade que uma base física da psicologia seria
finalmente estabelecida —, o fundamento neurofisiológico foi aparentemente
abandonado. Não obstante — e é por esse motivo que o “Projeto” é importante
para os leitores de A Interpretação dos Sonhos — grande parte do
modelo geral do esquema anterior, assim como muitos de seus elementos, foram
transpostos para o novo esquema. Os sistemas de neurônios foram substituídos
por sistemas ou instâncias psíquicos; uma “catexia” hipotética da
energia psíquica tomou o lugar da “quantidade” física; o princípio da inércia
tornou-se a base do princípio do prazer (ou, como Freud o denominou aqui,
do princípio do desprazer). Além disso, alguns dos relatos pormenorizados
dos processos psíquicos apresentados no Capítulo VII muito devem a seus
precursores fisiológicos e podem ser compreendidos com mais facilidade mediante
referência a eles. Isso se aplica, por exemplo, à descrição do armazenamento
dos traços de memória nos “sistemas mnêmicos”, ao exame da natureza dos
desejos e das diferentes formas de satisfazê-los, e à ênfase dada ao papel
desempenhado pelos processos verbais de pensamento na adaptação às exigências
da realidade.
Tudo isso é amplamente
suficiente para justificar a asserção de Freud que a A Interpretação
dos Sonhos “estava concluída, em todos os seus aspectos essenciais,
no começo de 1896”. Não obstante, estamos agora em condições de acrescentar
algumas ressalvas. Por exemplo, a existência do complexo de Édipo só foi
estabelecida no verão e outono de 1897 (Cartas 64 a 71); e, embora isso
não constituísse por si só uma contribuição direta à teoria dos sonhos,
mesmo assim desempenhou um papel relevante ao ressaltar as raízes infantis
dos desejos inconscientes subjacentes aos sonhos. De importância teórica
mais evidente foi a descoberta da onipresença, nos sonhos, do desejo de
dormir. Isso só foi anunciado por Freud em 9 de junho de 1899 (Carta 108).
Além disso, a primeira insinuação do processo de “elaboração secundária”
parece ter-se verificado numa carta de 7 de julho de 1897 (Carta 66). A
semelhança de estrutura entre os sonhos e os sintomas neuróticos já fora
assinalada, como vimos, no “Projeto” de 1895, e houve alusões periódicas
a ela até o outono de 1897. Curiosamente, contudo, daí por diante parece
ter caído no esquecimento, pois é anunciada em 3 de janeiro de 1899 (Carta
101) como uma nova descoberta e como uma explicação da razão por que o livro
permanecera inacabado por tanto tempo.
A correspondência
com Fliess permite-nos acompanhar com alguns detalhes o processo efetivo
de composição. A idéia de escrever o livro é mencionada por Freud pela primeira
vez em maio de 1897, mas é rapidamente posta de lado, provavelmente porque
seu interesse começara a centralizar-se, naquela época, em sua auto-análise,
que iria conduzi-lo, durante o verão, à descoberta do complexo de Édipo.
No fim do ano, o livro foi retomado e, nos primeiros meses de 1898, um
primeiro esboço de toda a obra parece ter sido concluído, com exceção do
primeiro capítulo. O trabalho no livro foi paralisado em junho daquele
ano e só foi reiniciado após as férias de verão. Em 23 de outubro de 1898
(Carta 99), Freud escreve que o livro “permanece estacionário, inalterado;
não tenho nenhum motivo para prepará-lo para publicação, e a lacuna na psicologia
|isto é, o Capítulo VII|, bem como a lacuna deixada pela eliminação do sonho
modelar completamente analisado |cf. parág. seguinte|, são entraves a sua
conclusão que ainda não superei”. Verificou-se uma pausa de longos meses,
até que de repente, e como escreve o próprio Freud, “sem nenhum motivo particular”,
o livro começou a se movimentar de novo em fins de maio de 1899. Daí por
diante, continuou com rapidez. O primeiro capítulo, versando sobre a literatura,
que sempre fora um bicho-papão para Freud, foi concluído em junho, sendo
as primeiras páginas enviadas ao tipógrafo. A revisão dos capítulos intermediários
foi completada em fins de agosto, e o último capítulo, sobre psicologia,
foi inteiramente reescrito, sendo as páginas finais despachadas no início
de setembro.
Tanto o manuscrito
como as provas eram regularmente submetidos por Freud a Fliess para receberem
sua apreciação crítica. Fliess parece ter exercido considerável influência
sobre a forma final do livro e ter sido responsável pela omissão (evidentemente,
por motivo de discrição) da análise de um importante sonho do próprio Freud
(cf. parágr. ant.). Mas as críticas mais severas provieram do próprio autor
e foram dirigidas principalmente contra o estilo e a forma literária. “Creio”,
escreveu ele em 21 de setembro de 1899 (Carta 119), depois de terminado
o livro, “que minha autocrítica não era de todo injustificada. Oculto em
alguma parte de mim, também eu tenho senso fragmentário da forma, uma apreciação
da beleza como uma espécie de perfeição; e as frases complicadas de meu
livro sobre os sonhos, apoiadas em expressões indiretas e com visões oblíquas
de seu conteúdo, ofenderam gravemente algum ideal dentro de mim. E é difícil
que eu esteja errado em considerar essa falta de forma como sinal de um
domínio incompleto do material”.
Mas, apesar dessas
autocríticas, e a despeito da depressão que se seguiu ao desprezo quase
total do livro pelo mundo exterior — apenas 351 exemplares foram vendidos
nos seis primeiros anos após a publicação — A Interpretação dos Sonhos
sempre foi considerada por Freud como sua obra mais importante: “Um discernimento
claro como esse”, como escreveu em seu prefácio à terceira edição inglesa,
“só acontece uma vez na vida.”
(3) A ATUAL EDIÇÃO
INGLESA
Esta tradução se
baseia na oitava edição alemã (1930), a última a ser publicada durante a
vida do autor. Ao mesmo tempo, difere de todas as edições anteriores (tanto
alemãs como inglesas) num aspecto importante, pois tem a natureza de uma
edição “Variorum”. Envidaram-se esforços para indicar, com datas,
todas as alterações substanciais introduzidas no livro, desde sua primeira
edição. Sempre que se abandonou algum material ou que este foi muito modificado
em edições posteriores, o trecho cancelado ou a versão mais antiga é apresentado
numa nota de rodapé. A única exceção é que os dois apêndices de Rank ao
Capítulo VI foram omitidos. A questão de sua inclusão foi seriamente considerada,
mas resolveu-se não fazê-la. Os ensaios são inteiramente autônomos e não
guardam nenhuma relação direta com o livro de Freud; teriam ocupado mais
ou menos outras 50 páginas, e particularmente para os leitores de língua
inglesa, não esclareceriam nada, visto tratarem principalmente da literatura
e mitologia germânicas.
As bibliografias
foram refundidas por completo. A primeira delas contém uma lista de todas
as obras realmente citadas no texto ou nas notas de rodapé. Essa bibliografia
foi também disposta para servir de Índice de Autores. A segunda bibliografia
encerra todas as obras da lista alemã pré-1900 não efetivamente citadas
por Freud. Pareceu que valia a pena imprimi-la, visto não ser acessível
com facilidade nenhuma outra bibliografia comparavelmente completa da literatura
mais antiga sobre os sonhos. Os textos posteriores a 1900, salvo
pelos realmente citados e, por conseguinte, incluídos na primeira bibliografia,
não foram levados em consideração. Deve-se, contudo, fazer uma advertência
no tocante a ambas as minhas listas. Uma pesquisa demonstrou uma proporção
muito elevada de erros nas bibliografias alemãs.
Estes foram corrigidos
sempre que possível, mas um número considerável de verbetes revelou-se impossível
de localizar em Londres, e estes (que são distinguidos por um asterisco)
devem ser considerados suspeitos.
Os acréscimos feitos
pelo editor vêm entre colchetes. Muitos leitores, sem dúvida, ficarão irritados
com o número de referências e outras notas explicativas. As referências,
contudo, dizem respeito essencialmente aos escritos do próprio Freud, encontrando-se
um número muito reduzido em relação a outros autores (afora, naturalmente,
as referências feitas pelo próprio Freud). Seja como for, deve-se encarar
o fato de que A Interpretação dos Sonhos constitui um dos grandes
clássicos da literatura científica e de que o tempo veio considerá-la como
tal. O editor espera e acredita que as referências, e mais particularmente
as remissões a outras partes da própria obra, possam realmente tornar mais
fácil aos verdadeiros estudiosos acompanhar os pontos intrincados do material.
Os leitores em busca de mero entretenimento — se é que existem — devem revestir-se
da firme determinação de desprezar esses parênteses.
Cabe acrescentar
algumas palavras sobre a própria tradução. Grande atenção teve que ser dispensada,
é claro, aos pormenores da redação do texto dos sonhos. Nos casos em que
a tradução inglesa se afigura inusitadamente rígida ao leitor, ele pode
presumir que a rigidez foi imposta por alguma exigência verbal determinada
pela interpretação que virá a seguir. Quando há incoerências entre diferentes
versões do texto do mesmo sonho, ele pode presumir que há incoerências paralelas
no original. Essas dificuldades verbais culminam nos exemplos bastante freqüentes
em que uma interpretação depende inteiramente de um trocadilho. Existem
três métodos de lidar com tais situações. O tradutor pode omitir o sonho
por completo, ou substituí-lo por outro sonho paralelo, quer derivado de
sua própria experiência, quer inventado ad hoc. Esses dois métodos
foram adotados em caráter predominante nas primeiras traduções do livro.
Mas há sérias objeções contra eles. Devemos lembrar, mais uma vez, que estamos
lidando com um clássico científico. O que queremos conhecer são os exemplos
escolhidos por Freud — e não outrem. Conseqüentemente, esta tradução adotou
a pedante e cansativa terceira alternativa de manter o trocadilho alemão
original, explicando-o trabalhosamente entre colchetes ou numa nota de rodapé.
Qualquer graça que se pudesse extrair dele se evapora por completo nesse
processo. Mas esse, infelizmente, é um sacrifício que tem de ser feito.
Na cansativa tarefa
de leitura das provas tipográficas recebeu-se a ajuda generosa (entre outros)
da Sra. R. S. Partridge e do Dr. C. F. Rycroft. A Sra.Partridge é também
em grande parte responsável pelo índice alfabético. A revisão das bibliografias
esteve predominantemente a cargo do Sr. G. Talland.
Finalmente, o editor
deseja expressar seus agradecimentos ao Dr. Ernest Jones por sua constante
orientação e estímulo. Poder-se-á constatar que o primeiro volume de sua
biografia de Freud lança inestimável luz sobre os antecedentes desta obra
como um todo, bem como sobre muitos de seus pormenores.
Tentei neste volume
fornecer uma explicação da interpretação dos sonhos e, ao fazê-lo, creio
não ter ultrapassado a esfera de interesse abrangida pela neuropatologia.
Pois a pesquisa psicológica mostra que o sonho é o primeiro membro de uma
classe de fenômenos psíquicos anormais, da qual outros membros, como as
fobias histéricas, as obsessões e os delírios, estão fadados, por motivos
práticos, a constituir um tema de interesse para os médicos. Como se verá
a seguir, os sonhos não podem fazer nenhuma reivindicação semelhante de
importância prática, mas seu valor teórico como paradigma, é por outro lado,
proporcionalmente maior. Quem quer que tenha falhado em explicar a origem
das imagens oníricas dificilmente poderá esperar compreender as fobias,
obsessões ou delírios, ou fazer com que uma influência terapêutica se faça
sentir sobre eles.
Mas a mesma correlação
que responde pela importância do assunto deve também ser responsabilizada
pelas deficiências desta obra. Os encadeamentos rompidos que com tanta freqüência
interrompem minha apresentação nada mais são do que os numerosos pontos
de contato entre o problema da formação dos sonhos e os problemas mais abrangentes
da psicopatologia. Estes não podem ser tratados aqui, mas, se o tempo e
as forças o permitirem e houver mais material à disposição, eles serão objeto
de comunicações posteriores.
As dificuldades
de apresentação foram aumentadas ainda mais pelas peculiaridades do material
que tive de utilizar para ilustrar a interpretação de sonhos. Tornar-se-á
claro, no decorrer da própria obra, o motivo por que nenhum dos sonhos já
relatados na literatura do assunto ou coligidos de fontes desconhecidas
poderia ter qualquer serventia para meus propósitos. Os únicos sonhos dentre
os quais pude escolher foram os meus e os de meus pacientes em tratamento
psicanalítico. Mas fui impedido de utilizar o segundo material pelo fato
de que, nesse caso, os processos oníricos estavam sujeitos a uma compilação
indesejável, em vista da presença adicional de características neuróticas.
Mas, se quisesse relatar meus próprios sonhos, a conseqüência inevitável
é que eu teria de revelar ao público maior número de aspectos íntimos de
minha vida mental do que gostaria, ou do que é normalmente necessário para
qualquer escritor que seja um homem de ciência e não um poeta. Tal foi a
penosa mas inevitável exigência, e me submeti a ela para não abandonar por
completo a possibilidade de fornecer a comprovação de minhas descobertas
psicológicas. Naturalmente, contudo, não pude resistir à tentação de aparar
as arestas de algumas de minhasindiscrições por meio de omissões e substituições.
Sempre que isso aconteceu, porém, o valor de meus exemplos se viu drasticamente
reduzido. Posso apenas manifestar a esperança de que os leitores deste livro
se coloquem em minha difícil posição e me tratem com indulgência, e, além
disso, que qualquer um que encontre alguma espécie de referência a si próprio
em meus sonhos se disponha a conceder-me o direito à liberdade de pensamento
— ao menos em minha vida onírica, se não em qualquer outra área.
Capítulo I - A LITERATURA CIENTÍFICA
QUE TRATA DOS PROBLEMAS DOS SONHOS
Nas páginas que
seguem, apresentarei provas de que existe uma técnica psicológica que torna
possível interpretar os sonhos, e que, quando esse procedimento é empregado,
todo sonho se revela como uma estrutura psíquica que tem um sentido e pode
ser inserida num ponto designável nas atividades mentais da vida de vigília.
Esforçar-me-ei ainda por elucidar os processos a que se devem a estranheza
e a obscuridade dos sonhos e por deduzir desses processos a natureza das
forças psíquicas por cuja ação concomitante ou mutuamente oposta os sonhos
são gerados. A essa altura, minha descrição se interromperá, pois terá atingido
um ponto em que o problema dos sonhos se funde com problemas mais abrangentes
cuja solução deve ser abordada com base num material de outra natureza.
Apresentarei, à
guisa de prefácio, uma revisão do trabalho empreendido por autores anteriores
sobre o assunto, bem como a posição atual dos problemas dos sonhos no mundo
da ciência, visto que, no curso de meu exame, não terei muitas ocasiões
de voltar a esses tópicos. Pois, apesar de muitos milhares de anos de esforço,
a compreensão científica dos sonhos progrediu muito pouco — fato tão genericamente
aceito na literatura que parece desnecessário citar exemplos para confirmá-lo.
Nesses escritos, dos quais consta uma relação ao final de minha obra, encontram-se
muitas observações estimulantes e uma boa quantidade de material interessante
relacionado com nosso tema, porém pouco ou nada que aborde a natureza essencial
dos sonhos ou ofereça uma solução final para qualquer de seus enigmas. E
menos ainda, é claro, passou para o conhecimento dos leigos estudiosos.
Talvez se possa
indagar qual terá sido o ponto de vista adotado em relação aos sonhos
pelas raças primitivas dos homens e que efeito os sonhos teriam exercido
na formação de suas concepções do mundo e da alma; e esse é um assunto de
tão grande interesse que só com extrema relutância meabstenho de abordá-lo
nesse sentido. Devo encaminhar meus leitores às obras-padrão de Sir John
Lubbock, Herbert Spencer, E. B. Tylor e outros, e acrescentarei apenas que
só poderemos apreciar a ampla gama desses problemas e especulações quando
tivermos tratado da tarefa que aqui se coloca diante de nós — a interpretação
dos sonhos.
A visão pré-histórica
dos sonhos sem dúvida ecoou na atitude adotada para com os sonhos pelos
povos da Antiguidade clássica. Eles aceitavam
como axiomático que os sonhos estavam relacionados com o mundo dos seres
sobre-humanos nos quais acreditavam, e que constituíam revelações de deuses
e demônios. Não havia dúvida, além disso, de que, para aquele que sonhava,
os sonhos tinham uma finalidade importante, que era, via de regra, predizer
o futuro. A extraordinária variedade no conteúdo dos sonhos e na impressão
que produziam dificultava, todavia, ter deles qualquer visão uniforme, e
tornava necessário classificá-los em numerosos grupos e subdivisões conforme
sua importância e fidedignidade. A posição adotada perante os sonhos por
filósofos isolados na Antiguidade dependia, naturalmente, até certo ponto,
da atitude destes em relação à adivinhação em geral.
Nas duas obras
de Aristóteles que versam sobre os sonhos, ele já se tornaram objeto de
estudo psicológico. Informam-nos as referidas obras que os sonhos não são
enviados pelos deuses e não são de natureza divina, mas que são “demoníacos”,
visto que a natureza é “demoníaca”, e não divina. Os sonhos, em outras palavras,
não decorrem de manifestações sobrenaturais, mas seguem as leis do espírito
humano, embora este, é verdade, seja afim do divino. Definem-se os sonhos
como a atividade mental de quem dorme, na medida em que esteja adormecido.
Aristóteles estava
ciente de algumas características da vida onírica. Sabia, por exemplo, que
os sonhos dão uma construção ampliada aos pequenos estímulos que surgem
durante o sono. “Os homens pensam estar caminhando no meio do fogo e
sentem um calor enorme, quando há apenas um pequeno aquecimento em certas
partes.” E dessa circunstância infere ele a conclusão de que os sonhos
podem muito bem revelar a um médico os primeiros sinais de alguma alteração
corporal que não tenha sido observada na vigília.
Antes da época
de Aristóteles, como sabemos, os antigos consideravam os sonho não como
um produto da mente que sonhava, mas como algo introduzido por uma instância
divina; e, já então, as duas correntes antagônicas que iremos encontrar
influenciando as opiniões sobre a vida onírica em todos os períodos da história
se faziam sentir. Traçou-se a distinção entre os sonhos verdadeiros e válidos,
enviados ao indivíduo adormecido para adverti-lo ou predizer-lhe o futuro,
e os sonhos vãos, falazes e destituídos de valor, cuja finalidade era desorientá-lo
ou destruí-lo.
Gruppe (1906, 2,
390) cita uma classificação
dos sonhos, de Macrobius e Artemidorus [de Daldil (ver em [1])],
seguindo essa orientação “Os sonhos eram divididos em duas classes. Supunha-se
que uma classe fosse influenciada pelo presente ou pelo passado, mas sem
nenhum significado futuro. Abrangia o enunia ou insomnia, que reproduzia
diretamente uma certa representação ou o seu oposto — por exemplo, de fome
ou sua saciação —, e o jantsmata, que emprestava uma extensão fantástica
à representação — por exemplo, o pesadelo ou ephialtes. A outra classe,
ao contrário, supostamente determinava o futuro. Abrangia (1) profecias
diretas recebidas num sonho (o crhmatismV ou oraculum), (2) previsões
de algum evento futuro (o rama ou visio), e (3) sonhos simbólicos,
que precisavam de interpretação (o neiroV ou somnium). Essa teoria
persistiu durante muitos séculos.”
Essa variação no
valor que se deveria atribuir aos sonhos estava intimamente
relacionada com o problema de “interpretá-los”. Em geral, esperavam-se importantes
conseqüências dos sonhos. Mas nem todos eles eram imediatamente compreensíveis,
e era impossível dizer se um sonho inteligível em particular não estaria
fazendo alguma comunicação importante. Isso proporcionou o incentivo para
que se elaborasse um método mediante o qual o conteúdo ininteligível de
um sonho pudesse ser substituído por outrocompreensível e significativo.
Nos últimos anos da Antiguidade, Artemidorus de Daldis foi considerado
a maior autoridade na interpretação dos sonhos, e a sobrevivência de sua
obra exaustiva [Oneirocritica] deve compensar-nos pela perda dos
outros escritos sobre o mesmo assunto.
A visão pré-científica
dos sonhos adotada pelos povos da Antigüidade estava, por certo, em completa
harmonia com sua visão do universo em geral, que os levou a projetar no
mundo exterior, como se fossem realidades, coisas que de fato só gozavam
de realidade dentro de suas próprias mentes. Além disso, seu ponto de vista
sobre os sonhos levava em conta a principal impressão produzida na mente
desperta, pela manhã, pelo que resta de um sonho na memória: uma impressão
de algo estranho, advindo de outro mundo e contrastando com os demais conteúdos
da mente. A propósito, seria um erro supor que a teoria da origem sobrenatural
dos sonhos está desprovida de defensores em nossos próprios dias. Podemos
deixar de lado os escritores carolas e místicos, que de fato estão perfeitamente
justificados em permanecerem ocupados com o que restou do outrora amplo
domínio do sobrenatural enquanto esse campo não é conquistado pela explicação
científica. Mas, além deles, depara-se com homens de visão esclarecida,
sem quaisquer idéias extravagantes, que procuram apoiar sua fé religiosa
na existência e na atividade de forças espirituais sobre-humanas precisamente
pela natureza inexplicável dos fenômenos dos sonhos. (Cf. Haffner, 1887.)
A alta estima em que é tida a vida onírica por algumas escolas de filosofia
(pelos seguidores de Schelling, por exemplo) é nitidamente um eco
da natureza divina dos sonhos que era incontestada na Antiguidade. Tampouco
chegaram ao fim os debates acerca do caráter premonitório dos sonhos e de
seu poder de predizer o futuro, pois as tentativas de dar uma explicação
psicológica têm sidoinsuficientes para cobrir o material coletado, por mais
decididamente que as simpatias dos que são dotados de espírito científico
se inclinem contra a aceitação de tais crenças.
É difícil escrever
uma história do estudo científico dos problemas dos sonhos porque, por mais
valioso que tenha sido esse estudo em alguns pontos, não se pode traçar
nenhuma linha de progresso em qualquer direção específica. Não se lançou
nenhum fundamento de descobertas seguras no qual um pesquisador posterior
pudesse edificar algo; ao contrário, cada novo autor examina os mesmos problemas
de novo e recomeça, por assim dizer, do início. Se eu tentasse relacionar
em ordem cronológica aqueles que têm escrito sobre o assunto e apresentasse
um sumário de seus pontos de vista sobre os problemas dos sonhos, teria
de abandonar qualquer esperança de apresentar um quadro geral abrangente
do atual estado dos conhecimentos sobre o assunto. Optei, portanto, por
estruturar meu relato de acordo com tópicos, e não com autores, e à medida
que for levantando cada problema relacionado com o sonho, apresentarei qualquer
material que a literatura contenha para sua solução.
Visto, contudo,
ter-me sido impossível englobar toda a literatura sobre o tema, amplamente
dispersa como é e invadindo muitos outros campos, sou compelido a pedir
a meus leitores que se dêem por satisfeitos desde que nenhum fato fundamental
ou ponto de vista importante seja deixado de lado em minha descrição.
Até pouco tempo
atrás, a maioria dos autores que escreviam sobre o assunto sentia-se obrigada
a tratar o sono e os sonhos como um tópico único, e em geral abordava, além
disso, condições análogas fronteiriças à patologia e estados semelhantes
aos sonhos, como as alucinações, visões etc. As últimas obras, pelo contrário,
mostram preferência por um tema restrito e tomam por objeto, talvez, alguma
questão isolada no campo da vida onírica. Agradar-me-ia ver nessa mudança
de atitude a expressão de uma convicção de que, nessas questões obscuras,
só será possível chegar a explicações e resultados sobre os quais haja acordo
mediante uma série de investigações pormenorizadas. Uma pesquisa detalhada
desse tipo, predominantemente psicológica por natureza, é tudo o que tenho
a oferecer nestas páginas. Tive poucas oportunidades de lidar com o problema
do sono, posto que esse é essencialmente um problema da fisiologia, muito
embora uma das características do estado de sono deva ser a de promover
modificações nas condições de funcionamento do aparelho mental. A literatura
sobre o tema do sono, conseqüentemente, não é considerada adiante.
As questões levantadas
por uma indagação científica sobre os fenômenos dos sonhos como tais podem
ser agrupadas sob as epígrafes que se seguem, embora não se possa evitar
certa dose de superposição.
(A) A RELAÇÃO DOS
SONHOS COM A VIDA DE VIGÍLIA
O julgamento simplista
de vigília feito por alguém que tenha acabado de acordar presume que seus
sonhos, mesmo que não tenham eles próprios vindo de outro mundo, ao menos
o haviam transportado para outro mundo. O velho fisiólogo Burdach (1838,
499), a quem devemos um relato cuidadoso e sagaz dos fenômenos dos sonhos,
expressou essa convicção num trecho muito citado: “Nos sonhos, a vida cotidiana,
com suas dores e seus prazeres, suas alegrias e mágoas, jamais se repete.
Pelo contrário, os sonhos têm como objetivo verdadeiro libertar-nos dela.
Mesmo quando toda a nossa mente está repleta de algo, quando estamos
dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual
se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar
em sintonia com nosso estado de espírito e representar a realidade em símbolos.”
I. H. Fichte (1864, 1, 541), no mesmo sentido, fala efetivamente em “sonhos
complementares” e os descreve como um dos benefícios secretos da natureza
autocurativa do espírito. Strümpell (1877, 16) escreve um sentido semelhante
em seu estudo sobre a natureza e origem dos sonhos — uma obra ampla e merecidamente
tida em alta estima: “O homem que sonha fica afastado do mundo da consciência
de vigília.” E também (ibid., 17): “Nos sonhos, nossa recordação do conteúdo
ordenado da consciência de vigília e de seu comportamento normal vale tanto
como se estivesse inteiramente perdido.” E de novo (ibid., 19) escreve que
“a mente é isolada, nos sonhos, quase sem memória, do conteúdo e assuntos
comuns da vida de vigília”.
A grande maioria
dos autores, contudo, assume um ponto de vista contrário quanto à relação
entre os sonhos e a vida de vigília. Assim, diz Haffner (1887, 245): “Em
primeiro lugar, os sonhos dão prosseguimento à vida de vigília. Nossos sonhos
se associam regularmente às representações que estiveram em nossa consciência
pouco antes. A observação acurada quase sempre encontra um fio que liga
o sonho às experiências da véspera.” Weygandt (1893, 6) contradiz especificamente
o enunciado de Burdach que acabo de citar: “Pois muitas vezes, e aparentemente
na maioria dos sonhos, pode-se observar que eles de fato nos levam de volta
à vida comum, em vez de libertar-nos dela.” Maury (1878, 51) apresenta uma
fórmula concisa:“Nous rêvons de ce que nous avons vu, dit, désiré ou
fait”; enquanto Jessen, em seu livro sobre psicologia (1855, 530), observa
mais extensamente: “O conteúdo de um sonho é, invariavelmente, mais ou menos
determinado pela personalidade individual daquele que sonha, por sua idade,
sexo, classe, padrão de educação e estilo de vida habitual, e pelos fatos
e experiências de toda a sua vida pregressa.”
A atitude menos
comprometedora sobre esta questão é adotada por J. G. E. Maass, o
filósofo (1805, [1, 168 e 173]), citado por Winterstein (1912): “A experiência
confirma nossa visão de que sonhamos com maior freqüência com as coisas
em que se centralizam nossas mais vivas paixões. E isso mostra que nossas
paixões devem ter influência na formação de nossos sonhos. O homem ambicioso
sonha com os lauréis que conquistou (ou imagina ter conquistado) ou com
aqueles que ainda tem de conquistar: já o apaixonado se ocupa, em seus sonhos,
com o objeto de suas doces esperanças… Todos os desejos e aversões sensuais
adormecidos no coração podem, se algo os puser em movimento, fazer com que
o sonho brote das representações que estão associadas com eles, ou fazer
com que essas representações intervenham num sonho já presente.”
