ARQUIVO 3 - An�lise de Texto JB 20/1/2002


(Leia Opin�-o, em Esperanto as palavras s�o parox�tonas)

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Jornal do Brasil - 20/01/2002 - Coluna "Mascando" - A l�ngua universal - S�rgio Rodrigues - [email protected] - Reda��o: [email protected] - Antes de responder leia atentamente as Recomenda��es de Opinio

Eventuais leitores esperantistas que me desculpem (eles devem existir), mas a hist�ria da busca por uma l�ngua universal criada em laborat�rio, na qual o esquecido esperanto fica com a gl�ria duvidosa de ter sido o epis�dio menos malogrado, � um monumental fracasso do racionalismo e a prova de que, no limite, seus cultores podem ser t�o irracionais quanto os membros de uma torcida organizada. O fil�sofo Ren� Descartes, irritado com a variedade, as irregularidades e as assimetrias das l�nguas de verdade, � considerado o pai da id�ia de se fabricar uma l�ngua segundo crit�rios l�gicos.

Do s�culo 17 ao 19, centenas de pessoas tentaram desincumbir-se da tarefa. Outro dia citei uma dessas maluquices mais ilustres, criada em 1668 por um certo Wilkins: uma l�ngua inteirinha baseada na divis�o do universo em 40 categorias representadas por monoss�labos. Simples e concisa, a l�ngua de Wilkins - como a de Letellier, que dois s�culos mais tarde se baseou na dele para criar uma vers�o mais sofisticada - s� sobreviveu como testemunho da cren�a desvairada de uma �poca na onipot�ncia da raz�o. Ou, v� l�, como uma curiosidade divertida. Para Letellier, animal era ''a''; mam�fero, ''ab''; carn�voro, ''abo''; felino, ''aboj''; gato, ''aboje''. Isso mesmo, cada letra abrindo mais um ramo em �rvore t�o rigorosa quanto um pinheiro de a�o. Se colasse, seria o fim da etimologia. H� quem diga que seria o fim da poesia tamb�m, mas h� d�vidas quanto a isso.

Como n�o deram certo as tentativas de criar em estufa uma flor ling��stica desconectada de qualquer solo cultural, no s�culo 19 alguns sect�rios das l�nguas artificiais mudaram de foco. Quem sabe o erro n�o estaria em inventar uma l�ngua do nada, como se a humanidade fosse muda e analfabeta? Foi quando se injetou pragmatismo no del�rio: por que n�o aproveitar peda�os de l�nguas existentes? Uma l�ngua criada assim teria a desvantagem de incorporar impurezas e arbitrariedades, mas os fins justificariam os meios. A id�ia, afinal, era forjar um c�digo que um dia fosse compreendido por toda a humanidade, facilitando rela��es comerciais e culturais num mundo cada vez mais integrado.

Abriu-se ent�o um caminho de sucessos parciais que mantiveram aceso o sonho da l�ngua universal, levando-o a invadir o s�culo 20. O primeiro a ter seu momento de gl�ria foi o abade alem�o Johann Martin Schleyer, inventor do volapuque - no original, volap�k, mistura de ingl�s e alem�o com alguns toques de latim e outros idiomas. Foi a primeira l�ngua dita universal a reunir bom n�mero de falantes, algo como 200 mil no final do s�culo 19. O que � espantoso, dada a complexidade da coisa. Jorge Luis Borges, comentando a cria��o de Schleyer, registrou, pasmo: ''Em volapuque, o verbo pode assumir 505.440 formas diferentes. Peglidal�d, por exemplo, quer dizer: o senhor deve ser cumprimentado''.

Infinitamente mais simples, o esperanto n�o demorou a desbancar o volapuque depois de seu lan�amento, em 1887, pelo m�dico polon�s Ludwig Lazar Zamenhof, num livro em que adotava o pseud�nimo Dr. Esperanto. A esculhamba��o come�ou a�. A gram�tica que Zamenhof propunha era mam�o com a��car, mas Esperanto era para ser o autor, n�o a obra! Donde se conclui que o problema de toda l�ngua perfeita somos n�s, os humanos, imperfeitos demais para fal�-las.

Hoje anda em baixa a busca por uma l�ngua universal. Por que procur�-la se ela has already found us (j� nos encontrou)?

