|
Fonoaudiologia na Internet Fga. Letícia M. Fraga | |||||||||||||||||
| Busca: | |||||||||||||||||
|
Artigos | ||||||||||||||||
|
Recém nascidos pré-termo: Limites da intervenção fonoaudiológica Fernanda H. de Macedo
Nos neonatos pré-termo, o desenvolvimento que devia ocorrer ainda intra-útero ficou incompleto, e por este motivo este bebê muitas vezes, precisará da ajuda de vários profissionais para adaptar-se ao seu novo meio: o externo.
Qualquer
estimulação e intervenção que o bebê recebe, interfere diretamente em
sua maturação neurológica e no sucesso de seu desenvolvimento global.
Profissionais que atuem diretamente com este bebê devem ter consciência
dos limites de sua atuação, para que seu trabalho contribua da forma
mais positiva possível. O
fonoaudiólogo que atua com estes pacientes deve ter como objetivo não só
a habilitação de via oral, mas também a promoção de desenvolvimento
global adequado do neonato. Antes
do nascimento, um bebê normal, desenvolve separadamente a deglutição, a
sucção, a coordenação entre ambas e a postura de flexão. Após o
nascimento, o bebê encontra-se mais apto para desenvolver a coordenação
entre sucção, deglutição, respiração e postura. Nos
bebês pré-termos, frequentemente observa-se uma incoordenação destes
movimentos ou mesmo a ausência de reflexos. Vários autores referem que
os recém-nascidos pré-termos, apresentam inadequação muscular, ou seja
tonicidade rebaixada, que pode variar desde flacidez intensa até um grau
de tonicidade mais elevado. Tudo vai depender da idade gestacional do
neonato. As causas desta hipotonia são tanto a imaturidade do Sistema
Nervoso Central, quanto a imaturidade do próprio músculo, que ocorre
porque o pré-termo não foi contido o suficiente dentro do útero
materno. O ponto de partida pode estar justamente no pouco tempo
intra-uterino, uma vez que o pré-termo ao contrário do a termo,
encontrava-se em um espaço amplo, e não chegou a ter a necessidade de
desenvolver o padrão de flexão. Caracteriza-se, portanto, como um bebê
em extensão, com escassa estabilidade de pescoço, de cintura escapular,
de tronco e de mandíbula. Esta
característica é facilmente visível durante a manipulação dos bebês.
Ao movermos um membro superior de um a termo, o inferior também se
desloca para o mesmo lado, como ele fazia no útero pela falta de espaço.
Chama-se isto de movimentação em bloco. Já o pré-termo, não possui
este padrão de deslocamento, não porque é incapaz, mas porque não
chegou a desenvolvê-lo. Com
todos estes déficits nos vemos diante de um bebê propenso a quadros clínicos
complicados e stress freqüente, o que interfere na sua associação de
ritmo, força e coordenação na sucção, deglutição e respiração. Se
avaliarmos o recém-nascido pré-termo como um bebê em extensão,
verificamos que ele é mais amadurecido para a respiração, que compões
este tipo de padrão, do que para a sucção, que é caracterizada por
flexão. Partindo
disto, temos que dar ao recém-nascido pré-termo, o padrão que ainda não
possui: flexão, e aos poucos equilibrando flexão e extensão. Este equilíbrio
é alcançado conforme o bebê vai garantindo estabilidade e sua noção
de linha média através de estímulos externos. Quanto
a estabilidade de mandíbula, acontece devido a falta de "sucking
pads", que são bolsinhas de gorduras nas bochechas, que o bebê começa
a adquirir entre 30 e 36 semanas de vida intra-uterina, quando o reflexo
de sucção já está mais desenvolvido. Se estivermos nos referindo a
neonatos pré-termo, consequentemente, eles não apresentam vedamento
labial adequado e apreensão de bico satisfatório durante a sucção. Uma
das características mais marcantes do neonato pré-termo
é o fato deste ser neurologicamente desorganizado, portanto
apresenta raros sinais de fome e sede, ausência ou presença incompleta
de alguns reflexos. O
modelo de organização do recém-nascido é subdividido em: sistema autônomo;
sistema motor, sistema de organização de estados e sistema de atenção
e orientação. O
sistema autônomo é composto pelo batimento cardíaco, status respiratório,
coloração, sinais viscerais, assim como motricidade intestinal, vômitos
e soluços. Este é o funcionamento de base do bebê. O sistema motor
é bem fácil de ser visualizado porque é composto pela postura, tônus
e a movimentação. O
sistema de organização de estados comportamentais é controlado de
acordo com a maturidade do neonato. Com este sistema o bebê é capaz de
regular estímulos externos através da mudança de seus estados de consciência.