A mesma concepção
foi adotada na Antigüidade quanto à dependência do conteúdo dos sonhos em
relação à vida de vigília. Radestock (1879, 134) relata-nos como, antes
de iniciar sua expedição contra a Grécia, Xerxes recebeu judiciosos conselhos
de natureza desencorajadora, mas foi sempre impelido por seus sonhos a prosseguir,
ao que Artabanus, o velho e sensato intérprete persa dos sonhos, observou-lhe
pertinentemente que, via de regra, os quadros oníricos contêm aquilo que
o homem em estado de vigília já pensa.
O poema didático
de Lucrécio, De rerum natura, encerra o seguinte trecho (IV, 962):
Et quo quisque
fere studio devinctus adhaeretaut quibus in rebus multum sumus ante moratiatque
in ea ratione fuit contenta magis mens,in somnis eadem plerumque videmur
obire;causidici causas agere et componere leges,induperatores pugnare ac
proelia obire…
Cícero (De divinatione,
II, lxvii, 140) escreve exatamente no mesmo sentido que Maury tantos anos
depois: “Maximeque reliquiae rerum earum moventur in animis et agitantur
de quibus vigilantes aut cogitavimus aut egimus.”
A contradição entre
esses dois pontos de vista sobre a relação entre vida onírica e vida de
vigília parece de fato insolúvel. É portanto relevante, nesta altura, relembrar
o exame do assunto por Hildebrandt (1875, 8 e segs.), que acredita ser completamente
impossível descrever as características dos sonhos, salvo por meio de “uma
série de [três] contrastes que parecem acentuar-se em contradições”. “O
primeiro desses contrastes”, escreve ele, “é proporcionado, por um lado,
pela completude com que os sonhos são isolados e separados da vida real
e atual, e, por outro, por sua constante interpretação e por sua constante
dependência mútua. O sonho é algo completamente isolado da realidade experimentada
na vida de vigília, algo, como se poderia dizer, como uma existência hermeticamente
fechada e toda própria, e separada da vida real por um abismo intransponível.
Ele nos liberta da realidade, extingue nossa lembrança normal dela, e nos
situa em outro mundo e numa história de vida inteiramente diversa, que,
em essência, nada tem a ver com a nossa história real…” Hildebrandt prossegue
demonstrando como, ao adormecermos, todo o nosso ser, com todas as suas
formas de existência, “desaparece, por assim dizer, por um alçapão invisível”.
Então, talvez o sonhador empreenda uma viagem marítima até Santa Helena
para oferecer a Napoleão, que ali se encontra prisioneiro, uma barganha
primorosa em vinhos da Mosela. É recebido com extrema afabilidade pelo ex-imperador
e chega quase a lamentar-se quando acorda e sua curiosa ilusão é destruída.
Mas, comparemos a situação do sonho, prossegue Hildebrandt, com a realidade.
O sonhador nunca foi negociante de vinhos, nem jamais desejou sê-lo. Nunca
fez uma viagem marítima e, se o fizesse, Santa Helena seria o último lugar
do mundo que escolheria para visitar. Não nutre quaisquer sentimentos de
simpatia para com Napoleão, mas, ao contrário, um violento ódio patriótico.
E, além disso tudo, nem sequer era nascido quando Napoleão morreuna ilha,
de modo que ter quaisquer relações pessoais com ele estaria além dos limites
da possibilidade. Assim, a experiência onírica parece algo estranho, inserido
entre duas partes da vida perfeitamente contínuas e compatíveis entre si.
“E contudo”, continua
Hildebrandt [ibid., 10], “o que parece ser o contrário disso é igualmente
verdadeiro e correto. Apesar de tudo, o mais íntimo dos relacionamentos
caminha de mãos dadas, creio eu, com o isolamento e a separação. Podemos
mesmo chegar a dizer que o que quer que os sonhos ofereçam, seu material
é retirado da realidade e da vida intelectual que gira em torno dessa realidade…
Quaisquer que sejam os estranhos resultados que atinjam, eles nunca podem
de fato libertar-se do mundo real; e tanto suas estruturas mais sublimes
como também as mais ridículas devem sempre tomar de empréstimo seu material
básico, seja do que ocorreu perante nossos olhos no mundo dos sentidos,
seja do que já encontrou lugar em algum ponto do curso de nossos pensamentos
de vigília — em outras palavras, do que já experimentamos, externa ou internamente.
(B) O MATERIAL DOS SONHOS — A MEMÓRIA NOS
SONHOS
Todo o material
que compõe o conteúdo de um sonho é derivado, de algum modo, da experiência,
ou seja, foi reproduzido ou lembrado no sonho — ao menos isso podemos considerar
como fato indiscutível. Mas seria um erro supor que uma ligação dessa natureza
entre o conteúdo de um sonho e a realidade esteja destinada a vir à luz
facilmente, como resultado imediato da comparação entre ambos. A ligação
exige, pelo contrário, ser diligentemente procurada, e em inúmeros casos
pode permanecer oculta por muito tempo. A razão disso está em diversas peculiaridades
exibidas pela faculdade da memória nos sonhos, e que, embora geralmente
observadas, até hoje têm resistido à explicação. Vale a pena examinar essas
características mais de perto.
É possível que
surja, no conteúdo de um sonho, um material que, no estado de vigília, não
reconheçamos como parte de nosso conhecimento ou nossa experiência. Lembramo-nos,
naturalmente, de ter sonhado com a coisa em questão, mas não conseguimos
lembrar se ou quando a experimentamos na vida real. Ficamos assim em dúvida
quanto à fonte a que recorreu o sonho e sentimo-nos tentados a crer que
os sonhos possuem uma capacidade de produção independente. Então, finalmente,
muitas vezes após um longo intervalo, alguma nova experiência relembra a
recordação perdida do outro acontecimento e, ao mesmo tempo, revela a fonte
de sonho. Somos assim levados a admitir que, no sonho, sabíamos e nos recordávamos
de algo que estava além do alcance de nossa memória de vigília.
Um exemplo particularmente
impressionante disso é fornecido por Delboeuf [1885, [1]], extraído de sua
própria experiência. Viu ele num sonho o quintal de sua casa, coberto de
neve, e sob ela encontrou dois pequenos lagartos semicongelados e enterrados.
Sendo muito afeiçoado aos animais, apanhou-os, aqueceu-os e os levou de
volta para o pequeno buraco que ocupavam na alvenaria. Deu-lhes ainda algumas
folhas de uma pequena samambaia que crescia no muro, as quais, como sabia,
eles muito apreciavam.No sonho, ele conhecia o nome da planta: Asplenium
ruta muralis. O sonho prosseguiu e, após uma digressão, voltou aos lagartos.
Deboeuf viu então, para sua surpresa, dois outros lagartos que se ocupavam
dos restos da samambaia. Depois, olhou ao redor e viu um quinto e a seguir
um sexto lagarto, que se dirijam para o buraco no muro, até que toda a estrada
fervilhava com uma procissão de lagartos, todos se movimentando na mesma
direção… e assim por diante.
Quando desperto,
Delboeuf sabia os nomes em latim de pouquíssimas plantas, e Asplenium
não estava entre eles. Para sua grande surpresa, pôde confirmar o fato de
que realmente existe uma samambaia com esse nome. Sua denominação correta
é Asplenium ruta muraria, que fora ligeiramente deturpada no sonho.
Isso dificilmente poderia ser uma coincidência; e, para Delboeuf, continuou
a ser um mistério o modo como viera a conhecer o nome “Asplenium”
no sonho.
O sonho ocorreu
em 1862. Dezesseis anos depois, quando o filósofo visitava um de seus amigos,
viu um pequeno álbum de flores prensadas, do tipo dos que são vendidos aos
estrangeiros como lembrança em algumas partes da Suíça. Começou então a
recordar-se de algo — abriu o herbário, encontrou a Asplenium de
seu sonho e viu o nome em latim, escrito por seu próprio punho, abaixo da
flor. Os fatos podiam agora ser verificados. Em 1860 (dois anos antes do
sonhos com os lagartos), uma irmã desse mesmo amigo, em viagem de lua-de-mel,
fizera uma visita a Delboeuf. Trazia consigo o álbum, que seria um presente
dela ao irmão, e Delboeuf deu-se ao trabalho de escrever sob cada planta
seca o nome em latim, ditado por um botânico.
Um feliz acaso,
que tornou esse exemplo tão digno de ser recordado, permitiu a Delboeuf
reconstruir mais uma parte do conteúdo do sonho até sua fonte esquecida.
Um belo dia, em 1877, aconteceu-lhe pegar um velho volume de um periódico
ilustrado, e nele encontrar uma fotografia de toda a procissão de lagartos
com que sonhara em 1862. O volume trazia a data de 1861, e Delboeuf se lembrava
de ter sido assinante da publicação desde seu primeiro número.
O fato de os sonhos
terem sob seu comando lembranças que são inacessíveis na vida de vigília
é tão notável, e de tal importância teórica, que eu gostaria de chamar ainda
mais atenção para ele, relatando mais alguns sonhos “hipermnésicos”. Maury
[1878, 142] conta-nos como, por algum tempo, a palavra “Mussidan” surgia
e ressurgia em sua mente durante o dia. Nada sabia a respeito dela, a não
ser que era o nome de uma pequena cidade da França. Certa noite, sonhou
que conversava com alguém que lhe dizia tervindo de Mussidan, e que, ao
lhe perguntarem onde ficava isso, respondia ser uma pequena cidade do Departamento
de Dordogne. Ao acordar, Maury não nutria nenhuma crença na informação que
lhe fora transmitida no sonho; soube por um jornaleiro, contudo, que era
perfeitamente correta. Nesse caso, a realidade do conhecimento superior
do sonho foi confirmada, mas não se descobriu a fonte esquecida desse conhecimento.
Jessen (1855, 551)
relata um fato muito semelhante num sonho datado de época mais remota: “A
essa classe pertence, entre outros, um sonho do velho Scaliger (citado por
Hennings, 1874, 300), que escreveu um poema em louvor dos famosos homens
de Verona. Um homem chamado Brugnolus apareceu-lhe num sonho e se queixou
de ter sido desprezado. Embora Scaliger não conseguisse lembrar-se de jamais
ter ouvido falar dele, escreveu alguns versos a seu respeito. Seu filho
soube posteriormente, em Verona, que alguém chamado Brugnolus de fato fora
ali famoso como crítico.”
O Marquês d’Hervey
de St. Denys [1867, 305], citado por Vaschide
(1911, 23 e seg.), descreve um sonho hipermnésico que possui uma peculiaridade
especial, pois foi seguido de outro que completou o reconhecimento do que,
a princípio, foi lembrança não identificada: “Certa feita, sonhei com uma
jovem de cabelos dourados, a quem vi conversando com minha irmã enquanto
lhe mostrava um bordado. Ela me pareceu muito familiar no sonho e pensei
já tê-la visto muitas vezes. Depois que acordei, ainda tinha seu rosto muito
nitidamente diante de mim, mas era totalmente incapaz de reconhecê-lo. Voltei
a dormir e o quadro onírico se repetiu… Mas, nesse segundo sonho, falei
com a dama de cabelos louros e perguntei-lhe se já não tivera o prazer de
conhecê-la antes, em algum lugar. ‘Naturalmente’, respondeu ela, ‘não se
lembra da plage em Pornic?’ Despertei imediatamente e pude então
recordar-me com clareza de todos os pormenores associados com a atraente
visão do sonho.”
O mesmo autor [ibid.,
306] (também citado por Vaschide, ibid., 233-4) conta como o músico seu
conhecido ouviu num sonho, certa vez, uma melodia que lhe pareceu inteiramente
nova. Só muitos anos depois foi que ele encontrou a mesma melodia numa velha
coleção de peças musicais, embora ainda assim não pudesse recordar-se de
tê-la examinado algum dia.
Sei que Myers [1892]
publicou toda uma coletânea de sonhos hipermnésicos dessa natureza nas Atas
da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, mas, infelizmente, não tenho acesso
a elas.Ninguém que se ocupe de sonhos pode, creio eu, deixar de descobrir
que é fato muito comum um sonho dar mostras de conhecimentos e lembranças
que o sujeito, em estado de vigília, não está ciente de possuir. Em meu
trabalho psicanalítico com pacientes nervosos, do qual falarei mais adiante,
tenho condições, várias vezes por semana, de provar aos pacientes, com base
em seus sonhos, que eles de fato estão bem familiarizados com citações,
palavras obscenas etc., e que as utilizam em seus sonhos, embora tenham-nas
esquecido em sua vida de vigília. Acrescentei mais um caso inocente de hipermnésia
num sonho, em vista de grande facilidade com que foi possível descobrir
a fonte do conhecimento acessível apenas no sonho.
Um de meus pacientes,
no decurso de um sonho bastante prolongado, sonhou que pedira um “Kontuszówka”
quando se encontrava num café. Depois de me dizer isso, perguntou-me o que
era um “Kontuszówka”, pois nunca ouvira esse nome. Pude responder-lhe
que se tratava de um licor polonês e que ele não poderia ter inventado esse
nome, que há muito me era familiar pelos anúncios afixados nos tapumes.
De início, ele não me quis dar crédito, mas, alguns dias depois, após concretizar
seu sonho num café, notou o nome num tapume na esquina de uma rua pela qual
devia ter passado pelo menos duas vezes ao dia durante vários meses.
Eu mesmo
tenho observado, em relação a meu próprio sonho, o quanto é uma questão
de acaso descobrir-se ou não a fonte dos elementos específicos de um sonho.
Assim é que, durante anos, antes de concluir este livro, fui perseguido
pela imagem de uma torre de igreja de desenho muito simples, que eu não
lembrava ter visto jamais. E então, de súbito, reconheci-a com absoluta
certeza numa pequena estação da linha férrea entre Salzburgo e Reichenhall.
Isso ocorreu na segunda metade da década de 1890, e eu viajara naquela linha
pela primeira vez em 1896. Em anos a freqüente repetição, em meus sonhos,
da imagem de determinado lugar de aparência inusitada tornou-se para mim
um verdadeiro incômodo. Numa relação especial específica comigo, à minha
esquerda, eu via um espaço escuro onde reluziam diversas figuras grotescas
de arenito. Uma vaga lembrança à qual eu não queria dar crédito dizia-me
tratar-se da entrada de uma cervejaria. Mas não consegui descobrir nem o
significado do quadro onírico nem sua origem. Em 1907, ocorreu-me estar
em Pádua, que, lamentavelmente, eu não pudera visitar desde 1895. Minha
primeira visita àquela encantadora cidade universitária fora uma decepção,
pois eunão pudera ver os afrescos de Giotto na Madonna dell’Arena. Voltara
a meio caminho da rua que leva até lá ao ser informado de que a capela estava
fechada naquele dia. Em minha segunda visita, doze anos depois, resolvi
compensar isso, e a primeira coisa que fiz foi encaminhar-me para a capela
da Arena. Na rua que conduz a ela, à minha esquerda e, com toda probabilidade,
no ponto do qual retornara em 1895, deparei com o lugar que tantas vezes
vira em meus sonhos, com as figuras de arenito que faziam parte dele. Era,
de fato, o acesso ao jardim de um restaurante.
Uma das fontes
de onde os sonhos retiram material para reprodução — material que, em parte,
não é nem recordado nem utilizado nas atividades do pensamento de vigília
— é a experiência da infância. Citarei apenas alguns dos autores que observaram
e ressaltaram esse fato.
Hildebrandt (1875,
23): “Já admiti expressamente que os sonhos às vezes trazem de volta a nossas
mentes, com um maravilhoso poder de reprodução, fatos muito remotos e até
mesmo esquecidos de nosso primeiros anos de vida.”
Strümpell (1877,
40): “A posição é ainda mais notável quando observamos como os sonhos por
vezes trazem à luz, por assim dizer, das mais profundas pilhas de destroços
sob as quais as primeiras experiências da meninice são soterradas em épocas
posteriores, imagens de localidades, coisas ou pessoas específicas, inteiramente
intactas e com todo o seu viço original. Isso não se limita às experiências
que criaram uma viva impressão quando ocorreram, ou que desfrutam de alto
grau de importância psíquica e retornaram depois, num sonho, como autênticas
lembranças com as quais a consciência de vigília se regozija. Ao contrário,
as profundezas da memória, nos sonhos, também incluem imagens de pessoas,
coisas, localidades e fatos que datam dos mais remotos tempos, que nunca
tiveram nenhuma importância psíquica ou mais que um pálido grau de nitidez
ou que há muito perderam o que teriam possuído de uma coisa ou de outra,
e que, por conseguinte, parecem inteiramente estranhos e desconhecidos tanto
para a mente que sonha quanto para a mente em estado de vigília, até que
sua origem mais remota tenha sido descoberta.”
Volkelt (1875,
119): “É especialmente notável a facilidade com que as recordações da infância
e da juventude ganham acesso aos sonhos. Os sonhos continuamente nos relembram
coisas em que deixamos de pensar e que há muito deixaram de ser importantes
para nós.”
Como os sonhos
têm a seu dispor material oriundo da infância, e dado que, como todos sabemos,
esse material se acha obliterado, em sua maiorparte, por lacunas em nossa
faculdade consciente da memória, essas circunstâncias dão margem a curiosos
sonhos hipermnésicos, dos quais, mais uma vez, darei alguns exemplos.
Maury (1878, 92)
relata como, quando criança, costumava ir freqüentemente de Meaux, que era
seu torrão natal, à aldeia vizinha de Trilport, onde o pai supervisionava
a construção de uma ponte. Certa noite, num sonho, ele se viu em Trilport
e, mais uma vez, brincava na rua da aldeia. Um homem, envergando uma espécie
de uniforme, dirigiu-se a ele. Maury perguntou-lhe como se chamava e ele
respondeu que seu nome era C., e que era vigia da ponte. Maury despertou
com um sentimento de ceticismo quanto à exatidão da lembrança, e perguntou
a uma velha empregada, que estivera com ele desde sua infância, se ela conseguia
recordar-se de um homem com aquele nome. Mas é claro”, foi a resposta, “ele
era o vigia da ponte quando seu pai a estava construindo.”
Maury (ibid., 143-4)
fornece outro exemplo igualmente bem corroborado da exatidão de uma lembrança
da infância, surgida num sonho. O sonho ocorreu a um certo Monsieur
F., que, quando criança, vivera em Montbrison. Vinte e cinco anos depois
de partir dali, resolveu rever a cidade natal e alguns amigos da família
que não encontrara desde então. Na noite que precedeu sua partida, sonhou
que já estava em Montbrison e que, perto da cidade, encontrava um cavalheiro
a quem não conhecia de vista, mas que lhe dizia ser Monsieur T.,
um amigo de seu pai. No sonho, Monsieur F. estava ciente de que,
quando criança, conhecera alguém com aquele nome, mas, em seu estado de
vigília, não se lembrava mais da aparência dele. Passados alguns dias, chegou
realmente a Montbrison, achou o local que no sonho lhe parecera desconhecido,
e ali encontrou um cavalheiro que reconheceu imediatamente como o Monsieur
T. do sonho. A pessoa real, contudo, aparentava ser muito mais velha do
que parecera no sonho.
Nesse ponto, posso
mencionar um sonho que eu mesmo tive, no qual o que tinha de ser reconstruído
não era uma impressão, mas uma ligação. Sonhei com alguém que, no sonho,
eu sabia ser o médico de minha cidade natal. Seu rosto era indistinto, mas
se confundia com a imagem de um dos professores da minha escola secundária,
com quem ainda me encontro ocasionalmente. Quando acordei, não conseguia
descobrir que ligação haveria entre esses dois homens. Entretanto, fiz a
minha mãe algumas perguntas sobre esse médico que remontava aos primeiros
anos de minha infância, e soube que ele tinha apenas um olho. O professor
cuja fisionomia se sobrepusera à do médico no sonho também só tinha uma
vista. Fazia trinta e oito anos que eu vira o médico pela última vez
e, ao que eu sabia, nunca pensara nele em minha vida de vigília, embora
uma cicatriz em meu queixo pudesse ter-me feito recordar suas atenções para
comigo.
Diversos autores,
por outro lado, asseveram que na maioria dos sonhos se encontram elementos
derivados dos últimos dias antes de sua ocorrência; e isso parece ser uma
tentativa de contrabalançar a excessiva ênfase dada ao papel desempenhado
na vida onírica pelas experiências da infância. Assim, Robert (1886, 46)
realmente declara que os sonhos normais, de modo geral, dizem respeito apenas
às impressões dos últimos dias. Verificaremos, porém, que a teoria dos sonhos
elaborada por Robert torna-lhe essencial destacar as impressões mais recentes,
deixando fora de alcance as mais antigas. Não obstante, o fato que ele afirma
permanece correto, como posso confirmar por minhas próprias pesquisas. Um
autor norte-americano, Nelson [1888, 380 e seg.], é de opinião que as impressões
mais freqüentemente empregadas num sonho decorrem do penúltimo ou do antepenúltimo
dia antes que o sonho ocorra — como se as impressões do dia imediatamente
anterior ao sonho não fossem suficientemente atenuadas ou remotas.
Vários autores,
preocupados em não lançar dúvidas sobre a íntima relação entre o conteúdo
dos sonhos e a vida de vigília, têm-se surpreendido com o fato de as impressões
com que os pensamentos de vigília se acham intensamente ocupados só aparecerem
nos sonhos depois de terem sido um tanto postas de lado pelas atividades
do pensamento diurno. Assim, após a morte de um ente querido, as pessoas
em geral não sonham com ele logo de início, enquanto se acham dominadas
pela dor (Delage, 1891, [40]). Por outro lado, uma das mais recentes observadoras,
a Srta. Hallam (Hallam e Weed, 1896, 410-11), coligiu exemplos em contrário,
assim afirmando o direito de cada um de nós ao individualismo psicológico
nesse aspecto.
A terceira, mais
surpreendente e menos compreensível característica da memória nos sonhos
é demonstrada na escolha do material reproduzido. Pois o que se considera
digno de ser lembrado não é, como na vida de vigília,apenas o que é mais
importante, mas, pelo contrário, também o que é mais irrelevante e insignificante.
No tocante a este ponto, citarei os autores que deram expressão mais vigorosa
à sua estupefação.
Hildebrandt (1875,
11): “Pois o fato notável é que os sonhos extraem seus elementos não dos
fatos principais e excitantes, nem dos interesses poderosos e imperiosos
do dia anterior, mas dos detalhes casuais, do fragmentos sem valor, poder-se-ia
dizer, do que se vivenciou recentemente, ou do passado mais remoto. Uma
morte na família, que nos tenha comovido profundamente e sob cuja sombra
imediata tenhamos adormecido tarde da noite, é apagada de nossa memória
até que, com nosso primeiro momento de vigília, retorna a ela novamente
com perturbadora violência. Por outro lado, uma verruga na testa de um estranho
que vimos na rua, e em quem não pensamos mais depois de passar por ele,
tem um papel a desempenhar em nosso sonho…”
Strümpell (1877,
39): “Há casos em que a análise de um sonho demonstra que alguns de seus
componentes, na realidade, provêm de experiências do dia precedente ou do
dia anterior a este, mas de experiências tão sem importância e tão triviais,
do ponto de vista da consciência de vigília, que foram esquecidas logo após
sua ocorrência. As experiências dessa natureza incluem, por exemplo, observações
acidentalmente entreouvidas, ações desatentamente observadas de outra pessoa,
vislumbres passageiros de pessoas ou coisas, ou fragmentos isolados do que
se leu, e assim por diante.”
Havelock Ellis
(1899, 77); “As emoções profundas da vida de vigília, as questões e os problemas
pelos quais difundimos nossa principal energia mental voluntária, não são
os que se costumam apresentar de imediato à consciência onírica. No que
diz respeito ao passado imediato, são basicamente as impressões corriqueiras,
casuais e ‘esquecidas’ da vida cotidiana que reaparecem em nossos sonhos.
As atividades psíquicas mais intensamente despertas são as que dormem mais
profundamente.”
Binz (1878, 44-5)
efetivamente faz dessa peculiaridade específica da memória nos sonhos uma
oportunidade para expressar sua satisfação com as explicações dos sonhos
que ele próprio sustentou: “E os sonhos naturais levantam problemas semelhantes.
Por que nem sempre sonhamos com as impressões mnêmicas do dia que acabamos
de viver? Por que, muitas vezes, sem nenhum motivo aparente, mergulhamos,
em vez disso, no passado remoto e quase extinto? Por que a consciência,
nos sonhos, recebe com tanta freqüência a impressão de imagens mnêmicas
indiferentes, enquanto as células cerebrais, justamente onde trazem
as marcas mais sensíveis do que se experimentou, permanecem, em sua maioria,
silenciosas e inertes, a menosque tenham sido incitadas a uma nova atividade
pouco antes, durante a vida de vigília?”
É fácil perceber
como a notável preferência demonstrada pela memória, nos sonhos, por elementos
indiferentes, e conseqüentemente despercebidos da experiência de vigília
está fadada a levar as pessoas a desprezarem, de modo geral, a dependência
que os sonhos têm da vida de vigília, e pelo menos a dificultar, em qualquer
caso específico, a comprovação dessa dependência. Assim, a Srta. Whiton
Calkis (1893, 315), em seu estudo estatístico de seus próprios sonhos e
dos de seu colaborador, verificou que em onze por cento do total não havia
nenhuma conexão visível com a vida de vigília. Hildebrandt (1875, [12 e
seg.]) está indubitavelmente certo ao afirmar que seríamos capazes de explicar
a gênese de todas as imagens oníricas se dedicássemos tempo e empenho suficientes
à investigação de sua origem. Ele se refere a isso como “uma tarefa extremamente
trabalhosa e ingrata. Pois, em geral, termina por desenterrar dos mais remotos
pontos dos compartimentos da memória toda sorte de fatos psíquicos totalmente
sem valor e por arrastar à luz, mais uma vez, do esquecimento em que fora
mergulhado talvez na primeira hora após sua ocorrência, toda sorte de momento
completamente irrelevante do passado.” Só posso lamentar que esse autor
de aguda visão se tenha deixado impedir de seguir a trilha que teve esse
começo inauspicioso; se a tivesse seguido, ela o teria levado ao próprio
cerne da explicação dos sonhos.
O modo como a memória
se comporta nos sonhos é, sem sombra de dúvida, da maior importância para
qualquer teoria da memória em geral. Ele nos ensina que “nada que tenhamos
possuído mentalmente uma vez pode se perder inteiramente” (Scholz, 1893,
59); ou, como o exprime Delboeuf [1885, 115], “que toute impression,
même la plus insignifiante, laisse une trace inaltérable, indéfiniment susceptible
de reparaître au jour”. Essa é uma conclusão a que também somos levados
por muitos fenômenos patológicos da vida mental. Certas teorias sobre os
sonhos, que mencionaremos adiante, procuram explicar seu absurdo e incoerência
por meio de um esquecimento parcial do que sabemos durante o dia. Quando
tivermos em mente a extraordinária eficiência que acabamos de ver exibida
pela memória nos sonhos, teremos um sentimento vivo da contradição que essas
teorias envolvem.
Talvez nos ocorra
que o fenômeno do sonhar possa ser inteiramente reduzido ao da memória:
os sonhos, poder-se-ia supor, são a manifestação de uma atividade reprodutiva
que é exercida mesmo durante a noite e que constitui um fim em si mesma.
