| Passos - XIII �ltimo ato Cen�rio: p�tio ao lado da igreja. Uma grande mesa ao centro, com v�rios pratos de comida. De cada lado da mesa uma fila se forma, caminhando em sentidos opostos. Todos trajados com roupa t�pica de igreja, com os pratos e talheres nas m�os, aguardando chegar � mesa para servir-se. Forte ru�do de conversa��o. Em uma das filas, Jonas, apoiado a uma bengala, conversa com C�lio. Na outra, Luiza conversa com Edna. C�lio: Desse jeito, quando a gente conseguir chegar l� j� n�o vai mais ter daquela torta de escarola! Jonas: Calma, homem! Lembra do serm�o de hoje. "Voltando e descansando tereis paz". C�lio: N�o entendi a conex�o disso com meu p�nico por ficar sem torta, mas entendi o recado. Seria mais adequado voc� citar: "n�o andeis ansiosos quanto ao que haveis de comer, ou ao que haveis de vestir"... Jonas, rindo: Boa! Serm�o da Montanha. Li��o anti-stress. C�lio: Que voc� aprendeu muito, muito bem, por sinal. Jonas: Como assim? C�lio: U�, voc� era o cara mais ansioso que eu j� conheci. Vivia pensando em como estaria daqui a cinco anos, daqui a dez anos... Vivia pensando que nenhum projeto ia dar certo, que os clientes iam dar pra tr�s... Jonas, depois de pensar um pouco: � verdade. Onde havia esse po�o de ansiedade, tem agora uma certeza serena de quem simplesmente confia. E isso n�o tem pre�o. Jesus colocou a m�o aqui e virou as coisas de cabe�a pra baixo... C�lio: Colocou-as no lugar, ent�o. Luiza: T� vendo? Era disso que eu estava falando? Edna: Disso o qu�? Luiza: Ela pisou com o salto no teu p�, deu pra ver na tua cara que doeu pra burro, mas voc� a abra�ou sorrindo! Edna: Ara, � l�gico que foi sem querer, ela foi desviar do menino que passou correndo. Luiza: N�o importa! Sabe o que eu acho? A gente revela o que tem por dentro quando nossa rea��o mais imediata, mais... instant�nea, isso, � exigida. Nessas situa��ezinhas bobas para as quais a gente n�o se preparou de antem�o, entende? Edna: Hum... Luiza:Voc� entrar na casa de algu�m sorrindo � f�cil, voc� est� preparada pra isso; mas sorrir pra quem pisa no seu p� n�o � t�o f�cil. Edna: N�o sei. Quer dizer, concordo com voc�, mas n�o nesse caso espec�fico, afinal de contas estamos na igreja, num clima de cordialidade, ent�o o l�gico � que sejamos cordiais... Luiza: Larga de bobagem, Edna. Sabe o que mais me incomodou no teu jeito de ser e uma das coisas que me impressionou e me fez querer estudar a B�blia contigo? Essa tua incapacidade de reclamar da vida, de se lamuriar, de olhar o que h� de negativo. Esse sempre-sorrir. Isso n�o existe! Edna: Existe. Tanto que voc� faz parte dele. E n�o deveria ser a exce��o � regra, ent�o a gente n�o devia ficar admirada... Luiza: Fa�o parte dele? Edna: E n�o? Quando foi a �ltima vez que voc� reclamou do excesso de trabalho, por exemplo? T� sempre com esse sorriso bobo na cara, parece apaixonada, credo! C�lio: Que beleza! Sobrou um pedacinho! Mas s� um... Jonas: Vai fundo. Eu n�o vou fazer essa malvadeza contigo, n�? Voc� t� falando nessa torta h� meia hora... C�lio: Metadinha? Jonas: N�o, n�o... Fica tranq�ilo que eu vou de macarronada. C�lio, pegando a torta e colocando no prato: Voltando ao assunto: pensando em toda aquela ansiedade, nas �lceras todas que voc� cultivou por n�o saber o que era paz, enfim, pensando em tudo o que voc� "comia e bebia" at� h� pouco tempo, o que voc� espera da vida agora? Jonas, depois de pensar um pouco enquanto pin�ava folhas de alface para seu prato: Vou te dizer o que eu esperaria se n�o tivesse ocorrido a tal mudan�a radical: eu esperaria conseguir a sociedade l� no