| Armagedom | ||||||||||
| APOCALIPSE 20:5, 6 Eu zapeio interminavelmente, troco de canal, compulsivo, n�o d� vontade de parar em lugar algum. Quero ouvir sobre o carnaval. O Diego disse que a rainha da bateria da Rosas de Ouro vai sair sem roupa nenhuma, preciso conferir isso. Mas s� se fala em desgra�a, o mundo n�o tem outro assunto. � a guerra na �sia, � a enchente na Europa, � o recorde de assassinatos no pa�s, � o avan�o da AIDS, � a crise econ�mica global, o seq�estro do presidente da Austr�lia, a greve geral que j� vai pro quinto dia, a explos�o do reator americano... Arre! Agora esse neg�cio a�, dos ping�ins mortos no litoral de Santa Catarina; eu j� perdi a paci�ncia faz tempo. Quero ver samba e suor, s� isso. E mulher, claro. A gente passa o maior stress no tr�nsito desse inferno, e ainda tem que ficar ag�entando os problemas dos outros? Eu quero mais � ficar esparramado aqui no sof� a noite toda. Pelo menos tem filme daqui a pouco. Depois da novela, vou ver tudo. Num, muito sexo, no outro viol�ncia, assim a gente descarrega um pouco da irrita��o. Mas agora, vamos zapear. O apresentador do telejornal fala do Imposto de Renda. Ser� que algu�m ainda paga isso? N�o adianta nem a lei nova, que mete o cara na cadeia. Ser� que eles n�o percebem? Fico lembrando de dois, tr�s anos atr�s, quando eu fazia tudo direitinho. Como todo mundo, respeitava farol vermelho, pagava os impostos. N�o d� mais pra ligar pra essas coisas, pertencem ao passado, definitivamente. O mundo mudou e parece que ningu�m sabe o que fazer com ele. Quer dizer, tem os caras da religi�o. Esses sabem muito bem. Achei �timo esse neg�cio de juntar todo mundo. Olha l�, mais uma vez eles aparecem juntos, apertando as m�os. Assim a coisa vai, amigo, porque o que falta � esquecer essas diferen�as bestas, mesmo. Olha que barato. O pastor e o Dalai Lama no Vaticano, falando a mesma l�ngua. Zap. Corta pra um casamento gay. Gente famosa. Sei l�. Zap de novo e o que aparece na TV s�o cenas do terremoto de Buenos Aires. N�o tenho est�mago pra isso. Zap e aparece uma multid�o gritando, sei l� o que � que � isso, se � show de rock ou manifesta��o, mas no meio daquela loucura o som da voz da Fl�via na sala me parece estranha... � calma. Agora percebo que a �nica coisa calma que tenho ouvido em muito tempo � a voz da Fl�via. A voz dela e a desse Pacheco tamb�m. N�o adiantou eu gritar, espernear, amea�ar bater, ela encafifou que ia estudar a B�blia. Odeio sabatistas, ela sabe disso. Ali�s, ela tamb�m odiava, at� h� pouco tempo atr�s, o que aconteceu? O que aconteceu? Toda aquela serenidade me d� nos nervos. Mais que a loucura do mundo, o que eu n�o ag�ento � essa mansid�o toda. Eles l�, falando de s�bado e de volta de Jesus. Ela tenta me falar disso todo dia, n�o adianta eu xingar e a diminuir. Bati nela, sim, bati e bateria de novo, se quisesse me fazer engolir esse lengalenga de novo. S� deixo essa raposa velha entrar em casa porque no fundo eu quero ver at� onde vai essa hist�ria. Ela vai ter coragem de se bandear pro lado desses fac�noras fan�ticos? Ela n�o percebe que eles est�o atrapalhando a paz no mundo? Todo mundo largando a m�o de trabalhar no domingo e esses nojentos cruzando os bra�os na maior folga em pleno s�bado. Ser� que ela seria capaz de me dar essa punhalada? Ela vem com a B�blia, a B�blia. Qu� que eu quero com a B�blia, droga? Opa. A TV fala de uma explos�o pros lados do Ibirapuera. Ser� que d� para ver daqui? Chego � janela e vejo n�o a explos�o, mas uns pivetes roubando o r�dio do meu carro dentro da minha garagem. Ah, � hoje que eu mato um canalha. A arma est� bem � m�o, na gaveta da penteadeira. Eu des�o a escada pensando em quanto tempo esperei pra poder queimar um desses pulhas, meu sangue est� fervendo. Abro a porta de sopet�o e miro na cabe�a. O desgra�ado n�o tem tempo nem de gritar. Quem grita � Fl�via l� em cima, eu escuto. Procuro o outro. Eram dois. Vou olhar embaixo do carro. Ou�o um estampido e a minha vis�o fica turva. Alguma coisa nas minhas costas, queimando, queimando. O que � isso? Eu estou no ch�o. Algo molhado no meu queixo, uma po�a, n�o enxergo nada direito. Uns passos correndo. Acho que um grito, a Fl�via... Matei um, n�o foi? Eu matei um, matei um, gra�as a Deus matei um... - Despertai! A voz faz tremer cada fibra do meu ser. � a coisa mais impressionante que eu j� ouvi, e apesar disso, parece que eu conhe�o essa voz. Uma tampa enorme se abre � minha frente e uma luz intensa aparece. Eu me levanto, os olhos doem. Dou um impulso pra fora do t�mulo, rindo muito. - Matei um! � eu grito. O cemit�rio inteiro est� em movimento, as pessoas saem, conversam, pulam, gritam. Mas � s� um instante, porque aquela luz cegante � um im� irresit�vel para nossos olhos. Ah. � Ele! Eu O vejo entre Seus anjos de luz, e atr�s deles uma enorme multid�o. Atr�s deles todos, uma cidade inteirinha de ouro, com altos muros, uma vis�o que me atravessou o peito, e nem em um milh�o de anos eu seria capaz de descrever. Quanta gl�ria! Tento abaixar os olhos para o ch�o cheio de rachaduras, a terra morta, coberta de escombros, mas aquela vis�o me angustia. Corro para tr�s de uma enorme rocha, mas outros chegaram antes de mim. Encaro mais uma vez a Jesus Cristo, e junto-me �queles que j� est�o exclamando: - Bendito o que vem no nome do Senhor! Que coisa estranha! Sei que � hora do ju�zo. Sei que � hora de acertar contas com Ele e percebo em Seus olhos a justi�a que eu neguei a vida toda, da qual fugi conscientemente. Em suma, sei que � hora de receber a minha recompensa certa, a morte, mas n�o posso deixar de exclamar, ainda uma vez mais, apesar de ter as pernas fracas, de sentir um terror indiz�vel �BENDITO O QUE VEM NO NOME DO SENHOR!� Eles est�o entrando na cidade. Ou�o um clamor � minha esquerda. As pessoas est�o correndo, se ajuntando. O que est� acontecendo? Vou andando para l�. Ou�o brados, gritos, hinos de guerra em l�nguas que jamais ouvi. Ent�o eu vejo o Diabo, com sua estatura destacada, andando por entre as gentes. Para cada uma algumas poucas palavras, e os desanimados e vacilantes mudam imediatamente de postura, cerram os punhos, d�o socos no ar. Ele est� chegando perto de mim, o que ser� que vai me dizer? - Fernando, Fernando! Temos sido bons amigos, n�o? |
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