Opinio recomenda

Movimento Nacional em Defesa da L�ngua Portuguesa 

Defendo de Unuopaj Lingvoj

EsperantoBrasil.com

Kurso de Esperanto

Dicion�rio ALLS

Projeto Nesto

Listas de Discuss�o
Eki

Esperanto-BR
Bejo

Ĝangalo (em Esperanto)

Radioarkivo.org

Prezado S�rgio,

Vou aceitar as suas desculpas, conforme voc�s as pede no texto relativo ao idioma universal, pois sou esperantista h� 35 anos.
S�rgio, voc� � genial nos seus artigos, j� li algumas de suas mat�rias, n�o me lembro delas com precis�o, mas alguns coment�rios seus sobre o futebol, uma entrevista com o tradutor da El�ada de Homero em edi��o bil�ng�e e alguns coment�rios mais recentes sobre o futuro pr�-fabricado formaram um ambiente legal que tem tudo a ver com as suas cr�nicas "Mascando clich�".

Bem, vou comentar o que interessa nessa minha mensagem que tem a ver com o Esperanto. Realmente, hoje podemos pensar que o Esperanto � um clich� de idioma internacional e sempre vai ser, pois foi o �nico que deu certo e h� 115 anos j� se tornou l�ngua viva de uma comunidade em mais de 100 paises no mundo. S�rgio, apesar de adorar suas brincadeiras s�rias, principalmente aquelas que voc� joga no final de suas mat�rias, nessa voc� padeceu por desinforma��o. Voc� afirmou gratuitamente do fracasso do Esperanto.

Bom, vamos a alguns fatos interessantes que talvez voc� n�o tenha considerado, v� ao google.com (considerado hoje o melhor buscador de internet) e coloque a palavra esperanto. Acabei de fazer isso, atrav�s da UOL (http://radaruol.uol.com.br/?q=esperanto) e encontrei 581.000 enquanto que a palavra "portugu�s" tem um pouco mais do que 1.500.000 documentos, o pr�prio google registra o Esperanto como 24� l�ngua do mundo que produz p�ginas, onde o portugu�s est� na 13� e o Esperanto est� acima do checo e abaixo do grego moderno. Isso � muito significativo, S�rgio, para considerarmos o insucesso do Esperanto. Mas essas s�o apenas estat�sticas, mas h� outras signific�ncias que voc� certamente n�o conhece e que s�o significativas para essa comunidade a qual perten�o com orgulho. Na nossa comunidade internacional h�, ao longo da sua hist�ria, 6 pr�mios Nobel comprovadamente esperantistas, o pr�prio papa inclui em suas mensagens de P�scoa e de boas festas o Esperanto e efetivamente o Vaticano inclui em suas transmiss�es mundiais o Esperanto. Mas n�o s� o Vaticano, tamb�m o faz a �ustria, R�dio Pol�nia, China, Cuba e muitas outras, e no Brasil, a R�dio Rio de Janeiro e a r�dio Sorocaba. O Esperanto tem uma riqueza incrivelmente cultural, h� mais de 50000 t�tulos em literatura mundial. J� leu obras do b�lgaro ou da Mong�lia, talvez n�o, mas os esperantistas que batalham tanto por uma democracia ling��stica, d�o a devida import�ncia a uma igualdade cultural tamb�m. Que pena que o ingl�s esteja t�o longe disso n�o � mesmo? Por que sucumbir a um ide�rio massacrante como o da hegemonia angl�fona, se ainda podemos respirar com o que o movimento esperantista tem para nos dar. Acredito que o que falta aos nossos jornalistas sejam informa��es. Infelizmente, as que voc� dispunha, quando escreveu o seu artigo, eram relativas aos primeiros testes de projetos de l�nguas universais, o volapuque e �s l�nguas pass�grafas.

Sugiro, meu caro S�rgio, que leia o livro de Umberto Eco, "A busca da l�ngua perfeita", editado pela Edusc e traduzido para o portugu�s por Ant�nio Angonese. A argumenta��o de Eco � francamente favor�vel ao Esperanto dentro de um emaranhado de possibilidades para as l�nguas europ�ias se debatendo dentro de uma sociedade pluralista da Europa economicamente unida.

