Viagem Pela Geografia


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expansão marítimo-comercial (séculos XV e XVI) inaugurou uma nova geografia para o mundo. Sem dúvida, o que ocorreu foi uma verdadeira revolução espacial.

conquista de novas terras se inseriu, como sabemos, na necessidade européia de expansão e ampliação do capital mercantil. A partir desse momento praticamente todos os cantos do mundo foram submetidos a uma dinâmica de produção, de circulação e de idéias ditada pelos europeus.
análise da dinâmica que se iniciou nesse período nos fornecerá parte dos elementos explicativos para o entendimento dos caminhos de riqueza, ou de pobreza, que os vários países hoje constituídos na América, África e Ásia trilharam.
partir da Europa e, pela primeira vez em escala mundial, foram impostas funções econômicas aos vários cantos do globo. Assim, estabeleceu-se aquilo que chamamos de Divisão Internacional do Trabalho (DIT).

Geograficamente falando, essa "distribuição" de tarefas é de suma importância, pois é isso que em grande parte nos explica muitas paisagens que até hoje podemos observar nas chamadas áreas "subdesenvolvidas" do globo.

À África e à América Latina, por exemplo, foram impostas funções como as de fornecimento de mão-de-obra escrava e de matérias-primas, agrícolas ou minerais, como o comércio europeu. Tais funções se traduziram, nesses locais, em paisagens bastante diferentes daquelas que observamos nos países da Europa. A explicação é simples: as riquezas que se extraíam de algum lugar acumulavam-se em outros. Segundo Eduardo Galeano:
"O açúcar do trópico latino-americano deu grande impulso à acumulação de capitais para o desenvolvimento industrial da Inglaterra, França e Holanda e também, dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que mutilou a economia do Nordeste do Brasil e das Ilhas do Caribe e selou a ruína histórica da África (...). A ressurreição da escravatura greco-romana no Novo Mundo teve propriedades milagrosas: multiplicou as naves, as fábricas, as ferrovias e os bancos dos países que não estavam na origem nem, com exceção dos Estados Unidos, no destino dos escravos que cruzavam o Atlântico". (As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro, Paz e terra, 1978).

No caso específico da futura terra brasileira, podemos dizer que a imposição da função colonial a que ficou reduzida - fornecimento de gêneros minerais ou agrícolas para o comércio europeu - se manifestava em uma paisagem onde predominavam as grandes lavouras monocultoras ou a grande empresa mineradora, baseada no trabalho escravo.

Durante mais de três séculos esses foram os principais elementos paisagísticos que caracterizaram o espaço colonial (1500-1822), com especial destaque para a lavoura de cana-de-açúcar, cuja exploração se restringia às áreas litorâneas, entre outras razões pela facilidade de escoamento do produto (açúcar) e pela maior proximidade com a metrópole (Portugal). A grande propriedade açucareira, o engenho, seria sem dúvida o principal "cartão-postal" da época. Nele observaríamos, além das áreas cultivadas, a casa-grande, centro do poder, do comando e moradia do proprietário da terra, e a senzala, habitação dos escravos.
o lado das grandes lavouras de cana e das regiões de mineração, vastas áreas foram ocupadas também pela atividade pecuária, e em outras alternaram-se, durante o período colonial, lavouras como as de tabaco (século XVII) ou de algodão (século XVIII), dependendo das imposições e das necessidades do comércio externo. (Veja Mapa da Economia Colonial (Século XVIII)

Todas essas atividades mencionadas no entanto, não caracterizam por inteiro o espaço colonial. É importante assinalar também que a sua viabilização implicou a configuração de um espaço de conflitos, até mesmo de guerras, no qual se envolveram índios, negros e europeus.
realização da produção colonial exigiu, como sabemos, a ocupação de terras já habitadas por centenas de nações indígenas. Estas em muitos casos resistiram à invasão colonial travando batalhas, via de regra vencidas pelos colonizadores, os quais não raramente tomavam a iniciativa do ataque, com o intuito de "limpar o terreno" para a empreitada colonial por meio daquilo que chamavam de "guerras justas'. Chamavam-nas de "justas" porque eram empreendidas contra aqueles que os europeus consideravam "selvagens" ou "pagãos". Entre essas guerras destacavam-se a guerra aos Aimorés (1642-1647), a guerra aos Tremembés (1670), a guerra aos Tapuias (1669), a guerra aos Botocudos (1808-1809), etc., nas quais centenas de aldeias e milhões de índios foram dizimados.

Na conquista e destruição do espaço dos índios e no desenvolvimento do espaço colonial, cumpriram importante papel também as missões jesuíticas. Estas, presentes na paisagem colonial com os seus colégios e aldeamentos, contribuíram para a "limpeza" do território por meio da catequese e da cooptação do índio para o modo de vida europeu.
lém dos índios, a mão-de-obra negra e escrava, base da produção colonial, realizou vários movimentos de resistência pela constituição dos quilombos - onde se organizavam os negros que fugiam da escravidão -, que foram duramente combatidos pelo colonizador português. Entre eles, o mais famoso, o Quilombo dos Palmares, durou de 1630 a 1695 e chegou a aglutinar cerca de 20 mil pessoas.