Isso se coadunaria com afirmações como as que foram formuladas por Pilcz
(1899), segundo as quais existe uma relação fixa observável entre o momento
em que um sonho ocorre e seu conteúdo, sendo as impressões do passado mais
remoto reproduzidas nos sonhos durante o sono profundo, enquanto as impressões
mais recentes surgem ao amanhecer. Mas tais pontos de vista são intrinsecamente
improváveis, em vista da maneira como os sonhos lidam com o material a ser
lembrado. Strümpell [1877, 18] frisa, com razão, que os sonhos não reproduzem
experiências. Eles dão um passo à frente, mas o próximo passo da seqüência
é omitido, ou aparece de forma alterada, ou é substituído por algo inteiramente
estranho. Os sonhos não produzem mais do que fragmentos de reproduções;
e isso constitui uma regra tão geral que nela é possível basear conclusões
teóricas. É verdade que existem casos excepcionais em que um sonho repete
uma experiência tão completamente quanto está ao alcance de nossa memória
de vigília. Delboeuf [1885, 239 e seg.] conta-nos como um de seus colegas
da universidade teve um sonho que reproduzia, em todos os detalhes,
um perigoso acidente de carruagem que ele sofrera, do qual escapou quase
por milagre. A Srta. Calkins (1893) menciona dois sonhos cujo conteúdo
foi uma reprodução exata de um acontecimento do dia anterior, e eu mesmo
terei oportunidade, mais adiante, de relatar um exemplo por mim observado
de uma experiência infantil que reapareceu num sonho sem qualquer modificação.
[Ver em [1] [2] e [3].]
(C) OS ESTÍMULOS E AS FONTES DOS SONHOS
Há um ditado popular
que diz que “os sonhos decorrem da indigestão”, e isso nos ajuda a entender
o que se pretende dizer com estímulos e fontes dos sonhos. Por trás desses
conceitos há uma teoria segundo a qual os sonhos são o resultado de uma
perturbação do sono: não teríamos um sonho a menos que algo de perturbador
acontecesse durante nosso sono, e o sonho seria uma reação a essa perturbação.
Os debates sobre
as causas estimuladoras dos sonhos ocupam um espaço muito amplo na literatura
sobre o assunto. Obviamente, esse problema só poderia surgir depois de os
sonhos se terem tornado alvo de pesquisas biológicas. Os antigos, que acreditavam
que os sonhos eram inspirados pelos deuses, não precisavam ir em busca de
seu estímulo: os sonhos emanavam da vontade de poderes divinos ou demoníacos,
e seu conteúdo provinha do conhecimento ou do objetivo desses poderes. A
ciência foi imediatamente confrontada com a questão de determinar se o estímulo
ao sonho era sempre o mesmo ou se haveria muitos desses estímulos; e isso
envolvia a questão de a explicação das causas dos sonhos se enquadrar no
domínio da psicologia ou, antes, no da fisiologia. A maioria das autoridades
parece concordar na suposição de que as causas que perturbam o sono — isto
é, as fontes dos sonhos — podem ser de muitas espécies, e que tanto os estímulos
somáticos quanto as excitações mentais podem vir a atuar como instigadores
dos sonhos. As opiniões diferem amplamente, contudo, na preferência demonstrada
por uma ou outra fonte dos sonhos e na ordem de importância atribuída a
elas como fatores na produção dos sonhos.
Qualquer enumeração
completa das fontes dos sonhos leva ao reconhecimento de quatro tipos de
fonte, e estes também têm sido utilizados para a classificação dos próprios
sonhos. São eles: (1) excitação sensoriais externas (objetivas); (2) excitações
sensoriais internas (subjetivas); (3) estímulos somáticos internos (orgânicos);
e (4) fontes de estimulação puramente psíquicas.
(C) 1. ESTÍMULOS
SENSORIAIS EXTERNOS
O jovem Strümpell
[1883-4; trad. ingl. (1912, 2, 160), filho do filósofo
cujo livro sobre os sonhos já nos deu várias idéias acerca dos problemas
oníricos, publicou um célebre relato de suas observações sobre um de seus
pacientes, que sofria de anestesia geral da superfície do corpo e paralisia
de vários de seus órgãos sensoriais superiores. Quando se fechava o pequeno
número de canais sensoriais desse homem que permaneciam abertos ao mundo
exterior, ele adormecia. Ora, quando nós mesmos desejamos dormir, temos
o hábito de tentar produzir uma situação semelhante à da experiência de
Strümpell. Fechamos nossos canais sensoriais mais importantes, os olhos,
e tentamos proteger os outros sentidos de todos os estímulos ou de qualquer
modificação dos estímulos que atuam sobre eles. Então adormecemos, muito
embora nosso plano jamais se concretize inteiramente. Não podemos manter
os estímulos completamente afastados de nossos órgãos sensoriais, nem podemos
suspender inteiramente a excitabilidade de nossos órgãos dos sentidos. O
fato de um estímulo razoavelmente poderoso nos despertar a qualquer momento
é prova de que, “Mesmo no sono, a alma está em constante contato com
o mundo extracorporal”. Os estímulos sensoriais que chegam até nós durante
o sono podem muito bem tornar-se fontes de sonhos.
Ora, há inúmeros
desses estímulos, que vão desde os inevitáveis, que o próprio estado de
sono necessariamente envolve ou precisa tolerar de vez em quando, até os
eventuais, que despertam estímulos que podem pôr, ou de fato põem, termo
ao sono. Uma luz forte pode incidir sobre os olhos, ou um ruído pode se
fazer ouvir, ou alguma substância de odor pronunciado poderá estimular a
membrana mucosa do nariz. Por movimentos involuntários durante o sono, podemos
descobrir alguma parte do corpo e expô-lo a sensações de frio, ou, mediante
uma mudança de posição, podemos provocar sensações de pressão ou contato.
É possível que sejamos picados por um mosquito, ou algum pequeno incidente
durante a noite talvez afete vários dos nossos sentidos ao mesmo tempo.
Alguns observadores atentos coligiram toda uma série de sonhos em que houve
uma correspondência tão grande entre um estímulo constatado ao despertar
e uma parte do conteúdo do sonho que foi possível identificar o estímulo
como a fonte do sonho.
Citarei, de autoria
de Jessen (1855, 527 e seg.), uma série desses sonhos, que podem ser ligados
a uma estimulação sensorial objetiva e mais ou menos acidental.
“Todo ruído indistintamente
percebido provoca imagens oníricas correspondentes. Uma trovoada nos situa
em meio a uma batalha; o cantar de um galo pode transmudar-se no grito de
terror de um homem; o ranger de uma porta pode produzir um sonho com ladrões.
Se os lençóis da cama caírem durante a noite, talvez sonhemos que estamos
andando nus de um lado para outro, ou então caindo n’água. Se estivermos
atravessados na cama e com os pés para fora da beirada, talvez sonhemos
que estamos à beira de um tremendo precipício ou caindo de um penhasco.
Se a cabeça ficar debaixo do travesseiro, sonharemos estar debaixo de uma
pedra enorme, prestes a nos soterrar sob seu peso. Os acúmulos de sêmen
provocam sonhos lascivos e as dores locais produzem idéias de estarmos sendo
maltratados, atacados ou feridos…
“Meier (1758, 33)
sonhou, certa feita, que era dominado por alguns homens que o estendiam
de costas no chão e enfiavam uma estaca na terra entre seu dedão do pé e
o dedo ao lado. Enquanto imaginava essa cena no sonho, acordou e verificou
que havia um pedaço de palha entre seus dedos. Em outra ocasião, segundo
Hennings (1784, 258), quando Meier apertara muito o colarinho da roupa de
dormir no pescoço, sonhou que estava sendo enforcado. Hoffbaeur (1796, 146)
sonhou, quando jovem, que estava caindo de um muro alto, e ao acordar, viu
que a armação da cama desabara e ele realmente caíra no chão… Gregory relata
que, certa vez, quando estava com os pés num saco de água quente, sonhou
ter subido até o cume do Monte Etna, onde o chão esta insuportavelmente
quente. Outro homem, que dormia com um cataplasma quente na cabeça, sonhou
que estava sendo escalpelado por um bando de peles-vermelhas, enquanto um
terceiro, que usava uma camisa de dormir úmida, imaginou que estava sendo
arrastado por uma correnteza. Um ataque de gota repentinamente surgido durante
o sono levou um paciente a acreditar que estava nas mãos da Inquisição e
sendo torturado no cavalete (Macnisch [1835, 40]).”
O argumento baseado
na semelhança entre o estímulo e o conteúdo do sonho se fortalece quando
é possível transmitir deliberadamente um estímulo sensorial à pessoa adormecida
e nela produzir um sonho correspondente àquele estímulo. De acordo com Macnisch
(loc. cit.), citado por Jessen (1855, 529), experimentos dessa natureza
já foram feitos por Girou de Buzareingues [1848, 55]. “Ele deixara o joelho
descoberto e sonhou que estava viajando de noite numa diligência. A esse
respeito, ele observa que os viajantes porcerto estão cientes de como os
joelhos ficam frios à noite num coche. Noutra ocasião, ele deixou descoberta
a parte posterior da cabeça e sonhou que estava participando de uma cerimônia
religiosa ao ar livre. Cabe explicar que, no país onde morava, era costume
manter sempre a cabeça coberta, exceto em circunstâncias como essas.”
Maury (1878, [154-6])
apresenta algumas novas observações sobre sonhos produzidos nele mesmo.
(Diversos outros experimentos foram mal-sucedidos.)
(1) Alguém fez
cócegas em seus lábios e na ponta do nariz com uma pena. — Ele sonhou com
uma forma medonha de tortura: uma máscara de piche ora colocada em seu rosto
e depois puxada, arrancando-lhe a pele.
(2) Alguém afiou
uma tesoura num alicate. — Ele ouviu o repicar de sinos, seguido por sinais
de alarma, e se viu de volta aos dias de junho de 1848.
(3) Deram-lhe água-de-colônia
para cheirar. — Ele se viu no Cairo, na loja de Johann Maria Farina. Seguiram-se
algumas aventuras absurdas que ele não soube reproduzir.
(4) Beliscaram-lhe
levemente o pescoço. — Ele sonhou que lhe aplicavam um emplastro de mostarda
e pensou no médico que o tratara quando criança.
(5) Aproximaram
um ferro quente de seu rosto. — Sonhou que os “chauffeurs”
haviam penetrado na casa e forçavam seus moradores a dar-lhes dinheiro,
enfiando-lhes os pés em braseiros. Apareceu então a Duquesa de Abrantes,
de quem ele era secretário no sonho.
(8) Pingaram uma
gota d’água em sua testa. — Ele estava na Itália, suava violentamente e
bebia vinho branco de Orvieto.
(9) Fez-se com
que a luz de uma vela brilhasse repetidamente sobre ele através de uma folha
de papel vermelho. — Sonhou com o tempo e com o calor, e se viu novamente
numa tempestade que enfrentara no Canal da Mancha.
Outras tentativas
de produzir sonhos experimentalmente foram relatadas por Hervey de Saint-Denys
[1867, 268 e seg. e 376 e seg.], Weygandt (1893) e outros.
Muitos autores
teceram comentários sobre “a notável facilidade com que os sonhos conseguem
enfrentar uma impressão súbita vinda do mundo dos sentidos em sua própria
estrutura, de modo que esta surge sob a aparência de uma catástrofe previamente
preparada a que se chegou gradativamente” [(Hildebrandt, 1875, [36])]. “Em
minha juventude”, prossegue esse autor, “eu costumava usar um despertador
para me levantar regularmente numa determinada hora. Por centenas de vezes
deve ter acontecido de o ruído produzido por esse instrumento se enquadrar
num sonho aparentemente único e tivesse alcançado seu fim precípuo no que
era clímax logicamente indispensável.” [Ibid., 37.]
Citarei três desses
sonhos despertadores, agora num outro sentido. [Ver em. [1]-[2]]
Volket (1875, 108
e seg.) escreve: “Um compositor, certa feita, sonhou que estava dando uma
aula e tentando esclarecer determinado ponto a seus alunos. Quando acabou
de fazê-lo, voltou-se para um dos meninos e perguntou-lhe se havia entendido.
Este respondeu-lhe aos gritos, como um possesso: ‘Oh ja! [Oh, sim!]’.
Ele começou a repreender o menino asperamente por estar gritando, mas
toda a classe irrompeu em gritos, primeiro de ‘Orja!‘, depois de
‘Eurjo!‘ e finalmente de ‘Feuerjo!‘Neste ponto ele foi
despertado por gritos reais de ‘Feurjo!‘ na rua.”
Garnier (1872,
[1, 476]) conta como Napoleão I foi despertado pela explosão de uma bomba
enquanto dormia em sua carruagem. Sonhou que estava novamente atravessando
o Tagliamento sob o bombardeio austríaco, e por fim, sobressaltado, acordou
gritando: “Estamos perdidos!”
Um sonho de Maury
(1878, 161) tornou-se famoso. Estava doente e de cama em seu quarto, com
a mãe sentada a seu lado, e sonhou que estava no Reinado do Terror. Após
testemunhar diversas cenas pavorosas de assassinato, foi finalmente levado
perante o tribunal revolucionário. Lá viu Robespierre, Marat, Fouquier-Tinville
e o resto dos soturnos heróis daqueles dias terríveis. Foi interrogado por
eles, e depois de alguns incidentes que não guardou na memória, foi condenado
e conduzido ao local de execução, cercado por uma multidão enorme. Subiu
ao cadafalso e foi amarrado à prancha pelo carrasco. A guilhotina estava
preparada e a lâmina desceu. Ele sentiu a cabeça sendo separada do corpo,
acordou em extrema angústia — eviu que a cabeceira da cama caíra e lhe atingira
as vértebras cervicais, tal como a lâmina da guilhotina as teria realmente
atingido.
Esse sonho constituiu
a base de um interessante debate entre Le Lorain (1894) e Egger (1895) na
Revue philosophique. A questão levantada foi se e como era possível
que alguém, ao sonhar, condensasse tal quantidade de material aparentemente
superabundante, no curto período transcorrido entre a percepção do estímulo
emergente e o despertar.
Os exemplos dessa
natureza deixam a impressão de que, de todas as fontes dos sonhos, as mais
bem confirmadas são os estímulos sensoriais objetivos durante o sono. Além
disso, eles constituem rigorosamente as únicas fontes levadas em conta pelos
leigos. Quando se pergunta a um homem culto, que não esteja familiarizado
com a literatura dos sonhos, como é que estes surgem, ele responde infalivelmente
com uma referência a algum exemplo de seu conhecimento em que um sonho tenha
sido explicado por um estímulo sensorial objetivo descoberto após o despertar.
A investigação científica, contudo, não pode parar aí. Ela encontra uma
oportunidade de formular outras perguntas no fato observado de que o estímulo
que incide sobre os sentidos durante o sono não aparece no sonho em sua
forma real, mas é substituído por outra imagem que, de algum modo,
está relacionada com ele. Todavia, a relação que liga o estímulo do sonho
ao sonho que dele resulta é, para citarmos as palavras de Maury (1854, 72),
“une affinité quelconque, mais qui n’est pas unique et exclusive”.
Consideremos, a esse respeito, três dos sonhos de Hildebrandt com despertadores
(1875, 37 e seg.). A questão que eles levantam é porque o mesmo estímulo
teria provocado três sonhos tão diferentes, e porque teria provocado estes,
e não outros.
“Sonhei, então,
que, numa manhã de primavera, eu estava passeando e caminhando pelos campos
verdejantes, quando cheguei a uma aldeia vizinha, onde vi os aldeões em
seus melhores trajes, com livros de hinos debaixo do braço, afluindo para
a igreja em bandos. Claro! Era domingo, e o serviço religioso matutino logo
estaria começando. Resolvi participar dele, mas primeiro, como estava sentindo
calor por causa da caminhada, fui até o cemitério que circundava a igreja
para me refrescar. Enquanto lia algumas das inscrições das lápides, ouvi
o sineiro subindo para a torre da igreja e, no alto da mesma, vi então o
sino do vilarejo, que logo daria o sinal para o começo das preces. Por um
bom tempo, lá ficou imóvel, e depois começoua balançar, e de repente, seu
repicar passou a soar de maneira nítida e penetrante — tão nítida e penetrante
que pôs termo a meu sono. Mas o que estava tocando era meu despertador.”
“Eis aqui outro
exemplo. Fazia um dia claro de inverno e as ruas estavam cobertas por uma
espessa camada de neve. Eu havia concordado em participar de um grupo para
um passeio de trenó, mas tive de esperar muito tempo antes de chegar a notícia
de que o trenó se achava à porta. Seguiram-se então os preparativos para
entrar — o tapete de pele foi estendido, ajeitou-se o agasalho para os pés
— e finalmente ocupei meu lugar. Mas, ainda assim, o momento da partida
foi retardado, até que um puxão nas rédeas deu aos cavalos, que esperavam,
o sinal da partida. Eles partiram e, com uma violenta sacudidela, os pequenos
guizos do trenó começaram a produzir seu conhecido tilintar — com tal violência,
de fato, que num instante se rompeu a fina teia de meu sonho. E, mais uma
vez, era apenas o som estridente do despertador.”
“E agora, um terceiro
exemplo. Eu olhava para uma copeira que ia levando várias dúzias de pratos
empilhados uns sobre os outros, andando pelo corredor que dava para a sala
de jantar. A pilha de louça em seus braços me pareceu prestes a perder o
equilíbrio. ‘Cuidado’, exclamei, (‘senão você vai deixar cair tudo!’. Seguiu-se,
como de praxe, a inevitável resposta: ela estava acostumada àquele tipo
de trabalho, e assim por diante. Entrementes, meu olhar ansioso seguia a
figura que avançava. E então — justamente como eu esperava — ela tropeçou
na soleira da porta e a frágil louça escapuliu e, numa verdadeira sinfonia
de ruídos, espatifou-se em mil pedaços no chão. Mas o barulho prosseguiu
sem cessar, e logo já não parecia ser estrondoso retinir da louça se quebrando;
começou a se transformar no som de uma campainha — e essa campainha, como
agora percebia meu eu desperto, era apenas o despertador cumprindo seu dever.”
A questão de por
que a mente confunde a natureza dos estímulos sensoriais objetivos nos sonhos
recebe quase a mesma resposta de Strümpell (1877, [103]) e de Wundt (1874,
659 e seg.): a mente recebe estímulos que a alcançam durante o sono sob
condições favoráveis à formação de ilusões. Uma impressão sensorial é reconhecida
por nós e corretamente interpretada — isto é, é situada no grupo de lembranças
a que, de acordo com todas as nossas experiências, ela pertence — contanto
que a impressão seja suficientemente forte, nítida e duradoura, e contanto
que tenhamos tempo suficiente a nosso dispor para considerar o assunto.
Se essas condições não forem satisfeitas, confundiremos o objeto que é a
fonte da impressão: formaremos uma ilusão sobre ele. “Se alguém fizer uma
caminhada pelo campo e tiver uma percepção indefinida de umobjeto distante,
poderá a princípio pensar que se trata de um cavalo.” Vendo mais de perto,
poderá ser levado a interpretá-la como uma vaca deitada, e a imagem poderá
finalmente transformar-se em definitivo num grupo de pessoas sentadas no
chão. As impressões de estímulos exteriores recebidas pela mente durante
o sono são de natureza similarmente vaga; e com base nisso, a mente cria
alusões, visto que um número maior ou menor de imagens mnêmicas é despertado
pela impressão, e é através destas que ela adquire seu valor psíquico. De
qual dos numerosos grupos de lembranças em causa as imagens correlatas
serão despertadas, e qual das possíveis conexões associativas será
por conseguinte posta em ação — também essas questões, segundo a teoria
de Strümpell, são indetermináveis e ficam, por assim dizer, abertas à decisão
arbitrária da mente.
Nesta altura, defronta-se-nos
uma escolha entre duas alternativas. Podemos admitir como um fato que é
impossível examinar ainda mais as leis que regem a formação dos sonhos;
e podemos, conseqüentemente, deixar de inquirir se haverá ou não outros
determinantes que regem a interpretação atribuída por aquele que sonha à
ilusão evocada pela impressão sensorial. Ou, por outro lado, podemos suspeitar
de que o estímulo sensorial que atinge o sujeito adormecido desempenha apenas
um modesto papel na geração de seu sonho, e que outros fatores determinam
a escolha das imagens mnêmicas que nele serão despertadas. De fato, se examinarmos
os sonhos experimentalmente produzidos de Maury (que relatei com tal riqueza
de detalhes exatamente por esse motivo), seremos tentados a dizer que o
experimento, de fato, explica a origem de apenas um elemento dos sonhos;
o restante de seu conteúdo parece autônomo demais e excessivamente definido
em seus detalhes para ser explicável apenas pela necessidade de se ajustar
ao elemento experimentalmente introduzido de fora. De fato, começa-se a
ter dúvidas sobre a teoria das ilusões e o poder das impressões objetivas
de darem forma aos sonhos, quando se verifica que essas impressões, por
vezes, estão sujeitas, nos sonhos, às mais peculiares e exageradas interpretações.
Assim, Simon (1888) relata-nos um sonho no qual via algumas figuras gigantescas
sentadas à mesa, e ouvia distintamente o pavoroso som do estalido produzido
pelo fechamento de suas mandíbulas ao mastigarem. Quando despertou, ouviu
o barulho dos cascos de um cavalo que passava a galope por sua janela. O
ruído feito pelos cascos do cavalo talvez tenha sugerido idéias provenientes
de um grupo de lembranças ligadas às Viagens de Gulliver — os gigantes
de Brobdingnag e o virtuoso Houyhnhnms — se é que posso arriscar uma interpretação
sem a ajuda do autor do sonho. Não será provável, portanto, que a escolha
de um grupo tão inusitado de lembranças como esse tenha sido facilitada
por motivos outros que não apenas o estímulo objetivo?
(C) 2. EXCITAÇÕES SENSORIAIS INTERNAS (SUBJETIVAS)
Apesar de quaisquer
objeções em contrário, é forçoso admitir que o papel desempenhado na causação
dos sonhos pelas excitações sensoriais objetivas durante o sono permanece
indiscutível. E se, por sua natureza e freqüência, esses estímulos parecem
insuficientes para explicar todas as imagens oníricas, somos incentivados
a buscar outras fontes de sonhos análogas a eles em seu funcionamento. Não
sei dizer quando despontou pela primeira vez a idéia de se levarem em conta
as excitações internas (subjetivas) dos órgãos dos sentidos, juntamente
com os estímulos sensoriais externos. É fato, porém, que isso é feito,
mais ou menos explicitamente, em todas as discussões mais recentes da etiologia
dos sonhos. “Um papel essencial é também desempenhado, creio eu”, escreve
Wundt (1874, 657), “na produção das ilusões que ocorrem nos sonhos, pelas
sensações visuais e auditivas subjetivas que nos são familiares, no estado
de vigília, como as áreas amorfas de luminosidade que se tornam visíveis
para nós quando nosso campo visual é obscurecido, como o tinido ou zumbido
nos ouvidos, e assim por diante. Especialmente importante entre elas são
as excitações subjetivas da retina. É dessa forma que se deve explicar a
notável tendência dos sonhos a fazerem surgir diante dos olhos objetos semelhantes
ou idênticos, em grande número. Vemos diante de nós inúmeros pássaros, borboletas,
peixes, contas coloridas, flores, etc. Aqui, a poeira luminosa no campo
obscurecido da visão assume uma forma fantástica, e os numerosos pontos
de que ela se compõe são incorporados ao sonho como um número equivalente
de imagens separadas; e estas, em vista de sua mobilidade, são consideradas
como objetos móveis. — Isso também constitui, sem dúvida, a base
da grande predileção demonstrada pelos sonhos por toda sorte de figuras
de animais, pois a imensavariedade de tais formas pode se ajustar facilmente
à forma específica assumida pelas imagens luminosas subjetivas.”
Como fontes de
imagens oníricas, as excitações sensoriais subjetivas possuem a vantagem
óbvia de não dependerem, como as objetivas, de circunstâncias fortuitas
externas. Estão à mão, como se poderia dizer, sempre que delas se necessita
como explicação. Mas estão em desvantagem, comparadas aos estímulos sensoriais
objetivos, no sentido de que seu papel na instigação de um sonho é pouco
ou nada acessível à confirmação e a experimentação. A principal prova em
favor do poder de instigação de sonhos das excitações sensoriais subjetivas
é fornecida pelo que se conhece como “alucinações hipnagógicas”, ou, para
empregar a expressão de Johannes Müller (1826), “fenômenos visuais imaginativos”.
Estes consistem em imagens, com freqüência muito nítidas e rapidamente mutáveis,
que tendem a surgir — de forma bastante habitual em algumas pessoas — durante
o período do adormecimento; e também podem persistir por algum tempo depois
de os olhos se abrirem. Maury, que era altamente sujeito a elas, procedeu
a seu exame exaustivo e sustenta (como fez Müller [ibid., 49 e seg.] antes
dele) a ligação e mesmo a identidade delas com as imagens oníricas. Para
produzi-las, diz ele (Maury, 1878, 59 e seg.), faz-se necessária uma certa
dose de passividade mental, um relaxamento do esforço de atenção. No entanto,
basta cair num estado letárgico desse tipo por apenas um segundo (contanto
que se tenha a necessária predisposição) para que se experimente uma alucinação
hipnagógica. Depois disso, pode-se acordar novamente, e é possível que o
processo se repita várias vezes até que afinal se adormeça. Maury verificou
que, quando lhe acontecia acordar mais uma vez após um intervalo muito prolongado,
ele conseguia detectar em seu sonho as mesmas imagens que lhe haviam flutuado
diante dos olhos como alucinações hipnagógicas antes de adormecer. (Ibid.,
134 e seg.). Foi o que ocorreu, em certa ocasião, com diversas figuras grotescas,
de feições contorcidas e estranhas coiffures, que o importunaram
com extrema persistência enquanto ele adormecia, e com as quais se lembrou
de ter sonhado depois de acordar. De outra feita, quando sentia fome, por
ter entrado num regime frugal, teve uma visão hipnagógica de um prato e
de uma mão a segurar um garfo, que se servia da comida do prato. No sonho
seguinte, estava sentado a uma mesa farta e ouvia o barulho feito com os
garfos pelas pessoas que jantavam. Ainda numa outra ocasião, quando foi
dormir com os olhos irritados e doloridos, teve uma alucinação hipnagógica
com alguns sinais microscopicamente pequenos, que só pôde decifrar um a
um, com extrema dificuldade; despertou uma hora depois e selembrou de um
sonho em que havia um livro impresso com tipos muito pequenos, que ele lia
com grande esforço.
Alucinações auditivas
de palavras, nomes e assim por diante também podem ocorrer hipnagogicamente,
da mesma forma que as imagens visuais, e ser então repetidas num sonho —
tal como uma ouverture anuncia os temas principais que se irão ouvir
uma ópera.
Um observador mais
recente das alucinações hipnagógicas, G. Trumbull Ladd (1892), seguiu a
mesma orientação de Müller e Maury. Depois de praticar um pouco, tornou-se
capaz de se acordar repentinamente, sem abrir os olhos, dois a cinco minutos
após haver adormecido gradualmente. Assim, teve oportunidade de comparar
as sensações retinianas que acabavam de desaparecer com as imagens oníricas
que lhe persistiam na memória. Declara ele que foi possível, em todos os
casos, reconhecer uma relação interna entre as duas, pois os pontos e as
linhas luminosos da luz idiorretínica proporcionavam, por assim dizer, um
contorno ou diagrama das figuras mentalmente percebidas no sonho. Por exemplo,
uma disposição dos pontos luminosos da retina em linhas paralelas correspondeu
a um sonho em que ele vira, claramente dispostas diante de si, algumas linhas
de matéria impressa que estava lendo. Ou, para empregar suas próprias palavras,
“a página nitidamente impressa que eu estava lendo no sonho evaneceu-se
num objeto que se afigurou, perante minha consciência de vigília, como um
trecho de uma página impressa real, vista através de um orifício oval num
pedaço de papel, a uma distância grande demais para que se pudesse distinguir
mais do que um fragmento ocasional de uma palavra, e, mesmo assim, indistintamente”.
