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Biologia e Prescrição do Exercício |
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TUMBLING - Caracterização do esforço
Índice O Tumbling - Caracterização geral
As actividades gímnicas são praticadas desde tempos remotos com diferentes preocupações ligadas à preparação para a guerra, ligadas ao culto do corpo (com preocupação higiénica, respiratória, correctiva) e ainda educativa. Mais recentemente estas actividades ganharam outro ânimo através da sua organização em modalidades desportivas diferenciadas e com regulamentos próprios. A sua subdivisão passa actualmente, e em termos competitivos, pela Ginástica Rítmica, Ginástica Artística, Ginástica Acrobática (a nível nacional também ligada aos Trampolins através da Federação Portuguesa de Trampolins e Desportos Acrobáticos) e a Ginástica Geral (onde se inclui a ginástica de grupo com competições menos formais e com objectivos de participação em exibições internacionais - caso da Gimnaestrada). Esta importância dada à competição levou a um maior aprofundamento dos conhecimentos dos técnicos quer a nível científico quer a nível pedagógico. A área da fisiologia é sem dúvida alguma descurada por muitos dos treinadores, e principalmente dos menos habilitados, mas que se revela como uma das mais importantes no desenvolvimento do atleta e de todo o seu processo de treino. Neste trabalho, o que se pretende é fazer uma abordagem a uma das modalidades na área da ginástica, e mais propriamente na área dos desportos acrobáticos - o TUMBLING - procurando conhecer o tipo de esforço realizado e a importância das capacidades motoras para a obtenção de uma boa prestação desportiva nesta área.
Caracterização geral O tumbling é um dos aparelhos que, tal como toda a ginástica, tem sofrido alterações ao longo da sua recente existência. Apenas em 1963 surgem as primeiras provas de tumbling, nos Jogos Pan-Americanos, nos Estados Unidos da América, sendo também neste ano realizados os primeiros campeonatos nacionais da União Soviética. Em 1968 realiza-se o primeiro Campeonato da Europa e em 1972 o primeiro campeonato do Mundo, aparecendo a primeira pista elástica em 1978. A nível nacional a sua história é bem mais recente, com a equipa portuguesa a participar em competições internacionais apenas em 1986. O Tumbling (termo de origem americana "to tumble") é uma modalidade desportiva acrobática, caracterizada pelo encadeamento rápido de elementos acrobáticos em rotação, realizados sem passos intermédios e sem paragem ou acentuada quebra de ritmo do movimento. Só os elementos em rotação em torno dos eixos transversal, longitudinal e antero-posterior, com ou sem apoio de mãos na pista, são autorizados. Os elementos técnicos que se realizam sobre uma pista de tumbling podem ser, por um lado, elementos realizados em torno do eixo transversal (eixo dos mortais); e elementos realizados em torno do eixo antero-posterior (permite a realização de mortais com piruetas); e por outro lado, elementos realizados com apoio de pés-mãos-pés (exº rodada e flic-flac à rectaguarda), e consequentemente com duas fases de vôo; elementos realizados com apoio de pés para pés (tempo, saltos mortais e saltos múltiplos), com uma fase aérea mais pronunciada que nos elementos técnicos anteriores. É da combinação dos diferentes elementos técnicos, realizados em torno dos diferentes eixos, que se constrói uma série de tumbling. Assim, ao conjunto dos elementos técnicos realizados de forma encadeada, chama-se série. Cada série iniciada por um saltador de tumbling ("tumbler"), deve ser terminada sobre a pista ou na zona de recepção (com 4m x 2m) simultaneamente com os dois pés, de pé e em estado de equilíbrio após o último elemento técnico. O tumbling pratica-se sobre uma pista de 25m feita de madeira ou fibra e que, devido às suas características elásticas, permite aumentar consideravelmente a amplitude do movimento, a velocidade de execução e ainda a complexidade e o grau de dificuldade dos elementos técnicos realizados. Os tumblers dispõem de 10m de corrida de balanço (no mínimo) e 25m de pista elástica, sobre a qual devem realizar as suas séries, cada uma com oito elementos técnicos. Cada série é composta por elementos acrobáticos encadeados com grande velocidade (cerca de 18 a 20 Km/h para os melhores saltadores) e com uma duração de realização entre os 5 e 7 segundos, não ultrapassando os 10 segundos em atletas de menor nível.
