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Programa Hanen para pais de crianças portadoras de retardo de linguagem

Maria Cristina França Pinto    

Terapeuta Hanen           

          

       

 

 

         Qual o fonoaudiólogo que não vivenciou a sensação de impotência e de frustração frente a uma criança que não fala?

          Foi depois de observar que crianças pequenas com retardo de linguagem se beneficiavam muito pouco com terapias fonoaudiológicas tradicionais que a fonoaudióloga canadense Ayala Manolson idealizou em 1974, em Toronto, o Método Hanen. O nome Hanen foi dado em homenagem a seu pai que tem este sobrenome.

          O método é interacionista e se baseia na filosofia de que a linguagem do ser humano se desenvolve no ambiente familiar, frente a estímulos contínuos e necessidades da vida diária. Além do vínculo afetivo entre pais e crianças ser incomparavelmente mais forte do que o vínculo terapeuta/criança, também as oportunidades que surgem em casa são infinitamente mais propícias ao desenvolvimento do que aquelas que aparecem dentro de um consultório. Por esta razão o fonoaudiólogo Hanen não atua diretamente com a criança, mas tem o papel de facilitador da comunicação entre pais e filhos. Ele ensina aos pais como aproveitar ao máximo as situações do dia a dia fazendo com que estas se tornem a forma mais prazerosa e constante de estimulação de linguagem.

          O programa Hanen é aplicado é aplicado em 75 paises no mundo inteiro e atende pais de crianças com retardo de linguagem de qualquer ideologia.

          Em grupos Hanen feitos para professores são dados mais três níveis de comunicação; mas para os pais ficamos nos quatro primeiros.

          Devemos lembrar que o método Hanen foi idealizado para crianças com retardo de linguagem e que o nível 1 de comunicação já começa com características de um bebê normal. Na AACD lidamos com problemas neurológicos bastante graves e muito de nossos pacientes não atingiram as características deste primeiro estágio. Algumas crianças não choram para comunicar fome ou desconforto, não fixam o olhar nem seguem objetos com os olhos; não procuram a fonte sonora e , freqüentemente, não gorjeiam. Por esta razão tivemos que instituir também o nível zero - Não comunicativo.

          A grande vantagem dos pais aprenderem a avaliar os próprios filhos é que eles passam a ajustar suas expectativas a um patamar mais real.

          Posteriormente aos níveis, os pais vão aprender o "como e porque seus filhos comunicam". 

          Muitas crianças tentam se comunicar com seus pais passando mensagens da forma que sabem ou que conseguem. Pode ser um reflexo, um gesto, um olhar. Quando os pais não são observadores, essas mensagens não são decodificadas e o canal da comunicação fica fechado. A partir do momento em que esse tipo de mensagem for traduzida e correspondida, o canal comunicativo abre-se e começa a interação mãe e filho. Porém, isto só poderá acontecer após uma observação cuidadosa do comportamento da criança por parte dos pais.

          As crianças que estão no terceiro e no quarto estágios passam mensagens claras; mas com as crianças do nível zero ao 2, isto nunca acontece. Às vezes, um simples rubor de face ou uma testa molhada de suor são formas primitivas do organismo comunicar alguma dor, doença ou estado de espírito. Os pais precisam ficar muito atentos a tudo isto.

          O próximo passo é levar os pais a perceberem que estilo de comportamento seus filhos têm frente à comunicação.

          De acordo com o método, há quatro tipos de crianças: Sociáveis, Tímidas, Passivas e Independentes. As Sociáveis o aquelas que freqüentemente iniciam e respondem a comunicação. As Tímidas raramente iniciam, mas freqüentemente respondem. As Passivas raramente iniciam e raramente respondem.  As Independentes freqüentemente iniciam e raramente respondem. Nesta categoria incluem-se crianças autistas e as com características psiquiátricas.

          As crianças sociáveis e tímidas são bem mais fáceis do que as passivas e independentes, e para cada uma delas teremos que dar um tipo de estimulação.

          Após conhecerem profundamente o comportamento de seus filhos, os pais passarão a fazer um auto conhecimento.

          O método Hanen descreve cinco tipos de pais:

1- O pai Salvador é aquele que quer fazer tudo por seu filho, não dando a ele a oportunidade de desenvolver suas potencialidades e sua personalidade própria.

2- A mãe Apressada é aquela que vive correndo, que está sempre atrasada, que não presta atenção a seu filho pois não tem tempo para isto. A criança então passará a se isolar, preferindo brincar com seus brinquedos, podendo futuramente se tornar um ser anti-social.

3- O pai Professor é aquele que nunca brinca com o seu filho, mas que não perde uma só ocasião para ensinar tudo o que sabe. O que este pai não sabe é que se ele brincasse no mesmo nível da criança, de forma alegre e sem questionamentos, ela aprenderia muito mais. O pai professor poderá fazer com que seu filho se torne passivo, desmotivado, sem iniciativa nem criatividade.

4- A mãe Cansada é aquela que, como a mãe apressada, também nunca tem um momento para brincar com seu filho. Ele provavelmente acabará tendo o mesmo desânimo da mãe, brincando sempre sozinho com seus brinquedos, numa atitude de isolamento social.

5- Por último a mãe AFinada ou Adequada que desce ao nível da criança, que brinca de forma tranqüila, que observa, espera e escuta, que deixa que seu filho lidere a brincadeira.

          É lógico que seria utópico querer que os pais fossem durante todo o tempo afinados, mas quanto maior o tempo em que eles puderem ser, melhor.