Ladd é de opinião (embora não subestime o papel desempenhado nesse fenômeno
pelos fatores centrais [cerebrais]) que é difícil ocorrer um único sonho
visual sem que haja participação de material fornecido pela excitação retiniana
intra-ocular. Isso se aplica especialmente aos sonhos que ocorrem logo depois
de alguém adormecer num quarto escuro, ao passo que a fonte de estímulo
para os sonhos que ocorrem de manhã, pouco antes do despertar, é a luz objetiva
que penetra nos olhos num quarto que se vai clareando. A natureza mutável,
e perpetuamente alternante, da excitação da luz idiorretínica corresponde
precisamente à sucessão de imagens em constante movimento que nos é mostrada
por nossos sonhos. Ninguém que dê importância a essas observações de Ladd
há de subestimar o papel desempenhado nos sonhos por essas fontes subjetivas
de estimulação, pois, como sabemos, as imagens visuais constituem o principal
componente de nossos sonhos. As contribuições dos outros sentidos, salvo
o da audição, são intermitentes e de menor importância. lembrou de um sonho
em que havia um livro impresso com tipos muito pequenos, que ele lia com
grande esforço.
Alucinações auditivas
de palavras, nomes e assim por diante também podem ocorrer hipnagogicamente,
da mesma forma que as imagens visuais, e ser então repetidas num sonho —
tal como uma ouverture anuncia os temas principais que se irão ouvir uma
ópera.
Um observador mais
recente das alucinações hipnagógicas, G. Trumbull Ladd (1892), seguiu a
mesma orientação de Müller e Maury. Depois de praticar um pouco, tornou-se
capaz de se acordar repentinamente, sem abrir os olhos, dois a cinco minutos
após haver adormecido gradualmente. Assim, teve oportunidade de comparar
as sensações retinianas que acabavam de desaparecer com as imagens oníricas
que lhe persistiam na memória. Declara ele que foi possível, em todos os
casos, reconhecer uma relação interna entre as duas, pois os pontos e as
linhas luminosos da luz idiorretínica proporcionavam, por assim dizer, um
contorno ou diagrama das figuras mentalmente percebidas no sonho. Por exemplo,
uma disposição dos pontos luminosos da retina em linhas paralelas correspondeu
a um sonho em que ele vira, claramente dispostas diante de si, algumas linhas
de matéria impressa que estava lendo. Ou, para empregar suas próprias palavras,
“a página nitidamente impressa que eu estava lendo no sonho evaneceu-se
num objeto que se afigurou, perante minha consciência de vigília, como um
trecho de uma página impressa real, vista através de um orifício oval num
pedaço de papel, a uma distância grande demais para que se pudesse distinguir
mais do que um fragmento ocasional de uma palavra, e, mesmo assim, indistintamente”.
Ladd é de opinião (embora não subestime o papel desempenhado nesse fenômeno
pelos fatores centrais [cerebrais]) que é difícil ocorrer um único sonho
visual sem que haja participação de material fornecido pela excitação retiniana
intra-ocular. Isso se aplica especialmente aos sonhos que ocorrem logo depois
de alguém adormecer num quarto escuro, ao passo que a fonte de estímulo
para os sonhos que ocorrem de manhã, pouco antes do despertar, é a luz objetiva
que penetra nos olhos num quarto que se vai clareando. A natureza mutável,
e perpetuamente alternante, da excitação da luz idiorretínica corresponde
precisamente à sucessão de imagens em constante movimento que nos é mostrada
por nossos sonhos. Ninguém que dê importância a essas observações de Ladd
há de subestimar o papel desempenhado nos sonhos por essas fontes subjetivas
de estimulação, pois, como sabemos, as imagens visuais constituem o principal
componente de nossos sonhos. As contribuições dos outros sentidos, salvo
o da audição, são intermitentes e de menor importância.
(C) 3. ESTÍMULOS
SOMÁTICOS ORGÂNICOS INTERNOS
Visto estarmos
agora empenhados em buscar as fontes dos sonhos dentro do organismo, e não
fora dele, devemos ter em mente que quase todos os nossos órgãos internos,
embora mal nos dêem qualquer informação sobre seu funcionamento enquanto
sadios, tornam-se uma fonte de sensações predominantemente penosas quando
se acham no que descrevemos como estados de excitação, ou durante as doenças.
Essas sensações devem ser equiparadas aos estímulos sensoriais ou penosos
que nos chegam do exterior. A experiência de séculos reflete-se — para citarmos
um exemplo — nas observações de Strümpell sobre o assunto (1877, 107): “Durante
o sono, a mente atinge uma consciência sensorial muito mais profunda e ampla
dos eventos somáticos do que durante o estado de vigília. É obrigada a receber
e a ser afetada por impressões de estímulos provenientes de partes do corpo
e de modificações do corpo das quais nada sabe enquanto desperta.” Um escritor
tão remoto quanto Aristóteles já considerava perfeitamente possível que
os primórdios de uma doença se pudessem fazer sentir nos sonhos, antes que
se pudesse observar qualquer aspecto dela na vida de vigília, graças ao
efeito amplificador produzido nas impressões pelos sonhos. (Ver em [1].)
Também os autores médicos, que certamente estavam longe de acreditar
no poder profético dos sonhos, não contestaram seu significado como pressagiadores
de doenças. (Cf. Simon, 1888, 31, e muitos outros autores mais antigos.)
Alguns exemplos
do poder diagnosticador dos sonhos parecem ser invocados em épocas mais
recentes. Assim, Tissié (1898, 62 e seg.) cita a história de Artigues (1884,
43) sobre uma mulher de quarenta e três anos de idade que, embora aparentemente
em perfeita saúde, foi durante alguns anosatormentada por sonhos de angústia.
Passando então por um exame médico, verificou-se que estava no estágio inicial
de uma afecção cardíaca, da qual veio finalmente a falecer.
Os distúrbios pronunciados
dos órgãos internos agem, obviamente, como instigadores de sonhos em inúmeros
casos. A freqüência dos sonhos de angústia nas doenças do coração e dos
pulmões é geralmente admitida. Realmente, essa faceta da vida onírica é
colocada em primeiro plano por tantas autoridades que me contento com uma
mera referência à literatura: Radestock [1879, 70], Spitta [1882, 241 e
seg.], Maury [1878, 33 e seg.], Simon (1888), Tissié [1898, 60 e segs.].
Tissié chega a ser de opinião que o órgão específico afetado dá um cunho
característico ao conteúdo do sonho. Assim, os sonhos dos que sofrem doenças
cardíacas costumam ser curtos e têm um fim assustador no momento do despertar;
seu conteúdo quase sempre inclui uma situação que implica uma morte horrível.
Os que sofrem de doenças pulmonares sonham com sufocação, grandes aglomerações
e fugas, e estão notavelmente sujeitos ao conhecido pesadelo. (A propósito,
pode-se observar que Boerner (1855) conseguiu provocar este último experimentalmente,
deitando-se com o rosto voltado para a cama ou cobrindo as vias respiratórias.)
No caso de distúrbios digestivos, os sonhos contêm idéias relacionadas com
o prazer na alimentação ou a repulsa. Finalmente, a influência da excitação
sexual no conteúdo dos sonhos pode ser adequadamente apreciada por todos
mediante sua própria experiência, e fornece à teoria de que os sonhos são
provocados por estímulos orgânicos seu mais poderoso apoio.
Além disso, ninguém
que consulte a literatura sobre o assunto poderá deixar de notar que alguns
autores, como Maury [1878, 451 e seg.] e Weygandt (1893), foram levados
ao estudo dos problemas oníricos pelo efeito de suas próprias doenças sobre
o conteúdo dos seus sonhos.
Não obstante, embora
esses fatos estejam verificados sem sombra de dúvida, sua importância para
o estudo das fontes dos sonhos não é tão grande como se poderia esperar.
Os sonhos são fenômenos que ocorrem em pessoas sadias — talvez em todos,
talvez todas as noites — e é óbvio que a doença orgânica não pode ser incluída
entre suas condições indispensáveis. E o que nos interessa não é a origem
de certos sonhos especiais, mas a fonte que provoca os sonhos comuns das
pessoas normais.
Basta-nos apenas
dar mais um passo à frente, contudo, para encontrarmos uma fonte de sonhos
mais copiosa do que qualquer outra que tenhamos considerado até agora, uma
fonte que, a rigor, parece nunca poder esgotar-se. Se se verificar que o
interior do corpo, quando se acha enfermo, torna-se umafonte de estímulos
para os sonhos, e se admitirmos que, durante o sono, a mente, estando desviada
do mundo exterior, pode dispensar maior atenção ao interior do corpo, parecer-nos-à
plausível supor que os órgãos internos não precisam estar doentes para provocar
excitações que atinjam a mente adormecida — excitações que, de algum modo,
transformam-se em imagens oníricas. Enquanto despertos, estamos cônscios
de uma sensibilidade geral difusa, ou cenestesia, mas apenas como uma qualidade
vaga de nosso estado de espírito; para essa sensação, de acordo com a opinião
médica, todos os sistemas orgânicos contribuem com uma parcela. À noite,
porém, parece que essa mesma sensação, ampliada numa poderosa influência
e atuando através dos seus vários componentes, torna-se a fonte mais vigorosa
e, ao mesmo tempo, a mais comum para instigar imagens oníricas. Se assim
for, resta apenas investigar as leis segundo as quais os estímulos orgânicos
se transmudam em imagens oníricas.
Chegamos aqui à
teoria da origem dos sonhos preferida por todas as autoridades médicas.
A obscuridade em que o centro do nosso ser (o “moi splanchnique”,
como o chama Tissié [1898, 23]) fica vedado a nosso conhecimento e a obscuridade
que cerca a origem dos sonhos coincidem bem demais para não serem relacionadas
uma com a outra. A linha de raciocínio que encara a sensação orgânica vegetativa
como a formadora dos sonhos tem, além disso, uma atração particular para
os médicos, por permitir uma etiologia única para os sonhos e as doenças
mentais, cujas manifestações tanto têm em comum, já que as mudanças cenestésicas
e os estímulos provenientes dos órgãos internos são também predominantemente
responsabilizados pela origem das psicoses. Não é de surpreender, portanto,
que a origem da teoria da estimulação somática remonte a mais de uma fonte
independente.
A linha de argumentação
desenvolvida pelo filósofo Schopenhauer, em 1851, exerceu uma influência
decisiva em diversos autores. Nossa imagem do universo, na opinião dele,
é alcançada pelo fato de nosso intelecto tomar as impressões que o atingem
de fora e remodelá-las segundo as formas de tempo, espaço e causalidade.
Durante o dia, os estímulos vindos do interior do organismo, do sistema
nervoso simpático, exercem, no máximo, um efeito inconsciente sobre nosso
estado de espírito. Mas, à noite, quando já não somos ensurdecidos pelas
impressões do dia, as que provêm de dentro são capazes de atrair a atenção
— do mesmo modo que, à noite, podemos ouvir o murmúrio de um regato que
é abafado pelos ruídos diurnos. Mas, como pode o intelecto reagir a esses
estímulos senão exercendo sobre eles sua própria função específica? Os estímulos
por conseguinte, são remodeladoscomo formas que ocupam espaço e tempo e
obedecem às regras da causalidade, e assim surgem os sonhos [cf. Schopenhauer,
1862, 1, 249 e segs.]. Scherner (1861) e, depois dele, Volkelt (1875) esforçaram-se
em seguida por pesquisar com maior riqueza de detalhes a relação entre os
estímulos somáticos e as imagens oníricas, mas adiarei meu exame dessas
tentativas até chegarmos à seção que versa sobre as várias teorias acerca
dos sonhos. [Ver em [1]]
O psiquiatra Krauss
[1859, 255], numa investigação conduzida com notável consistência, reconstrói
a origem dos sonhos e deliria, de um lado, e dos delírios,
de outro, até o mesmo fator, a saber, sensações organicamente determinadas.
É quase impossível pensar em qualquer parte do organismo que não possa ser
o ponto de partida de um sonho ou de um delírio. As sensações organicamente
determinadas “podem ser divididas em duas classes: (1) as que constituem
a disposição de ânimo geral (cenestesia) e (2) as sensações específicas
imanentes nos principais sistemas do organismo vegetativo. Dentre estas
últimas devem-se distinguir cinco grupos: (a) sensações musculares,
(b) respiratórias, (c) gástricas, (d) sexuais e (e)
periféricas.” Krauss supõe que o processo pelo qual as imagens oníricas
surgem com base nos estímulos somáticos é o seguinte: a sensação despertada
evoca uma imagem cognata, de conformidade com alguma lei de associação.
Combina-se com a imagem numa estrutura orgânica, à qual, no entanto, a consciência
reage anormalmente, pois não presta nenhuma atenção à sensação e
dirige toda ela para as imagens concomitantes — o que explica por
que os verdadeiros fatos foram mal interpretados por tanto tempo. Krauss
tem um tempo especial para descrever esse processo: a “transubstanciação”
das sensações em imagens oníricas.
A influência dos
estímulos somáticos orgânicos sobre a formação dos sonhos é quase universalmente
aceita hoje em dia; mas a questão das leis que regem a relação entre eles
é respondida das mais diversas maneiras, e muitas vezes por afirmações obscuras.
Com base na teoria da estimulação somática, a interpretação dos sonhos defronta-se
assim com o problema especial de atribuir o conteúdo de um sonho aos estímulos
orgânicos que o causaram; e, quando as normas de interpretação formuladas
por Scherner (1861) não são aceitas, muitas vezes nos vemos diante do fato
desconcertante de que a única coisa que revela a existência do estímulo
orgânico é precisamente o conteúdo do próprio sonho.
Há uma razoável
dose de concordância, contudo, quanto à interpretação de várias formas de
sonhos que são descritos como “típicos”, por ocorrerem num grande número
de pessoas e com conteúdo muito semelhante. São eles os conhecidos sonhos
de cair de grandes alturas, de dentes que caem, de voar e do embaraço de
estar despido ou insuficientemente vestido. Este último sonho é atribuído
simplesmente ao fato de a pessoa adormecida perceber que atirou longe os
lençóis e está exposta ao ar. O sonho com a queda dos dentes é atribuído
a um “estímulo dental”, embora isso não implique, necessariamente, que a
excitação dos dentes é patológica. De acordo com Strümpell [1877, 119],
sonhar que se está voando é a imagem que a mente considera apropriada como
interpretação do estímulo produzido pela elevação e pelo abaixamento dos
lobos pulmonares nas ocasiões em que as sensações cutâneas no tórax deixam
de ser conscientes: é esta última circunstância que leva à sensação ligada
à idéia de flutuar. Diz-se que o sonho com as quedas de grandes alturas
se deve a um braço que passa a pender do corpo ou a um joelho flexionado
que se estende de súbito, num momento em que a sensação de pressão cutânea
começa a não mais ser consciente; os movimentos em questão fazem com que
as sensações táteis voltem a se tornar conscientes, e a transição para a
consciência é psiquicamente representada pelo sonho de estar caindo (ibid.,
118). O evidente ponto fraco dessas tentativas de explicação, por mais plausíveis
que sejam, está no fato de que, sem quaisquer outras provas, elas podem
produzir hipóteses bem-sucedidas de que este ou aquele grupo de sensações
orgânicas entra ou desaparece da percepção mental, até se obter uma configuração
que proporcione uma explicação do sonho. Mais adiante, terei oportunidade
de voltar à questão dos sonhos típicos e de sua origem. [Ver em [1]-[2]
e [3]]
Simon (1888, 34
e segs.) tentou deduzir algumas das normas que regem a forma pela qual os
estímulos orgânicos determinam os sonhos resultantes, comparando uma série
de sonhos semelhantes. Afirma ele que, quando um aparelho orgânico que normalmente
desempenha um papel na expressão de uma emoção é levado, por alguma causa
estranha durante o sonho, ao estado de excitação que geralmente se produz
pela emoção, surge então um sonho que contém imagens adequadas à emoção
em causa. Outra regra estipula que, se um órgão estiver em estado de atividade,
excitação ou perturbação durante o sono, produzirá imagens relacionadas
com o desempenho da função executada pelo órgão em questão.
Mourly Vold (1896)
dispôs-se a provar experimentalmente, num setor específico, o efeito sobre
a produção dos sonhos que é sustentado pela teoria da estimulação somática.
Seus experimentos consistiram em alterar a posição dos membros de uma pessoa
adormecida e comparar os sonhos resultantes com as alterações efetuadas.
Eis como enuncia seus resultados:
(1) A posição de
um membro no sonho corresponde aproximadamente a sua posição na realidade.
Assim, sonhamos com o membro numa posição estática quando ele se acha efetivamente
imóvel.
(2) Ao sonharmos
com um membro em movimento, uma das posições experimentadas no processo
de concluir o movimento corresponde, invariavelmente, à posição real do
membro.
(3) A posição do
próprio membro do sonhador pode ser atribuída, no sonho, a alguma outra
pessoa.
(4) Pode-se ter
um sonho de que o movimento em questão está sendo impedido.
(5) O membro que
se encontra na posição em questão pode aparecer no sonho como um animal
ou um monstro, em cujo caso se estabelece uma certa analogia entre eles.
(6) A posição de
um membro pode dar margem, no sonho, a pensamentos que tenham alguma relação
com o membro. Dessa forma, em se tratando dos dedos, sonhamos com números.
Estou inclinado
a concluir desse tipo de resultados que nem mesmo a teoria da estimulação
somática conseguiu eliminar inteiramente a visível ausência de determinação
na escolha das imagens oníricas a serem produzidas.
(C) 3. FONTES PSÍQUICAS
DE ESTIMULAÇÃO
Enquanto abordávamos
as relações dos sonhos com a vida de vigília e o material onírico, verificamos
que os mais antigos e mais recentes estudiosos dos sonhos eram unânimes
na crença de que os homens sonham com aquilo que fazem durante o dia e com
o que lhes interessa enquanto estão acordados [em [1]]. Tal interesse, transposto
da vida de vigília para o sono, seria não somente um vínculo mental, um
elo entre os sonhos e a vida, como também nos proporcionaria uma fonte adicional
de sonhos, que não seria de se desprezar. De fato, tomado em um conjunto
com os interesses que se desenvolvem durante o sono — os estímulos que afetam
a pessoa adormecida —, talvez ele pudesse ser suficiente para explicar a
origem de todas as imagens oníricas. Mas também ouvimos a afirmação oposta,
ou seja, a de que os sonhos afastam o sujeito adormecido dos interesses
diurnos e que, em regra geral, só começamos a sonhar com as coisas que mais
nos impressionaram durante o dia depois de elas terem perdido o sabor de
realidade na vida de vigília. [Ver em [1] e [2]] Assim, a cada passo que
damos em nossa análise da vida onírica, sentimos que é impossível fazer
generalizações sem nos resguardarmos por meio de ressalvas como “freqüentemente”,
“via de regra” ou “na maioria dos casos”, e sem estarmos dispostos a admitir
a validade das exceções.
Se fosse verdade
que os interesses de vigília, juntamente com os estímulos internos e externos
durante o sono, bastam para esgotar a etiologia dos sonhos, deveríamos estar
em condições de dar uma explicação satisfatória da origem de todos os elementos
de um sonho: o enigma das fontes dos sonhos estaria resolvido, e restaria
apenas definir a parcela cabível, respectivamente, aos estímulos psíquicos
e somáticos em qualquer sonho específico. Na realidade, tal explicação completa
de um sonho jamais foi obtida, e quem quer que tenha tentado consegui-la
deparou com partes (geralmente muito numerosas) do sonho sobre cuja origem
nada pôde dizer. Está claro que os interesses diurnos não são fontes psíquicas
tão importantes dos sonhos quanto se poderia esperar das asserções categóricas
de que todas as pessoas continuam a transpor seus assuntos diários para
seus sonhos.
Não se conhecem
quaisquer outras fontes psíquicas dos sonhos. Assim, ocorre que todas as
explicações dos sonhos apresentadas na literatura sobre o assunto — com
a possível exceção das de Scherner, que serão abordadas posteriormente [ver
em [1]] — deixam uma grande lacuna quando se trata de atribuir uma origem
às imagens de representação que constituem o material mais característico
dos sonhos. Nessa situação embaraçosa, a maioria dos que escrevem sobre
o assunto tende a reduzir ao mínimo o papel desempenhado pelos fatores psíquicos
na instigação dos sonhos, visto ser tão difícil chegar a esses fatores.
É verdade que esses autores dividem os sonhos em duas classes principais
— as “causadas pela estimulação nervosa” e as “causadas pela associação”,
das quais as últimas têm sua fonte exclusivamente na reprodução [de material
já vivenciado] (cf. Wundt, 1874, 657). Não obstante, não conseguem fugir
a uma dúvida: saber “se algum sonho pode ocorrer sem ser impulsionado por
algum estímulo somático” (Volket, 1875, 127). É difícil até mesmo dar uma
descrição dos sonhos puramente associativos. “Nos sonhos associativos propriamente
ditos, nãohá nenhuma possibilidade de existir tal núcleo sólido [derivado
da estimulação somática]. Até mesmo o próprio centro do sonho está apenas
frouxamente reunido. Os processos de representação que não são regidos pela
razão ou pelo bom-senso em nenhum sonho, já nem sequer se mantêm ligados
aqui por quaisquer excitações somáticas ou mentais relativamente importantes,
ficando assim entregues a suas próprias mudanças caleidoscópicas e a sua
própria confusão embaralhada.” (ibid., 118.) Wundt (1874, 656-7) também
procura minimizar o fator psíquico na provocação dos sonhos. Declara que
não parece haver justificativa para se considerarem os fantasmas dos sonhos
como puras alucinações; é provável que a maioria das imagens oníricas consista
de fato em ilusões, uma vez que surgem de tênues impressões sensoriais que
jamais cessam durante o sono. Weygandt (1893, 17) adotou esse mesmo ponto
de vista e generalizou sua aplicação. Ele afirma, no tocante a todas
as imagens oníricas, “que suas causas primárias são estímulos sensoriais
e que só depois é que as associações reprodutivas ficam ligadas a eles”.
Tissié (1898, 183) vai ainda mais longe, ao estabelecer um limite para as
fontes psíquicas de estimulação: “Les rêves d’origine absolument psychique
n’existent pas”; e (ibid., 6) “les pensées de nos rêves nous viennent du
dehors…”
Os autores que,
como o eminente filósofo Wundt, adotam uma posição intermediária, não deixam
de observar que, na maioria dos sonhos, os estímulos somáticos e os instigadores
psíquicos (sejam eles desconhecidos ou identificados como interesses diurnos)
atuam em cooperação.
Verificaremos mais
tarde que o enigma da formação dos sonhos pode ser solucionado pela revelação
de uma insuspeitada fonte psíquica de estimulação. Entrementes, não teremos
nenhuma surpresa ante a superestimação do papel desempenhado na formação
dos sonhos por estímulos que não decorrem da vida mental. Não apenas eles
são fáceis de descobrir e até mesmo passíveis de confirmação experimental,
como também a visão somática da origem dos sonhos está em perfeita harmonia
com a corrente de pensamento predominante na psiquiatria de hoje. É verdade
que a predominância do cérebro sobre o organismo é sustentada com aparente
confiança. Não obstante, qualquer coisa que possa indicar que a vida mental
é de algum modo independente de alterações orgânicas demonstráveis, ou que
suas manifestações são de algum modo espontâneas, alarma o psiquiatra moderno,
como se o reconhecimento dessas coisas fosse trazer de volta, inevitavelmente,
os dias da Filosofia da Natureza [ver em
[1]] e de visão metafísica da natureza da mente. As suspeitas
dos psiquiatras puseram a mente, por assim dizer, sob tutela, e agora eles
insistem em que nenhum de seus impulsos tenha permissão de sugerir que ela
dispõe de quaisquer meios próprios. Esse comportamento apenas mostra
quão pouca confiança eles realmente depositam na validade de uma relação
causal entre o somático e o psíquico. Mesmo quando uma pesquisa mostra que
a causa aprofundada tem de levar mais adiante a trilha e descobrir uma base
orgânica para o fato mental. Mas se, no momento, não podemos enxergar além
do psíquico, isso não é motivo para negar-lhe a existência.
(D) POR QUE NOS
ESQUECEMOS DOS SONHOS APÓS O DESPERTAR
É fato proverbial
que os sonhos se desvanecem pela manhã. Naturalmente, eles podem ser lembrados,
pois só tomamos conhecimento dos sonhos por meio de nossa recordação deles
depois de acordar. Com freqüência, porém, temos a sensação de nos termos
lembrado apenas parcialmente de um sonho, e de que houve algo mais nele
durante a noite; podemos também observar como a lembrança de um sonho, que
ainda era nítida pela manhã, se dissipa, salvo por alguns pequenos fragmentos,
no decorrer do dia; muitas vezes sabemos que sonhamos, sem saber o que
sonhamos; e estamos tão familiarizados com o fato de os sonhos serem passíveis
de ser esquecidos que não vemos nenhum absurdo na possibilidade de alguém
ter tido um sonho à noite e, pela manhã, não saber o que sonhou, nem sequer
o fato de ter sonhado. Por outro lado, ocorre às vezes que os sonhos mostram
extraordinária persistência na memória. Tenho analisado sonhos de pacientes
meus, ocorridos há vinte e cinco anos ou mais, e lembro-me ainda de um sonho
que eu próprio tive há mais de trinta e sete anos e que, no entanto, está
mais nítido que nunca em minha memória. Tudo isso é muito notável e não
é inteligível de imediato.
A explicação mais
detalhada do esquecimento dos sonhos é a que nos fornece Strümpell [1877,
79 e seg.]. Trata-se, evidentemente, de um fenômeno complexo, pois Strümpell
o atribuiu não a uma causa única, mas a toda uma série delas.
Em primeiro lugar,
todas as causas que conduzem ao esquecimento na vida de vigília operam também
no tocante aos sonhos. Quando estamos acordados, normalmente nos esquecemos,
de imediato, de inúmeras sensações e percepções, seja porque foram fracas
demais ou porque a excitação mental ligada a elas foi excessivamente pequena.
O mesmo se aplica a muitas imagens oníricas: são esquecidas por serem fracas
demais, enquanto outras imagens mais fortes, adjacentes a elas, são recordadas.
O fator da intensidade, contudo, decerto não é suficiente, por si só, para
determinar se uma imagem onírica será lembrada. Strümpell [1877, 82] admite,
assim como outros autores (p. ex. Calkin, 1893, 312), que muitas vezes nos
esquecemos de imagens oníricas que sabemos terem sido muito nítidas, enquanto
grande número das que são obscuras e carentes de força sensorial situam-se
entre as que são retidas na memória. Além disso, quando acordados, tendemosfacilmente
a esquecer um fato que ocorra apenas uma vez e a reparar mais depressa naquilo
que possa ser percebido repetidamente. Ora, a maioria das imagens oníricas
constituem experiências únicas; e esse fato contribui imparcialmente
para fazer com que esqueçamos todos os sonhos. Uma importância muito maior
prende-se a uma terceira causa do esquecimento. Para que as sensações, as
representações, os pensamentos e assim por diante atinjam certo grau de
suscetibilidade para serem lembrados, é essencial que não permaneçam isolados,
mas que sejam dispostos em concatenações e agrupamentos apropriados. Quando
um verso curto de uma composição poética é dividido nas palavras que compõem
e estas são embaralhadas, torna-se muito difícil recordá-lo. “Quando as
palavras são convenientemente dispostas e colocadas na ordem apropriada,
uma palavra ajuda a outra, e o todo, estando carregado de sentido, é facilmente
assimilado pela memória e retido por muito tempo. Em geral, é tão difícil
e inusitado conservar o que é absurdo como reter o que é confuso e desordenado.”