H� evid�ncias s�rias de unifica��o em instrumentos comuns no mundo, o Euro � uma prova disso, respeitando-se as economias locais. Romper com o nacionalismo das l�nguas � terr�vel dentro da Europa, dar ao ingl�s o fator de preponder�ncia � chocante, pois traria vantagens luminares � Inglaterra e, at� mesmo, ao contra-ponto econ�mico que s�o os Estados Unidos. N�o acho que a ado��o do ingl�s, como idioma auxiliar europeu seja ratificado, mas qual seria? Por que n�o o Esperanto? Tirando-se os devidos preconceitos sobre esse idioma auxiliar, que j� est� pronto e testado, e deixar de alegar que o Esperanto � um reles projeto ling��stico, uma vez que j� � uma l�ngua viva h� mais de um s�culo, teremos realmente a possibilidade de ter uma solu��o fant�stica para o mundo. Mas isso fere o interesse econ�mico da presente ordem mundial, por isso acredito que o Esperanto � uma solu��o para um outro est�gio da humanidade, quando ela se tornar mais consciente de suas necessidades de respeitar democraticamente todos, mantendo-se as suas diversidades.

Desculpe-me, S�rgio, por me alongar, talvez desnecessariamente, mas quando vejo uma pessoa como voc� errar por falta de informa��o isso me constrange.

Se quiser mais informa��es sobre o movimento esperantista, visite sites brasileiros como o da Liga Brasileira de Esperanto: http://www.esperanto.org.br ou o site que possui informa��es em 35 l�nguas (acho!) http://www.esperanto.net.

Sucesso e que voc� nos traga excelentes artigos nesse ano!

Adonis Saliba (mailto:[email protected])

PS.: Ali�s, 87� Congresso Mundial de Esperanto, ser� realizado esse ano em Fortaleza, Agosto 2002. No mundo ocorrem mais de 1000 congressos esperantistas por ano, mas esse � o principal e que ocorre desde 1905. Aguardam-se mais de 2500 participantes ( e esse � um dos com menos participantes, pois ser� realizado em um pais fora da Europa)

 
ESPERANTO GODOT

S�rgio Rodrigues, Coluna "Mascando", JB, 27/02/02

"O e-mail andou atarefado. Meus ''eventuais leitores esperantistas'' deixaram claro que, al�m de existir, sabem se mobilizar direitinho contra supostos inimigos. Recebi do pa�s inteiro mais de 20 mensagens sobre a �ltima coluna, A l�ngua universal, brev�ssima hist�ria das l�nguas criadas em laborat�rio, das quais o esperanto � a estrela. Vejamos os aspectos positivos:

o editor da revista garante que � recorde, o que deve ser bom. Tem outro: aprendi xingamentos numa l�ngua nova - tudo bem, uma l�ngua artificial, mas nunca se sabe quando isso ser� �til. Com certeza, outro lado bom. Mas o que me faz voltar ao assunto � ter recebido - entre amea�as que fariam corar Torquemada e at� elogios - civilizados argumentos de esperantistas feridos. Uma gente, a julgar pelo tom, boa, que n�o merece hostilidade. Como n�o h� espa�o sequer para uma fra��o disso na se��o de cartas dos leitores, abro a coluna para as principais broncas. Em portugu�s, claro.

''Nesse momento, enquanto voc� l� este texto, milhares de mensagens eletr�nicas s�o trocadas em Esperanto na internet, s�o recebidas mensagens de pessoas que moram em muitos pa�ses do mundo: Austr�lia, China, R�ssia, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, M�xico, Canad�, Vietn� etc...'' (Marcos Pimenta)

''Admito que realmente podemos encontrar no movimento esperantista um pouco do fervor de uma torcida organizada, mas sem a paix�o dos pioneiros, (...) de um Galileu, de um Darwin, de um Oswaldo Cruz, de um Gandhi, o que seria de nosso mundinho?'' (Fabr�cio Valle)

''A l�ngua esperanto (...) � usada em mais de 1.200 cidades de cem pa�ses, possuindo uma vasta literatura, classificada por Antonio Houaiss entre as cem mais importantes do planeta. (...) O escritor esperantista, de nacionalidade escocesa, William Auld, foi indicado recentemente para concorrer ao Pr�mio Nobel de Literatura... E o senhor, como � mesmo o nome, ah, S�rgio Rodrigues, foi indicado para que pr�mio mesmo?'' (Alo�sio Sartorato. Calma, leitor! O Nobel � uma id�ia, mas eu ainda nem fiz 40...)