Em suma, latifúndios açucareiros, áreas de mineração, pecuária, missões jesuíticas e uma guerra constante aos índios e aos negros que resistiam compuseram os principais elementos paisagísticos do espaço colonial - um espaço bastante diverso daquele que examinamos quando aqui predominavam as sociedades tupis.

Num espaço, portador dessas características que estamos examinando, cuja dinâmica interna estava toda moldada para atender às imposições européias, a comunicação e circulação entre as áreas integrantes do território era bastante restrita.
Os caminhos se construíam de modo a ligar diretamente os núcleos produtores aos centros exportadores e não ultrapassavam algumas léguas da linha de costa, pois os núcleos principais se concentravam na fachada litorânea. A intensidade do movimento de pessoas e mercadorias por esses caminhos estava diretamente vinculada à cotação e ao prestígio dos produtos da colônia no mercado internacional.

Os núcleos de produção, tais como o de açúcar, de algodão, de tabaco, ou de mineração, experimentaram momentos de crise e de prosperidade, mas a estrutura da produção colonial e, por conseqüência, os arranjos espaciais do território pouco se alteraram durante os mais de três séculos de colonização.

Os caminhos que mais penetravam no interior foram aqueles construídos pelas Entradas (século XVI) e Bandeiras (séculos XVII e XVIII), expedições promovidas com os objetivos de pesquisa de minérios, em particular os metais preciosos (ouro e prata); combate de destruição dos quilombos; e caça ao índio, tanto para eliminar resistências à ocupação, como para suprir as deficiências de mão-de-obra escrava nas poucas áreas que, por não estarem diretamente vinculadas à exportação, não tinham recursos suficientes para a compra de negros. (Veja Mapas Entradas e Bandeiras)

Tais caminhos só podem ser incluídos como parte da circulação colonial na medida em que se vinculavam às atividades produtivas ou às situações a elas subordinadas. O combate aos quilombos e aos índios era, do ponto de vista do colonizador, fundamental para a realização tranqüila da produção. As Entradas e Bandeiras construíram caminhos que, em parte, tornaram possível esse combate.
pesquisa de minérios sempre constituiu um dos objetivos dessas expedições, e foi em uma delas que se descobriu ouro em Minas Gerais (1695). E, das atividades econômicas, a empresa mineradora que se desenvolveu durante o século XVIII foi a que mais longe da costa levou os caminhos.
atividade pecuária, embora se espalhasse por várias regiões, tinha seu desenvolvimento subordinado à situação dos núcleos principais de produção e a eles servia por meio do fornecimento de animais para tração e alimento.

O Brasil, durante o período colonial, caracterizou-se, portanto, pela existência de áreas isoladas de produção, um verdadeiro "arquipélago" cujos núcleos produtivos estavam desvinculados entre si e cujos produtos convergiam para a Europa. O único vínculo entre as áreas se dava pela pecuária.
auto-suficiência das grandes propriedades agrícolas contribuía para essa não-integração entre as áreas. E os centros urbanos, que já iam se constituindo, embora não apresentassem a mesma capacidade de auto-suficiência, devem ser vistos, até o século XIX, como centros exportadores, que se ligavam mais facilmente a Portugal que entre si, tanto para o escoamento dos produtos, como para a importação dos bens de que necessitavam. Era o caso de centros como Rio de Janeiro, Salvador, Recife, São Luís ou Belém.
geografia colonial era, como se vê, caracterizada por um espaço que, do ponto de vista da circulação e comunicação entre suas áreas, não começava e não terminava no território da colônia, não integrava suas áreas. Era, enfim, apenas uma extensão da geografia do espaço europeu.

O espaço das idéias coloniais

organização de um espaço colonial implicou, como vimos, a destruição do espaço dos índios.
Tal situação não se restringiu às terras americanas. Como sabemos, a paisagem africana também passou a ter sua dinâmica ditada pela expansão mercantil. Afinal, foi da África que se extraiu a maior parte da mão-de-obra que, por meio do regime de trabalho escravo, foi utilizada nas grandes plantações e minas das terras colonizadas por Portugal.
Estima-se que mais de 10 milhões de negros tenham sido introduzidos no Brasil durante o período colonial.

Considerando que pouco mais de 50% dos africanos embarcados na África chegavam vivos ao Brasil, é possível avaliar o estrago provocado pelo tráfico negreiro, somente em direção ao Brasil. Esse foi o verdadeiro combustível que durante séculos alimentou a máquina colonial.