          Depois de analisarem seus próprios comportamentos, os pais são esclarecidos sobre o processo de desenvolvimento da linguagem normal e patológico.

          Quando o bebê é normal, logo começa a ter um diálogo com sua mãe. A mãe brinca com ele, ele gorjeia, ela brinca de novo, ele sorri, e assim esse diálogo prossegue, sempre tendo o caminho de ida e de volta da comunicação até que, quando a criança já é maior, isto vai se tornar uma conversação. Com a criança deficiente tudo acontece diferente. Sua forma de passar a mensagem é muito tênue e principalmente muito vagarosa. A mãe, não percebendo a resposta, e na ansiedade de preencher o silêncio deixado pela criança, começa a mandar mais estímulos, falando mais. E quanto mais ela fala, mais inibe a resposta de seu filho. Assim, desaparece o "vai e vem da linguagem", passando a existir somente o "vai". Por esta razão, em vez de bombardear a criança com fala, devemos Observar, Esperar e Escutar. 

          A tendência do adulto é direcionar a criança o tempo inteiro com ordens e perguntas, não dando a ela nem o tempo nem a liberdade necessária para fazer o que ela realmente deseja. Muitas vezes pensamos que a criança não colabora, mas, na verdade, estamos querendo o tempo inteiro expor nossos desejos. Se invertemos a situação, deixando a criança liderar, veremos que a comunicação com ela se torna muito mais fácil. Para que isto aconteça, é necessário adaptar nosso comportamento para que possamos compartilhar o momento com nossa criança.

          Quando assistimos os filmes, uma coisa que nos chama a atenção é que bem poucos pais mantêm os olhos à altura dos seus filhos. Esta é uma regra simples da comunicação e que funciona muitíssimo bem. Os pais de crianças com Paralisia Cerebral tendem a  sentar seus filhos encaixados em suas pernas, numa posição em que adulto e criança olham na mesma direção. Além dos olhos ficarem em alturas muito diferentes, os olhares nunca se cruzam. Eles sentam dessa forma e colocam um brinquedo na frente da criança, esperando que o brinquedo "faça acontecer alguma coisa". Esta é a posição mais comum da primeira filmagem, quando os pais ainda não iniciaram o programa. Até aí eles não perceberam que os brinquedos mais divertidos do mundo da criança são seu pai e sua mãe. Que mudança enorme acontece quando o rosto da criança é colocado à altura do rosto do adulto (ou vice-versa) e este sorri, canta e faz caretas. Aquela criança que era dispersiva passa a ser atenta; a que era passiva passa a ser sociável.

          Outra regra simples que obtém bons resultados é a da imitação. Sempre que quisermos nos conectar com uma criança pequena, basta imitá-la. Isto faz com que ela perceba que estamos nos interessando por ela. É como se nós passássemos a aceitá-la, como se entrássemos em seu mundo. Com certeza depois disso, ela começará a prestar atenção em nós e começará também a nos imitar.

          A regra do "Vai e Vem" também é de grande importância. Já descrevi o vai e vem existente na linguagem. Porém esta prática deve ser treinada desde cedo em todo tipo de brincadeira. Sempre deverá haver a vez da criança e a vez do adulto alternadamente. Há brinquedos que propiciam mais este tipo de prática, que nada mais é do que um treinamento para um futuro diálogo.

          Na segunda parte do programa os pais vão aprender como aplicar os princípios Hanen na Brincadeira, na Música, na Arte e no Manuseio de livros. Todas estas formas de estimulação são estudadas e vivenciadas durante os grupos.

          Depois do programa Hanen, os pais adquirem mais confiança na habilidade de estimular a linguagem de seus filhos e conseqüentemente se tornam menos ansiosos. A melhora da interação e da comunicação proporciona um maior equilíbrio emocional para ambas as partes, além de um maior desenvolvimento intelectual, social e nutricional da criança.

          No Canadá existem programas específicos para professores e também para pais de crianças autistas ou com Síndrome de Down. Na AACD também serão formados grupos para professores.

          Para se tornar um terapeuta Hanen é necessário que o profissional seja bacharel em Fonoaudiologia e que faça no exterior um curso de apenas três dias. Vários cursos são dados todos os anos em países de língua inglesa. O diploma dá direito ao treinamento de pais e tem validade de dois anos. A sua revalidação é possível desde que o fonoaudiólogo mantenha contato coma Central Hanen provando que continua praticando o que aprendeu. Alguma atualização também é exigida.

          O terapeuta Hanen não tem habilitação para formar outros terapeutas Hanen. Apenas o Instrutor Hanen pode fazer isso. A formação do instrutor é bem mais longa do que a do terapeuta, e dele são exigidas qualidades mais específicas para que possa ser um bom formador de profissionais.

          Embora o centro Hanen venha percebendo a necessidade da descentralização da formação de novos profissionais, até o momento não existe nenhum instrutor fora dos países de língua inglesa.

          Se você estiver interessado em se tornar um terapeuta Hanen, contate com:

    

     Tom Khan

     The Hanen Center

     Bay Street, suite 403

     Toronto, Ontário Canadá M5S 2B1

     tel: 001 416 921-1073

     fax:001 416 921-1225

     e-mail: [email protected]

     Web Site: www.hanen.org

 

          Mas se você quiser conhecer o método, poderá  fazer um estágio no grupo de pais da AACD à Avenida Professor Ascendino Reis, 724 - Vila Clementino - Fone: (011)576-0959.

 

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