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ntes mesmo da chegada de Cabral ou de Colombo, as terras americanas já haviam sido descobertas por homens e mulheres, ditos primitivos, primeiros agrupamentos, começaram, há aproximadamente 40 mil anos, segundo os antropólogos, a ocupar essa parte do planeta.
o longo dos tempos, tais integrantes da espécie Homo sapiens - os verdadeiros descobridores da América - ergueram as mais diversas sociedades constituindo centenas de nações espalhadas por todo o. continente. Calcula-se que há 20 mil anos, no mínimo, tais nações ocupavam praticamente todos os espaços do continente americano, de norte a sul e do Atlântico ao Pacífico. (Veja o mapa - grupos indígenas na América)

Segundo o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, estima-se que quando os europeus chegaram à América (séculos XV e XVI) já a habitavam entre 70 e 90 milhões de indígenas.

Esse enorme contingente de pessoas: agrupava-se em várias nações de dinâmicas sociais distintas, conferindo ao continente, como sintoma de vários espaços geográficos que aqui já se constituíam, uma multiplicidade de paisagens diferenciadas.
maioria estava aglutinada em torno de grandes impérios, como o dos astecas, dos maias ou dos incas. Estes, com suas imensas cidades, estradas pavimentadas, agricultura irrigada, eram sociedades fortemente estratificadas sob o comando de Estados extremamente centralizados, nas quais as castas mais nobres e os sacerdotes exerciam o poder político.

Havia também comunidades menores, algumas delas nômades, outras sedentárias, sem nenhum tipo de estratificação social, que não se aglutinavam em cidades e praticavam uma agricultura comunitária e de subsistência.

E existiam ainda comunidades mais sofisticadas, cuja sobrevivência não dependia da agricultura, mas da extração de sal, de metais, ou do artesanato, produtos que comerciavam com outras comunidades.

Tudo isso se desenvolvia num continente que, como se vê, estava longe de ser aquilo que a ideologia do colonizador costuma classificar de selvagem, inóspito e despovoado. Estados centralizados ou descentralizados, comunidades auto-gestionárias, comércio, vias de circulação, trabalho escravo ou livre, irrigação, cidades, sociedades de classes ou igualitárias davam à América pré-colombiana um colorido cultural, político e econômico que em geral associamos apenas aos povos da Antiguidade européia ou asiática.
domesticação de plantas, como a pimenta, o feijão, a batata, a borracha, o fumo e a coca (base dos anestésicos modernos), já havia sido, muito tempo antes, levada a cabo por várias comunidades americanas. A transformação de produtos venenosos, como a mandioca, em alimento de base, ou a arte de navegar e a perfeição arquitetônica das malocas (habitações indígenas) do Alto Xingu são alguns dos legados de que se aproveitaram os europeus a partir da ocupação da América. Isso sem falar no milho e no amendoim ou no número zero, base da aritmética e indiretamente da matemática moderna, que a Europa conheceu por intermédio dos árabes e que os maias já conheciam e utilizavam pelo menos quinhentos anos antes de sua descoberta pelos hindus, como atestam os seus perfeitos calendários.


A geografia do espaço tupi

Se desenhássemos sobre o continente americano os contornos de fronteiras que o Brasil adquiriu a partir do século XX, no momento da ocupação européia (século XVI), teríamos aproximadamente a distribuição de comunidades indígenas que o mapa nos apresenta. (Veja mapa: Grupos Indígenas - Brasil)

Nesse mapa podemos observar a primitiva distribuição das comunidades indígenas no território onde se formou o país Brasil. Tal distribuição tem como base a classificação lingüística, na qual podemos observar a predominância dos grupos Tupi e Jê.
pesar de múltiplas dinâmicas sociais protagonizadas pelas diversas comunidades que aqui existiam, os grupos majoritários - Tupi e Jê - apresentavam muitas semelhanças, constituindo um espaço geográfico que poderíamos considerar predominante na época.

Para efeito de facilitar a compreensão, designaremos de espaço tupi (os tupis constituíam o grupo majoritário) as centenas de aldeias que habitavam esse universo cuja geografia detalharemos um pouco.
vida da maioria desses grupos consistia na produção agrícola de uma grande variedade de plantas, com destaque para a mandioca, além de certa dedicação à caça e à coleta. Eram sociedades principalmente agrícolas e de modo geral sedentárias. Quando não estavam envolvidas com a produção de alimentos necessários à subsistência, dedicavam-se aos rituais religiosos, à construção de suas habitações e de instrumentos para caça ou utilização no dia-a-dia (cuias, redes, pilões, esteiras, etc).