Não haveria, portanto, exagero em se caracterizar o espaço colonial como uma realidade de destruição, superexploração da mão-de-obra e saque, uma vez que todas as riquezas daqui extraídas ou aqui produzidas pelo trabalho escravo escoavam diretamente para a Europa.
Que idéias sustentavam e justificavam tal situação?
primeira a destacar é a identificação da empresa colonial a uma "missão civilizadora" na qual os fins justificavam os meios. Isto é, era válido qualquer recurso utilizado para levar aquilo que os europeus consideravam civilizado, cristão e progressista às terras "pagãs" e "selvagens" do "novo mundo".

Os índios eram considerados selvagens, seres sem alma, que precisavam ser civilizados, cristianizados ou até mesmo eliminados. Tais tarefas eram realizadas pela catequese dos jesuítas e pelas "guerras justas" que, na verdade, cumpriam a função de "limpeza do território" para que a empresa colonial pudesse se expandir sem contratempos.

Os negros, igualmente considerados "selvagens" e "pagãos", se redimiam dessa sua condição servindo ao branco europeu e cristão pelo trabalho escravo. Ao menos era essa a idéia que se divulgava para justificar a escravidão negra.
É importante assinalar que os negros, mais do que mão-de-obra, foram uma mercadoria que proporcionou lucros fantásticos. O tráfico negreiro e a comercialização de escravos consistiram nos fatores determinantes da escolha do negro como a mão-de-obra preferencial.

No entanto a idéia que se difundiu é a de que o índio, ao contrário do negro, não se adaptava ao trabalho escravo, ou a uma disciplina de trabalho, e por isso não foi escravizado. Isso não é verdade, pois além do fato de não existir ser humano que seja mais, ou menos, adaptável à escravidão, vários dos setores da economia colonial, como vimos, se utilizaram do índio como mão-de-obra escrava.
idéia de que os índios se revoltavam e fugiam por terem melhor conhecimento do território que os negros também não corresponde à realidade.

Tanto negros como índios não aceitaram pacificamente a sua nova condição. Prova disso são as revoltas e os ataques indígenas, a resistência cultural, feita pela preservação dos cultos afros (muito combatidos pelos colonizadores e pejorativamente chamados de macumba), e a organização de diversos quilombos (dos quais Palmares é apenas um exemplo).

O pelourinho, as correntes, a gargalheira, o açoite, as "guerras justas", o desterro ou a forca eram os instrumentos mais utilizados para o convencimento dos que não se conformavam.

O espaço colonial, como já dissemos, foi na verdade um espaço de guerras, mais isso sempre se omitiu e até hoje se omite. Talvez pelo receio da influência que a divulgação dos atos de rebeldia possa provocar. A idéia que se propagandeou foi a de uma conquista tranqüila, que se desenvolveu pacificamente século após século, ajudada pelo lema de que "ser rebelde é estar em pecado permanente". Ainda hoje é muito louvada e difundida a idéia da "índole pacífica do povo brasileiro". Uma idéia que, sem dúvida, ficou como herança da nossa mal contada história colonial.

Os mapas da época também cumpriam sua função de divulgação das idéias do colonizador. Observe, no mapa, como era retratada a Terra do Brasil em fins do século XVI.

parentemente Portugal "descobriu" um espaço vazio, que para efeitos administrativos foi dividido em unidades chamadas capitanias hereditárias, com o intuito de facilitar a empresa colonial. Mas, segundo Norma A. Telles: "Devemos lembrar que, se as capitanias foram concedidas a léguas, sua existência era meramente jurídica [...]. Há na literatura muitos exemplos de resistência indígena oposta ao avanço colonial, desde o século XVI ao século XX, e fica claro que o que foi concedido a léguas teve de ser conquistado a palmo, por guerras ou através de alianças, no transcurso dos séculos, e que esse processo ainda não está terminado." (Cartografia Brasilis ou: esta história está mal contada. São Paulo, Loyola, 1984).

Na realidade, tais capitanias jamais existiram. A idéia de conquista parece que foi apagada da nossa memória. Jamais falamos em conquista da América ou do Brasil, pois isso seria admitir que essas terras já tinham donos. E isso não é de hoje.

Já em 1556, um decreto do governo espanhol, que Portugal também adotou, proibia oficialmente o emprego das palavras conquista e conquistadores, que deveriam ser substituídas por descubrimento (descobrimento) e pobladores (colonizadores). De lá para cá, todos os espaços da América, que diga-se de passagem já haviam sido descobertos há pelo menos 20 mil anos, foram novamente descobertos (assim ordenava o decreto).

Com isso a idéia maior da empresa colonial - a de "missão civilizadora' - ficava plenamente contemplada. Afinal, que mal haveria na "descoberta" e no "povoamento" (colonização) de um espaço vazio? Dessa forma se apagava, inclusive nos mapas, a idéia de um espaço colonial como um espaço de guerras e destruição.

PEREIRA, Diamantino, SANTOS, Douglas, CARVALHO, Marcos de - Geografia - Ciência do Espaço - O Espaço Brasileiro - 2º Grau - Atual, São Paulo, 1997.

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