A principal função do músculo consiste em transformar a energia química, fornecida através dos nutrientes energéticos, em energia mecânica, de que resulta a contracção muscular e, habitualmente, movimento (Ribeiro, 1992). Para funcionarem, os músculos necessitam de diferentes quantidades de energia consoante a intensidade e duração do esforço físico executado. A energia necessária para a contracção muscular encontra-se armazenada no músculo e noutros tecidos orgânicos associada com substâncias químicas como a adenosina trifosfato (ATP), a creatina fosfato (CP), os hidratos de carbono, as gorduras e as proteínas. No entanto, a única fonte de energia química que o organismo consegue utilizar no processo de contracção muscular provém do ATP, sendo as restantes fontes de energia utilizadas na sua ressíntese. Esta produção de energia pode realizar-se através de dois processos metabólicos: o processo anaeróbio (aláctico e láctico) e o processo aeróbio. A primeira reacção que fornece energia é a decomposição do ATP, resultando na libertação de ADP (adenosina difosfato), fosfato inorgânico e energia. No entanto as quantidades de ATP em reserva nas células musculares são muito reduzidas e apenas podem garantir a contracção muscular em períodos muito curtos (2 a 3 segundos), pelo que se torna necessário recorrer a outros compostos para permitir uma sequência de trabalho muscular. Para além do ATP, a célula muscular armazena também a CP, cuja principal função é a de regenerar o ATP (através da ligação com o ADP) e permitir a continuidade da contracção muscular. Este processo denomina-se de via anaeróbia aláctica, e embora seja um processo muito potente de obtenção de energia, esgota-se rapidamente e só poderá ser utilizado durante 8 a 12 segundos (Castelo, 1995). De referir ainda que este processo é o mais rapidamente disponível por três razões fundamentais: 1. não depende de uma longa série de reacções químicas; 2. não depende do transporte de oxigénio para os músculos que estão a realizar trabalho; 3. tanto o ATP como a CP estão armazenados directamente dentro dos mecanismos contrácteis do músculo (Fox e Mathews, 1983). Esta é portanto a via energética fundamental em todo o trabalho realizado na pista de tumbling, uma vez que a duração das séries encontra-se dentro destes valores. Depois deste período e com as reservas de CP quase esgotadas, o músculo para continuar a ressíntese de ATP, terá de utilizar as outras fontes de energia. Assim a fonte de energia que se segue será a que recorre aos hidratos de carbono, os quais provêm dos açucares que ingerimos na nossa alimentação e que, posteriormente, são armazenados em alguns tecidos orgânicos (fígado e músculos) sob a forma de glicogénio. Quando o exercício começa, o glicogénio muscular é convertido em glicose, a qual é metabolizada ao longo de uma cadeia de processos (glicólise) em que se vão formando moléculas de ATP e também ácido pirúvico. Na ausência de oxigénio, o ácido pirúvico transforma-se em ácido láctico, que é um produto residual altamente tóxico, tornando-se como factor limitativo da continuidade do trabalho muscular. Todo este processo ocorre quando o exercício é realizado a uma intensidade próxima do máximo (90 a 98%), e uma duração entre os 30 segundos e os 2 minutos (ou um pouco mais para indivíduos treinados) (Castelo, 1995). Este sistema é denominado como via anaeróbia láctica (realizado na ausência de oxigénio e com produção de ácido láctico). Finalmente, o processo de obtenção de energia realizado na presença de oxigénio, o processo ou via aeróbia. Aqui, o glicogénio é completamente desintegrado em dióxido de carbono e água, libertando grandes quantidades de ATP. Este é indiscutivelmente o maior rendimento de ATP, sendo no entanto um processo muito demorado por envolver centenas de reacções químicas. Neste contexto, quando o exercício é caracterizado por uma intensidade submáxima (60 a 70%) e uma longa duração, este sistema energético é preferencialmente utilizado. Em termos bioquímicos esta fonte é inesgotável, podendo ser utilizada sempre que exista oxigénio e alimentos passíveis de oxidação.
