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Como pudemos constatar nos itens anteriores, no mínimo dois espaços geográficos foram aqui produzidos antes que se constituísse uma sociedade cuja dinâmica social estruturasse um espaço a que pudéssemos caracterizar como brasileiro.

Hoje, a geografia revelada pelo conjunto das paisagens brasileiras é profundamente diferente daquelas que examinamos para os casos dos espaços tupi ou colonial, e não poderia ser de outro modo. A sociedade que aqui habita apresenta outra dinâmica, isto é, um modo de produzir, consumir, pensar e, conseqüentemente, se apropriar do território, completamente distinto dos outros dois espaços que aqui se desenvolveram anteriormente.

Os núcleos urbanos, por exemplo, como já vimos em capítulos e unidades anteriores, não são mais apenas alguns, nem sua função se restringe à exportação; pelo contrário, é neles que se processa o maior volume da produção global do Brasil. A maior parte da população brasileira, como sabemos, não habita as fazendas, como no espaço colonial, e muito menos, é claro, as aldeias indígenas do espaço tupi.
s regiões que integram o Brasil não mais têm a configuração de um "arquipélago" de áreas isoladas e voltadas para fora, mas se interligam por milhares de quilômetros principalmente de rodovias e, em menor escala, pelas ferrovias, aerovias e hidrovias. Entre essas regiões estabeleceu-se, mais que interligação, uma profunda interdependência, e através das vias de circulação que as unem milhares e milhões de produtos e de pessoas circulam cotidianamente, buscando a realização de lucros ou correndo atrás dos salários, como é o caso da maioria.

Mas, até que chegássemos a esse tipo de configuração espacial, a geografia do Brasil passou por inúmeras transformações que, para efeito de análise, poderiam ser agrupadas, simplificadamente, em dois períodos: um, que vai do início do século XIX até meados deste século, e outro, daí para a frente.

O espaço brasileiro de ontem

Observe, no mapa, as principais atividades econômicas que se desenvolviam no Brasil do século XIX.
Aparentemente não há muita diferença entre esse mapa e aquele que utilizamos para ilustrar a organização espacial da atividade produtiva do Brasil colonial.

Com exceção de uma área onde se pode observar o desenvolvimento inicial da lavoura cafeeira e outra, no norte, onde se representou a produção de borracha (no lugar das drogas do sertão), pouca coisa parece ter se alterado: a fazenda, a grande propriedade monocultora (de cana, café ou algodão), continuava a predominar na paisagem brasileira do século XIX.

Os historiadores costumam classificar esse período de neocolonial, pois, apesar da independência política decretada em 1822, no plano econômico a dependência era ainda total, e suas diretrizes, agora sem a intermediação de Portugal, passaram a ser em grande parte determinadas pelas necessidades da nascente indústria inglesa. Pelo menos no princípio do período de Brasil independente, a estrutura básica da produção colonial pouco se alterou, mantendo-se agroexportadora.

Mas, saindo das aparências e sem nos determos nos detalhes que induziram à independência ou à sua consolidação, do ponto de vista das transformações espaciais, muitas novidades e fatos importantes acompanharam a constituição do nascente espaço brasileiro. O século XIX pode ser considerado um período de transição espacial, de preparação do terreno para o Brasil urbano-industrial do século XX.

Entre os fatos importantes, sem dúvida destacam-se a eliminação do trabalho escravo, a organização de um mercado de trabalho assalariado e a disponibilidade de capitais, pois essas foram as condições básicas para que o modo capitalista de produção pudesse dominar plenamente a economia brasileira e um novo espaço geográfico fosse efetivamente constituído.

Um espaço onde a atividade industrial paulatinamente se transformou na principal atividade produtiva e tornou-se capaz de subordinar todas as outras, inclusive a agrícola, que durante séculos foi a principal em nosso território.
disponibilidade de capitais e a de trabalhadores livres são fatores por si sós determinantes para a constituição do Brasil do século XX. Mas a forma como se chegou a essas disponibilidades é também muito importante e reveladora das características do espaço brasileiro atual.

extinção do trabalho escravo no Brasil, por exemplo, apesar das pressões inglesas, das revoltas e dos conflitos internos, só foi decretada no final do século XIX (1888), quando a resistência dos latifundiários sucumbiu diante da evidência de que às relações capitalistas de produção não prosperariam no Brasil sem o trabalho assalariado.

