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Felício
Felício desceu a montanha, no
velho Lada Niva, tinha chovido muito, fim de
estação, mas os dias ainda estavam curtos, antes das
5h, da tarde, e tudo já estava escuro, contorna a
estrada, atravessa à entrada principal do vilarejo,
escuridão total, mais adiante, próximo à praça,
antes do cemitério, no fim da quadra, há luzes
intensas e fumaça no ar. Troca à marcha diminui a
velocidade, pensa ouvir vozes, olha para o lado,
baixa o vidro da janela do carro e vê, alguém
caminhando, avança lentamente, vem em sua direção,
usa chapéu e capa preta e fuma charuto.
Felício se pergunta, onde
estará indo? E...., percebe que o homem responde aos
seus pensamentos:
- Você não está indo a lugar
algum; está voltando daquele lugar.
As luzes se aproximam, ouve
vozes cantando e gemendo. Nota que são tochas. Fogo
queimando panos velhos, restos de mortalhas.
Arrepia-se!
- Quem é o senhor? Como sabe o
que eu não sei?
O outro solta gargalhadas,
assombrosas. Faz um sinal e iniciam um estranho
ritual.
- Você não se lembra de mim,
Felício?
- Não?
- Sou o enforcado!
- O Zé Pelintra? Mas, você
está morto!
- Errado! Nós estamos mortos,
somos o amanhã que não virá.
As marcas no pescoço lembram
mais que um simples enforcamento. Felício em vida!
Zé Pelintra na morte! Pálido, magro, esquelético! Um
caçador noturno, não canta, resmunga, gira a capa em
semicírculo e puxa um ponto. Está procura de
uma alma.... Ele sai da catarse, pisa fundo no
acelerador, roda, sente as vibrações de o motor ir
dos pés até as raízes dos cabelos, em menos de 5
minutos faz o trajeto do cemitério até o Hotel Zero
Estrela. Entra, e o velho dorme um sono agitado,
ronca, baba no balcão. Acorda-o e pede a chave, a
contragosto o velho atende xingando alguém que ele
não vê, fala em voz alta junto com um bocejo: já vai
.. Aguça o olhar espantado, esfrega os olhos, abre a
gaveta e entrega um antigo crucifixo, medieval. Ele
olha uma, duas vezes... Fala isto não é uma chave, é
outra coisa. Eu sei, mas você vai precisar disto.
Não! Vai sim! Você vai subir e ficar, a não ser que
você volte lá e devolva o que está dentro da mala do
carro, mas não tem nada lá, deixei tudo no pé da
montanha. Mentira! Eles sabem de tudo, por isso
voltaram e, te esperam....
Você
Estranho não? O
Discípulo meditava queria saber mais um por que.
Olha-se no espelho e não se vê, enxerga a sua
imagem. Fixa o olhar, pensa: você fez tantas, andou
pela noite, sonhou acordado com o paraíso. Lá, a
"conjuração dos iguais" calou a sua voz e alinhou o
seu cérebro, olhou a terra por dentro e tudo era
vermelho. Do alto era azul, entre uma e outra você
procura uma vista cor de rosa, não existe. Olha de
novo a imagem, repensa: preciso da tua vida para ter
a minha morte. Quem é você sem mim? Você não olha
para você! Olhe para dentro de mim e veja se existo.
Vira o rosto olha e o outro está ali, repara as
baratas passear pelo corredor da casa de cômodos, se
esgueiram rápido, fogem do calor desaparecem na
escuridão. As mariposas chegam, uma depois a outra,
vão de encontro à vela absorvem a luz. Queimam-se,
são cinzas, voltam e você não está mais lá
atravessou o corredor e desce a escadaria, joga a
chave para o porteiro e sai à rua, dobra a esquina,
bem no meio da quadra o bar está aberto você entra,
mas você não está lá na mesa de mármore branca
quadrada, só dois copos de vidro grosso, sobre a
toalha de plástico xadrez embolorado, um cachorro
espera uma sobra qualquer, o garçom espanta com o
avental imundo as moscas que enjoam e traz os vidros
de conservas de ovos e pepinos. Serve-se, bebe, come
e arrota, você e seu olhar vazio olham ao redor e
eles não estão mais lá. Tem um outro no seu lugar, à
mesa, copo, gesto e a mão que sobe e desce parecendo
masturbar o copo, tudo é igual mas ela não está lá,
tem outro no seu lugar, você toma outro gole e não
relaxa, aparece a sua imagem e você não consegue ser
igual sem ela, revista o bar você vai embora e ela
não sai de dentro de você, vai ao fundo e volta, a
mesa está limpa, o cachorro dorme satisfeito e uma
porta já está fechada.