''� uma pena, caro colunista, que voc� n�o saiba que, em 2000, aconteceu um congresso de esperanto em Tel-Aviv, Israel, que reuniu, fraternalmente, mais de mil pessoas, entre elas �rabes e judeus.''(Rafael Lins)

''S�rgio, apesar de adorar suas brincadeiras s�rias, nessa voc� padeceu por desinforma��o. (...) V� ao google.com e coloque a palavra esperanto. Acabei de fazer isso, atrav�s do UOL, e encontrei 581 mil enquanto que a palavra portugu�s tem um pouco mais de 1,5 milh�o de documentos, e o pr�prio google registra o esperanto como 24� l�ngua do mundo que produz p�ginas, onde o portugu�s est� na 13� e o esperanto est� acima do checo e abaixo do grego moderno.'' (Adonis Saliba)

Eis, em resumo, os argumentos esperantistas. O espa�o � curto, infelizmente. Registrada a bronca, sou obrigado a reafirmar aqui a argumenta��o da coluna anterior. N�o acredito em l�nguas artificiais, embora admita que o esperanto � um sonho simp�tico, uma esp�cie de can��o Imagine em forma de l�ngua. Tenho um s� detalhe a corrigir no que disse: se as l�nguas artificiais ditas aprior�sticas, sem base em qualquer conjunto ling��stico real, s�o um del�rio do racionalismo, as l�nguas feitas
de retalhos de outras, surgidas a partir do s�culo 19, como o esperanto, est�o mais para del�rio rom�ntico. Um del�rio rom�ntico dos mais inofensivos, ali�s. Por mim, podem procurar o inimigo em outro lugar."

[email protected]
[27/JAN/2002]
 
 Prezado S�rgio Rodrigues:

Hoje, ao folhear a Revista "Domingo" do JB, tive a grata satisfa��o de verificar que o prezado jornalista retornou ao tema "L�ngua Universal", focalizando o Esperanto, em sua cr�nica "Esperanto Godot". Parab�ns!!! Em meus 38 anos como adepto do Esperanto, raramente vi um jornalista abrir o seu espa�o na imprensa para, de maneira correta, apresentar a vers�o do outro lado a respeito de um assunto. Isto me leva a apresentar ao prezado jornalista meu pedido de desculpas pelo tom um pouco agressivo e ir�nico que usei em minha resposta. Entenda, entretanto, que essa minha rea��o foi aquela gota d'�gua que estava faltando para entornar o balde, depois de ler durante anos  artigos na imprensa que apresentam preconceituosamente o Esperanto. N�o � meu estilo ser deseducado, nem grosseiro. Portanto, perdoe-me novamente!
A prop�sito, como sou Vice-Presidente da Cooperativa Cultural dos Esperantistas (Av. 13 de Maio, 47 - sobreloja 208, Rio de Janeiro), gostaria de convid�-lo para, um dia desses, fazer-nos uma visita. Terei imenso prazer em conversar sobre o assunto    "l�nguas planejadas", que, salvo engano, � da prefer�ncia do ilustre colunista.
Gostaria de informar-lhe que tamb�m sou respons�vel pela programa��o cultural da referida Cooperativa e nossa programa��o para o m�s de fevereiro prev� os seguintes eventos:

Dia 1/2  18:00  Palestra, em portugu�s, de Alo�sio Sartorato, sobre o tema   "A Imprensa Esperantista"
Dia 6/2  18:00  Palestra, em esperanto, do esperantista ingl�s Ken Stevens sobre o tema "Como a Guerra Mudou Minha Vida"
Dia 15/2 18:00  Palestra, em esperanto, da esperantista francesa Magali Lajus sobre o tema
"Introdu��o � Fran�a: Pa�s e movimento esperantista"
Dia 22/2 18:00  Festa dos Aniversariantes do m�s de Fevereiro, com a participa��o   especial de Neide Barros Rego que declamar� poesias em esperanto, bem como cantar� m�sicas em esperanto.

Na expectativa de uma breve visita sua, subscrevo-me

Cordialmente,
Alo�sio Sartorato

P.S. 1 - Em seu artigo supra citado, voc� cunhou uma frase muito simp�tica ao Esperanto: "O esperanto � uma esp�cie de Imagine em forma de l�ngua". Voc� permitiria que a us�ssemos em nossos folhetos de divulga��o?
P.S. 2 - Ap�s transcrever parte de minha mensagem, voc� espirituosamente fez o seguinte coment�rio: "O Nobel � uma id�ia, mas eu ainda nem fiz 40 ..." S� de curiosidade: quando Zamenhof lan�ou seu projeto de l�ngua ao mundo tinha somente 27 anos!!!
P.S. 3 - Toda terceira sexta-feira do m�s temos uma atividade denominada "Sala de Visitas". � um evento em que abrimos um espa�o em nossa sede para que um visitante fa�a uma palestra em portugu�s sobre um tema de sua livre escolha.
Gostaria de deixar em aberto um convite a voc� para ser um dos futuros palestrantes.

 

 
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