Nesta parte deste trabalho procuraremos fazer uma breve análise das capacidades motoras mais influentes no tumbling, e abordar de uma forma mais profunda as capacidades mais importantes que um "tumbler" deve possuir. A prestação competitiva no tumbling é condicionada pelo código de pontuação em vigor, que prevê apenas bonificações para: elementos técnicos realizados sem apoio de mãos quando precedidos por outros elementos também realizados sem apoio de mãos; para saltos mortais em posição encarpada ou empranchada; e para saltos simples ou múltiplos com mais de duas piruetas. Como generalidades inerentes à boa execução técnica poderíamos referir entre outras, a colocação segmentar correcta, a amplitude de movimentos e a velocidade de execução. A coordenação neuro-muscular assim como o desenvolvimento de ritmo, fluidez e precisão de movimentos assumem-se como capacidades determinantes nesta modalidade. Por outro lado, a possibilidade da execução tecnicamente perfeita exige uma potencialização correcta e harmoniosa de todas as capacidades coordenativas e condicionais. As capacidades coordenativas são fundamentais para qualquer atleta, e principalmente para um ginasta. Uma boa capacidade de diferenciação quinestésica, de orientação espacial, de equilíbrio, de ritmo e de reacção são pontos fundamentais para o tumbler uma vez que a realização dos gestos técnicos praticados em cima de uma pista de tumbling depende de um conhecimento profundo do seu corpo. Este conhecimento só pode ser adquirido através de um bom desenvolvimento ao nível das capacidades coordenativas. Quando se fala em ginástica pensa-se logo em atletas com elevados índices de flexibilidade. No entanto, o que é verdade para certas áreas da ginástica pode não o ser para outras. O tumbling faz parte das áreas da ginástica em que os índices de flexibilidade necessários para uma boa prestação motora, são relativamente baixos quando comparados com outros ginastas de outras áreas. A nosso ver, e analisando o tumbling, esta capacidade tanto pode ser um factor limitativo como um factor potenciador da performance. Passamos a explicar: por um lado, se o "tumbler" não possuir um índice de flexibilidade suficiente em certos grupos articulares, poderá não ter a capacidade para realizar certos elementos técnicos e até comprometer a realização do seu exercício pela limitada amplitude de movimentos, pela limitada velocidade de execução (dois pontos fundamentais no ajuizamento de uma série de tumbling). Por outro lado, um exagerado índice de flexibilidade pode acarretar incorrecções técnicas, principalmente no que se refere à flexibilidade ao nível da coluna vertebral. Aqui apenas referimos que é importante o tumbler ter um bom índice de flexibilidade geral mas há aspectos em que é mais importante a flexibilidade específica. Quanto à velocidade, e dentro desta capacidade, podemos seguramente afirmar que a velocidade de execução é a forma de manifestação da velocidade mais importante para o "tumbler" uma vez que para a correcta realização de uma série é essencial que este tenha capacidade de efectuar os gestos técnicos com a velocidade de contracção maximal dos vários grupos musculares envolvidos nos diferentes elementos técnicos. A importância desta capacidade deve-se igualmente ao facto de estar intimamente ligada a outra qualidade que é a força explosiva. A capacidade que desempenha o papel mais importante no rendimento desta modalidade é a força, nas suas diferentes formas de manifestação. A capacidade do saltador de tumbling para realizar as acções musculares (impulsões, fechos, aberturas e rotações) depende do seu nível de força. Para Zatsiorsky (1968), a força é a capacidade que temos para vencer uma resistência (ou de resistir a esta), mediante esforços musculares (Castelo, 1995). O esforço muscular que encontramos neste caso específico da ginástica, o tumbling, apela a três tipos de contracção muscular: * contracção isométrica, onde o músculo ou grupo muscular desenvolve níveis de tensão, sem alterar o seu comprimento, e sem produzir qualquer movimento externo, como é o caso da maior parte dos elementos realizados no tumbling, onde as trajectórias aéreas são constantes e consequentemente uma contracção isotónica constante é fundamental para a correcta execução dos movimentos; * contracção concêntrica, onde o músculo desenvolve tensão e encurtamento, causando movimento, como é o caso do início de todos os elementos técnicos; * contracção excêntrica, onde existe alongamento do músculo, enquanto ele produz tensão, ao mesmo tempo que vai tentando controlar a velocidade de movimento (referimo-nos deste modo às fases de recepção ao solo). No tumbling, como em quase todas as modalidades gímnicas praticadas nas diferentes áreas da ginástica, o indivíduo tem que "lutar" contra o peso do seu corpo, daí a importância da força relativa (quociente da força máxima pelo peso corporal). Esta importância quanto à força relativa é talvez ainda maior se observarmos (de uma forma puramente empírica) que os óptimos ginastas são indivíduos com uma estatura média (entre 1,60m e 1,70m) e com um tipo morfológico mesomorfo equilibrado. Como força explosiva entendemos a capacidade do sistema neuro-muscular continuar a desenvolver as tensões já iniciadas, o mais rapidamente possível (Castelo, 1995). Este é, sem alguma dúvida, o tipo de força mais solicitados no tumbling. Durante a realização de uma série podem