[Strümpell, 1877, 83.] Ora, na maioria dos casos, faltam aos sonhos inteligibilidade
e ordem. As composições que constituem os sonhos são desprovidas das qualidades
que tornariam possível recordá-las, sendo esquecidas porque, via de regra,
desfazem-se em pedaços no momento seguinte. Radestock (1879, 168), contudo,
alega ter observado que os sonhos mais peculiares é que são recordados com
mais clareza, e isso, deve-se admitir, dificilmente se coadunaria com o
que acaba de ser dito.
Strümpell [1877,
82 e seg.] acredita que alguns outros fatores oriundos da relação entre
o sonhar e a vida de vigília são de importância ainda maior na causação
do esquecimento dos sonhos. A tendência dos sonhos a serem esquecidos pela
consciência de vigília é, evidentemente, apenas a contrapartida do fato
já mencionado [em [1]] de que os sonhos quase nunca se apoderam de lembranças
ordenadas da vida de vigília. Dessa forma, as composições oníricas não encontram
lugar em companhia das seqüências psíquicas de que a mente se acha repleta.
Nada existe que nos possa ajudar a nos lembrarmos delas. “Desse modo, as
estruturas oníricas estão, por assim dizer, alçadas acima do piso de nossa
vida mental, e flutuam no espaço psíquico como as nuvens no firmamento,
dispersas pelo primeiro sopro de vento.” (Strümpell, 1877, 87.) Além disso,
após o despertar, o mundo dos sentidos exerce pressão e se apossa imediatamente
da atenção com uma forçaà qual muito poucas imagens oníricas conseguem resistir,
de modo que também nisso temos outro fator que tende na mesma direção. Os
sonhos cedem ante as impressões de um novo dia, da mesma forma que o brilho
das estrelas cede à luz do sol.
Por fim, há outro
fato que se deve ter em mente como passível de levar os sonhos a serem esquecidos,
a saber, que a maioria das pessoas tem muito pouco interesse em seus sonhos.
Qualquer pessoa, tal como um pesquisador científico, que preste atenção
a seus sonhos por certo período de tempo, terá mais sonhos do que de hábito
— o que sem dúvida significa que passa a se lembrar de seus sonhos com maior
facilidade e freqüência.
Duas outras razões
por que os sonhos são esquecidos, que Benini [1898, 155-6] cita como tendo
sido propostas por Bonatelli [1880] como acréscimos às mencionadas por Strümpell,
parecem de fato já estar abrangidas por estas últimas. São elas: (1) que
a alteração da cenestesia entre os estados de sono e de vigília é desfavorável
à reprodução recíproca entre eles; e (2) que o arranjo diferente do material
ideacional nos sonhos os torna intraduzíveis, por assim dizer, para a consciência
de vigília.
Em vista de todas
as razões em favor do esquecimento dos sonhos, é de fato muito notável (como
insiste o próprio Strümpell [1877, 6]) que tantos deles sejam retidos na
memória. As repetidas tentativas dos que escrevem sobre o assunto no sentido
de explicitarem as normas que regem a lembrança dos sonhos equivalem à admissão
de que, também aqui, estamos diante de algo enigmático e inexplicado. Certas
características específicas das lembrança dos sonhos foram acertadamente
ressaltadas em época recente (cf. Radestock, 1879, [169], e Tissié, 1898,
[148 e seg.].), como o fato de que, quando um sonho parece, pela manhã,
ter sido esquecido, ainda assim pode ser recordado no decorrer do dia, caso
seu conteúdo, embora esquecido, seja evocado por alguma percepção casual.
Mas a lembrança
dos sonhos, em geral, é passível de uma objeção que está fadada a reduzir
radicalmente o valor de tais sonhos na opinião crítica. Visto que uma proporção
tão grande dos sonhos se perde por completo, podemos muito bem duvidar se
nossa lembrança do que resta deles não será falseada.
Essas dúvidas quanto
à exatidão da reprodução dos sonhos também são expressas por Strümpell (1877,
[119]): “Assim, pode facilmente acontecer que a consciência de vigília,
inadvertidamente, faça interpolações na lembrança de um sonho: persuadimo-nos
de ter sonhado com toda sorte de coisas que não estavam contidas nos sonhos
efetivamente ocorridos.”
Jessen (1855, 547)
escreve com especial ênfase sobre esse ponto: “Além disso, ao se investigar
e interpretar sonhos coerentes e consistentes, deve-seter em mente uma circunstância
particular que, ao que me parece, até agora recebeu muito pouca atenção.
Nesses casos, a verdade é quase sempre obscurecida pelo fato de que, ao
recordarmos tal tipo de sonhos, quase sempre — não intencionalmente e sem
notarmos esse fato — preenchemos as lacunas nas imagens oníricas. Raramente
ou nunca um sonho coerente foi de fato tão coerente quanto nos parece na
lembrança. Mesmo o maior amante da verdade dificilmente consegue relatar
um sonho digno de nota sem alguns acréscimos ou retoques. É tão acentuada
a tendência da mente humana a ver tudo de maneira concatenada que, na memória,
ela preenche, sem querer, qualquer falta de coerência que possa haver num
sonho incoerente.”
Algumas observações
feitas por Egger [1895, 41], embora sem dúvida tenham sido alcançadas independentemente,
soam quase como uma tradução desse trecho de Jessen: “…L’observation
des rêves a ses difficultés spéciales et le seul moyen d’éviter tout erreur
en pareille matière est de confier au papier sans le moindre retard ce que
l’on vient d’éprouver et de remarquer; sinon, l’oubli vient vite ou total
ou partiel; l’oubli total est sans gravité; mais lóubli partiel est perfide;
car si l’on se met ensuite à raconter ce que l’on n’a pas oublié, on est
exposé à compléter par imagination les fragments incohérents et disjoints
fournis par la mémoire (…); on devient artiste à son insu, et le récit périodiquement
répété s’impose à la créance de son auteur, qui, de bonne foi, le présente
comme un fait authentique, dûment établi selon les bonnes méthodes…”
Idéias muito semelhantes
são expressas por Spitta (1882, 338), que parece crer que é somente quando
tentamos reproduzir um sonho que introduzimos algum tipo de ordem em seus
elementos frouxamente associados: “modificamos coisas que se acham meramente
justapostas, transformando-as em seqüências ou cadeias causais, isto é,
introduzimos um processo de conexão lógica que falta ao sonho.”
Visto que a única
verificação que temos da validade de nossa memória é a confirmação objetiva,
e visto que ela não é obtenível no tocante aos sonhos, que são nossa experiência
pessoal e cuja única fonte de que dispomos é nossa rememoração, que valor
podemos ainda atribuir a nossa lembrança dos sonhos?”
(E) AS CARACTERÍSTICAS
PSICOLÓGICAS DISTINTIVAS DOS SONHOS
Nosso exame científico
dos sonhos parte do pressuposto de que eles são produtos de nossas próprias
atividades mentais. Não obstante, o sonho acabado nos deixa a impressão
de algo estranho a nós. Estamos tão pouco obrigados a reconhecer nossa responsabilidade
por ele que [em alemão] somos tão aptos a dizer “mir hat geträumt”
[“tive um sonho”, literalmente “um sonho veio a mim”] quanto “ich habe
geträumt” [“sonhei”]. Qual a origem desse sentimento de que os sonhos
são estranhos a nossa mente? Em vista de nossa discussão das fontes dos
sonhos, devemos concluir que a estranheza não pode ser causada pelo material
que penetra o conteúdo deles, uma vez que esse material, em sua maior parte,
é comum aos sonhos e à vida de vigília. Surge a questão de determinar se,
nos sonhos, não haverá modificações nos processos da mente que produzam
a impressão ora examinada; por isso, faremos uma tentativa de traçar um
quadro dos atributos psicológicos dos sonhos.
Ninguém ressaltou
com maior precisão a diferença essencial entre o sonhar e a vida de vigília,
ou tirou dela conclusões de maior alcance, do que G. T. Fechner, num trecho
de sua obra Elemente der Psychophysik (1889, 2, 520-1). Em sua opinião,
“nem o mero rebaixamento da vida mental consciente a um nível inferior ao
do limiar principal, nem o desvio da atenção das influências do mundo externo
são suficientes para explicar as características da vida onírica quando
contrastadas com a vida de vigília. Ele suspeita, antes, de que a cena
de ação dos sonhos [seja] diferente da cena da vida de representações de
vigília. “Se a cena de ação da atividade psicofísica fosse a mesma no
sono e no estado de vigília, os sonhos só poderiam ser, segundo meu ponto
de vista, um prolongamento, num grau inferior de intensidade, da vida de
representações de vigília, e além disso, seriam necessariamente do mesmo
material e forma. Mas os fatos são bem diferentes disso.”
Não está claro
o que Fechner tinha em mente ao se referir a essa mudança de localização
da atividade mental, nem tampouco, ao que eu saiba, qualquer outra pessoa
seguiu a trilha indicada por suas palavras. Podemos, penso eu, descartar
a possibilidade de dar à frase uma interpretação anatômica e supor que ela
se refere à localização cerebral fisiológica, ou mesmo às camadas histológicas
do córtex cerebral. É possível, porém, que a sugestão venha finalmente a
se revelar sagaz e fértil, se puder ser aplicada a um aparelho mental
composto por várias instâncias dispostas seqüencialmente, uma após outra.
Outros autores
se contentaram em chamar a atenção para as características distintivas mais
tangíveis da vida onírica e em adotá-las como ponto de partida para tentativas
que visavam a explicações de maior alcance.
Observou-se, justificadamente,
que uma das principais peculiaridades da vida onírica surge durante o próprio
processo de adormecimento, podendo ser descrita como um fenômeno anunciador
do sonho. De acordo com Scheiermacher (1862, 351), o que caracteriza o estado
de vigília é o fato de que a atividade do pensar ocorre em conceitos,
e não em imagens. Já os sonhos pensam essencialmente por meio de
imagens e, com a aproximação do sono, é possível observar como, à medida
que as atividades voluntárias se tornam mais difíceis, surgem representações
involuntárias, todas elas se enquadrando na categoria de imagens. A incapacidade
para o trabalho de representações do tipo que vivenciamos como intencionalmente
desejado e o surgimento (habitualmente associado a tais estados de abstração)
de imagens — estas são duas características perseverantes nos sonhos, que
a análise psicológica dos sonhos nos força a reconhecer como características
essenciais da vida onírica. Já tivemos ocasião de ver [pág. 69 e segs.]
que essas imagens — alucinações hipnagógicas — são, elas próprias, idênticas
em seu conteúdo às imagens oníricas.
Os sonhos, portanto,
pensam predominantemente em imagens visuais — mas não exclusivamente. Utilizam
também imagens auditivas e, em menor grau, impressões que pertencem aos
outros sentidos. Além disso, muitas coisas ocorrem nos sonhos (tal como
fazem normalmente na vida de vigília) simplesmente como pensamentos ou representações
— provavelmente, bem entendido, sob a forma de resíduos de representações
verbais. Não obstante, o que é verdadeiramente característico dos sonhos
são apenas os elementos de seu conteúdo que se comportam como imagens, que
se assemelham mais às percepções, isto é, que são como representações mnêmicas.
Deixando de lado todos os argumentos, tão familiares aos psiquiatras,sobre
a natureza das alucinações, estaremos concordando com todas as autoridades
no assunto ao afirmar que os sonhos alucinam — que substituem os
pensamentos por alucinações. Nesse sentido, não há distinção entre as representações
visuais e acústicas: tem-se observado que, quando se adormece com a lembrança
de uma seqüência de notas musicais na mente, a lembrança se transforma numa
alucinação da mesma melodia; ao passo que, quando se volta a acordar — e
os dois estados podem alternar-se mais de uma vez durante o processo do
adormecimento — a alucinação cede lugar, por sua vez, à representação mnêmica,
que é, ao mesmo tempo, mais fraca e qualitativamente diferente dela.
A transformação
de representações em alucinações não é o único aspecto em que os sonhos
diferem de pensamentos correspondentes na vida de vigília. Os sonhos constroem
uma situação a partir dessas imagens; representam um fato que está
realmente acontecendo; como diz Spitta (1882, 145), eles “dramatizam” uma
idéia. Mas essa faceta da vida onírica só pode ser plenamente compreendida
se reconhecermos, além disso, que nos sonhos — via de regra, pois há exceções
que exigem um exame especial — parecemos não pensar, mas ter uma
experiência: em outras palavras, atribuímos completa crença às alucinações.
Somente ao despertarmos é que surge o comentário crítico de que não tivemos
nenhuma experiência, mas estivemos apenas pensando de uma forma peculiar,
ou, dito de outra maneira, sonhando. É essa característica que distingue
os verdadeiros sonhos do devaneio, que nunca se confunde com a realidade.
Burdach (1838,
502 e seg.) resume com as seguintes palavras as características da vida
onírica que examinamos até agora: “Figuram entre as características essenciais
dos sonhos: (a) Nos sonhos, a atividade subjetiva de nossa mente
aparece de forma objetiva, pois nossas faculdades perceptivas encaram os
produtos de nossa imaginação como se fossem impressões sensoriais. (…) (b)
O sono significa um fim da autoridade do eu. Daí o adormecimento trazer
consigo certo grau de passividade (…) As imagens que acompanham o sono só
podem ocorrer sob a condição de que a autoridade do eu seja reduzida.”
O passo seguinte
consiste em tentar explicar a crença que a mente deposita nas alucinações
oníricas, crença esta que só pode surgir depois de ter cessado uma espécie
de atividade “autoritária” do eu. Strümpell (1877) argumenta que, neste
sentido, a mente executa sua função corretamente e de conformidade com seu
próprio mecanismo. Longe de serem meras representações, os elementos dos
sonhos são experiências mentais verdadeiras e reais do mesmo tipo das que
surgem no estado de vigília através dos sentidos.(ibid., 34.) A mente em
estado de vigília produz representações e pensamentos em imagens verbais
e na fala; nos sonhos, porém, ela o faz em verdadeiras imagens sensoriais.
(Ibid., 35.) Além disso, existe uma consciência espacial nos sonhos, visto
que sensações e imagens são atribuídas a um espaço externo, tal como o são
na vigília. (Ibid., 43.) Se, não obstante, ela comete um erro ao proceder
assim, é porque no estado do sono lhe falta o único critério que torna possível
estabelecer uma distinção entre as percepções sensoriais provenientes de
fora e de dentro. Ela está impossibilitada de submeter suas imagens oníricas
aos únicos testes que poderiam provar sua realidade objetiva. Além disso,
despreza a distinção entre as imagens que só são arbitrariamente
intercambiáveis e os casos em que o elemento do arbítrio se acha ausente.
Ela comete um erro por estar impossibilitada de aplicar a lei da causalidade
ao conteúdo de seus sonhos. (Ibid., 50-1.) Em suma, o fato de ter-se afastado
do mundo externo é também a razão de sua crença no mundo subjetivo dos sonhos.
Delboeuf (1885,
84) chega à mesma conclusão após argumentos psicológicos um pouco diferentes.
Acreditamos na realidade das imagens oníricas, diz ele, porque em nosso
sono não dispomos de outras impressões com as quais compará-las, por estarmos
desligados do mundo exterior. Mas a razão pela qual acreditamos na veracidade
dessas alucinações não é por ser impossível submetê-las a um teste dentro
do sonho. O sonho pode parecer oferecer-nos esses testes: pode deixar-nos
tocar a rosa que vemos — e, ainda assim, estaremos sonhando. Na opinião
de Delboeuf, existe apenas um critério válido para determinar se estamos
sonhando ou acordados, e esse é o critério puramente empírico do fato de
acordarmos. Concluo que tudo o que experimentei entre adormecer e acordar
foi ilusório quando, ao despertar, verifico que estou deitado e despido
na cama. Durante o sono, tomei as imagens oníricas por imagens reais graças
a meu hábito mental (que não pode ser adormecido) de supor a existência
de um modo externo com o qual estabeleço um contraste com meu próprio ego.
Assim, o desligamento
do mundo externo parece ser considerado como o fator que determina as características
mais marcantes da vida onírica. Vale a pena, portanto, citar algumas observações
perspicazes feitas há muito tempo por Burdach, que lançam a luz sobre as
relações entre a mente adormecida e o mundo externo, e que são a conta certa
para nos impedir de dar grande valor às conclusões tiradas nas páginas anteriores.
“O sono”, escreve ele, “só pode ocorrer sob a condição de que a mente não
seja irritada por estímulos sensoriais. (…) Mas a precondição real do
sono não é tanto a ausência de estímulos sensoriais, mas antes a falta de
interesse neles. Algumas impressões sensoriais, a rigor, podem ser necessária
para acalmar a mente. Assim, o moleiro só consegue dormir se estiver ouvindo
o estalido de seu moinho, e quem quer que encare como precaução necessária
manter uma lamparina acesa durante a noite acha impossível dormir no escuro.”
(Burdach, 1838, 482.)
“No sono, a mente
se isola do mundo externo e se retrai de sua própria periferia. (…) Não
obstante, a conexão não se interrompe inteiramente. Se não pudéssemos ouvir
nem sentir enquanto estamos efetivamente adormecidos, mas só depois de acordarmos,
seria inteiramente impossível despertarmos (…) A persistência da sensação
é comprovada com mais clareza ainda pelo fato de que o que nos desperta
não é sempre a mera força sensorial deuma impressão, mas seu contexto psíquico:
um homem adormecido não é despertado por uma palavra qualquer mas, se for
chamado pelo nome, acorda… Assim, a mente adormecida distingue diferentes
sensações (…) É por essa razão que a falta de um estímulo sensorial pode
despertar um homem, caso esteja relacionada com algo de importância representativa
para ele; assim é que o homem com a lamparina acesa acorda se ela se apagar,
e o mesmo acontece com o moleiro, se seu moinho parar. Em outras palavras,
ele é despertado pela cessação de uma atividade sensorial; e isso implica
que tal atividade era percebida por ele, mas, como era indiferente, ou antes,
satisfatória, não lhe perturbava a mente.” (Ibid., 485-6.)
Mesmo que desprezemos
essas objeções — e de modo algum elas são insignificantes —, teremos de
confessar que as características da vida onírica que consideramos até agora,
e que foram atribuídas a seu desligamento do mundo externo, não explicam
inteiramente seu estranho caráter. Pois, de outro modo, deveria ser possível
retransformar as alucinações de um sonho em representações, e suas situações
em pensamentos, e assim solucionar o problema da interpretação dos sonhos.
E isso é realmente o que fazemos quando, depois de acordar, reproduzimos
de memória um sonho; mas, quer consigamos efetuar essa retradução inteiramente
ou apenas em parte, o sonho continuará tão enigmático quanto antes.
E, com efeito,
todas as autoridades presumem, sem hesitar, que ainda outras e mais profundas
modificações do material de representações da vida de vigília têm lugar
nos sonhos. Strümpell (1877, 27-8) esforçou-se por apontar uma dessas modificações
no seguinte trecho: “Com a cessação do funcionamento sensorial e da consciência
vital normal, a mente perde o solo onde se enraízam seus sentimentos, desejos,
interesses e atividades. Também os estados psíquicos — sentimentos, interesses,
juízos de valor —, que estão ligados a imagens mnêmicas na vida de vigília,
ficam sujeitos a (…) uma pressão obscurecedora, como resultado da qual sua
ligação com tais imagens se rompe; as imagens perceptuais das coisas, pessoas,
lugares, acontecimentos e ações na vida de vigília são reproduzidas separadamente
em grande número, mas nenhuma delas leva consigo seu valor psíquico.
Esse valor é desligado delas e, assim, elas flutuam na mente a seu bel-prazer…”
De acordo com Strümpell, o fato de as imagens serem despojadas de seu valor
psíquico (fato este que, por sua vez, remonta ao desligamento do mundo externo)
desempenha um papel preponderante na criação da impressão de estranheza
que distingue os sonhos da vida real em nossa memória.
Já vimos [em [1]]
que o adormecimento envolve, de imediato, a perda de uma de nossas atividades
mentais, qual seja, nosso poder de imprimir uma orientação intencional à
seqüência de nossas representações. Vemo-nos agora diante da sugestão, que
afinal é plausível, de que os efeitos do estado de sono podem estender-se
a todas as faculdades da mente. Algumas destas parecem ficar inteiramente
suspensas, mas surge então a questão de saber se as demais continuam a funcionar
normalmente e se, nessas condições, são capazes de trabalho normal.
E aqui se pode perguntar se as características distintivas dos sonhos não
podem ser explicadas pela redução da eficiência psíquica no estado do sono
— uma idéia que encontra apoio na impressão causada pelos sonhos em nosso
julgamento de vigília. Os sonhos são desconexos, aceitam as mais violentas
contradições sem a mínima objeção, admitem impossibilidades, desprezam conhecimentos
que têm grande importância para nós na vida diurna e nos revelam como imbecis
éticos e morais. Quem quer que se comportasse, quando acordado, da maneira
peculiar às situações dos sonhos, seria considerado louco. Quem quer que
falasse, quando acordado, da maneira como as pessoas falam nos sonhos, ou
descrevesse o tipo de coisas que acontecem nos sonhos, dar-nos-ia a impressão
de ser apalermado ou débil mental. Parecemos não fazer mais do que pôr a
verdade em palavras quando expressamos nossa opinião extremamente desfavorável
sobre a atividade mental nos sonhos e asseveramos que, neles, as faculdades
intelectuais superiores, em particular, ficam suspensas ou, pelo menos,
gravemente prejudicadas.
As autoridades
exibem uma inusitada unanimidade — as exceções serão tratadas adiante [em
[1]] — ao expressarem opiniões dessa natureza sobre os sonhos; e esses julgamentos
levam diretamente a uma teoria ou explicação específica da vida onírica.
Mas é chegado o momento de eu deixar as generalidades e apresentar, em seu
lugar, uma série de citações de vários autores — filósofos e médicos — sobre
as características psicológicas dos sonhos.
Segundo Lemoine
(1855), a “incoerência” das imagens oníricas constitui a característica
essencial dos sonhos.
Maury (1878, 163)
concorda com ele: “Il n’y a pas de rêves absolument raisonnables et qui
ne contiennent quelque incohérence, quelque anachronisme, quelque absurdité.”
Spitta [1882, 193]
cita Hegel como afirmando que os sonhos são destituídos de qualquer coerência
objetiva e razoável.
Dugas [1897a, 417]
escreve: “Le rêve c’est l’anarchie psychique affetive et mentale, c’est
le jeu des fonctions livrées à elles-mêmes e s’exerçant sans contrôle et
sans but; dans le rêve l’esprit est un automate spirituel”.
Mesmo Volkelt (1875,
14), cuja teoria está longe de considerar a atividade psíquica durante o
sono como destituída de propósito, fala no “relaxamento na desconexão e
na confusão da vida ideativa, que no estado de vigília se mantém unida pela
força lógica do ego central.”
O absurdo
das associações de representações que ocorrem nos sonhos dificilmente poderia
ser criticado com mais agudeza do que por Cícero. (De divinatione,
II, [LXXI, 146]): “Nihil tam praepostere, tam incondite, tam monstruose
cogitari potest, quod non possimus somniare.”
Fechner (1889,
2, 522) escreve: “É como se a atividade psicológica tivesse sido transportada
do cérebro de um homem sensato para o de um idiota.”
Radestock (1879,
145): “De fato, parece impossível descobrir quaisquer leis fixas nessa atividade
louca. Depois de se furtarem ao rigoroso policiamento exercido sobre o curso
das representações de vigília pela vontade racional e pela atenção, os sonhos
se dissolvem num louco redemoinho de confusão caleidoscópica.”
Hildebrandt (1875,
45): “Que saltos surpreendentes o sonhador é capaz de dar, por exemplo,
ao extrair inferências! Com que calma se dispõe a ver as mais familiares
lições da experiência viradas pelo avesso! Que contradições risíveis está
pronto a aceitar nas leis da natureza e da sociedade antes que, como se
costuma dizer, as coisas vão além de um chiste e a tensão excessiva do contra-senso
o desperte. Calculamos, sem nenhum escrúpulo, que três vezes três são vinte;
não ficamos nem um pouco surpresos quando um cão cita um verso de um poema,
ou quando um morto anda até seu túmulo com as próprias pernas, ou quando
vemos uma pedra flutuando na água; dirigimo-nos solenemente, numa importante
missão, até o Ducado de Bernburg ou Principado de Liechtenstein para inspecionarmos
suas forças navais; ou somos persuadidos a nos alistar nos exércitos de
Carlos XII pouco antes da batalha de Poltava.”
Binz (1878, 33),
tendo em mente a teoria dos sonhos que se baseia em impressões como essas,
escreve: “O conteúdo de pelo menos nove dentre dez sonhos é absurdo. Neles
reunimos pessoas e coisas que não têm a menor relação entre si. No momento
seguinte, há uma mudança no caleidoscópio e somos confrontados com um novo
agrupamento, ainda mais sem nexo e louco, se é que isso é possível, do que
o anterior. E assim prossegue o jogo mutável do cérebro incompletamente
adormecido, até que despertamos, levamos a mão à testa e ficamos imaginando
se ainda possuímos a capacidade para idéias e pensamentos racionais.”
Maury (1878, 50)
encontra um paralelo para a relação entre as imagens oníricas e os pensamentos
de vigília que há de ser altamente significativo para os médicos. “La
production de ces images que chez l’homme éveillé fait le plus souvent naître
la volonté, correspond, pour l’intelligence, à ce que sont pour la motilité
certains mouvementes que nous offre la chorée et las affections paralytiques…”
E considera os sonhos, além disso, como “toute une série de dégradations
de la faculté pensante et raisonnante.” (Ibid., 27.)
Quase não chega
a ser necessário citar os autores que repetem a opinião de Maury em relação
às várias funções mentais superiores. Strümpell (1877, 26), por exemplo,
observa que nos sonhos — mesmo, é claro, onde não há contra-senso evidente
— há um eclipse de todas as operações lógicas da mente que se baseiam em
relações e conexões. Spitta (1882, 148) declara que as representações que
ocorrem nos sonhos parecem estar inteiramente afastadas da lei de causalidade.
Radestock (1879 [153-4]) e outros autores insistem na fraqueza de julgamento
e de inferência característica dos sonhos. Segundo Jodl (1896, 123), não
existe faculdade crítica nos sonhos, nenhum poder de corrigir um grupo de
percepções mediante referência ao conteúdo geral da consciência. Observa
o mesmo autor que “toda sorte de atividade consciente ocorre nos sonhos,
mas apenas de forma incompleta, inibida e isolada”. As contradições em que
os sonhos se envolvem com nosso conhecimento de vigília são explicadas por
Stricker (1879, 98) e muitos outros como causadas por fatos que são esquecidos
nos sonhos ou pelo desaparecimento de relações lógicas entre as representações.
E assim por diante.
Não obstante, os
autores que costumam adotar uma visão tão desfavorável do funcionamento
psíquico nos sonhos admitem que ainda resta neles um certo resíduo de atividade
mental. Isso é explicitamente admitido por Wundt, cujas teorias têm exercido
uma influência significativa em muitos outros pesquisadores neste campo.
Qual é, poder-se-ia perguntar, a natureza do resíduo de atividade mental
normal que persiste nos sonhos? Há um consenso mais ou menos geral de que
a faculdade reprodutiva, a memória, parece ser a que menos sofre, e até
mesmo de que mostra certa superioridade a essa mesma função na vida de vigília
(ver Seção B), embora parte dos absurdos dos sonhos pareça explicável pela
propensão da memória a esquecer. Na opinião de Spitta (1882, 84 e seg.),
a parte da mente que não é afetada pelo sono é a vida dos ânimos, e é esta
que dirige os sonhos. Por “ânimo” [“Gemüt”] ele quer dizer “o conjunto
estável de sentimentos que constitui a mais íntima essência de um ser humano”.