escrit�rio, j� que o Armando est� caindo fora, e com isso ter condi��es de ver meus pais mais vezes; esperaria continuar mergulhando na B�blia, entender por mim mesmo as coisas mais essenciais; esperaria conhecer algu�m... uma menina consagrada, preocupada com as coisas espirituais e que n�o seria mau se fosse bonita, de conversa f�cil e sorriso daquele tipo, que derrete as tripas, entende? E com ela eu namoraria uns dois anos e ent�o me casaria, teria meus tr�s filhos... Luiza, servindo-se de farofa de ovo: O melhor de tudo, Edinha, � que essa felicidade toda, esse... transbordamento que eu n�o conhecia (e que bota essa pulga atr�s da orelha de quem vivia perto de mim), � isso que me habilita a ser, como disse acho que Paulo, "espet�culo para o Universo", n�? � isso o que somos: espet�culos. � nossa roda milh�es de olhos, tirando suas conclus�es. E a�, cada passo que damos na dire��o de Cristo ou pra longe dEle, (porque, como voc� disse, n�o d� pra estar parado na vida espiritual, se n�o crescemos fatalmente retrocedemos), cada passo nosso determina se esse espet�culo vai ser digno de aplausos ou n�o. Edna: Bonito, isso. Saber que, no fim das contas, a gente n�o vive em v�o, longe disso... Luiza: Longe disso. E saber que cada ato pode ser o �ltimo e que ele vai despertar no p�blico o reflexo do que a gente vive: se risos, risos, se l�grimas e lamentos, l�grimas e lamentos. Edna, abrindo um sorriso enquanto pega salada: Que sejam sorrisos, amiga! Deus nos aben�oe! Luiza, sentindo os olhos marejados: Ai. Am�m! C�lio: Por que voc� esperaria essas coisas s� se n�o tivesse acontecido a tal metamorfose? Jonas: Porque n�o sou eu quem decide mais. No lugar de decis�es, a paz, que excede todo entendimento, a paz genu�na que Jesus me deixou. Aprender isso custou muito, mas agora � com Ele! Pode ser que essas coisas todas aconte�am, mas pode ser que n�o; de um jeito ou de outro, louvado seja Deus! Jonas de um lado da mesa e Luiza do outro esticam ao mesmo tempo as m�os para pegar a mesma colher, do prato de salada de batata. Sorriem embara�ados, ele deixa que ela se sirva primeiro. A luz se intensifica at� engolir as formas das pessoas; fecham-se as cortinas. ------------------------------------------------ Ellen G. White, Caminho a Cristo, cap�tulo "Regozijo no Senhor", ps. 115 e ss: "Satan�s busca sempre tornar a vida religiosa sombria. Deseja que se nos afigure trabalhosa e dif�cil; e, quando o crente, em sua vida, faz aparecer sua religi�o sob esse aspecto, est�, por incredulidade, confirmando a mentira de Satan�s." �Se, por�m, nossos pensamentos se fixam no extraordin�rio amor e piedade de Cristo para conosco, esse mesmo esp�rito irradiar� de n�s para os nossos semelhantes." "... Mesmo aqui podem os crist�os fruir a alegria da comunh�o com Cristo; �-lhes dado possuir a luz do Seu amor, o perp�tuo conforto de Sua presen�a. Cada passo da vida nos pode levar mais perto de Jesus, pode-nos trazer uma mais profunda experi�ncia de Seu amor, conduzindo-nos um passo mais pr�ximo do bendito lar de paz." --------------------------------------------------- Este � o �ltimo texto da s�rie "Passos", em que cada texto foi inspirado em um dos cap�tulos de Caminho a Cristo e em que acompanhamos os momentos cruciais das vidas de Jonas e Luiza. Para mim foi uma del�cia palmilhar este caminho, relembrando meus pr�prios vacilantes passos. Esse exerc�cio de mem�ria e cria��o n�o deixa que eu termine sem exclamar: bendito � nosso Deus! Louvado seja o Seu Santo nome! Marco Aur�lio Brasil Lima |
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