Jean Baudrillard Do Carnaval/Cannibal (...) A hegemonia acaba com a dominação (caracterizada pela relação senhor/escravo que ainda é uma relação dual, com um potencial de alienação, de relações de força e de conflitos). Nós interiorizamos a ordem mundial e seu dispositivo operacional, dos quais somos todos reféns bem mais que escravos. O consenso, voluntário ou involuntário, substituiu a boa e velha servidão. Se a dominação passava por um sistema autoritário de valores positivos, a hegemonia contemporânea passa, ao contrário, por uma liquidação simbólica de todos os valores. Nessa confusão vem afundar-se a própria dominação. Todas as significações vêm se abolir no seu próprio signo e a profusão de signos parodia uma realidade que doravante não pode ser encontrada. É o que eu chamaria de carnavalização, e toda essa farsa ocidental repousa na canibalização da realidade pelos signos.
Beatriz Sarlo Do Cenas da Vida Pós-Moderna - O Sonho Acordado (...) Em algumas horas do dia ou da noite, milhões de pessoas estão vendo televisão na mesma cidade ou no mesmo país. Isso gera algo mais do que pontos e audiência a mais. Gera, sem dúvida, um sistema retórico cujas figuras passam para o discurso cotidiano: se a televisão fala como nós, nós tambem falamos como a televisão. Na cultura cotidiana de consumo mais fugaz, as piadas, as maneiras de dizer, as personagens da televisão fazem parte de uma caixa de ferramentas cujo domínio assegura um pertencimento; quem não as conhece ou é esnobe ou vem de fora. Até as elites intelectuais, quando não praticam a condenação eo rechaço à televisão, acham simpático o cultivo dos clichês aprendidos ao assistir à TV (para saber afinal do que se trata, já que todo mundo o faz, ou porque o gosto pelo Kitsch não se esgotou de todo nos anos 60). Os clichês da televisão passam como contra-senhas à língua cotidiana, na qual muitas vezes a própria TV vai buscá-los, para em seguida devolvê-los sob uma forma generalizada. A moda e as mudanças do look são hoje mais televisivos do que cinematográficos: as aulas de ginástica ensinam a modelar corpos femininos como os que aparecem na televisão; a programação televisiva também contribui para legitimar as intervenções cirúrgicas embelezadoras, propondo um espelho ideal, no qual todas as idades são cada vez mais indistinguíveis. Nem todos esses desenvolvimentos de um processo identificatório têm a televisão como único pólo aitvo, mas ela sonda o que o público viu no vídeo para tornar a registrá-lo, generalizá-lo e então submetê-lo a uma nova sondagem, e assim sucessivamente, num círculo hermenêutico e produtivo no qual é difícil encontrar o ponto verdadeiramente original. Jorge Luis Borges Do O Aleph - O imortal (...) Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o imcompreensível é saber-se imortal. Tenho notado que, apesar das religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que tributam ao primeiro século prova que só crêem nele, já que destinam todos os demais, em número infinito, a premiá-lo ou a castigá-lo. (...) A morte (ou a sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiél presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja perdida entre os infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário. O elegíaco, o grave, o cerimonioso não vigoram para os Imortais. (...) Palavras, palavras deslocadas e mutiladas, palavras de outros, foi a pobre esmola que lhe deixaram as horas e os séculos. Ciro Marcondes Filho Do A produção social da loucura (...) os homens fabricam coletivamente a sua própria loucura, a reproduzem cotidianamente, colaboram em cada ato social que realizam, mesmo achando que, como "mais um" nessa infinidade anônima, em nada podem interferir na sociedade. (...) Mais indicado parece ser o fato de que a etiologia do sadismo esteja ligada a uma relação sexual desigual, marcada por violência, e esta estaria associada, por um lado, a uma necessidade de prazer, mas, por outro, à necessidade de posse. (...) a patologia sadica, parece ser produto histórico de uma forma de dominação, dominação essa que vai buscar sistematicamente modelos ou representações de poder, de violência e outros elementos na vida cultural. |
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