Todas essas atividades, indistintamente, faziam parte do cotidiano das aldeias e de sua realização dependia a sobrevivência da comunidade.
divisão do trabalho, quando ocorria, obedecia a critérios de sexo e idade, mas prevalecia a interdependência, baseada na complementação e no amparo mútuo. No dia-a-dia cada um sabia aquilo que devia fazer. Ninguém dominava, ninguém era dominado. Não havia diferenças sociais. Não havia propriedade privada da terra. As roças eram espaço do grupo (aldeia).
s aldeias possuíam os seus chefes, alguns grupos de aldeias aliadas reconheciam um "grande chefe", cuja função era cultural, de fazer observar as tradições, e não de mando, pois ninguém detinha o poder político, já que este pertencia à comunidade.
tingia-se o "posto" de chefe por grau de parentesco ou pela idade. Os mais idosos podiam integrar os conselhos de anciãos, que junto com os chefes interferiam apenas em caso de deslocamento do grupo, expedição guerreira sacrifício de inimigos.

Não se conhecia e não se praticava o trabalho escravo. Na maioria dos grupos tupis, os inimigos que se tornavam cativos, por meio de uma guerra, por exemplo, eram tratados como membros do grupo até o dia do sacrifício.
A maior parte dessas comunidades, além de autônomas politicamente, eram autosuficientes em termos de sobrevivência. Portanto, não teria sentido falar em circulação de pessoas ou de objetos na forma como a concebemos hoje.
circulação mais intensa e identificável, no entanto, restringia-se na maior parte dos casos aos espaços internos das aldeias.

O cotidiano indígena e comunitário, sem sofisticações ou complexidades, tornava-se visível através de uma geometria espacial razoavelmente simples e desenhada pela disposição das aldeias.

organização territorial das aldeias resumia-se, via de regra, a quatro ou sete malocas (habitações coletivas) que circundavam uma área central, reservada às cerimônias religiosas, cerimônias de iniciação ou à reunião do conselho de chefes. Além das casas do pátio cerimonial, o território da aldeia compunha-se da mata vizinha e da roça. Todos esses elementos paisagísticos se interligavam por caminhos pelos quais se estabelecia a circulação cotidiana externa às malocas.

Mas quando se pretende descrever a geometria de uma aldeia indígena, não se pode deixar de ressaltar o espaço interno das malocas, cujo arranjo e organização é talvez o que mais fielmente revela o modo de vida indígena.
s malocas eram habitações coletivas onde, dependendo da aldeia, moravam de algumas dezenas a algumas centenas de pessoas. No centro instalava-se o chefe da cabana, e pelo perímetro da habitação distribuíam-se núcleos familiares. Não havia subdivisões internas fixas, tais como paredes. As famílias com suas redes e esteiras constituíam elas próprias as subdivisões.

Da mesma forma, a própria aldeia não tinha os seus limites definidos com precisão. Mas todos reconheciam o território de uma aldeia, no qual a penetração era sempre precedida de um ritual, de guerra ou de paz.

O espaço das idéias tupis

Para os tupis, o território da aldeia era o lugar da criação do mundo, era a própria memória tribal, era o "mapa do universo". As idéias, portanto, não se configuravam em um espaço à parte, nem se desenvolviam em locais específicos e predeterminados para isso. Não havia divisão entre pessoas que se dedicassem exclusivamente ao trabalho intelectual ou ao manual. Já vimos que a divisão de trabalho, quando havia, obedecia a critérios de sexo e idade.
geometria da aldeia não refletia, assim, apenas uma concepção teórica de mundo, mas uma prática cotidiana de vida igual e comunitária, na qual não existiam explorados ou exploradores, dominantes ou dominados.
vida tribal sustentava-se na concepção de vida dos índios e no discurso da tradição, que competia ao chefe e aos mais idosos manter, por onde permeava principalmente a idéia de não-separação entre homem e natureza.

Para eles, os fatos humanos e os fatos da natureza explicavam-se segundo o único modelo conhecido de existência: o dos próprios índios. Sendo assim, os sentimentos humanos estavam presentes na natureza, que, como qualquer pessoa, chora, manifesta alegria ou contrariedade, por meio de um trovão, da chuva ou do sopro do vento.
Para o índio, nada acontecia por acaso, e os ritos religiosos refletiam a relação mágica que se estabelece entre homem e natureza. Os deuses e as explicações obedeciam a essa relação de continuidade, na qual tudo é considerado sagrado.

