Quem é Elomar


"Vou cantar no cantori primero / as coisa lá da minha mudernage / que me fizero errante violêro / eu falo sério num é vadiage / e pra você que agora está mi ovino / juro inté pelo Santo Minino / Vige Maria que ôvi o qui eu digo / si fô mintira mi manda um castigo. / Apois, pro cantadô e violêro / só hai treis coisa nesse mundo vão / amô, furria, viola, nunca dinhêro / viola, furria, amor, dinhêro não."
Música "Violeiro"

Dessa forma, o poeta, cantador-cantor, violeiro-violonista, arquiteto-urbanista, mestre-professor, criador de bodes e estrelas, Elomar Figueira de Melo, inicia seu LP "...Das Barrancas do Rio Gavião" de 1973

O que dizer de um homem que, de tão culto e tão matuto criou náuseas pela suposta civilização e preferiu ficar compondo suas antífonas numa das mais áridas regiões do planeta ao lado de cascavéis e tarântulas e, iluminado pela inspiração divina de uma criação particular de estrelas cria incessantemente dezenas e dezenas de operetas sertazenas no seu rústico violão que servirá futuramente como base para delicados arranjos orquestrais?

O que falar também sobre um dos maiores nomes da música brasileira (sem os rótulos regional, popular, sertaneza, sertaneja ou naif (?))? Um dos maiores referenciais da produção cultural nordestina, apreciadíssimo no meio intelectual e musical, porém totalmente desconhecido pela grande massa, que há anos vem ilustrando a vida sofrida de um povo castigado pela seca, porém abençoado pela força-criatividade-resitência, misturando tudo num grande caldeirão cultural onde estão imersos reis, rainhas, cavaleiros-vaqueiros, e donzelas medievais, tudo incrivelmente moldado ao som original de um violão virtuosíssimo como só se encontra nos mais refinados conservatórios de música erudita...

"Só é cantador aquele que traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos" - François Silvestre, cantador.

Elomar em muitas de suas composições canta as sagas de violeiros e cantadores que saem pelo sertão a fora apenas com uma viola na mão e muita presteza de raciocínio ávidos a "enfrentar" cantadores locais em "sangrentas pelejas" de versos, verdadeiros arautos do "sertanez way-of-life" e das dores e aventuras de seu povo

A caracterização desses artistas errantes de alma livre, extremamente temerosos ao "Grande Pai" e portadores de infinita coragem e sabedoria, demonstra a força da tradição oral nessas sociedades. O violeiro além do caráter artístico traz consigo a função de repórter dos "causos das otras banda" ao embutir no seu cancioneiro as experiências que obtém vagando de "reinos em reinos". Essas experiências agora fundidas em canções, são passadas adiante nos desafios e cantorias.

É interessante observar a influência das culturas ibérica e árabe trazidas em épocas de conquista e colonização no nordeste brasileiro. A própria figura do cantador nos remete ao trovador medieval que, munido de seu alaúde, migrava de feudos em feudos encantando seus povos com histórias de bravuras e amores trágicos. Inclusive a própria tradição dos folhetos de cordel, base de muitas canções tem origem na Europa Medieval.

O violeiro é antes de tudo um bravo que não teme nada nem ninguém a não ser o Rei dos reis. Pra ele só há três coisas nesse mundo: Amor, viola e liberdade e foi assim que Elomar estruturou sua obra e ergueu uma fiel legião de fãs.

Elomar teve em sua formação musical passagens por conservatórios mas me parece ter sido um aluno rebelde, como narra o músico Carlos Lacerda na contracapa do disco "... Das Barrancas do Rio Gavião": "(...) Entrou numa determinada 'escola' de música aqui da Bahia, dessas escolas de fazer adulto, e um suíço naturalizado expulsou o rapaz da escola em menos de três meses, o que ajudou bastante; pois caso contrário Elomar ainda estaria nessa escola, analisando 'raízes, origem e música estrutural pentatentacacofônica', com esse suiçíssimo musicófolo...".


Trechos Extraídos de "Antiphonaria Sertani" (Manifestações Estéticas da Eruditização da Cultura Popular e/ou Popularização da Cultura Erudita no Campo da Música com Base na Obra de Elomar Figueira de Melo)
de Matheus Pizão Gouveia dos Santos
[email protected]


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© 1997, 1998 Fernando da Costa Grossi [email protected]


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