SONETOS

[ Sonetos ] Super Flumina... ] Os Lus�adas ]


Amor � fogo que arde sem se ver;
� ferida que d�i e n�o se sente;
� um contentamento descontente;
� dor que desatina sem doer;

� um n�o querer mais que bem querer;
� solit�rio andar por entre a gente;
� nunca contentar-se de contente;
� cuidar que se ganha em se perder;

� querer estar preso por vontade;
� servir a quem vence, o vencedor;
� ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos cora��es humanos amizade,
Se t�o contr�rio a si � o mesmo Amor?


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O dia em que nasci moura e pere�a,
N�o o queira jamais o tempo dar;
N�o torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol pade�a.

A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escure�a,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nas�am-lhe monstros, sangue chova o ar,
A m�e ao pr�prio filho n�o conhe�a.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As l�grimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo j� se destruiu.

� gente temerosa, n�o te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgra�ada que jamais se viu!


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Alma minha gentil, que te partiste
T�o cedo desta vida, descontente,
Repousa l� no C�u eternamente
E viva eu c� na terra sempre triste.

Se l� no assento et�reo, onde subiste,
Mem�ria desta vida se consente,
N�o te esque�as daquele amor ardente
Que j� nos olhos meus t�o puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algu~a cousa a dor que me ficou
Da m�goa, sem rem�dio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que t�o cedo de c� me leve a ver-te,
Qu�o cedo de meus olhos te levou.


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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confian�a;
Todo o mundo � composto de mudan�a,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperan�a;
Do mal ficam as m�goas na lembran�a,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o ch�o de verde manto,
Que j� coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudan�a faz de mor espanto:
Que n�o se muda j� como so�a.


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Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de m�goa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.

Ela s�, quando amena e marchetada
sa�a, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d'uma outra vontade,
que nunca poder� ver-se apartada.

Ela s� viu as l�grimas em fio
que d'uns e d'outros olhos derivadas
s'acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso �s almas condenadas.


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Sete anos de pastor Jac� servia
Lab�o, pai de Raquel serrana bela,
Mas n�o servia ao pai, servia a ela,
Que a ela s� por pr�mio pretendia.

Os dias na esperan�a de um s� dia
Passava, contentando-se com v�-la:
Por�m o pai usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a n�o tivera merecida,

Come�ou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se n�o fora
Para t�o longo amor t�o curta a vida.

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Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivan�as;
que n�o pode tirar me as esperan�as,
que mal me tirar� o que eu n�o tenho.

Olhai de que esperan�as me mantenho!
Vede que perigosas seguran�as!
Que n�o temo contrastes nem mudan�as,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto n�o pode haver desgosto
onde esperan�a falta, l� me esconde
Amor um mal, que mata e n�o se v�.

Que dias h� que n'alma me tem posto
um n�o sei qu�, que nasce n�o sei onde,
vem n�o sei como, e d�i n�o sei porqu�.

 

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De v�s me aparto, � vida! Em tal mudan�a,
sinto vivo da morte o sentimento.
N�o sei para que � ter contentamento,
se mais h� de perder quem mais alcan�a.

Mas dou vos esta firme seguran�a
que, posto que me mate meu tormento,
pelas �guas do eterno esquecimento
segura passar� minha lembran�a.

Antes sem v�s meus olhos se entriste�am,
que com qualquer cous' outra se contentem;
antes os esque�ais, que vos esque�am.

Antes nesta lembran�a se atormentem,
que com esquecimento desmere�am
a gl�ria que em sofrer tal pena sentem.

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Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!
Se por mais largo espa�o me enganara!
Se ent�o a vida m�sera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, n�o estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita raz�o era,
pois sempre nas verdades fui mofino.

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Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperan�a de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Por�m, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum ju�zo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos n�o dissesse.

� v�s que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos t�o diversos,

verdades puras s�o, e n�o defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!

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Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me, t�o entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
e quase que sobre ele ando dobrado,
tenho por baixo, r�stico, enganado,
quem n�o � com meu mal engrandecido.

V�o revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;

que eu s� em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n'alma.

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No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil mis�ria dura;
foi-me t�o cedo a luz do dia escura,
que n�o vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados
buscando � vida algum rem�dio ou cura;
mas aquilo que, enfim, n�o quer ventura,
n�o o alcan�am trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
p�tria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Ab�ssia fera e avara,
t�o longe da ditosa p�tria minha!