existir um, dois ou três pontos fortes de aplicação da força explosiva. Referimo-nos neste caso ao momento da realização dos saltos múltiplos (duplos ou triplos mortais). Pensamos que talvez seja importante referir um aspecto, que é o facto de uma série de tumbling se realizar a uma velocidade considerável e que para a realização dos saltos múltiplos ser requerida uma impulsão que eleve o centro de gravidade a cerca 3 metros de altura. Esta impulsão é conseguida através da transformação da componente horizontal da velocidade em componente vertical (aspecto a analisar na área da biomecânica), e de um óptimo aproveitamento da força explosiva no "momento de ataque" à pista. Pensamos igualmente que a força reactiva (capacidade do sistema neuro-muscular passar da contracção excêntrica para a contracção concêntrica) é uma componente da força verdadeiramente importante devido à enorme quantidade de impulsões que um saltador de tumbling tem de realizar no decorrer do seu exercício. Tal como a força, a resistência assume-se como capacidade condicional fundamental no tumbling, nomeadamente a resistência anaeróbia. Resistência pode ser definida como a capacidade de resistir à fadiga (diminuição transitória e reversível da capacidade de trabalho) resultante de movimentos de média e longa duração, e de recuperar rapidamente no seguimento do esforço (Castelo, 1995). Para uma análise mais pormenorizada da resistência, esta será feita , tal como nas capacidades condicionais anteriormente apresentadas, tendo em conta as suas diferentes formas de manifestação. Em primeiro lugar e quanto à participação do sistema muscular, a resistência geral é dominante no trabalho realizado no tumbling, dado que o trabalho realizado envolve sempre mais de 1/6 a 1/7 da musculatura esquelética. Por outro lado, e quanto ao regime de contracção muscular, e devido às constantes solicitações de contracções isométricas aquando das trajectórias aéreas, a resistência estática assume importância de relevo. Ainda neste ponto referimos apenas que para a correcta execução técnica procura-se sempre a tensão muscular máxima, o que corresponde a um trabalho anaeróbio (tensões superiores a 50%) (Castelo, 1995). Tal como no início deste trabalho foi referido, uma série de tumbling não dura mais de 10 segundos, o que nos leva a afirmar que a potência anaeróbia aláctica é preponderante neste tipo de exercício (segundo Skinner e Morgan, 1985; in. Castelo, 1995). Assim e quanto à solicitação metabólica, a resistência anaeróbia é uma capacidade fundamental para o saltador de tumbling. Finalmente e tendo como referência a situação de competição, referimos apenas a importância da resistência de base I, que se constitui como uma boa base para o treino de outras capacidades físicas e de coordenação, bem como de incrementar a recuperação de cargas de treino e competição.
Para podermos obter bons resultados em competição temos que conhecer profundamente o tipo de esforço que é realizado durante essa mesma competição, para que deste modo, e durante o processo de treino se possam trabalhar o mais precisamente possível as componentes estruturais do exercício no plano fisiológico e no plano técnico-táctico. Conhecer a duração de um exercício a realizar em competição assume-se como ponto fundamental e impossível de esquecer quando se faz um planeamento de treino. No caso do tumbling e tal como foi referenciado anteriormente, a duração do exercício a executar situa-se entre os 5 e os 7 segundos, raramente chegando aos 10 segundos. Assim não há qualquer dúvida em afirmar que este é um tipo de esforço tipicamente anaeróbio aláctico. Por outro lado, a força explosiva é constantemente solicitada, podendo existir 2 ou 3 picos bem visíveis de aplicação deste tipo de força. Em atletas que pratiquem este tipo de modalidade é-lhes exigido que tenham uma boa capacidade no âmbito da coordenação intermuscular, sobretudo na precisão da coordenação da actividade dos vários grupos musculares e das diferentes unidades motoras, tal como na precisa com que se graduam os níveis de força contráctil relativamente à intensidade e ao ritmo, e ainda na precisão com que se efectua a limitação do controlo dos únicos músculos que devem ser efectivamente activados para resolver uma dada tarefa motora. Relativamente ao tipo de fibras musculares, podemos igualmente afirmar que os "tumblers" são indivíduos com as fibras de contracção rápida, e principalmente as fibras musculares do tipo IIB (com elevada velocidade de contracção, elevada produção de força e uma baixa resistência à fadiga), altamente treinadas. É necessário também referir que para a prestação da força rápida, e aqui fundamentalmente da força explosiva, é particularmente importante o metabolismo anaeróbio aláctico uma vez que o elevado consumo energético por unidade de tempo, exige que a energia necessária seja totalmente garantida pelas reservas energéticas locais dos grupos musculares (ATP e CP) envolvidos no movimento. Convém também referir a importância da velocidade de execução que é um dos pontos que é indicado no código de pontuação desta modalidade a ter em conta quando se pontua uma série de tumbling. Esta forma de manifestação da velocidade está intimamente ligada à força explosiva, dependendo do seu desenvolvimento e desta forma este tipo de força poderá ser um factor condicionante da velocidade de execução.
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