Passos - XI

Di�logo

A lembran�a mais antiga que tenho de voc� � na fazenda do tio M�rio, naquele inverno de 86. De noite, eu embrulhado no cobertor, pasmando com aquele c�u estrelado que eu nunca tinha visto. Voc� estava l�. Ali. Lembro de alguns outros momentos, mas t�o esparsos, t�o... di�fanos. Palavra boa: di�fanos. Palavras boas eu ouvia.

Depois um longo intervalo. Veio a banda, as apresenta��es  nos buracos que nos arranjavam e a ignor�ncia da pr�pria falta de talento (gra�as a Deus), as experi�ncias sexuais e narcotizantes. A fase das brigas com os pais, at� eles resolverem voltar pra Ribeir�o Preto. Na faculdade a forma��o da irmandade, cunhada em torno de festas,  os jogos universit�rios, a quebradeira do dormit�rio em Ara�atuba, aquela briga com os caras da Belas Artes.

Enfim, um longo intervalo, sem lembran�as Suas, embora eu saiba - eu hoje sei - era por eu n�o ver. Como explicar o jeito como apareceu a V�nia na minha vida, me ajudando a libertar da maconha que, na �poca, come�ava a pedir coisas mais pesadas? E por que n�o continuamos juntos? Motivos racionais n�o existem, a paix�o era tamanha. Pra onde meus passos teriam caminhado se aquela ruptura um m�s depois da formatura n�o tivesse acontecido? Em algum curso de desdobramento astral, telepatia, comunica��o com esp�ritos? Ou sabotando a vida de todo mundo por dinheiro?

O intervalo enfim acabou no assalto, aquele menino de olhos vermelhos disparando sua arma de fogo contra minha cabe�a e embora eu n�o saiba ainda o que aconteceu, sinto que saberei. Logo.

Todo o caminho at� aquela praia, quando reconheci a Sua presen�a, � uma estrada ascendente, Pai. Por tortuosa que me pare�a, ou aos meus amigos, � ascendente. Com a Sua m�o no ombro cortei os la�os com o alcoolismo, t�o festejado entre aqueles meus amigos queridos, Pai. O que ser� deles? Com a Sua m�o no ombro fiz aquela viagem a Ribeir�o que foi tamb�m uma viagem pra dentro de mim, reatando la�os cortados por estupidez, e as l�grimas de felicidade nos olhos do meu pai, o choro convulsivo da minha m�e, Pai, tanta felicidade custou-me o sepultamento de um morto que insistia em se chamar pelo meu nome, mas que foi enterrado no buraco que voc� cavou com m�os perpassadas por minha causa. Que beleza! Quanta beleza h� nessas coisas que retumbam aqui dentro, meu Deus!

Reconhecer Sua presen�a em cada esquina da minha vida � descansar. � ter essa coisa outra, que eu n�o conhecia: paz, paz como um rio, como escreveu inspirado Seu servo, Isa�as.

Faz sentido, ent�o, que esse escuro me tenha vindo agora, quando, caso o som dessas m�quinas ao meu redor cessar, quando eu n�o mais ouvir os passos pesados long�nquos (embora aqui do meu lado, eu sei), eu vou de fato descansar.

Quantos poderiam, assim, descansar? Com a boca seca, sentindo tanta dor e a impot�ncia para mover qualquer m�sculo?

Podem pensar o que quiserem, meu Deus, eu tenho muito mais. E se pudesse agora eu sorriria aquele sorriso que aprendi h� n�o tanto tempo e que tem maravilhado os que me conheceram.

Pronto. Aprendi o que h� de verdadeiramente importante. Voc� pode, agora, fazer o que quiser, Pai. Sei que se o som das m�quinas cessar, o som seguinte que vou ouvir ser� o das trombetas e da Sua voz. Sei que se, ao contr�rio, o som das m�quinas aumentar eu deverei fazer o que puder para reatar alguns la�os mais. Portanto, estou nas Suas m�os. Como sempre estive, claro, s� que agora eu sei. E descanso.

Foi bom falar com voc�.

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Luiza sentiu uma m�o no ombro.

- Venha!

Ela percebeu que ningu�m mais na igreja orava, estavam todos de p�. Foi-lhe penoso interromper a ora��o, a sensa��o de orar por algu�m, mesmo um quase completo desconhecido, era boa demais. Mas a explica��o veio em seguida:

- A gente vai fazer um c�rculo para orar, mas agora para agradecer - disse M�nica - O Jonas saiu do coma, abriu os olhos! Acabaram de ligar do hospital...

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Ellen G. White, Caminho a Cristo, p�g. 93:
"A ora��o � o abrir do cora��o a Deus como a um amigo. N�o que seja necess�rio, a fim de tornar conhecido a Deus o que somos; mas sim para nos habilitar a receb�-Lo. A ora��o n�o faz Deus baixar a n�s, mas eleva-nos a Ele."


Marco Aur�lio Brasil Lima
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