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Mas, falando de Portugu�s...

Os problemas da L�ngua Portuguesa no ensino m�dio

N�o � de hoje que muito me incomoda a maneira pela qual aborda-se o ensino da l�ngua portuguesa, em especial no segundo grau, quando essa tarefa torna-se um mon�logo do professor, que passa horas discorrendo sobre as intermin�veis leis compendiadas por algum desses gram�ticos, e um mart�rio dos alunos, que s�o obrigados a memorizar leis que n�o regem a sua maneira de falar. Nesse �teatro�, no qual o mestre finge ensinar realmente o bom uso da nossa l�ngua, e o aluno simula estar realmente entendendo o qu� e o porqu� daquela lenga-lenga toda, somos na verdade todos enganados, pois dessa maneira faz-se da norma culta algo inacess�vel e at� mesmo incompreens�vel para a maioria das pessoas, e essa ignor�ncia n�o � provocada � toa. Deve-se a isso minha vontade de expor nas pr�ximas linhas alguns equ�vocos por mim percebidos enquanto cursava o ensino m�dio, bem como apontar alguns modos de n�o insistir nesses mesmos erros. Come�arei pela leitura, que � a pr�tica mais eficiente para familiarizar o leitor com a l�ngua e, tarefa mais crucial ainda, para despertar o prazer de adquirir conhecimento atrav�s das experi�ncias do narrador. Infelizmente, durante o segundo grau, a leitura, enquanto meio de estudar-se as diversas mat�rias, resume-se ao uso dos livros did�ticos, que por terem seus conte�dos trabalhados diariamente em sala de aula dificilmente instigam os alunos a pesquis�los mais. A exce��o � a disciplina de Literatura em L�ngua Portuguesa, cuja metodologia envolve, entre outras coisas, a leitura e o estudo das obras consagradas, do Barroco aos dias de hoje. Mas essa disciplina, que poderia ser a �salva��o� da leitura no ensino m�dio, acaba, muitas vezes, sendo sua grande vil�. Explico: � que a Literatura, por limitar seu campo de trabalho �s obras dos autores que s�o cobrados nos vestibulares das grandes universidades, acaba obrigando os alunos, muitas vezes, a estudar autores com quem n�o se identifiquem (p.ex.: eu, nascido e criado em Porto Alegre, gostaria muito mais de responder perguntas sobre os textos de L. F. Ver�ssimo do que sobre os romances �gua-com-a��car de Jos� de Alencar, da mesma maneira que a poesia de Nei Lisboa seria mais interessante de estudar que a do Olavo Bilac). Essa falta de identifica��o provoca falta de interesse, que por sua vez traz m� vontade com o que se estuda, e dessa maneira torna-se uma experi�ncia desagrad�vel a leitura. Esse tipo de atividade de leitura � para muitos o primeiro contato com textos mais extensos e complexos, mas sua m� elabora��o e condu-��o fazem dessas atividades, tamb�m, o �ltimo contato. Em termos de escrita, as dificuldades impostas pela gram�tica normativa vigente s�o absurdas. A l�ngua portuguesa traz muitas dificuldades aos que pretendem aprend�la, pois estudar nossa gram�tica, com aquele sem-fim de regras de conjuga��o, acentua��o, e o que � pior, diversas exce��es e casos especiais, � uma tarefa j� muito cansativa para n�s brasileiros, imaginem para um estrangeiro! S�o letras que representam fonemas demais, fonemas representados por letras demais, sinais gr�ficos desnecess�rios, tudo conspirando para criar esta �burrocracia� em que vivemos hoje aqui no Brasil.falavra, lavra a palavra, larva E o que � pior, aquilo que na fala � uma ocorr�ncia comum, perfeitamente intelig�vel ao interlocutor, na hora de escrever pode virar um erro grosseiro. Isso s� provoca confus�o e irrita��o naqueles que percebem o quanto poderia ser simplificada nossa l�ngua, sem que isso acarretasse qualquer tipo de preju�zo � riqueza do Portugu�s. Por causa desta falta de sensibilidade em incentivar o contato com textos como um h�bito saud�vel, mesmo os brasileiros alfabetizados podem ser considerados, em grande n�mero, incapazes de decifrar plenamente um texto (a n�o ser sob grande esfor�o), e por causa disso s�o incapazes tamb�m de produzi-los (com qualidade e naturalidade). Esse � um dos fatos causadores do distanciamento presente entre a norma culta e a fala normal das diversas comunidades ling��sticas nas quais h� pouco ou nenhum contato di�rio com a escrita, se bem que hoje em dia mesmo as comunidades com alto �ndice de letramento possu-em a fala coloquial bastante divergente da norma padr�o. Essa grande diferen�a de como se fala e como se escreve o Portugu�s, aliada a um grande n�mero de analfabetismo, � um terreno muito f�rtil para a pr�tica de todos os tipos de abusos de poder, pois o que n�o falta no Brasil s�o �profissionais� pedantes escondendo-se atr�s de express�es t�cnicas e muitas vezes mal empregadas, cujo significado eles pouco entendem, express�es essas que n�o servem para outra coisa sen�o ocultar suas pr�prias defici�ncias. Isso sem falar do grande preconceito existente para com os falantes das variedades n�o-padr�o da l�ngua portuguesa. Apesar de saber que o abismo que h� entre letrados e iletrados � algo estimulado e mantido pelas classes dominantes, como forma de facilitar a perman�ncia deste absurda-mente desigual status quo, existem maneiras de suavizar-mos essas desigualdades. Acredito que mudaria radicalmente para melhor o ensino de todas as disciplinas se fosse dada verda-deira �nfase � leitura e produ��o de textos, utilizando-se para isso textos que realmente in-teressassem aos alunos, respeitando, � claro, a pertin�ncia de cada disciplina. Al�m disso, a realiza��o de diversas reformas ortogr�ficas, visando � diminui��o daquelas ocorr�ncias que s�o tradicionalmente criadoras de d�vidas (o emprego do �G� e do �J�; do �X� e do �CH�; do �C� e do �S�; etc.), al�m de dinamizar o ensino do Portugu�s iriam diminuir a taxa de erros. Dessa maneira, dando � leitura e � escrita a import�ncia que lhes cabe no en-sino m�dio, ter-se-ia condi��es de formar indiv�duos com maior flu�ncia comunicativa, pois quanto mais pessoas t�m acesso ao uso da norma culta maior a padroniza��o da l�ngua. Conseq�entemente, se a norma culta fosse algo de dom�nio p�blico mesmo, n�o haveria essa enorme dificuldade de comunica��o entre falantes de diferentes variedades de uma mesma l�ngua, independentemente do seu lugar ou de sua classe social. Assim, a chance de sermos enganados por algum advogado falando �juridiqu�s�, bem como de sermos discri-minados pela nossa maneira de falar e escrever, diminuiriam bastante. E, � claro, o incenti-vo � leitura e � escrita far� dos estudantes indiv�duos com mais vontade de aprender.

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