Scholz (1893, 64)
acredita que uma das atividades mentais que atua nos sonhos é a tendência
a submeter o material onírico a uma “reinterpretação em termos alegóricos”.
Também Siebeck (1877, 11) vê nos sonhos uma faculdade mental de “interpretação
mais ampla”, que é exercida sobre todas as sensações e percepções. Há uma
dificuldade específica para avaliar a posição que ocupa, nos sonhos, o que
constitui, evidentemente, a mais elevada das funções psíquicas: a consciência.
Visto que tudo o que sabemos dos sonhos provém da consciência, não pode
haver dúvida de que ela persiste neles; contudo, Spitta (1882, 84-5) acredita
que o que persiste nos sonhos é apenas a consciência, e não a autoconsciência.
Delboeuf (1885, 19), no entanto, se confessa incapaz de perceber essa distinção.
As leis de associação
que regem a seqüência de representações são válidas para as imagens oníricas
e, a rigor, sua predominância é ainda mais nítida e acentuadamente expressa
nos sonhos. “Os sonhos”, afirma Strümpell (1877, 70), “seguem seu curso,
ao que parece, segundo as leis quer das representações simples, quer dos
estímulos orgânicos que acompanham tais representações — isto é, sem serem
de forma alguma afetados pela reflexão, pelo bom-senso, ou pelo gosto estético,
ou pelo julgamento moral.” [Ver em [1] e [2] [3].]
Os autores cujos
pontos de vista estou agora apresentando retratam o processo da formação
dos sonhos mais ou menos da seguinte maneira. A totalidade dos estímulos
sensoriais gerados durante o sono, a partir das várias fontes que já enumerei
[ver Seção C], despertam na mente, em primeiro lugar, diversas representações
que aparecem sob a forma de alucinações, ou, mais propriamente, segundo
Wundt [ver em [1]], de ilusões, em vista de sua derivação de estímulos externos
e internos. Essas representações vinculam-se de acordo com as conhecidas
leis da associação e, de conformidade com as mesmas leis, convocam uma outra
série de representações (ou imagens). Todo esse material é então trabalhado,
na medida em que o permita, pelo que ainda resta das faculdades mentais
de organização e pensamento em ação. (Ver, por exemplo, Wundt [1874, 658]
e Weygandt [1893].) Tudo o que permanece irrevelado são os motivos que decidem
se a convocação das imagens decorrentes de fontes não externas se processará
por uma cadeia de associações ou por outra.
Já se observou
muitas vezes, no entanto, que as associações que ligam as imagens oníricas
entre si são de natureza muito especial e diferem das que funcionam no pensamento
de vigília. Assim, Volkelt (1875, 15) escreve: “Nos sonhos, as associações
parecem travar uma luta livre, de acordo com semelhanças e conexões fortuitas
que mal são perceptíveis. Todos os sonhos estão repletos desse tipo de associações
desalinhadas e superficiais.” Maury (1878, 126) atribui enorme importância
a essa característica da maneira como as representações se vinculam nos
sonhos, uma vez que ela lhe permite traçar uma analogia muito estreita entre
a vida onírica e certos distúrbios mentais. Ele especifica duas características
básicas de um “délire”: “(1) une action spontanée et comme automatique
de l’esprit; (2) une association vicieuse et irréguliére des idées.”
O próprio Maury apresenta dois excelentes exemplos de sonhos que ele
mesmo teve, nos quais as imagens oníricas se ligavam meramente por meio
de uma semelhança no som das palavras. Certa vez, ele sonhou que estava
numa peregrinação (pèlerinage) a Jerusalém ou Meca; após muitas aventuras,
viu-se visitando o químico Pelletier, que, depois de conversar um
pouco, deu-lhe uma pá (pelle) de zinco; na parte seguinte do sonho,
esta se transformou numa espada de lâmina larga. (Ibid., 137.) Em outro
sonho, estava andando por uma estrada e lendo o número de quilômetros
nos marcos; a seguir, encontrava-se numa mercearia onde havia uma grande
balança, e um homem punha nela pesos de quilogramas para pesar Maury;
disse-lhe então o merceeiro: “O senhor não está em Paris, mas na ilha de
Gilolo.” Seguiram-se várias outras cenas, nas quais ele viu uma Lobélia,
e depois o General Lopes, sobre cuja morte lera pouco antes. Finalmente,
enquanto jogava loto, acordou. (Ibid., 126.)
Sem dúvida, porém,
estaremos aptos a constatar que não se deixou passar em contradição essa
baixa estimativa do funcionamento psíquico nos sonhos — embora a contradição
quanto a esse ponto não pareça nada fácil. Por exemplo, Spitta (1882, 118),
um dos depreciadores da vida onírica, insiste em que as mesmas leis psicológicas
que regem a vida de vigília também se aplicam aos sonhos; e outro, Dugas
(1897a), declara que “le rêve n’est pas déraison ni même irraison pure”.
Mas tais afirmações têm pouco valor, na medida em que seus autores não fazem
nenhuma tentativa de conciliá-las com suas próprias descrições da anarquia
psíquica e da ruptura de todas as funções que predominam nos sonhos. Parece,
contudo, ter ocorrido a alguns outros autores que a loucura dos sonhos talvez
não seja desprovida de método e possa até ser simulada, como a do príncipe
dinamarquês sobre o qual se fez esse arguto julgamento. Estes últimos
autores não podem ter julgado pelas aparências, ou então a aparência a eles
apresentada pelos sonhos deve ter sido diferente.
Assim, Havelock
Ellis (1899, 721), sem se deter no aparente absurdo dos sonhos, refere-se
a eles como “um mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”
cujo estudo talvez nos revele estágios primitivos da evolução da vida mental.
O mesmo ponto de
vista é expresso por James Sully (1893, 362), numa forma que é, ao
mesmo tempo, mais abrangente e mais perspicaz. Suas palavras merecem ainda
mais atenção tendo em mente que ele talvez estivesse mais firmemente convencido
do que qualquer outro psicólogo de que os sonhos têm um significado disfarçado.
“Ora, nossos sonhos constituem um meio de conservar essas personalidades
sucessivas [anteriores]. Quando adormecidos, retornamos às antigas formas
de encarar as coisas e de senti-las, a impulsos e atividades que nos dominavam
muito tempo atrás.”
O sagaz Delboeuf
(1885, 222) declara (embora cometa o erro de não apresentar qualquer refutação
do material que contradiz sua tese): “Dans le sommeil, hormis la perception,
toutes les facultés de l’esprit, intelligence, imagination, mémoire, volonté,
moralité, restent intactes dans leur essence; seulement elles s’apliquent
à des objets imaginaires et mobiles. Le
songeur est un acteur qui joue à volonté les fous et les sages, les bourreaux
et les victimes, les nains et les géants, les démons et les anges.”
O mais ferrenho
oponente dos que procuram depreciar o funcionamento psíquico nos sonhos
parece ser o Marquês d’Hervey de Saint-Denys [1867], com quem Maury travou
viva controvérsia, e cujo livro, apesar de todos os meus esforços, não consegui
obter. Maury (1878, 19)
escreve a respeito dele: “M. le Marquis d’Hervey prête à l’intelligence
durant le sommeil, toute sa liberté d’action et d’attention et il ne semble
faire consister le sommeil que dans l’occlusion des sens, dans leur fermeture
au monde extérieur; en sorte que l’homme qui dortè ne se distingue guère,
selon sa manière de voir, de l’homme qui laisse vaguer sa pensée en se bouchant
les sens; toute la différence qui sépare alors la pensée ordinaire de celle
du dormeur c’est que, chez celui-ci, l’idée prend une forme visible, objective
et ressemble, à s’y méprendre, à la sensation déterminée par les objetes
extérieurs; le souvenir revêt l’apparence du fait présent.” A isso Maury
acrescenta “qu’il y a une différence de plus et capitale à savoir que
les facultés intellectuelles de l’homme endormi n’offrent pas l’èquilibre
qu’elles gardent chez l’homme éveillé.”
Vaschide (1911,
146 e seg.) nos fornece uma
exposição mais clara do livro de Hervey de Saint-Denys e cita dele um trecho
[1867, 35] sobre a aparente incoerência dos sonhos: “L’image du rêve
est la copie de l’idée. Le pincipal est l’idée; la vision n’est qu’accessoire.
Ceci établi, il faut savior suivre la marche des idées, il faut savoir analyser
le tissu des rêves; l’incohérence devientes… alors compréhensible, les conceptions
les plus fantasques deviennent des faits simples et parfaitement logiques—
Les rêves les plus bizarres trouvent même une explication des plus logiques
quand on sait les analyser.”
Johan Stärcke (1913,
243) salientou que uma explicação semelhante da incoerência dos sonhos fora
proposta por um autor mais antigo, Wolf Davidson (1799, 136), cuja obra
me era desconhecida; “Todos os notáveis saltos dados por nossas representações
nos sonhos têm sua base na lei da associação; às vezes, contudo, essas conexões
ocorrem na mente de maneira muito obscura, de modo que muitas vezes nossas
representações parecem ter dado um salto, quando, de fato, não houve salto
algum.”
A literatura sobre
o assunto mostra, assim, uma gama muito ampla de variação quanto ao valor
que ela atribui aos sonhos como produtos psíquicos. Essa amplitude se estende
desde o mais profundo menosprezo, do tipo com que nos familiarizamos, passando
por indícios de uma valorização ainda não revelada, até uma supervalorização
que coloca os sonhos numa posição muito mais elevada do que qualquer das
funções da vida de vigília. Hildebrandt (1875, 19 e seg.), que, como já
soubemos [ver em [1]], enfeixou todas as características psicológicas da
vida onírica em três antinomias, vale-se dos dois pontos extremos dessa
faixa de valores para compor seu terceiro paradoxo: “trata-se de um contraste
entre uma intensificação da vida mental, um realce dela que não raro corresponde
ao virtuosismo e, por outro lado, uma deterioração e um enfraquecimento
que muitas vezes submergem abaixo do nível da humanidade. No tocante à primeira,
poucos há dentre nós que não possam afirmar, por nossa própria experiência,
que vez por outra surge, nas criações e tramas do gênio dos sonos, uma tal
profundeza e intimidade da emoção, uma delicadeza do sentimento, uma clareza
de visão, uma sutileza de observação e um tal brilho do espírito que jamais
alegaríamos ter permanentemente a nosso dispor em nossa vida de vigília.
Há nos sonhos uma encantadora poesia, uma alegoria arguta, um humor incomparável,
uma rara ironia. O sonho contempla o mundo à luz de um estranho idealismo
e, muitas vezes, realça os efeitos do que vê pela profunda compreensão de
sua natureza essencial. Retrata a beleza terrena ante nossos olhos num esplendor
verdadeiramente celestial e reveste a dignidade com a mais alta majestade;
mostra-nos nossos temores cotidianos da mais aterradora forma e converte
nosso divertimento em chistes de uma pungência indescritível. E algumas
vezes, quando estamos acordados e ainda sob o pleno impacto de uma experiência
como essa, não podemos deixar de sentir que jamais em nossa vida o mundo
real nos ofereceu algo que lhe fosse equivalente.”
Podemos muito bem
perguntar se os comentários depreciativos citados nas páginas anteriores
e esse entusiástico elogio têm alguma possibilidade de estar relacionados
com a mesma coisa. Será que algumas de nossas autoridades desprezaram os
sonhos disparatados, e outras, os profundos e sutis? E, se ocorrerem sonhos
de ambas as espécies, sonhos que justificam ambos os julgamentos, não seria
um desperdício de tempo buscar qualquer característica psicológica distintiva
dos sonhos? Não será bastante dizer que nos sonhos tudo é possível
— desde a mais profunda degradação da vida mental até uma exaltação dela
que é rara nas horas de vigília? Por mais conveniente que fosse uma solução
desse tipo, o que se opõe a ela é o fato de que todos os esforços para pesquisar
o problema dos sonhos parecem basear-se na convicção de que realmente
existe uma característica distintiva, que é universalmente válida em seus
contornos essenciais e que limparia do caminho essas aparentes contradições.
Não há dúvida de
que as realizações psíquicas dos sonhos receberam um reconhecimento mais
rápido e mais caloroso durante o período intelectual que agora ficou para
trás, quando a mente humana era dominada pela filosofia, e não pelas ciências
naturais exatas. Pronunciamentos como o de Schubert (1814, 20 e seg.), de
que os sonhos constituem uma libertação do espírito em relação ao poder
da natureza externa, uma liberação da alma entre os grilhões dos sentidos,
e outros comentários semelhantes do jovem Fichte (1864, 1, 143 e seg.)
e de outros, todos os quais retratam os sonhos como uma elevação da vida
mental a um nível superior, parecem-nos agora quase ininteligíveis; hoje
em dia, são repetidos apenas pelos místicos e pelos carolas. A introdução
do modelo de pensamento científico trouxe consigouma reação na apreciação
dos sonhos. Os autores médicos, em especial, tendem a considerar a atividade
psíquica nos sonhos como trivial e desprovida de valor, enquanto os filósofos
e os observadores não profissionais — os psicólogos amadores — cujas contribuições
para esse assunto específico não devem ser desprezadas — têm conservado
(numa afinidade mais estreita com o sentimento popular) a crença no valor
psíquico dos sonhos. Quem quer que se incline a adotar uma visão depreciativa
do funcionamento psíquico nos sonhos preferirá, naturalmente, atribuir a
fonte deles à estimulação somática; ao passo que os que acreditam que a
mente preserva, ao sonhar, a maior parte de suas capacidades de vigília
não têm nenhuma razão, é claro, para negar que o estímulo ao sonho pode
surgir dentro da própria mente que sonha.
Dentre as faculdades
superiores que até uma sóbria comparação pode inclinar-se a atribuir à vida
onírica, a mais acentuada é a da memória; já examinamos longamente [na Seção
B] as provas nada incomuns em defesa desse ponto de vista. Outro ponto de
superioridade da vida onírica, muitas vezes louvado pelos autores mais antigos
— o de que ela se eleva acima da distância no tempo e no espaço —, pode
ser facilmente comprovado como não tendo base nos fatos. Como frisa Hildebrandt
(1875, [25]), essa vantagem é ilusória, pois o sonhar se eleva acima do
tempo e do espaço precisamente da mesma forma que o pensamento de vigília,
e pela simples razão de que ele é apenas uma forma de pensamento. Tem-se
alegado, em defesa dos sonhos, que eles desfrutam ainda de outra vantagem
sobre a vida de vigília em relação ao tempo — que são independentes da passagem
do tempo ainda sob outro aspecto. Sonhos como o que teve Maury com seu próprio
guilhotinamento (ver pág. [1]) parecem indicar que um sonho é capaz de comprimir
um espaço muito maior do que a quantidade de material de representações
com que pode lidar nossa mente em estado de vigília. Essa conclusão,
no entanto, tem sido contestada por vários argumentos; desde o trabalho
de Le Lorrain (1894) e Egger (1895) sobre a duração aparente dos sonhos,
desenvolveu-se um longo e interessante debate sobre o assunto, mas parece
improvável que a última palavra já tenha sido dita acerca dessa questão
sutil e das profundas implicações que ela envolve.
Relatos de numerosos
casos, bem como a coletânea de exemplos feitos por Chabaneix (1897), parecem
tornar indiscutível o fato de que os sonhos são capazes de dar prosseguimento
ao trabalho intelectual diurno e levá-lo a conclusões que não foram alcançadas
durante o dia, e que podem resolver dúvidas e problemas e constituir a fonte
de uma nova inspiração para os poetas e compositores musicais. Mas, embora
o fato seja indiscutível, suas implicações estão abertas a muitas
dúvidas, que levantam questões de princípio.
Por fim, considera-se
que os sonhos têm o poder de adivinhar o futuro. Temos aqui um conflito
em que um ceticismo quase insuperável se defronta com asserções obstinadamente
repetidas. Sem dúvida alguma, estaremos agindo com acerto não insistindo
em que esse ponto de vista não tem nenhum fundamento nos fatos, pois é possível
que, dentro em breve, muitos dos exemplos citados venham a encontrar explicação
no âmbito da psicologia natural.
(F) O SENTIDO MORAL
NOS SONHOS
Por motivos que
só se tornarão evidentes depois que minhas pesquisas sobre os sonhos forem
levadas em conta, isolei do assunto da psicologia dos sonhos o problema
especial de determinar se e até que ponto as inclinações e sentimentos morais
se estendem até a vida onírica. Também aqui nos vemos diante dos mesmos
pontos de vista contraditórios que, curiosamente, vimos adotados por diferentes
autores no tocante a todas as outras funções da mente durante os sonhos.
Alguns asseveram que os ditames da moralidade não têm lugar nos sonhos,
enquanto outros sustentam não menos categoricamente que o caráter moral
do homem persiste em sua vida onírica.
O recurso à experiência
comum dos sonhos parece estabelecer, sem sombra de dúvida, a correção do
primeiro desses pontos de vista. Jessen (1855, 553) escreve: “Tampouco nos
tornamos melhores nem mais virtuosos no sono. Pelo contrário, a consciência
parece ficar silenciosa nos sonhos, pois neles não sentimos nenhuma piedade
e podemos cometer os piores crimes — roubo, violência e assassinato — com
completa indiferença e sem quaisquer sentimentos posteriores de remorso.”
Radestock (1879,
164): “Deve-se ter em mente que ocorrem associações e vinculam-se representações
nos sonhos sem nenhum respeito pela reflexão, bom-senso, gosto estético
ou julgamento moral. O julgamento extremamente fraco e a indiferença ética
reina, suprema.”
Volkelt (1875,
23): “Nos sonhos, como todos sabemos, os procedimentos são particularmente
irrefreados nos assuntos sexuais. O próprio indivíduo que sonha fica inteiramente
despudorado e destituído de qualquer sentimento ou julgamento moral; além
disso, vê todos os demais, inclusive aqueles por quem nutre o mais profundo
respeito, entregues a atos com os quais ficaria horrorizado em associá-los
quando acordado, até mesmo em seus pensamentos.”
Em oposição diametral
a estas, encontramos declarações como a de Schopenhauer [1862, 1, 245],
no sentido de que qualquer pessoa que apareça num sonho age e fala em completo
acordo com seu caráter. K. P. Fischer (1850, 72 e seg.), citado por Spitta
(1882, 188), declara que os sentimentos e anseios subjetivos, ou os afetos
e as paixões, revelam-se na liberdade da vida onírica, e que as características
morais das pessoas se refletem em seus sonhos.
Haffner (1887,
251): “Com raras exceções (…) o homem virtuoso é virtuoso também em seus
sonhos; resiste às tentações e se mantém afastado do ódio, da inveja, da
cólera e de todos os outros vícios. Mas o pecador, em geral, encontra em
seus sonhos as mesmas imagens que tinha ante seus olhos quando acordado.”
Scholz [1893, 62]: “Nos
sonhos está a verdade: nos sonhos aprendemos a conhecer-nos tal como somos,
a despeito de todos os disfarces que usamos perante o mundo [sejam eles
enobrecedores ou humilhantes] (…) O homem honrado não pode cometer um crime
nos sonhos, ou, se o fizer, ficará tão horrorizado com isso como com algo
contrário à sua natureza. O imperador romano que condenou à morte um homem
que sonhara ter assassinado o governante estaria justificado em fazê-lo,
se raciocinasse que os pensamentos que se têm nos sonhos também se têm quando
em estado de vigília. A expressão corriqueira ‘eu nem sonharia em fazer
tal coisa’ tem um significado duplamente correto, quando se refere a algo
que não pode encontrar guarida em nosso coração nem em nossa mente.” (Platão,
ao contrário, considerava que os melhores homens são aqueles que apenas
sonham com o que os outros fazem em sua vida de vigília.)
Pfaff (1868, [9]),
citado por Spitta (1882, 192), altera a formulação de um ditado familiar:
“Diz-me alguns de teus sonhos e te direi quem é teu eu interior.”
O problema da moral
nos sonhos é tomado como o centro do interesse por Hildebrandt, de cujo
pequeno volume já fiz tantaz citações — pois, de todas as contribuições
ao estudo dos sonhos com que deparei, ele é o mais perfeito quanto à forma
e o mais rico de idéias. Também Hildebrandt [1875, 54] formula como norma
que, quanto mais pura a vida, mais puro o sonho, e quanto mais impura aquela,
mais impuro este. Ele crê que a natureza moral do homem persiste nos sonhos.
“Enquanto”, escreve ele, “até o mais grosseiro erro de aritmética, até a
mais romântica inversão das leis científicas, até o mais ridículo anacronismo
deixa de nos perturbar, ou mesmo de despertar nossas suspeitas, nunca perdemos
de vista a distinção entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, ou entre
a virtude e o vício. Não importa quanto do que nos acompanha durante o dia
desapareça em nossas horas de sono, oimperativo categórico de Kant é um
companheiro que nos segue tão de perto em nossos calcanhares que não nos
podemos ver livres dele nem quando adormecidos, (…) Mas isso só pode ser
explicado pelo fato de que o que é fundamental na natureza do homem, seu
ser moral, está fixado com firmeza demais para ser afetado pelo embaralhamento
caleidoscópico ao qual a imaginação, a razão, a memória e outras dessas
faculdades têm de se submeter nos sonhos.” (Ibid., 45 e seg.)
À medida que prossegue
o debate sobre esse assunto, contudo, ambos os grupos de autores começam
a exibir notáveis mudanças e incoerências em suas opiniões. Os que sustentam
que a personalidade moral do homem deixa de funcionar nos sonhos deveriam,
pelo rigor da lógica, perder todo o interesse nos sonhos imorais. Poderiam
rejeitar qualquer tentativa de responsabilizar o sonhador por seus sonhos,
ou de deduzir da maldade de seus sonhos que haveria um traço maligno em
seu caráter, com a mesma confiança com que rejeitariam uma tentativa semelhante
de deduzir do absurdo de seus sonhos que as atividades intelectuais dele,
na vida de vigília, seriam destituídas de valor. O outro grupo, que acredita
que o “imperativo categórico” se estende aos sonhos, deveria logicamente
aceitar uma responsabilidade irrestrita pelos sonhos imorais. Só nos restaria
esperar, pelo bem deles, que eles mesmos não tivessem tais sonhos repreensíveis,
capazes de perturbar sua sólida crença em seu próprio caráter moral.
Parece, no entanto,
que ninguém é tão confiante assim quanto a até que ponto é bom ou mau, e
que ninguém pode negar a lembrança de ter tido seus próprios sonhos imorais.
Pois os autores de ambos os grupos, independentemente da oposição entre
suas opiniões sobre a moralidade onírica, fazem esforços para explicar a
origem dos sonhos imorais; e surge uma nova diferença de opinião, conforme
a origem deles seja baseada nas funções da mente ou nos efeitos perniciosos
produzidos na mente por causas somáticas. Assim, a lógica imperativa dos
fatos compele tanto os defensores da responsabilidade como da irresponsabilidade
da vida onírica a se aliarem no reconhecimento de que a imoralidade dos
sonhos tem uma fonte psíquica específica.
Os que crêem que
a moral se estende aos sonhos, porém, mostram-se cautelosos para evitar
assumir completa responsabilidade por seus sonhos. Assim, escreve
Haffner (1887, 250): “Não somos responsáveis por nossos sonhos, visto que
neles nosso pensamento e nossa vontade são privados do único fundamento
com base no qual nossa vida possui verdade e realidade. (…) Por essa razão,
nenhum desejo onírico ou ação onírica pode ser virtuoso ou pecaminoso.”
Não obstante, prossegue ele, os homens são responsáveis por seus sonhos
pecaminosos na medida em que os provocam indiretamente.Eles têm o dever
de limpar moralmente suas mentes, não só na vida de vigília como também,
mas especialmente, antes de irem dormir.
Hildebrandt [1875,
48 e seg.] nos fornece uma análise muito mais profunda dessa mescla de rejeição
e aceitação da responsabilidade pelo conteúdo moral dos sonhos. Argumenta
que, ao considerar a aparência imoral dos sonhos, deve-se fazer uma concessão
à forma dramática em que eles se expressam, à compressão que fazem dos mais
complicados processos de reflexão nos mais curtos períodos de tempo, e também
à forma pela qual, como até ele admite, os elementos de representação se
tornam confusos e privados de sua significância. Ainda assim, Hildebrandt
confessa que sente enorme hesitação, em pensar que toda a responsabilidade
pelos pecados e erros dos sonhos pode ser repudiada.
“Quando estamos
ansiosos por negar alguma acusação injusta, especialmente uma acusação que
se relacione com nossos objetivos e intenções, muitas vezes usamos a frase
‘eu nunca sonharia com tal coisa’. Desse modo expressamos, por um lado,
nosso sentimento de que a região dos sonhos é a mais remota e distante das
áreas em que somos responsáveis por nossos pensamentos, já que os pensamentos
nessa região acham-se tão frouxamente ligados com nosso eu essencial que
mal podem ser considerados como nossos; mas, ainda assim, visto nos sentirmos
expressamente obrigados a negar a existência desses pensamentos nessa região,
admitimos indiretamente, ao mesmo tempo, que nossa autojustificação não
seria completa caso não se estendesse até esse ponto. E penso que nisso
falamos, embora inconscientemente, a linguagem da verdade.” (Ibid., 49.)
“É impossível pensar
em qualquer ato de um sonho cuja motivação original não tenha passado, de
um modo ou de outro — fosse como desejo, anseio ou impulso —, através da
mente desperta.” Devemos admitir, prossegue Hildebrandt, que esse impulso
original não foi inventado pelo sonho; o sonho simplesmente o copiou e desdobrou,
meramente elaborou de forma dramática um fragmento de material histórico
que encontrou em nós; meramente dramatizou as palavras do Apóstolo: “Todo
aquele que odeia seu irmão é assassino.” [1 João 3, 15.] E embora, depois
de acordarmos, conscientes da nossa força moral, possamos sorrir de toda
a elaborada estrutura do sonho pecaminoso, mesmo assim o material original
de que derivou a estrutura não conseguirá despertar um sorriso. Sentimo-nos
responsáveis pelos erros do sonhador — não por sua totalidade, mas por uma
certa percentagem. “Em suma, se compreendemos, nesse sentido quase incontestável,
as palavras de Cristo, de que ‘do coração procedem os maus pensamentos’
[Mateus 15, 19], dificilmente escaparemos à convicção de queum pecado cometido
num sonho traz em si pelo menos um mínimo obscuro de culpa.” (Hildebrandt,
1875, 51 e segs.)
Assim, Hildebrandt
encontra a fonte da imoralidade dos sonhos nos germes e indícios de impulsos
maléficos que, sob a forma de tentações, atravessam nossa mente durante
o dia; e ele não hesita em incluir esses elementos imorais em sua estimativa
do valor moral de uma pessoa. Esses mesmos pensamentos, como sabemos, e
essa mesma avaliação deles, é que conduziram os devotos e santos de todas
as épocas a se confessarem míseros pecadores.
Naturalmente, não
há dúvida quanto à existência geral de tais representações incompatíveis;
elas ocorrem na maioria das pessoas e em outras esferas que não a da ética.
Por vezes, entretanto, têm sido julgadas com menos seriedade. Spitta (1882,
194) cita algumas observações de Zeller [1818, 120-1] que são relevantes
a esse respeito: “É raro uma mente ser tão bem organizada a ponto de possuir
completo poder em todos os momentos e de não ter o curso regular e livre
de seus pensamentos constantemente interrompido, não só por representações
não essenciais como também por representações decididamente grotescas e
disparatadas. Com efeito, os maiores pensadores viram-se obrigados a se
queixar dessa confusão oniróide, incômoda e torturante de representações
que perturbava suas reflexões mais profundas e seus mais solenes e sinceros
pensamentos.”