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No tempo que de Amor viver so�a,
nem sempre andava ao remo ferrolhado;
antes agora livre, agora atado,
em v�rias flamas variamente ardia.

Que ardesse num s� fogo, n�o queria
O C�u, porque tivesse exprimentado
que nem mudar as causas ao cuidado
mudan�a na ventura me faria.

E se algum pouco tempo andava isento,
foi como quem co peso descansou,
por tornar a cansar com mais alento.

Louvado seja Amor em meu tormento,
pois para passatempo seu tomou
este meu t�o cansado sofrimento!

 

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O tempo acaba o ano, o m�s e a hora,
a for�a, a arte, a manha, a fortaleza;
o tempo acaba a fama e a riqueza,
o tempo o mesmo tempo de si chora.

tempo busca e acaba o onde mora
qualquer ingratid�o, qualquer dureza;
mas neo pode acabar minha tristeza,
enquanto n�o quiserdes v�s, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro,
e o mais ledo prazer em choro triste;
o tempo a tempestade em gr� bonan�a.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
o peito de diamante, onde consiste
a pena e o prazer desta esperan�a.

 

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Quando de minhas m�goas a comprida
magina��o os olhos me adormece,
em sonhos aquela alma me aparece
que para mim foi sonho nesta vida.

L� n�a so�dade, onde estendida
a vista pelo campo desfalece,
corro par'ela; e ela ent�o parece
que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: N�o me fujais, sombra benina!
Ela (os olhos em mim cum brando pejo,
como quem diz que j� n�o pode ser),

torna a fugir-me; e eu, gritando: Dina...
antes que diga mene, alardo, e vejo
que nem um breve engano posso ter.

 

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Se as penas com que Amor t�o mal me trata
quiser que tanto tempo viva delas
que veja escuro o lume das estrelas
em cuja vista o meu se acende e mata;

e se o tempo, que tudo desbarata,
secar as frescas rosas sem colh�-las,
mostrando a linda cor das tran�as belas
mudada de ouro fino em bela prata;

vereis, Senhora, ent�o tamb�m mudado
o pensamento e aspereza vossa,
quando n�o sirva j� sua mudan�a.

Suspirareis ent�o pelo passado,
em tempo quando executar-se possa
em vosso arrepender minha vingan�a.

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Se pena por amar vos se merece,
quem dela livre est�? Ou quem isento?
Que alma, que raz�o, qu'entendimento,
em ver vos se n�o rende e obedece?

Que mor gl�ria na vida s'oferece
que ocupar se em v�s o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
em ver vos se n�o sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
contino vos est�, se vos ofende,
o mundo matareis, que todo � vosso.

Em mim podeis, Senhora, ir come�ando,
que claro se conhece e bem se entende
amar vos quanto devo e quanto posso.

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Transforma se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
n�o tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela est� minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcan�ar?
Em si s�mente pode descansar,
pois consigo tal alma est� liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assi co a alma minha se conforma,

est� no pensamento como ideia:
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como a mat�ria simples busca a forma.

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Um mover d'olhos, brando e piadoso,
sem ver de qu�; um riso brando e honesto,
quase for�ado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;

um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso grav�ssimo e modesto;
�a pura bondade, manifesto
ind�cio da alma, limpo e gracioso;

um encolhido ousar; �a brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;

esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o m�gico veneno
que p�de transformar meu pensamento.

 

UP

 

 

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor � fogo que arde sem se ver

O dia em que nasci moura e pere�a

Alma minha gentil, que te partiste

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Aquela triste e leda madrugada

Sete anos de pastor Jac� servia

Busque Amor novas artes, novo engenho

De v�s me aparto, � vida! Em tal mudan�a

Doce sonho, suave e soberano

Enquanto quis Fortuna que tivesse

Julga-me a gente toda por perdido

No mundo poucos anos, e cansados

No tempo que de Amor viver so�a

O tempo acaba o ano, o m�s e a hora

Quando de minhas m�goas a comprida

Se as penas com que Amor t�o mal me trata

Se pena por amar vos se merece

Transforma se o amador na cousa amada

Um mover d'olhos, brando e piadoso

 

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