Os latifundiários prepararam-se muito para isso, tanto que em 1850, no mesmo ano em que se proibiu o tráfico negreiro e aumentou consideravelmente a entrada de imigrantes no país, decretou-se a Lei de Terras, que entre outras medidas restringiu o acesso às terras aos que as comprassem. Isto é, quando se vislumbrava o aumento do número de trabalhadores livres, limitou-se a possibilidade de acesso a um meio de sobrevivência que seria capaz de lhes conferir autonomia e obtenção de renda.

Os latifúndios, os minifúndios (pequenas propriedades de dimensões inviáveis), o crescente assalariamento do trabalhador agrícola e a constituição de espaços urbanos marcaram para sempre as paisagens do Brasil. Até hoje, a simples menção da expressão reforma agrária é motivo de reações violentas por parte dos grandes donos de terra.
Lei de Terras; garantiu aos grandes proprietários tranqüilidade para a expansão dos latifúndios de café, os quais, no final do século XIX, já eram responsáveis por 64,5% das exportações, o que proporcionou uma acumulação de capitais jamais vista.
grande acumulação de capitais, aliada a uma disponibilidade crescente de trabalhadores livres e à expansão dos núcleos urbanos, transformou-se no principal elemento da criação de um ambiente propício à produção e ao consumo de bens manufaturados.
resposta a esses estímulos veio na forma de um lento processo de industrialização, que de modo direto ou indireto beneficiou-se dos lucros advindos da exportação de café.

Em 1850; contavam-se no Brasil cerca de cinqüenta estabelecimentos industriais, ao passo que nos EUA eles já ultrapassavam o número de mil. O primeiro surto industrial do Brasil (1885-1895) só iria acontecer um século depois de deflagrada a Revolução Industrial inglesa.
indústria brasileira nasceu, portanto, tardiamente e na dependência da tecnologia externa. Durante muito tempo permanecerá quase exclusivamente produzindo bens de consumo.
Para o espaço brasileiro, foram inúmeras as conseqüências da situação que estamos descrevendo.
expansão cafeeira, que começou no Rio de Janeiro (Veja o mapa), atingiu seu auge caminhando em direção ao Oeste Paulista, concentrando mão-de-obra e capitais no Sudeste do Brasil, principalmente em São Paulo. Nesse Estado se construiu toda uma infra-estrutura de transportes e de cidades aparelhadas que, num primeiro momento, atenderam às necessidades de comércio e exportação de café e, num segundo, foram utilizadas pelas indústrias que se concentraram na região.
extrema concentração espacial das atividades econômicas em São Paulo começou, sem dúvida, nesse período. Em 1919, São Paulo já era responsável por 31,5% do valor bruto da produção industrial de todo o Brasil. Em segundo lugar estava o Rio de Janeiro, com 28,2%.

São Paulo e Rio de Janeiro passam a assumir, desse momento em diante, a condição de metrópoles internas, e a organização espacial do Brasil mudou de fisionomia.

O antigo "arquipélago" de áreas isoladas a que fizemos menção no espaço colonial, e que de certa forma permaneceu durante o período de transição (século XIX), voltou-se para o eixo Rio-São Paulo. Dessa região, a atividade industrial, que ali se implantou de forma cada vez mais concentrada e crescente, passou a comandar a dinâmica da sociedade brasileira e a produzir um novo espaço.

O espaço brasileiro de hoje

nova organização espacial do Brasil a que fizemos referência no item anterior, onde o eixo Rio-São Paulo despontou no comando da dinâmica espacial brasileira, não surgiu evidentemente do dia para a noite.
Tal organização, que começou a se esboçar já no final do século XIX e ganhou corpo durante toda a primeira metade do século XX, só se consolidará de fato a partir dos anos 50.
primeira metade do século XX foi um período marcado pela disputa do poder político da sociedade brasileira, ainda predominantemente nas mãos da velha oligarquia rural, especialmente a burguesia cafeeira.

Com a industrialização, ainda que lenta nesse período, novas personagens - burguesia industrial e trabalhadores assalariados - integraram-se à paisagem brasileira, organizando-se e lutando também por seus interesses.

Centenas de greves, que envolveram milhares de trabalhadores, a maioria dos quais imigrantes estrangeiros, explodiram entre 1900 e 1930. Sem dúvida, uma novidade na paisagem brasileira.