Uma luz mais reveladora
é lançada sobre a posição psicológica dessas idéias incompatíveis por meio
de outra observação de Hildebrandt (1875, 55), no sentido de que os sonhos
nos proporcionam um vislumbre ocasional de profundezas e recessos de nossa
natureza a que em geral não temos acesso em nosso estado de vigília. Kant
expressa a mesma idéia num trecho de sua Anthropologie
[1798], onde declara que os sonhos parecem existir para nos mostrar
nossas naturezas ocultas e nos revelar não o que somos, mas o que poderíamos
ter sido se tivéssemos sido criados de maneira diferente. Radestock (1879,
84) afirma igualmente que, com freqüência, os sonhos não fazem mais do que
nos revelar o que não admitiríamos para nós mesmos, e que,portanto, é injusto
de nossa parte estigmatizá-los como mentirosos e impostores. Erdmann
[1852, 115] escreve: “Os sonhos nunca me mostraram o que devo pensar de
um homem; mas, ocasionalmente, tenho descoberto por meio de um sonho, para
meu próprio grande assombro, o que realmente penso de um homem e
como me sinto em relação a ele.” De modo semelhante, I. H. Fichte (1864,
1, 539) observa: “A natureza de nossos sonhos proporciona um reflexo muito
mais verdadeiro de toda a nossa inclinação do que somos capazes de descobrir
sobre ela por meio da auto-observação na vida de vigília.”
Observa-se que
o surgimento de impulsos alheios a nossa consciência moral é meramente análogo
ao que já aprendemos — ao fato de os sonhos terem acesso a um material ideativo
que está ausente em nosso estado de vigília ou desempenha nele apenas um
pequeno papel. Assim, escreve Benini (1898, 149): “Certe nostre inclinazioni
che si credevano soffocate e spente da un pezzo, si ridestano; passioni
vecchie e sepolte rivivono: cose e persone a cui non pensiamo mai, ci vengono
dinanzi.” E Volkelt (1875, 105): “Também algumas representações que
penetraram na consciência de vigília quase despercebidas, e que talvez nunca
tenham sido re-evocadas pela memória, com muita freqüência anunciam sua
presença na mente através de sonhos.” A esta altura, finalmente, podemos
relembrar a asserção de Schleiermacher [ver em [1]] de que o ato de adormecer
é acompanhado pelo aparecimento de “representações involuntárias” ou imagens
involuntárias.
Podemos, portanto,
classificar em conjunto, sob a epígrafe de “representações involuntárias”,
todo o material de representações cujo surgimento, tanto nos sonhos imorais
quanto nos sonhos absurdos, nos causa tanto espanto. Há, porém, um importante
ponto de diferenciação: as representações involuntárias na esfera moral
contradizem nossa atitude mental costumeira, ao passo que as outras simplesmente
nos causam uma impressão de estranheza. Ainda não se tomou nenhuma providência
no sentido de um conhecimento mais profundo que pudesse solucionar essa
distinção.
Surge em seguida
a questão da importância do aparecimento de representações involuntárias
nos sonhos, da luz que pode ser lançada pelo surgimento noturno desses impulsos
moralmente incompatíveis na psicologia da mente desperta e da que sonha.
E aqui encontramos uma nova divisão de opiniões e mais um agrupamento diferente
das autoridades. A linha de pensamento adotada por Hildebrandt e outros
que partilham de sua posição fundamental conduz, inevitavelmente, à visão
de que os impulsos morais possuem certo grau de poder até mesmo na vida
de vigília, embora seja um poder inibido, incapaz de se impor à ação, e
que, no sono, desativa-se algo que atua como uma inibição durante o dia
e nos impede de nos conscientizarmos da existência de tais impulsos. Assim,
os sonhos revelariam a verdadeira natureza do homem, embora não toda
a sua natureza, e constituiriam um meio de tornar o interior oculto da mente
acessível a nosso conhecimento. É somente em premissas como essas que Hildebrandt
[1875, 56] pode basear sua atribuição aos sonhos de poderes de advertência,
que atraem nossa atenção para as fraquezas morais de nossa mente, da mesma
forma que os médicos admitem que os sonhos podem trazer males físicos não
observados a nossa atenção consciente. Do mesmo modo, Spitta deve estar
adotando esse ponto de vista quando, ao falar [1882, 193 e seg.] nas fontes
de excitação que afetam a mente (na puberdade, por exemplo), consola o sonhador
com a certeza de que ele terá feito tudo o que está em seu poder se levar
uma vida rigorosamente virtuosa em suas horas de vigília, e se tomar o cuidado
de suprimir os pensamentos pecaminosos sempre que eles surgirem, e de impedir
sua maturação e transformação em atos. Segundo essa visão, poderíamos definir
as “representações involuntárias” como “representações que foram “suprimidas”
durante o dia, e teríamos de encarar seu surgimento como um fenômeno mental
autêntico.
Outros autores,
porém, consideram injustificável esta última conclusão. Assim, Jessen (1855,
360) acredita que as representações involuntárias, tanto nos sonhos como
no estado de vigília, e também nos estados febris e outras situações de
delírio, “têm o caráter de uma atividade volitiva que foi posta em repouso
e de uma sucessão mais ou menos mecânica de imagens e representações provocadas
por impulsos internos”. Tudo o que um sonho imoral prova quanto à vida mental
do sonhador é que, segundo a visão de Jessen, em alguma ocasião ele teve
conhecimento do conteúdo de representações em questão; certamente não constitui
evidência de um impulso mental próprio do sonhador.
No tocante a outro
autor, Maury, chega quase a parecer que também ele atribui ao estado onírico
uma capacidade não de destruição arbitrária da atividade mental, mas de
decomposição dela em seus elementos constitutivos. Assim escreve ele sobre
os sonhos que transgridem os ditames da moral: “Ce sont nos penchants
qui parlent et qui nous font agir, sans que la conscience nous retienne,
bien que parfois elle nous avertisse. J’ai mes défauts et mes penchants
vicieux; à l’état de veille je tâche de lutter contre eux, et il m’arrive
assez souvent de n’y pas succomber. Mais dans mes songes j’y succombe toujours
ou pour mieux dire j’agis par leur impulsion, sans crainte et sans remords.
(…) Evidemment les visions qui se déroulent devant ma pensée et qui constituen
le rêve, me sont suggérées par les incitations que je ressens et que ma
volonté absente ne cherche pas à refouler.” (Maury, 1878, 113.)
Ninguém que acredite
na capacidade dos sonhos de revelar uma tendência imoral do sonhador, a
qual esteja realmente presente, embora suprimida ou oculta, poderia expressar
seu ponto de vista mais precisamente do que nas palavras de Maury: “En
rêve l’homme se révèle donc tout entier à soi-même dans sa nudité et sa
misère natives. Dès qu’il suspend l’exercice de sa volonté, il devient le
jouet de toutes les passions contres lesquelles, à l’état de veille, la
conscience, le sentiment de l’honneur, la crainte nous défendent.” (Ibid.,
165.) Num outro trecho encontramos as seguintes frases pertinentes: “Dans
le songe, c’est surtout l’homme instinctif qui se révèle. (…) L’homme revient
pour ainsi dire à l’état de nature quand il rêve; mais moins les idées acquises
ont pénétré dans encore sur lui l’influence dans le rêve.” (Ibid., 462.)
E Maury prossegue relatando, à guisa de exemplo, como, em seus sonhos, ele
é, não raro, vítima da própria superstição que combate em seus textos com
particular veemência.
Essas reflexões
penetrantes de Maury, contudo, perdem seu valor na investigação da vida
onírica, pelo fato de ele considerar os fenômenos que observou com tanta
exatidão como não passando de provas de um “automatisme psychologique”
que, em sua opinião, domina os sonhos, e que ele encara como o oposto exato
da atividade mental.
Stricker (1879,
[51]) escreve: “Os sonhos não consistem unicamente em ilusões. Quando, por
exemplo, num sonho alguém tem medo de ladrões, os ladrões, é verdade, são
imaginários — mas o medo é real.” Isso nos chama a atenção para o fato
de os afetos nos sonhos não poderem ser julgados da mesma forma que
o restante de seu conteúdo; e nos confrontamos com o problema de determinar
que parte dos processos psíquicos que ocorrem nos sonhos deve ser tomada
como real, isto é, que parte tem o direito de figurar entre os processos
psíquicos da vida de vigília.
(G) TEORIAS DO
SONHAR E DE SUA FUNÇÃO
Qualquer investigação
sobre os sonhos que procure explicar o maior número possível de suas características
observadas de um ponto de vista particular, e que, ao mesmo tempo, defina
a posição ocupada pelos sonhos numa esfera mais ampla de fenômenos merece
ser chamada de teoria dos sonhos. Verificaremos que as várias teorias diferem
no sentido de selecionarem uma ou outra característica dos sonhos como sendo
a essencial e de tornarem-na como ponto de partida para suas explicações
e correlações. Não precisa ser necessariamente possível inferir uma função
do sonhar (seja ela utilitária ou não) a partir da teoria. Não obstante,
visto termos o hábito de buscar explicações teleológicas, estaremos mais
propensos a aceitar teorias que estejam ligadas com a atribuição de uma
função ao sonhar.
Já travamos conhecimento
com vários grupos de pontos de vista que merecem ser mais ou menos intitulados
de teorias dos sonhos neste sentido do termo. A crença sustentada na Antiguidade
de que os sonhos eram enviados pelos deuses para orientar as ações dos homens
constituía uma teoria completa dos sonhos, proporcionando informações sobre
tudo o que valia a pena saber a respeito deles. Desde que os sonhos passaram
a ser objeto da pesquisa científica, desenvolveu-se um número considerável
de teorias, inclusive algumas que são extremamente incompletas.
Sem a intenção
de fazer qualquer enumeração exaustiva, podemos tentar dividir as teorias
dos sonhos, grosso modo, nos três seguintes grupos, conforme seus
pressupostos subjacentes quanto ao volume e à natureza da atividade psíquica
nos sonhos.
(1) Existem teorias,
como a de Delboeuf [1885, 221 e seg.], segundo as quais a totalidade psíquica
continua nos sonhos. A mente, presumem elas, não dorme, e seu aparelho permanece
intacto; como se enquadra nas condições do estado de sono, que diferem das
da vida de vigília, seu funcionamento normal necessariamente produz resultados
diferentes durante o sono. Surge, no tocante a essas teorias, a questão
de saber se elas são capazes de extrair todas as distinções do estado de
sono. Além disso, não há nenhuma possibilidade de elas poderem sugerir qualquer
função para o sonhar; elas não fornecem nenhuma razão pela qual devamos
sonhar, pela qual o complexo mecanismo do aparelho psíquico deva continuar
a funcionar mesmo quando colocado em circunstâncias para as quais não parece
destinar-se. As únicas reações adequadas pareceriam ser ou o sono sem sonhos,
ou, havendo interferência de estímulos perturbadores, o despertar — e não
a terceira alternativa, a de sonhar.
(2) Existem as
teorias que, pelo contrário, pressupõem que os sonhos implicam um rebaixamento
da atividade psíquica, um afrouxamento das conexões e um empobrecimento
do material acessível. Essas teorias implicam atribuírem-se ao sono características
inteiramente diferentes das sugeridas, por exemplo, por Delboeuf. O sono,
segundo essas teorias, exerce vasta influência sobre a mente; não consiste
apenas no isolamento da mente em relação ao mundo externo; em vez disso,
ele se impõe ao mecanismo mental e o deixa temporariamente fora de uso.
Se é que posso arriscar uma analogia extraída da esfera da psiquiatria,
direi que o primeiro grupo de teorias interpreta os sonhos segundo o modelo
da paranóia, enquanto o segundo grupo faz com que eles assemelhem à deficiência
mental ou aos estados confusionais.
A teoria segundo
a qual apenas um fragmento da atividade psíquica encontra expressão nos
sonhos, por ter sido paralisada pelo sono, é de longe a mais popular entre
os autores médicos e no mundo científico em geral. Tanto quanto se possa
presumir que haja um interesse geral na explicação dos sonhos, esta pode
ser descrita como a teoria dominante. Convém notar com que facilidade essa
teoria evita o pior obstáculo no caminho de qualquer explicação dos sonhos
— a dificuldade de lidar com as contradições envolvidas neles. Ela encara
os sonhos como o resultado de um despertar parcial — “um despertar gradativo,
parcial e, ao mesmo tempo, altamente anormal”, para citar um comentário
de Herbart sobre os sonhos (1892, 307). Assim, essa teoria pode valer-se
de uma série de condições de um crescente estado de vigília, culminando
no estado completamente desperto, a fim de explicar a série de variações
na eficiência do funcionamento mental nos sonhos, indo desde a ineficiência
revelada por seu absurdo ocasional até o funcionamento intelectual plenamente
concentrado. [Ver em [1].]
Os que julgam não
poder dispensar uma colocação em termos da fisiologia, ou para os quais
uma afirmação nesses termos parece mais científica, encontrarão o que procuram
na explicação dada por Binz (1878, 43): “Esse estado” (de torpor) “chega
ao fim nas primeiras horas da manhã, mas apenas gradativamente. Os produtos
da fadiga que se acumularam na albumina do cérebro diminuem gradualmente;
uma quantidade cada vez maior deles é decomposta ou eliminada pelo fluxo
incessante da corrente sanguínea. Aqui e ali, grupos isolados de células
começam a despontar no estado de vigília enquanto o estado de torpor ainda
persiste em torno delas. O trabalho isolado desses grupos separados surge
então diante de nossa consciência obscurecido de associação. Por esse motivo,
as imagens produzidas, que correspondem, em sua maior parte, a impressões
materiais do passado mais recente, são concatenadas de maneira tumultuada
e irregular. O número das células cerebrais liberadas cresce continuamente,
enquanto a insensatez dos sonhos vai tendo uma redução proporcional.”
Essa visão do sonhar
como um estado de vigília incompleto e parcial se encontra, sem dúvida,
nos textos de todos os fisiologistas e filósofos modernos. Sua exposição
mais elaborada é dada por Maury (1878, 6 e seg.). Muitas vezes, é como se
esse autor imaginasse que o estado de vigília ou de sono poderia mudar-se
de uma região anatômica para outra, estando cada região anatômica específica
ligada a uma função psíquica particular. Neste ponto, teço apenas o comentário
de que, mesmo que se confirmasse a teoria da vigília parcial, seus detalhes
ainda permaneceriam extremamente discutíveis.
Essa visão, naturalmente,
não deixa margem para se atribuir qualquer função ao sonhar. A conclusão
lógica que dela se infere quanto à posição e ao significado dos sonhos é
corretamente enunciada por Binz (1878, 35): “Todos os fatos observados forçam-nos
a concluir que os sonhos devem ser caracterizados como processos somáticos
que, na totalidade dos casos, são inúteis, e em muitos deles decididamente
patológicos. (…)”
A aplicação do
termo “somático” aos sonhos, grifado pelo próprio Binz, tem mais de um sentido.
Alude, em primeiro lugar, à etiologia dos sonhos que pareceu particularmente
plausível a Binz quando ele estudou a produção experimental de sonhos mediante
o emprego de substâncias tóxicas. Isso porque as teorias dessa natureza
envolvem uma tendência a limitar a instigação dos sonhos, tanto quanto possível,
às causas somáticas. Colocada em sua forma mais extrema, a visão é a seguinte:
Uma vez que adormecemos pela exclusão de todos os estímulos, não há necessidade
nem ocasião para sonhar senão com a chegada da manhã, quando o processo
de ser gradualmente acordado pelo impacto dos novos estímulos poderia refletir-se
no fenômeno do sonhar. É impraticável, contudo, manter nosso sono livre
dos estímulos; eles incidem na pessoa adormecida vindos de todos os lados
— como os germes de vida de que se queixava Mefistófeles —, vindo
de fora e de dentro,e até de partes do corpo que passam inteiramente despercebidas
na vida de vigília. Assim, o sono é perturbado; primeiro uma parte da mente
é abalada e despertada, e depois, outra; a mente funciona por um breve momento
com sua parte desperta e, então, alegra-se em adormecer de novo. Os sonhos
são uma reação à perturbação do sono provocada por estímulo — uma reação,
aliás, bastante supérflua.
Mas a descrição
do sonhar — que, afinal de contas, continua a ser uma função da mente —
como um processo somático implica também outro sentido. Destina-se a demonstrar
que os sonhos não merecem ser classificados como processos psíquicos. O
sonhar tem sido muitas vezes comparado com “os dez dedos de um homem que
nada sabe de música, deslocando-se ao acaso sobre as teclas de um piano”
[Strümpell, 1877, 84; ver em [1], adiante]; e esse símile mostra, melhor
do que qualquer outra coisa, o tipo de opinião que geralmente fazem do sonhar
os representantes das ciências exatas. Sob esse prisma, o sonho é algo total
e completamente impossível de interpretar, pois como poderiam os dez dedos
de alguém que não soubesse música produzir uma peça musical?
Mesmo no passado
distante não faltaram críticos à teoria do estado de vigília parcial. Assim,
Burdach (1838, 508 e seg.) escreveu: “Quando se diz que os sonhos são um
despertar parcial, em primeiro lugar isso não lança nenhuma luz sobre a
vigília ou o sono, e, em segundo, nada faz além de afirmar que, nos sonhos,
algumas forças mentais ficam ativas enquanto outras se acham em repouso.
Mas esse tipo de variabilidade ocorre ao longo de toda a vida.”
Essa teoria dominante,
que considera os sonhos como um processo somático, está subjacente a uma
interessantíssima hipótese, formulada pela primeira vez por Robert, em 1886.
Ela é particularmente atraente, pois consegue sugerir uma função, uma finalidade
utilitária, para o sonhar. Robert toma como base para sua teoria dois fatos
observáveis que já consideramos no decurso de nosso exame do material dos
sonhos (ver em [1]), a saber, que é muito freqüente sonharmos com as impressões
diurnas mais triviais e que é muito raro transpormos para nossos sonhos
os interesses cotidianos importantes. Robert (1866, 10) assevera ser universalmente
verdadeiro que as coisas que foram minuciosamente elaboradas pelo pensamento
nunca se tornam instigadoras de sonhos, mas apenas as que estão em nossa
mente numa forma incompleta, ou que foram simplesmente tocadas de passagem
por nossos pensamentos: “A razão por que costuma ser impossível explicar
os sonhos é, precisamente, eles serem causados por impressões sensoriais
do dia anterior que deixaram de atrair atenção suficiente do sonhador.”
[Ibid., 19-20.] Portanto, a condição que determina se uma impressão penetrará
num sonho é ter havido uma interrupção no processo de elaborar essa impressão,
ou ter ela sido excessivamente sem importância para ter o direito de ser
elaborada.
Robert descreve
os sonhos como “um processo somático de excreção do qual nos tornamos cônscios
em nossa reação mental a ele”. [Ibid., 9.] Os sonhos são excreções de pensamentos
que foram sufocados na origem. “Um homem privado da capacidade de sonhar
ficaria, com o correr do tempo, mentalmente transtornado, pois uma grande
massa de pensamentos incompletos e não elaborados e de impressões superficiais
se acumularia em seu cérebro e, por seu grande volume, estaria fadada a
sufocar os pensamentos que deveriam ser assimilados em sua memória como
conjuntos completos.” [Ibid., 10.] Os sonhos servem de válvula de escape
para o cérebro sobrecarregado. Possuem o poder de curar e aliviar. (Ibid.,
32.)
Faríamos uma interpretação
errônea de Robert se lhe perguntássemos como pode a mente ser aliviada pela
representação nos sonhos. O que Robert faz, evidentemente, é inferir dessas
duas características do material onírico que, de um modo ou de outro, uma
expulsão de impressões sem valor se realiza durante o sono como um processo
somático, e que o sonhar não constitui uma modalidade especial de
processo psíquico, mas apenas a informação que recebemos sobre essa expulsão.
Além disso, a excreção não é o único evento que ocorre na mente à noite.
O próprio Robert acrescenta que, além dela, as sugestões surgidas na véspera
são trabalhadas e que “todas as partes dos pensamentos indigeridos que não
são expelidas são reunidas num todo integrado por fios de pensamento tomados
de empréstimo à imaginação, e assim inseridas na memória como um inofensivo
quadro imaginatório.” (Ibid., 23.)
Mas a teoria de
Robert é diametralmente oposta à teoria dominante em sua avaliação da natureza
das fontes dos sonhos. Segundo esta última, não haveria sonho algum
se a mente não fosse despertada de maneira constante por estímulos sensoriais
externos e internos. Na visão de Robert, porém, o impulso para o sonhar
surge na própria mente — no fato de ela ficar sobrecarregada e precisar
de alívio; e ele conclui com perfeita lógica que as causas derivadas das
condições somáticas desempenham um papel secundário como determinantes dos
sonhos, e que tais causas seriam inteiramente incapazes de provocar sonhos
numa mente em que não houvesse material para a construção de sonhos oriundo
da consciência de vigília. A única ressalva que ele faz é admitir que as
imagens fantasiosas que surgem nos sonhos, vindas das profundezas da mente,
podem ser afetadas por estímulos nervosos. (Ibid., 48.) Afinal, portanto,
Robert não encara os sonhos como sendo tão inteiramente dependentes dos
eventos somáticos. Não obstante, em sua opinião, os sonhos não são processos
psíquicos, não têm lugar entre os processos psíquicos da vida de vigília;
são processos somáticos que ocorrem todas as noites no aparelho relacionado
com a atividade mental, e têm como função a tarefa de proteger esse aparelho
da tensão excessiva — ou, modificando a metáfora, de agir como “garis” da
mente.
Outro autor, Yves
Delage, baseia sua teoria nas mesmas características dos sonhos, tais como
reveladas na escolha de seu material; e é instrutivo notar como uma ligeira
variação em seu ponto de vista acerca das mesmas coisas o leva a conclusões
de sentido muito diferente.
Diz-nos Delage
(1891, 41) ter experimentado em sua própria pessoa, por ocasião da morte
de alguém que lhe era querido, o fato de não sonharmos com o que
ocupou todos os nossos pensamentos durante o dia, ou não até que isso tenha
começado a dar lugar a outros interesses cotidianos. Suas pesquisas em meio
a outras pessoas confirmaram-lhe a verdade geral desse fato. Ele faz o que
seria uma observação interessante dessa natureza, se provasse ter validade
geral, a respeito dos sonhos dos jovens casais: “S’ils ont été fortement
épris, presque jamais ils n’ont rêvé l’un de l’autre avant le mariage ou
pendant la lune de miel; et s’ils ont rêvé d’amour c’est pour être infidèles
avec quelque personne indifférente ou odieuse.” [Ibid., 41.] Como que
é, então, que sonhamos? Delage identifica o material de nossos sonhos como
consistindo em fragmentos e resíduos dos dia precedentes e de épocas anteriores.
Tudo o que aparece em nossos sonhos, ainda que a princípio nos inclinemos
a considerá-lo como uma criação de nossa vida onírica, revela-se, quando
o examinamos mais de perto, como a reprodução não reconhecida [de material
já vivenciado] — “souvenir inconscient”. Mas esse material derepresentações
possui uma característica comum: provém de impressões que provavelmente
afetaram nossos sentidos com mais intensidade do que nossa inteligência,
ou das quais nossa atenção foi desviada logo depois que surgiram. Quanto
menos consciente e, ao mesmo tempo, mais poderosa tenha sido uma impressão,
mais possibilidade tem ela de desempenhar um papel no sonho seguinte.
Temos aqui o que
são, essencialmente, as duas mesmas categorias de impressões enfatizadas
por Robert: as triviais e as que não foram trabalhadas. Delage, contudo,
dá à situação uma interpretação diferente, pois sustenta que é por não terem
sido trabalhadas que essas impressões são passíveis de produzir sonhos,
e não por serem triviais. É verdade, num certo sentido, que também as impressões
triviais não foram completamente trabalhadas; sendo da ordem das impressões
novas, elas são “autant de ressorts tendus” que se soltam durante
o sono. Uma impressão poderosa que tenha esbarrado casualmente em algum
obstáculo no processo de ser trabalhada, ou que tenha sido deliberadamente
refreada, tem mais justificativa para desempenhar algum papel nos sonhos
do que a impressão que seja fraca e quase despercebida. A energia psíquica
armazenada durante o dia mediante inibição e supressão torna-se a força
motriz dos sonhos durante a noite. O material psíquico que foi suprimido
vem à luz nos sonhos. [Ibid., 1891, 43.]
Nessa altura, infelizmente,
Delage interrompe sua seqüência de idéias. Nos sonhos, só consegue atribuir
a mais ínfima parcela a qualquer atividade psíquica independente; e assim
alinha sua teoria com a teoria dominante do despertar parcial do cérebro:
“En somme le rêve est le produit de la pensée errante, sans but et sans
direction, se fixant successivement sur les souvenirs, qui ont gardé assez
d’intensité pour se placer sur sa route et l’arrêter au passage, établissant
entre eux un lien tantôt faible et indécis, tantôt plus fort et plus serré,
selon que l’activité actuelle du cerveau est plus ou moins abolie par le
sommeil.” [Ibid., 46.]
(3) Podemos situar
num terceiro grupo as teorias que atribuem à mente no sonho uma capacidade
de inclinação para desenvolver atividades psíquicas especiais de que, na
vida de vigília, ela é total ou basicamente incapaz. A ativação dessas faculdades
costuma conferir aos sonhos uma função utilitária. A maioria das opiniões
do sonhar dadas pelos autores antigos no campo da psicologia enquadra-se
nessa classe. Basta-me, porém, citar uma frase de Burdach (1838, 512). O
sonhar, escreve ele, “é uma atividade natural da mente que não é limitada
pelo poder da individualidade, não é interrompida pela consciência de si
mesma e não é dirigida pela autodeterminação, mas que é a vitalidade dos
centros sensoriais atuando livremente.”
Esse deleite da
psique no livre emprego de suas próprias forças é evidentemente encarado
por Burdach e pelos demais como uma condição em que a mente se revigora
e reúne novas forças para o trabalho diurno ,— na qual, de fato, ela desfruta
de uma espécie de feriado. Assim, Burdach [ibid., 514] cita com aprovação
as encantadoras palavras com que o poeta Novalis louva o reino dos sonhos:
“Os sonhos são um escudo contra a enfadonha monotonia da vida: libertam
a imaginação de seus grilhões, para que ela possa confundir todos os quadros
da existência cotidiana e irromper na permanente gravidade dos adultos com
o brinquedo alegre da criança. Sem sonhos, por certo envelheceríamos mais
cedo; assim, podemos contemplá-los, não, talvez, como uma dádiva do céu,
mas como uma recreação preciosa, como companheiros amáveis em nossa peregrinação
para o túmulo.” [Heinrich von Ofterdingen (1802), Parte I, Cap. 1.]
A função curativa
e revigorante dos sonhos é descrita com insistência ainda maior por Purkinje
(1846, 456): “Essas funções são executadas especialmente pelos sonhos produtivos.
Eles são o livre curso da imaginação e não têm ligação alguma com os assuntos
do dia. A mente não tem nenhum desejo de prolongar as tensões da vida de
vigília; procura relaxá-las e recuperar-se delas. Produz, acima de tudo,
condições contrárias às da vigília. Cura o pesar com a alegria, as preocupações
com esperanças e imagens de amena descontração, o ódio com o amor e a amizade,
o medo com a coragem e a previdência; mitiga a dúvida com a convicção e
confiança sólida, e a vãesperança com a realização. Muitas das feridas do
espírito, que são constantemente reabertas durante o dia, são curadas pelo
sono, que as cobre e resguarda de novos danos. A ação curativa do tempo
baseia-se parcialmente nisso.” Todos temos a sensação de que o sono exerce
um efeito benéfico sobre as atividades mentais, e o obscuro funcionamento
da mentalidade popular se recusa a abrir mão de sua crença de que sonhar
é uma das maneiras pelas quais o sono proporciona seus benefícios.
