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    A história do Vale do Paraíba do Sul
Ilustração de Tom Maia
Aconteceu no século dezessete, no vale paulista do Paraíba do Sul. Levantado a sua custa a igreja matriz, construída de taipa de pilão, cadeia e casa de sobrado para conselho, moinhos de trigo e engenhos de açúcar" Jacques Felix deu início à Vila de Taubaté, primogênita da civilização que iria se desenvolver entre a Mantiqueira e os contrafortes da serra do Mar.
    O mesmo século veria nascerem as vilas de Guaratinguetá e de Jacareí, os povoados de Pindamonhangaba e de Tremenbé e os aldeamentos indígenas de Nossa Senhora da Escada e de Nossa Senhora do Desterro, hoje São José dos Campos.
    Bandeirantes, índios, ouro, tropas de muares, comércio de beira de estrada, coragem, heroísmo, lendas e estórias dinamizaram os primeiros tempos desses núcleos que marcaram e povoaram os caminhos do Vale do Paraíba e as terras de Minas Gerais.
    O Século dezoito assistiu as desenvolvimento dos núcleos primitivos e viu nascerem três nova vilas e mais sete povoados. A região, que tinha sua economia voltada as abastecimento das minas ao norte da Mantiqueira, sentiu, ao final desse século, a decadência desse comércio, em face da queda da extração do ouro e das pedras preciosas, pelo esgotamento das minas. Algumas de suas vilas passaram, então a se dedicar à cultura da cultura da cana-de-açúcar, enquanto em outra vilas surgia o problema do "nenhum modo de ganhar a vida". Por essa época, surgiram no vale do Paraíba os primeiros pés de café, inicialmente como arbustos medicinais ou meramente decorativos, passando, logo em seguida, a fonte de maior riqueza e esplendor da região, sendo considerado " o maior fenômeno agrícola do século", ou mesmo "a raiz, tronco e galhos da economia nacional, seu núcleo político, econômico e social".
Ilustração de Tom Maia

    Subindo e descendo a encosta dos morros, abrindo cidades, gerando riquezas, o café criou uma "aristocracia rural, a dos Barões do Café do Vale do Paraíba, e importou uma corrente sem precedente de escravos africanos que modificaram a estrutura étnica assim como a estratificação social". Tal mudança acarretou sensíveis alterações na maneira do homem da região pensar, agir, trajar, estudar, comer, habitar, enfim, viver. Com o dinheiro trazido pelo café, muita coisa mudou. Das fazendas, foram transferidas para as casas de morada, cuja decoração era toda importada. Modificaram-se os costumes, afrancesando-se a educação, notadamente a feminina, até então restrita "às prendas da economia doméstica".
    O café construiu suas casas. ergueu teatros, aformoseou igrejas e requintou festas que , por muito tempo, concentraram toda a vida social da região.

    A riqueza propiciada pelo café trouxe novas formas de lazer. Teatros, bailes, visitas dos Imperadores e Príncipes, saraus, soréis, circos, bandas de música, entretudo, cavalhadas e conferências literárias passaram a "distrair e descontrair" a vida da sociedade. A chegada do trem de ferro, facilitando o intercâmbio com a corte do Rio de Janeiro, foi motivo para a outorga de novos títulos de nobreza aos fazendeiros do vale do Paraíba, que haviam contribuído mais generosamente para que a estrada se tornasse uma realidade. Motivo de euforia para o Vale em geral, o caminho de ferro veio ocasionar, porém, a decadência dos portos do Litoral exportadores do café que, em lombo de burros, vencia os caminhos íngremes da serra do Mar. No próprio Vale, algumas cidades, por permanecerem longe dos trilhos, tiveram seu crescimento estacionado, parando no tempo. Bananal, São José do Barreiro, Areias, Silveiras e outras mostram até os nossos dias um conjunto arquitetônico que remonta ao advento do trem de ferro, cidades, hoje históricas, documentos de uma época de grande importância na economia nacional.

    Um dia porém, as terras se cansaram acarretando o início da vertiginosa queda na produção dos cafezais. Os inúmeros jornais da região passaram a noticiar, seguidamente, a venda de fazendas, "com cafezais velhos e novos". Nos cartórios começaram a se acumular hipotecas. Movimentos abolicionistas, constantes fugas de escravos, a diminuição e a intranqüilidade da mão-de-obra tiveram por epílogo a abolição do cativeiro. Enorme quantidade de café então se perdeu nas próprias plantas, aumentando as dívidas, as hipotecas, a já excessiva dependência dos fazendeiros às casas comissionárias do café. Foi assim, melancólico para toda a região o final do século dezenove e começo do vinte.

Ilustração de Tom Maia

    O Vale paulista do Paraíba do Sul, que havia sido palco de tantos acontecimentos dentro da história política, administrativa e econômica da Nação, que dera dois condes, sete viscondes e nove barões ao Império, que sustentara por mais de meio século a economia nacional, que com seu dinheiro e seus escravos "venceram a Guerra do Paraguai", que abrilhantara com seus estadistas o Império, que dera por duas vezes um Presidente da República nascente, passou a assistir, imponente, à ruína da civilização do café, que acabou por se extinguir com a crise de 1929.
    Teve então início o ciclo da agropecuária, o gado e as pastagens substituindo os antigos cafezais. Porém, com o café morreram algumas vilas e povoados que com eles nasceram. Outras cidades apenas adormeceram no tempo, acordando somente na metade do século, com o barulho das máquinas na abertura da rodovia "Presidente Dutra" que, com suas paralelas de asfalto, veio alterar a paisagem física, social e econômica de toda a velha região. Hoje , quando se inicia o último quartel do século, sob a ameaça de uma megalópole industrial, em que chaminés substituem palmeiras imperiais, em que o asfalto sufoca árvores centenárias, em que a química elimina os peixes e as aves ribeirinhas, em que represas mudam ou afogam cidades inteiras, mesmo assim, ainda hoje podemos encontrar nesse Vale, naquelas velhas cidades não atingidas pelo surto industrial, suas antigas casas de morada, imensos sobrados, praças sombreadas, com seus chafarizes, seus carros de boi, suas charretes, suas tropas de muares, pacientemente esperando dar testemunho dos tempos em que todas as cidades queriam ser cortes...
    São as cidades do chamado fundo do Vale, que se estendem de Silveiras até Bananal, passando por cruzeiro, Lavrinhas, Queluz, Areias e São José do Barreiro. Cidades que, no século passado, foram visitadas e registradas em livros e pinturas por ilustres viajantes estrangeiros, como Thomas Ender, Saint Hilaire, Spix, Von Martius, Debret, D'Orbigny e Emílio Zaluar. Cidades que devem ser visitadas hoje e conhecidas por serem marco importante da História do Brasil.

    Emoldurando a paisagem histórica, ergueram-se as serras da Bocaína e da Mantiqueira, com suas montanhas e vales, seus altos picos, suas grutas, suas cascatas, seus campos e suas matas, em um convite permanente para inesquecíveis passeios ecológicos.

    

    História do Vale.
    Texto extraído de:
    O Passado ao vivo.
    Maia, Thereza Regina de Camargo.
    Ilustração de Tom Maia.
    São Paulo, FDE 1998.
    CDU: 981(861.1)

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