Vidências
Domingo de tarde, sol quente, verão no inverno, no
meio do Brick da Redenção. Ele observa a pequena
burguesia vermelha ostentando as suas posses,
expropriadas dos contribuintes através de Fgs e Ccs,
desfilam cães com pedigree, tênis importados, joggin
e celular último tipo, todos se mostram a todos,
mais adiante um poeta de patente maior recita
poesias, feitas de frases prontas, às jovens
senhoras da nova classe. Parece jingle de comercial
de refrigerante. Elas deliram com a performance do
coronel, fazem trejeitos, cruzam as pernas fingem
estar gostando, ele se baba, aproveita o pescoço
duma mulata de olhos roxos. Ba! Eles têm empatia. Um
guri interrompe a abstração, lhe entregando um
panfleto escrito: Leio Mão, Vejo o Futuro e o
Passado, Faço Trabalho Forte:, Trago a Amada de
Volta, Amarro Pé de Marido" Preço a Combinar:
Consulta R$10,00, Grátis uma Massagem no ego,
Atendimento de segunda à segunda. Pinto Bandeira
quase esquina Voluntários, 2ª Andar, Fundos do
Corredor à Direita, grava o número e joga com
cuidado o papel no lixo, há em volta duas dezenas de
pequenos burgueses entediados: ecologistas,
feministas, puristas, mercenários, scorts,
cheradores, batedores de carteiras e meia dúzia de
X9s. Todos parecem descansar, é intervalo, entre os
shous de capoeira e do regae. Recebe outro panfleto,
olha e vê o rosto do neofacista, amassa bem amassado
a figurinha e arremessa com força no lixo, não vê,
mas imagina o beicinho do ecologista ao ver a fúria
com que arremessou a bolinha de papel. Pensa qual
será o mais cretino: a Vidente ou o Evidente, ambos
anunciam um futuro melhor, o paraíso na terra.
Canalhas! Mas, a massagem no Ego com dois g,
intriga. Será uma senha para a turma do Brick? Erro
de redação? Que será o G maiúsculo, e o g minúsculo?
Que faço num domingo à tarde com dez pila? Resolve
conferir, entra no ônibus, minutos depois está lá,
na ante-sala estão uma mulher e um casal. Esperam a
vez, os três estão sérios, não se olham. Logo após
sai da sala, um cara sorridente, dá mão pra loira e
partem. O outro casal entra, Ele fica só na sala de
espera, estuda o local: têm móveis velhos, as
revistas são mais ainda. Tem até um Pasquim, dos
anos 70, que trás na capa uma manchete sobre o João
Saldanha; com o enunciado: "Meus Amigos que Merda".
O cheiro de mofo misturado com o incenso, vindo do
interior da sala dá um tom de misticismo ao
ambiente. O cheiro lembra o perfume Zen que Virginia
usa, àquela artista plástica que queima mais que
incenso nos rituais, antes de abrir as vernissagens.
Vinte minutos depois ouve um tilintar e uma voz
afônica, quase inaudível, fala: você está com dois
encostos e muita energia negativa, vou inverter essa
força, e, até os seus cabelos vão ficar em pé.
Vejam! Olha minha filha! Já tinha visto ele
assim?... Bem! A meia hora de vocês terminou: E, a
massagem? Massagem? É. A massagem no ego! Isto! A
voz responde: então, pede pra ele deitar de bruços e
sem roupas. Sem roupas? Sim! Vou dar uma surra com
isto aqui, no teu macho, e você será outra mulher.
Onze gemidos depois, chega à outra na sala de
espera, em seguida o casal sai feliz da sala, e a
voz chama: pode entrar o próximo! |