A destruição do espaço tupi: o espaço colonial

lgumas sociedades e seus respectivos espaços geográficos se modificam ou se transformam por causa de necessidades internas. Esse não foi o caso do espaço tupi, que como sabemos não é o espaço que caracteriza o Brasil de hoje.

Para os índios a destruição de suas sociedades veio com a chegada dos europeus.

Trazidos pelas correntes da expansão marítimo-comercial (séculos XV e XVI), os europeus (portugueses e espanhóis principalmente) dividiram entre si, pelo Tratado de Tordesilhas, de 1494, as "Índias Ocidentais" (território americano), sem se importar com o que achavam disso as ricas populações que aqui habitavam.

Buscando novas mercadorias, expandindo e criando novos mercados, o capital mercantil que se desenvolvia na Europa incorporou ao seu horizonte geográfico as terras americanas, cujo espaço passou a sofrer profundas transformações.
Nesse continente passou a se constituir outra sociedade cujos modos de produzir, consumir e pensar deveriam se articular de maneira a satisfazer aquilo que os europeus buscavam na empreitada colonial. Era o fim da autonomia política e econômica da qual desfrutavam as várias sociedades que aqui habitavam e o começo de um espaço mundial articulado e cada vez mais internacionalizado: o espaço colonial.

Isso se processou de formas diferentes nas terras colonizadas por portugueses e espanhóis. Diferentes eram as sociedades que as habitavam e diferentes as possibilidades que apresentavam para a acumulação do capital mercantil.

Nas terras tornadas então espanholas, predominavam os grandes impérios e abundavam o ouro e a prata. Nas terras portuguesas, predominavam as pequenas aldeias; ouro e prata não foram inicialmente encontrados, mas em contrapartida os vastos solos férteis logo se apresentaram como a grande via de acumulação de capital.

Num caso ou noutro, o modo de vida indígena se apresentava como obstáculo e por isso foi destruído. Já em 1550, mais de 90% da população indígena do Caribe estava exterminada. Em 1581, Filipe II, rei da Espanha, admitia que um terço dos índios da América já tinham sido aniquilados. Darcy Ribeiro calcula que um século e meio depois da conquista, em meados do século XVII, restavam apenas 3,5 milhões dos 90 milhões de nativos que no início do século XVI habitavam as Américas.
superioridade militar, as missões jesuíticas e as doenças desconhecidas pelos índios, como sífilis, varíola, tuberculose, etc., foram as principais armas de portugueses e espanhóis para a realização de sua empreitada.

Examinemos mais de perto o que se passou em terras coloniais portuguesas. Após um breve período de extração do pau-brasil (1500-1530), a empresa colonial portuguesa implantou os latifúndios produtores de açúcar, por meio dos quais buscava alcançar altos lucros com a comercialização de produtos agrícolas. Mas isso só seria possível com a eliminação do obstáculo representado pelo domínio indígena do território.

Como vimos, esse era um território já bastante ocupado. Além disso, a terra, que para o índio constituía apenas um meio de sobrevivência e um local sagrado, para o capital mercantil tornava-se propriedade privada, que é a principal base para a produção de mercadorias.
tingir os objetivos coloniais exigia a ocupação de maior território e sua transformação em propriedade privada. Os territórios eram então tomados dos índios, e estes, via de regra, escravizados e destribalizados (Veja a ilustração Massacre de índios). Atingir os objetivos coloniais significava, enfim, destruir o modo de produção nativo e o espaço geográfico a ele correspondente.
s revoltas e as resistências não foram poucas. Mas, como podemos constatar pela observação das paisagens, a grande maioria das batalhas foram vencidas pelo colonizador. Até hoje as tribos remanescentes lutam por seus direitos (no começo deste século ainda restavam no Brasil cerca de 230 tribos, das quais 90 já desapareceram).

Dessa forma, um novo espaço geográfico foi sendo produzido no futuro território brasileiro: o espaço colonial.


PEREIRA, Diamantino, SANTOS, Douglas, CARVALHO, Marcos de - Geografia - Ciência do Espaço - O Espaço Brasileiro - 2º Grau - Atual, São Paulo, 1997.

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