Estima-se que somente entre 1900 e 1920 cerca de quatrocentas greves foram realizadas, envolvendo cerca de 300 mil trabalhadores. Entre elas, duas tiveram grande repercussão: as greves gerais de 1907 e de 1917. Na primeira reivindicavase redução da jornada de trabalho para oito horas, já que eram comuns as jornadas de quinze e mais horas. Na de 1917, a revolta foi contra os baixos salários e a explosão do custo de vida.
ssim, o militante operário e historiador Everardo Dias descreveu a greve de 1917: "São Paulo é uma cidade morta: sua população está alarmada, os rostos denotam apreensão e pânico, porque tudo está fechado, sem o menor movimento. Pelas ruas, afora alguns transeuntes apressados, só circulavam veículos militares, requisitados pela Cia. Antarctica e demais indústrias, com tropas armadas de fuzis e metralhadoras. Há ordem de atirar sobre quem fique parado na rua. Nos bairros fabris do Brás, Mooca, Barra Funda, Lapa, sucedem-se tiroteios com grupos de populares, em certas ruas já começaram a fazer barricadas com pedras, madeiras velhas, carroças viradas, e a polícia não se atreve a passar por lá, porque dos telhados e cantos partem tiros certeiros. Os jornais saem cheios de notícias sem comentários quase, mas o que se sabe é sumamente grave, prenunciando dramáticos acontecimentos." (Apud Francisco Foot & Vitor Leonardi. História da indústria e do trabalho no Brasil. São Paulo, Global, 1982).

té o início da década de 20, e segundo os casos registrados, os enfrentamentos entre capital e trabalho já haviam deixado um saldo de "50 repressões e fechamento de organizações operárias, 14 mortes de trabalhadores, 657 prisões, 31 deportações e 128 expulsões do território nacional" (idem). Nesse mesmo período, o movimento trabalhista no Brasil já havia criado mais de cem Uniões Operárias, mais de setenta Cooperativas e Associações de Auxílio e Socorro Mútuo, realizado congressos regionais e nacionais, a partir dos quais criou-se a Confederação Operária Brasileira (COB), de 1908.
atitude das elites diante do crescimento dos movimentos sociais e de suas organizações sempre foi a mesma e pode ser sintetizada na afirmação feita pelo presidente Washington Luís (1927-1930): "A questão social é um caso de polícia". Assim se solucionavam os conflitos e as disputas entre capital e trabalho.
Entre os setores da burguesia, apesar dos muitos interesses convergentes, industriais e latifundiários tinham também as suas diferenças.

Sabemos que o capital industrial dependia em grande parte dos recursos proporcionados pelo capital cafeeiro. Mas à medida que a indústria se fortaleceu e os setores a ela ligados ganhavam certa autonomia, o poder político, ainda exercido exclusivamente pela oligarquia cafeeira, passou a ser questionado, pois entravava a adoção de medidas que favorecessem a indústria, obviamente situada em segundo plano em relação ao café.
burguesia industrial também se organizou na defesa de seus interesses. Uma das primeiras manifestações nesse sentido foi a criação em 1904 do Centro das Indústrias do Brasil. Em 1926, parte dos industriais se aglutinaram em torno do Partido Democrático (PD), que nasceu de uma dissidência do PRP (Partido Republicano Paulista), mais ligado aos interesses oligárquicos. Em 1928 foi criada a Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), tornada Fiesp em 1931, que se transformou no principal porta-voz dos interesses daqueles que pretendiam para o espaço brasileiro a construção de uma hegemonia burguesa, via industrialização.
Revolução de 1930, com a deposição de Washington Luís, pôs fim à hegemonia da burguesia do café e abriu caminho para a realização do projeto industrial que se realizou plenamente a partir dos anos 50.
Entre 1930 e o fim da Segunda Guerra, a oligarquia cafeeira viu-se afastada do exercício direto do poder político, e a burguesia industrial pôde, através de seus representantes, preparar terreno para a consolidação de uma sociedade industrial no Brasil. Para isso contribuiu todo o trabalho de destruição da República oligárquica levada a cabo entre 1930 e 1937, e a ditadura de Vargas - o Estado Novo (1937-1945) -, que voltou seu fogo no sentido da desarticulação do movimento trabalhista e da construção da infra-estrutura industrial.
partir da década de 50, aquilo que vinha ocorrendo lentamente sofreu um brutal processo de aceleração. A indústria passou de fato à condição de centro dinâmico da sociedade brasileira.
O crescimento do poder econômico do capital industrial, e a conquista, por parte da burguesia industrial, de uma hegemonia no espaço político brasileiro mudaram a geografia do Brasil.

PEREIRA, Diamantino, SANTOS, Douglas, CARVALHO, Marcos de - Geografia - Ciência do Espaço - O Espaço Brasileiro - 2º Grau - Atual, São Paulo, 1997.

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