Estes estados seriam sono profundo, sono leve, sonolência, alerta,
semi-alerta e o choro. Esta
regulação se dá através de associações tipo choro e fome. O neonato
pré-termo, ainda não desenvolveu o controle deste sistema. Aliado à
imaturidade do pré-termo está o ambiente hospitalar que podem fazer com
que o principal estado do bebê seja a irritabilidade somada à
dificuldade de regulação do sistema. Muitas vezes, neonatos a termo
podem apresentar esta característica de irritabilidade e dificuldade de
regulação em conseqüência ao longo tempo de hospitalização em que se
encontram. O
sistema de atenção/interação é um sistema mais apurado e que exige
mais maturidade. É a busca do bebê por adquirir informações
cognitivas, sociais e emocionais. Este é o momento mais esperado por seus
pais e cabe aos profissionais envolvidos no atendimento a este bebê,
explicar a falta de maturidade de seu filho, assim como a interferências
de seu quadro clínico e do ambiente a este sistema. Ter
consciência de como se dá a
organização do bebê, ajuda o fonoaudiólogo a favorecer um
desenvolvimento mais adequado sem que durante
a estimulação provoque quadros de stress e desorganize ainda mais
este bebê. Além
disso, é importante saber quais são os sinais de stress que o neonato
apresenta, não só quando se tenta posicioná-lo, mas também para saber quando iniciar e quando parar a intervenção,
respeitando seus limites. É necessário verificar como cada bebê se
comporta perante uma nova postura que o fonoaudiólogo lhe impõe. Em
função de uma exaustiva rotina hospitalar e das necessidades especiais
que cada prematuro apresenta dentro de seu quadro clínico, eles acabam
sobrecarregados com tantos
estímulos. Sofrem inúmeros
estímulos visuais, sonoros, e novas sensações do mundo externo. Murdoch
& Darlow, (1994 apud Meyerhof, 1996),
constataram que o recém-nascido pré-termo chega a ser manipulado
234 vezes durante as 24 horas do dia, quando se encontra na Unidade de
Tratamento Intensivo. Manter este bebê fora de quadro de stress, apesar
de ser fundamental, é uma tarefa muito difícil para qualquer
profissional. Alteração
no ritmo respiratório, soluço e tosse, olhar fixo, movimento de extensão
de membros e cabeça, perda de tonicidade muscular, escape de leite por
comissuras, queda de padrão de sucção e ainda mudança na coloração são
alguns dos sinais de stress apresentados pelo bebê. A
rotina hospitalar sobrecarrega os bebês. Manter o prematuro fora dos
quadros de stress é a tarefa mais difícil para a equipe
multidisciplinar. Cabe aos profissionais priorizar procedimentos e
estimulações, determinando assim as metas e estabelecendo os limites. Cada
vez mais os profissionais estão deixando de ver apenas o neonato como
paciente. Estão enfocando a família, já que os pais também apresentam
dificuldades em compreender e aceitar o que está acontecendo. Explicar
como se comporta e quais são as necessidades especiais do neonato pré-termo,
faz com que os pais tenham consciência de sua fragilidade. Muitas vezes
isto também faz com que eles tenham interesse em ajudar a equipe. Noções
sobre posicionamento, toque e carícias, permitem que os pais estabeleçam
vínculo ao mesmo tempo em que estimulam o desenvolvimento de seu filho. O
estabelecimento deste vínculo fica prejudicado quando o pai e a mãe
assumem a simples posição de “espectadores”. Cardinalli
& Xavier (1998), falam em seus estudos, sobre a importância de
acompanhar crianças com história de prematuridade, pois estas possuem
maiores chances de apresentar alterações de linguagem, desenvolvimento
cognitivo e de aprendizagem, do que crianças nascidas a termo. Portanto,
a situação fonoaudiológica não se deve restringir ao ambiente do berçário,
mas se estender a longo prazo, através de um acompanhamento longitudinal
da criança. |
|||||||||||||||||