| Passos - XII Contra a parede Sentada em sua cama de pijama e meia, pernas cruzadas, Luiza colocou o notebook sobre o colo, recostou-se nos travesseiros e com sua caracter�stica ruga de concentra��o na testa foi descendo a barra de rolagem lentamente at� o fim. Ao terminar a leitura, respirou fundo e pousou os olhos mais uma vez sobre o t�tulo do e-mail ("Fw: Contradi��es da B�blia"), com a cabe�a dando suas mil voltas. Depois do longo cismar levantou-se e abriu a persiana do quarto. Apertou os olhos feridos pelo sol forte que entrou, puxou a cadeira da escrivaninha e permaneceu ali mais um longo tempo, remoendo menos que as palavras lidas, um sentimento de castelo ru�do no peito. Um sentimento assim, como o de n�o querer acreditar que a sele��o do Brasil levou um gol. O telefonte tocou. Convite para almo�o na casa da Edna. Aceito. Mandou imprimir o e-mail, tomou um banho, vestiu-se, passou na sala onde o pai assistia televis�o, deu-lhe um beijo na testa, pegou a bolsa, as chaves, o celular e as folhas da impressora e saiu. No caminho em que dirigia sem pressa, as sombras das �rvores da rua iam dan�ando pelo seu rosto, onde aquela sua ruga insistia. Parou no farol, meninas distribu�am propagandas de apartamentos. Luiza tamborilava os dedos no volante e o castelo, que balan�ava l� dentro... Olhando para o vermelho do sinal, fez uma ora��o curta e direta. Ent�o seguiu o caminho. ----------------------------------------------------------------------- Apoiado a sua bengala, Jonas caminhava ao lado de Breno pela cal�ada no caminho do Parque Ibirapuera, falando da vida e adjac�ncias. L� pelas tantas, Breno solta: - �, mas eu li esses dias uma coisa interessante. Diz que o c�non da B�blia foi feito assim: botaram todos os livros "candidatos" a can�nicos numa estante e foram orar e meditar e no dia seguinte, quando chegaram, estavam ca�dos no ch�o apenas alguns livros. A� eles pegaram esses e fizeram o que hoje a gente chama de B�blia! Conhecia essa hist�ria? - N�o - Jonas confessou. - E tem uns caras que dizem que o relato do dil�vio � uma adapta��o da lenda de Gilgamesh, que � bem mais antiga. J� ouviu falar? - N�o, acho que n�o. --------------------------------------------------------------------------- J� na sala, Luiza estendeu com m�os nervosas o e-mail para Edna e seu marido. Eles deram uma olhada em sil�ncio. - Ah, eu j� vi isso - Edna disse afinal. Quando a pessoa pega a B�blia pensando em n�o crer, come�a a ver esse tipo de coisas, Lu. Lembra daquele verso que diz que "� imprescind�vel que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que � galardoador dos que O buscam"? Pois �, a coisa come�a por decidir crer, depois � que as evid�ncias aparecem. - � isso a� - somou seu marido, levantando-se. Eu vou pegar a B�blia e a gente vai te mostrar ponto por ponto como tudo isso � furado, Luiza, c� vai ver. Esse neg�cio de Caim ter tido filhos, por exemplo, vou te mostrar aqui que Ad�o e Eva tiveram muitos filhos e filhas que n�o s�o mencionados, e bem pode ser que Caim j� estivesse casado quando matou Abel... Tiago, o filho de quatro anos, interrompeu o caminho do pai aparecendo de repente com uma folha rabiscada na m�o: - Olha o desenho que eu fiz! O pai se abaixou, pegou a folha e abra�ou o menino: - Uh, que beleza! Olha s� esse poste de luz! - N�o � p�s de luz, � o tio Ronaldo! Ele t� com uma pizza na m�o porque vem aqui - explicava o autor da obra. Edna observava Luiza, que sorria enternecida olhando a cena. A ruga tinha sumido. Luiza percebeu e falou baixinho: - Gozado como umas coisinhas bobas dessa deixam a gente boba igual, n�o �? - �. Eu t� em estado de bobeira constante h� quatro anos, j�, e n�o cansei ainda. Luiza pensou um pouco, ainda admirando os "homens da casa" em seu di�logo improv�vel e, torcendo as m�os, disse: - Deus p�e o dedo dEle em coisas pequenas. E elas falam. Edna sorriu emocionada. De repente se levantou: - A lasanha! Deixa eu dar uma olhada, porque o nosso outro convidado n�o gosta de comida queimada! - Outro convidado? Luiza perguntou surpresa. - Voc� vai gostar dele, � um amor - Edna disse j� na cozinha... - Edna!... ------------------------------------------------------------------- - O que voc� vai fazer hoje � noite? perguntou Breno. A perna te deixa sair? - Vou � igreja. Hoje tem culto. - Igreja? Achei que voc� ia ficar em casa, pensando nessas coisas que eu te falei - disse rindo. - Vai ter muito tempo pra isso. A gente t� falando n�o de id�ias, mas de Jesus Cristo. Ele disse, voc� sabe: "bem aventurados os que n�o viram e creram". E olha que eu vi, Breno, eu vi! Se eu n�o cresse seria um energ�meno! ---------------------------------------------------------------- Ellen G. White, in Caminho a Cristo, cap�tulo Expulse a D�vida, p. 105- 109: "Sua exist�ncia, Seu car�ter, a veracidade de Sua Palavra, baseiam-se todos em testemunhos que falam � nossa raz�o; e esses testemunhos s�o abundantes. Todavia Deus n�o afasta a possibilidade da d�vida... Os que quiserem duvidar, h�o de encontrar oportunidade; ao passo que os que desejam realmente conhecer a verdade, encontrar�o abundantes provas em que basear sua f�. Assim [Deus] nos exp�e o plano da salva��o, de maneira que toda alma possa ver os passos que lhe cumpre dar em arrependimento para com Deus e f� para com nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de salvar-se pela maneira indicada por Deus; todavia, sob essas verdades, t�o facilmente compreendidas, jazem mist�rios que s�o o esconderijo de Sua gl�ria - mist�rios que se acham apara al�m do alcance de nosso esp�rito em suas indaga��es, inspirando, no entanto, rever�ncia e f� ao sincero pesquisador da verdade. Quanto mais ele investiga a B�blia, tanto mais profunda se torna sua convic��o de que ela � a Palavra do Deus vivo, e a raz�o humana dobra-se perante a majestade da divina revela��o." Marco Aur�lio Brasil Lima |
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