A tentativa mais
original e ampla de explicar os sonhos como uma atividade especial da mente,
capaz de livre expansão apenas durante o estado de sono, foi a que empreendeu
Scherner em 1861. Seu livro é escrito num estilo bombástico e extravagante
e se inspira num entusiasmo quase extasiado por seu assunto, fadado a repelir
quem quer que não consiga partilhar de seu fervor. Cria tantas dificuldades
à análise de seu conteúdo que passamos com alívio à exposição mais clara
e mais sucinta das doutrinas de Scherner fornecida pelo filósofo Volkelt.
“Lampejos sugestivos de sentido emanam como relâmpagos dessas aglomerações
místicas, dessas nuvens de glória e de esplendor — mas não iluminam a trilha
de um filósofo.” É nesses termos que os escritos de Scherner são julgados
até mesmo por seu discípulo. [Volkelt, 1875, 29.]
Scherner não é
dos que acreditam que as capacidades da mente continuem irreduzidas na vida
onírica. Ele próprio [nas palavras de Volkelt (ibid., 30)] mostra como o
núcleo central do ego — sua energia espontânea — fica privado de sua força
nervosa nos sonhos; como, em decorrência dessa descentralização, os processos
de cognição, sensação, vontade e representação se vêem modificados e, como
os remanescentes dessas funções psíquicas deixam de possuir um caráter verdadeiramente
mental, tornando-se nada além de mecanismos. Contudo, à guisa de contraste,
a atividade mental que se pode descrever como “imaginação”, liberta do domínio
da razão e de qualquer controle moderador, salta para uma posição de soberania
ilimitada. Embora a imaginação onírica lance mão das lembranças recentes
da vigília como o material de que é construída, ela as erige como estruturas
que não guardam a mais remota semelhança com as da vida de vigília; revela-se
nos sonhos como possuindo não só poderes reprodutivos, mas também poderes
produtivos. [Ibid., 31.] Suas características são o que empresta
aos sonhos seus traços peculiares. Ela mostra preferência pelo que é imoderado,
exagerado e monstruoso. Mas, ao mesmo tempo, liberta dos entraves das categorias
de pensamento, ela adquire maleabilidade, agilidade e versatilidade. É suscetível,
da maneira mais sutil, às nuanças dos sentimentos de ternura e às emoções
apaixonadas, e logo incorpora nossa vida interior em imagensplásticas externas.
Nos sonhos, a imaginação se vê destituída do poder da linguagem conceitual.
É obrigada a retratar o que tem a dizer de forma pictórica e, como não há
conceitos que exerçam uma influência atenuante, faz pleno e poderoso uso
da forma pictórica. Assim, por mais clara que seja sua linguagem, ela é
difusa, desajeitada e canhestra. A clareza de sua linguagem sofre, particularmente,
pelo fato de ela se mostrar avessa a representar um objeto por sua imagem
própria, preferindo alguma imagem estranha que expresse apenas a imagem
específica dos atributos do objeto que ela busca representar. Temos aqui
a “atividade simbolizadora” da imaginação (…) [Ibid., 32.] Outro ponto importantíssimo
é que a imaginação onírica jamais retrata as coisas por completo, mas apenas
esquematicamente e, mesmo assim, da forma mais rústica. Por essa razão,
suas pinturas parecem esboços inspirados. Não se detém, contudo, ante a
mera representação de um objeto, mas atende a uma exigência interna de envolver
o ego onírico, em maior ou menor grau, com o objeto, assim produzindo um
evento. Por exemplo, um sonho provocado por um estímulo visual pode
representar moedas de ouro na rua; o sonhador as apanhará com prazer e as
levará consigo. [Ibid., 33.|
O material com
que a imaginação onírica realiza seu trabalho artístico é principalmente,
de acordo com Scherner, fornecido por aqueles estímulos somáticos orgânicos
que são tão obscuros durante o dia. (Ver em [1]) Assim, a hipótese extremamente
fantástica formulada por Scherner e as doutrinas talvez indevidamente sóbrias
de Wundt e outros fisiologistas, que são diametralmente opostas em outros
aspectos, concordam inteiramente em suas teorias acerca das fontes e dos
instigadores dos sonhos. Segundo a visão fisiológica, porém, a reação mental
aos estímulos somáticos internos esgotasse na provocação de certas representações
apropriadas aos estímulos; essas representações dão lugar a outras por vias
associativas e, nesse ponto, o curso dos eventos psíquicos nos sonhos parece
chegar ao fim. Segundo Scherner, por outro lado, os estímulos somáticos
não fazem mais do que fornecer à mente material que ela possa utilizar para
suas finalidades imaginativas. A formação dos sonhos só começa, aos olhos
de Scherner, no ponto que os outros autores encaram como seu fim.
O que a imaginação
onírica faz aos estímulos somáticos não pode, naturalmente, ser considerado
como servindo a alguma finalidade útil. Ela os desloca de um lado para outro
e retrata as fontes orgânicas de que surgiram os estímulos do sonho em causa
numa espécie de simbolismo plástico. Scherner é de opinião — embora, nisso
Volkelt [1875, 37] e outros se recusem a segui-lo — que a imaginação onírica
tem uma forma prediletaespecífica de representar o organismo como um todo:
a saber, como uma casa. Felizmente, porém, não parece restringir-se a esse
método único de representação. Por outro lado, pode valer-se de toda uma
fileira de casas para indicar um único órgão; por exemplo, uma rua muito
longa, repleta de casas, pode representar um estímulo proveniente dos intestinos.
Além disso, partes isoladas de uma casa podem representar partes separadas
do corpo; assim, num sonho causado por uma dor de cabeça, a cabeça pode
ser representada pelo teto de um quarto, coberto de aranhas repelentes e
semelhantes a sapos. [Ibid., 33 e seg.]
Deixando de lado
esse simbolismo da casa, inúmeros outros tipos de coisas podem ser empregados
para representar as partes do corpo de que surgiu o estímulo para o sonho.
“Assim, o pulmão que respira será simbolicamente representado por uma fornalha
flamejante, com chamas a crepitar com um som semelhante ao da passagem de
ar; o coração será representado por caixas ou cestas ocas, a bexiga por
objetos redondos em forma de sacos ou, mais genericamente, por objetos ocos.
Um sonho causado por estímulos provenientes dos órgãos sexuais masculinos
poderá fazer com que o sonhador encontre na rua a parte superior de um clarinete
ou a boquilha de um cachimbo, ou ainda um pedaço de pele de animal. Aqui,
o clarinete e o cachimbo representam a forma aproximada do órgão masculino,
enquanto a pele representa os pêlos pubianos. No caso de um sonho sexual
numa mulher, o espaço estreito em que as coxas se unem poderá ser representado
por um pátio estreito cercado de casas, enquanto a vagina será simbolizada
por uma trilha lisa, escorregadia e muito estreita, que atravesse o pátio,
por onde a sonhadora terá que passar, talvez, para levar uma carta a um
cavalheiro.” (Ibid., 34.) É de especial importância que, ao final de sonhos
como esses, com um estímulo somático, a imaginação onírica muitas vezes
ponha de lado seu véu, por assim dizer, revelando abertamente o órgão em
causa a sua função. Assim, um sonho “com um estímulo dental” costuma terminar
com a imagem do sonhador arrancando um dente de sua boca. [Ibid., 35.]
A imaginação onírica
pode não apenas dirigir sua atenção para a forma do órgão estimulante,
mas igualmente simbolizar a substância contida nesse órgão. Dessa maneira,
um sonho com um estímulo intestinal pode levar o sonhador a percorrer ruas
lamacentas, enquanto um sonho com um estímulo urinário talvez o conduza
a um curso d’água espumejante. Ou então o estímulo com tal, a natureza da
excitação que ele produz, ou o objeto que ele deseja podem ser simbolicamente
representados. Ou talvez o ego onírico entre as relações concretas com os
símbolos de seu próprio estado; porexemplo, no caso de estímulos dolorosos,
o sonhador poderá empenhar-se numa luta desesperada com cães ferozes ou
touros selvagens, ou uma mulher que tenha um sonho sexual poderá ver-se
perseguida por um homem nu. [Ibid., 35 e seg.] Independentemente da riqueza
dos meios que emprega, a atividade simbolizadora da imaginação permanece
como a força central em todos os sonhos. [Ibid., 36.] A tarefa de penetrar
mais a fundo na natureza dessa imaginação e de encontrar um lugar para ela
num sistema de pensamento filosófico é tentada por Volkelt nas páginas de
seu livro. Mas, embora este seja bem escrito e dotado de sensibilidade,
continua a ser extremamente difícil de compreender por qualquer um cuja
formação anterior não o tenha preparado para uma apreensão benevolente dos
construtos conceituais da filosofia.
Nenhuma função
utilitária se liga à imaginação simbolizadora de Scherner. A mente se entretém,
no sono, com os estímulos que incidem sobre ela. Poder-se-ia quase suspeitar
que lida com eles maliciosamente. Mas também me poderiam perguntar se meu
exame pormenorizado da teoria de Scherner sobre os sonhos atende a alguma
finalidade útil, já que seu caráter arbitrário e sua desobediência a todas
as regras da pesquisa parecem óbvios demais. À guisa de resposta, eu poderia
registrar um protesto contra a arrogância que descartaria a teoria de Scherner
sem examiná-la. Sua teoria se fundamenta na impressão causada pelos sonhos
num homem que os considerou com extrema atenção e que parece ter tido um
grande talento pessoal para pesquisar as coisas obscuras da mente. Além
disso, ela versa sobre um assunto que, por milhares de anos, tem sido considerado
pela humanidade como enigmático, sem dúvida, mas também como importante
em si mesmo e em suas implicações — um assunto para cuja elucidação a ciência
exata, segundo ela própria admite, pouco tem contribuído, salvo por uma
tentativa (em oposição direta ao sentimento popular) de negar-lhe qualquer
sentido ou importância. E por fim, pode-se afirmar honestamente que, na
tentativa de explicar os sonhos, não é fácil evitar ser fantasioso. As células
ganglionares também podem ser fantasiosas. O trecho que citei em [1], de
um pesquisador sóbrio e rigoroso como Binz, e que descreve o modo como o
alvorecer do estado de vigília penetra furtivamente na massa de células
adormecidas do córtex cerebral, não é menos fantasioso — nem menos improvável
— do que as tentativas de Scherner de chegar a uma interpretação. Espero
poder demonstrar que há por trás destas últimas um elemento de realidade,
embora tenha sido apenas vagamente percebido e lhe falte o atributo de universalidade
que deve caracterizar uma teoria dos sonhos. Entrementes,o contraste entre
a teoria de Scherner e a teoria médica nos mostrará os extremos entre
os quais as explicações da vida onírica oscilam dubiamente até os dias de
hoje.
(H) AS RELAÇÕES
ENTRE OS SONHOS E AS DOENÇAS MENTAIS
Ao falarmos na
relação entre os sonhos e os distúrbios mentais, podemos ter três coisas
em mente: (1) as conexões etiológicas e clínicas, como quando um sonho representa
um estado psicótico, ou o introduz, ou é um remanescente dele; (2) as modificações
a que está sujeita a vida onírica nos casos de doença mental; e (3) as ligações
intrínsecas entre os sonhos e as psicoses, apontando as analogias para o
fato de eles serem essencialmente afins. Essas numerosas relações entre
os dois grupos de fenômenos constituíram um tema favorito entre os autores
médicos de épocas anteriores e voltaram a sê-lo nos dias atuais, como demonstrado
pelas bibliografias sobre o assunto coligidas por Spitta [1882, 196 e seg.
e 319 e seg.], Radestock [1879, 217], Maury [1878, 124 e seg.] e Tissié
[1898, 77 e seg.]. Bem recentemente, Sante de Sanctis voltou sua atenção
para esse assunto.
Será suficiente, para fins de minha tese,
que eu me limite apenas a tocar nesta importante questão.
Com respeito às
ligações clínicas e etiológicas entre os sonhos e as psicoses, as seguintes
observações podem ser representadas como amostras. Hohnbaum [1830, 124],
citado por Krauss [1858, 619], relata que uma primeira irrupção de insanidade
delirante muitas vezes se origina num sonho de angústia ou de terror, e
que a idéia dominante está ligada ao sonho. Sante de Sanctis apresenta observações
semelhantes em casos de paranóia e declara que, em algumas delas, o sonho
foi a “vraie cause déterminante de la folie” A psicose, diz de Sanctis,
pode surgir de um só golpe com o aparecimento do sonho operativo que traz
à luz o material delirante; ou pode desenvolver-se lentamente numa série
de outros sonhos, que têm ainda de superar certa dose de dúvida. Em um de
seus casos, o sonho relevante foi seguido de ataques histéricos brandos
e, posteriormente, de um estado de melancolia de angústia. Féré [1886] (citado
por Tissié, 1898, [78]) relata um sonho que resultou numa paralisia histérica.
Nesses exemplos, os sonhos são representados como a etiologia do distúrbio
mental; mas faríamos igual justiça aos fatos se disséssemos que o distúrbio
mental apareceu pela primeira vez na vida onírica, tendo irrompido primeiro
num sonho. Em alguns outros exemplos, os sintomas patológicos estão contidos
na vida onírica, ou a psicose se limita a esta. Assim, Thomayer (1897) chama
a atenção para certos sonhos de angústia que ele julga deverem ser considerados
como equivalentes a ataques epilépticos. Allison [1868] (citado por Radestock,
1879 [225]) descreveu uma “insanidade noturna” na qual o paciente parece
inteiramente sadio durante o dia, mas, à noite, fica regularmente sujeito
a alucinações, crises de excitação etc. Observações semelhantes são relatadas
por de Sanctis [1899, 226] (um sonho de um paciente alcoólatra que era equivalente
a uma paranóia, e que representava vozes que acusavam sua mulher de infidelidade)
e por Tissié. Este (1898, [147 e segs.]) fornece copiosos exemplos recentes
em que atos de natureza patológica, tais como conduta baseada em premissas
delirantes e impulsos obsessivos, derivam de sonhos. Guislain [1833] descreve
um caso em que o sono foi substituído por uma loucura intermitente.
Não há dúvida de
que, juntamente com a psicologia dos sonhos, os médicos terão, algum dia,
de voltar sua atenção para uma psicopatologia dos sonhos.
Nos casos de recuperação
de doenças mentais, observa-se muitas vezes com bastante clareza que, embora
o funcionamento seja normal durante o dia, a vida onírica ainda se acha
sob a influência da psicose. Segundo Krauss (1859, 270), Gregory foi o primeiro
a chamar a atenção para esse fato. Macario [1847], citado por Tissié [1898,
89], descreve como um paciente maníaco, uma semana após sua completa recuperação,
ainda estava sujeito, em seus sonhos, à fuga de idéias e às paixões violentas
que eram características de sua doença.
Fizeram-se até
agora muito poucas pesquisas sobre as modificações que ocorrem na vida onírica
durante as psicoses crônicas. Por outro lado,
há muito tempo se dirigiu a atenção para o parentesco subjacente entre os
sonhos e os distúrbios mentais, exibido na ampla medida de concordância
entre suas manifestações. Maury (1854, 124) conta-nos que Cabanis (1802)
foi o primeiro a comentá-las e, depois dele, Lélut [1852], J. Moreau (1855)
e, em particular, o filósofo Maine de Biran [1834, 111 e segs.]. Sem dúvida
a comparação remonta a épocas ainda mais distantes. Radestock (1879, 217)
introduz o capítulo em que trata do assunto mediante várias citações que
traçam uma analogia entre os sonhos e a loucura. Kant escreve em algum ponto
de sua obra [1764]: “O louco é um sonhador acordado.” Krauss (1859, 270)
declara que “a insanidade é um sonho sonhado enquanto os sentidos estão
despertos”. Schopenhauer [1862, 1, 246] chama os sonhos de loucura breve
e a loucura de sonho longo. Hagen [1846, 812] descreve o delírio como uma
vida onírica que é induzida não pelo sono, mas pela doença. Wundt [1878,
662] escreve: “Nós mesmos, de fato, podemos experimentar nos sonhos quase
todos os fenômenos encontrados nos manicômios.”
Spitta (1882, 199),
da mesma forma que Maury (1854), assim enumera os diferentes pontos de concordância
que constituem a base dessa comparação: “(1) A autoconsciência fica suspensa
ou, pelo menos, retardada, o que resulta numa falta de compreensão da natureza
do estado, com a conseqüente incapacidade de sentir surpresa e com perda
da consciência moral. (2) A percepção por meio dos órgãos dos sentidos se
modifica, reduzindo-se nos sonhos, mas sendo, em geral, grandemente aumentada
na loucura. (3) A interligação de representações ocorre exclusivamente segundo
as leis de associação e reprodução; assim, as representações se enquadram
automaticamente em seqüências e há uma conseqüente desproporção na relação
entre as representações (exageros e ilusões). Tudo isso leva a (4) uma alteração
ou, em alguns casos, uma reversão de personalidade, e, ocasionalmente, dos
traços de caráter (conduta perversa).”
Radestock (1879,
219) acrescenta mais algumas características — analogias entre o material
nos dois casos: “A maioria das alucinações e ilusões ocorre na região dos
sentidos da visão e da audição, e da cenestesia. Como no caso dos sonhos,
os sentidos do olfato e do paladar são os que fornecem menos elementos.
— Tanto nos pacientes que sofrem de febre como nas pessoas que sonham, surgem
lembranças do passado remoto; tanto as pessoas adormecidas quanto os doentes
se lembram de coisas que os indivíduos despertos e sadios parecem ter esquecido.”
A analogia entre os sonhos e as psicoses só é plenamente apreciada quando
se constata que ela se estende aos detalhes da movimentação expressiva e
às características da expressão facial.
“O homem atormentado
pelo sofrimento físico e mental obtém dos sonhos o que a realidade lhe nega:
saúde e felicidade. Do mesmo modo, há na doença mental imagens brilhantes
de felicidade, grandiosidade, eminência e riqueza. A suposta posse de bens
e a realização imaginária de desejos — cujo refreamento ou destruição realmente
fornece uma base psicológica para a loucura — constituem muitas vezes o
conteúdo principal do delírio. Uma mulher que tenha perdido um filho amado
experimenta as alegrias da maternidade em seu delírio; um homem que tenha
perdido seu dinheiro julga-se imensamente rico; uma moça que tenha sido
enganada sente que é ternamente amada.”
(Esse trecho de
Radestock é, na verdade, um resumo de uma aguda observação feita por Griesinger
(1861, 106), que mostra com bastante clareza que as representações nos sonhos
e nas psicoses têm em comum a característica de serem realizações de
desejos. Minhas próprias pesquisas ensinaram-me que neste fato se encontra
a chave de uma teoria psicológica tanto dos sonhos quanto das psicoses.)
“A principal característica
dos sonhos e da loucura reside em suas excêntricas seqüências de pensamento
e sua fraqueza de julgamento.” Em ambos os estados [prossegue Radestock],
encontramos uma supervalorização das realizações mentais do próprio sujeito
que parece destituída de sentido ante uma visão sensata: a rápida seqüência
de representações nos sonhos encontra paralelo na fuga de idéias nas psicoses.
Há em ambos uma completa falta de sentido do tempo. Nos sonhos, a personalidade
pode ser cindida — quando, por exemplo, os conhecimentos do próprio sonhador
se dividem entre duas pessoas e quando, no sonho, o ego externo corrige
o ego real. Isso corresponde precisamente à cisão da personalidade que nos
é familiar na paranóia alucinatória; também o sonhador ouve seus próprios
pensamentos pronunciados por vozes externas. Mesmo as idéias delirantes
crônicas têm sua analogia nos sonhos patológicos estereotipados recorrentes
(le rêve obsédant). — Não raro, depois de se recuperarem de um delírio,
os pacientes dizem que todo o período de sua doença lhes parece um sonho
que não foi desagradável: a rigor, às vezes nos dizem que, mesmo durante
a doença, tiveram ocasionalmente a sensação de estarem apenas aprisionados
num sonho — como acontece com muita freqüência nos sonhos que ocorrem durante
o sono.
Depois de tudo
isso, não surpreende que Radestock resuma seus pontos de vista, e os de
muitos outros autores, declarando que “a loucura, um fenômeno patológico
anormal, deve ser encarada como uma intensificação do estado normal periodicamente
recorrente do sonhar”. (Ibid., 228.)
Krauss (1859, 270
e seg.) procurou estabelecer o que talvez seja uma ligação ainda mais íntima
entre os sonhos e a loucura do que a que pode ser demonstrada por uma analogia
entre essas manifestações externas. Ele vê essa ligação em sua etiologia,
ou melhor, nas fontes de sua excitação. O elemento fundamental comum aos
dois estados reside, segundo ele, como já vimos [em [1]], nas sensações
organicamente determinadas, nas sensações derivadas de estímulos somáticos
e na cenestesia que se baseia nas contribuições provenientes de todos os
órgãos. (Cf. Peisse, 1857, 2, 21, citado por Maury, 1878, 52.)
A indiscutível
analogia entre os sonhos e a loucura, que se estende até seus detalhes característicos,
é um dos mais poderosos suportes da teoria médica da vida onírica, que considera
o sonhar como um processo inútil e perturbador e como a expressão de uma
atividade reduzida da mente. Não obstante, não se deve esperar que encontremos
a explicação final dos sonhos na linha dos distúrbios mentais, pois o estado
insatisfatório de nossos conhecimentos acerca da origem destes últimos é
genericamente reconhecido. É bem provável, pelo contrário, que uma modificação
de nossa atitude perante os sonhos, ao mesmo tempo, afete nossos pontos
de vista sobre o mecanismo interno dos distúrbios mentais e nos aproxime
de uma explicação das psicoses enquanto nos esforçamos por lançar alguma
luz sobre o mistério dos sonhos.
PÓS-ESCRITO, 1909
O fato de eu não
haver estendido minha exposição sobre a literatura que trata dos problemas
dos sonhos a ponto de abranger o período entre a primeira e a segunda edições
deste livro exige uma justificativa. Talvez ela pareça insatisfatória ao
leitor, mas, assim mesmo, foi decisiva para mim. Os motivos que me levaram
a apresentar qualquer relato da forma pela qual os autores mais antigos
lidaram com os sonhos esgotaram-se com a conclusão deste capítulo introdutório;
prosseguir nessa tarefa ter-me-ia custado um esforço extraordinário — e
o resultado teria sido muito pouco útil ou instrutivo, pois os nove anos
intermediários nada trouxeram de novo ou valioso, quer em material factual,
quer em opiniões que pudessem lançar luz sobre o assunto. Na maioria das
publicações surgidas durante esse intervalo, meu trabalho não foi objeto
de menção nem de exame. Recebeu, naturalmente, um mínimo de atenção dos
que se empenham no que é descrito como “pesquisa” dos sonhos, e que assim
forneceram brilhante exemplo da repugnância por aprender qualquer coisa
nova que é característica dos homens de ciência. Nas irônicas palavras de
Anatole France, “les savants ne sont pas curieux”. Se houvesse na
ciência algo como o direito à retaliação, por certo eu estaria justificado,
por minha parte, em desprezar a literatura editada desde a publicação deste
livro. As poucas notas que apareceram sobre ele nos periódicos científicos
demonstram tal falta de compreensão e tais erros na compreensão,
que minha única resposta aos críticos seria sugerir que relessem o livro
— ou talvez, a rigor, apenas sugerir que o lessem.
Grande número de
sonhos foi publicado e analisado segundo minha orientação em trabalhos da
autoria de médicos que resolveram adotar o método terapêutico psicanalítico,
bem como de outros autores. Na medida em que
esses textos foram além de uma simples confirmação de meus pontos de vista,
incluí seus resultados no corpo de minha exposição. Acrescentei uma segunda
bibliografia no fim do volume, contendo uma relação das obras mais importantes
surgidas desde a primeira edição deste livro. A extensa monografia sobre
os sonhos, da autoria de Sante de Sanctis (1899), cuja tradução alemã surgiu
logo após seu lançamento, foi publicada quase simultaneamente a minha Interpretação
dos Sonhos, de modo que nem eu nem o autor italiano pudemos tecer comentários
sobre as obras um do outro. Infelizmente, não pude fugir à conclusão de
que seu trabalhoso volume é totalmente deficiente de idéias — tanto, de
fato, que nem sequer levaria alguém a suspeitar da existência dos problemas
sobre os quais discorri.
Exigem menção apenas
duas publicações que se aproximam de minha própria abordagem dos problemas
dos sonhos. Hermann Swoboda (1904), um jovem filósofo, empreendeu a tarefa
de estender aos eventos psíquicos a descoberta de uma periodicidade biológica
(em períodos de 23 e 28 dias) feita por Wilhelm Fliess [1906]. No decurso
de seu trabalho altamente imaginativo, ele se esforçou por utilizar essa
chave para a solução, entre outros problemas, do enigma dos sonhos. Seus
resultados parecem subestimar a importância dos sonhos; o tema de um sonho,
segundo seu ponto de vista, deve ser explicado como uma montagem de todas
as lembranças que, na noite em que ocorre o sonho, completem um dos períodos
biológicos, seja pela primeira ou pela enésima vez. Uma comunicação pessoal
do autor levou-me a supor, a princípio, que ele próprio já não levava essa
teoria a sério, mas essa parece ter sido uma conclusão errônea de minha
parte. Numa fase posterior [ver mais adiante, em [1] e segs.], relatarei
algumas observações que fiz em relação à sugestão de Swoboda, mas que não
me conduziram a qualquer conclusão convincente. Fiquei mais satisfeito quando,
num setor inesperado, descobri casualmente uma visão dos sonhos que coincide
na íntegra com o cerne de minha própria teoria. É impossível, por motivos
cronológicos, que a formulação em pauta possa ter sido influenciada por
meu livro. Devo, portanto, saudá-la como o único exemplo, encontrável na
literatura sobre o assunto, de um pensador independente que concorda com
a essência da minha teoria dos sonhos. O livro que contém o trecho que
tenho em mente sobre os sonhos surgiu em sua segunda edição, em 1900, sob
o título de Phantasien eines Realisten, de “Lynkeus”. [Primeira edição,
1899.]
PÓS-ESCRITO, 1914
A nota justificatória
precedente foi escrita em 1909. Sou forçado a admitir que, desde então,
a situação se modificou; minha contribuição para a interpretação dos sonhos
já não é desprezada pelos autores que escrevem sobre o assunto. O novo estado
de coisas, entretanto, fez com que ficasse inteiramente fora de cogitação
a idéia de ampliar meu relato anterior sobre a literatura. A Interpretação
dos Sonhos levantou toda uma série de novas considerações e problemas
que têm sido discutidos de inúmeras maneiras. Não posso apresentar uma exposição
dessas obras, no entanto, antes de expor os pontos de vista de minha própria
autoria em que elas se baseiam. Assim sendo, abordei tudo o que me pareceu
valioso na literatura mais recente, no lugar apropriado, ao longo da discussão
que se segue.
Home | | Obras completas| | Membros |
| Ata de fundação |
| Downloads | | Cronograma | | Topologia
lacaniana | | Guestbook & Contact | | Credits |
Home | | Obras completas| | Membros |
| Ata de fundação |
| Downloads | | Cronograma | | Topologia
lacaniana | | Guestbook & Contact | | Credits |
Círculo De Estudos Psicanalíticos Do Vale Dos Sinos
Grupo de estudo e investigação psicanalítica
Obras Completas - Sigmund Freud