Passos - VI

O que eu tenho para dar

A chuva ajudava o papo no hall da igreja a se prolongar. Aos poucos os guarda-chuvas iam sendo abertos e as pessoas ganhando as cal�adas com palavras de despedida. Algumas dando corridinhas at� os carros estacionados na rua.

Luiza entretinha-se na conversa embalada de um grupo quando Edna puxou-lhe a manga da capa, apontando discretamente com o queixo um vulto parado sob a �rvore da cal�ada. Surpresa, Luiza custou a atinar com a coisa. Beijos e abra�os, abriu seu guarda-chuva e foi ao encontro do homem que tomava chuva, aparentemente alheio � �gua, ao frio, � noite.

- Denis! O que voc�... Como me achou aqui? Voc� est� todo molhado!

Ele pareceu desconsertado. Come�aram a andar lado a lado, ela tentando cobri-lo com o guarda-chuva.

- Eu n�o tenho passado muito bem esses dias - ele falou, ela respirou fundo.

- Eu tentei falar com voc� na ter�a...

- T� dif�cil de entender - ele atalhou. Fiquei ali, olhando voc� no meio dessa gente, tentando ver qual a... qual a identifica��o. Quer dizer, parece um quadro renascentista com um astronauta no meio; n�o encaixa, entende? ele gesticulava e nos seus olhos um brilho estranho. Ela sentiu um arrepio.

- Denis...

- E de repente - ele continuou como se n�o escutasse - quem tem tudo pra dar � trocado por... por o qu�? N�o sei, n�o d� pra entender, toda essa porcaria n�o faz sentido nenhum! Voc� sabia que eu cogitei cancelar o mestrado em Roma porque a tua carreira tava explodindo? Voc� entende que as amizades e conex�es que a gente levou quatro anos para formar voc� t� pegando, amassando e jogando no lixo!

- Denis...

- Eu tentei sair com a Bia e o Tuca no s�bado, mas os caras parecem que me evitaram. Acho que voc� n�o percebeu que voc� n�o era nenhuma promessa, mais, voc� j� tinha dado certo! N�o tinha erro! Mas desse jeito, a locomotiva andando, a todo vapor, voc� resolve frear e pegar uma... canoa! T� louco! Eu, Luiza, eu ia te dar estabilidade, dar proje��o, ia fazer o que fosse preciso pra pavimentar a estrada pra cima, entende? Pra cima! Eu acho que voc� n�o entende, porque de repente vai brincar de crente, vai ouvir essa baboseira de auto-ajuda, esse papo pega-trouxa daqueles malucos que ficam berrando na Pra�a da S� a mesma ladainha de dois mil anos atr�s!

Estavam parados na esquina, sob a luz da lumin�ria da rua e Luiza chorava em sil�ncio. Denis, com um gesto de desprezo, virou-se e come�ou a chutar fraco o poste.

- Eu precisava vir aqui e ver, ver com os meus olhos que isso, que n�o faz o menor sentido, � assim mesmo.

- Denis - ela falou mas na sua voz n�o havia l�grimas. S� nos olhos - � engra�ado: eu tamb�m costumava achar que tinha muito pra dar. Nesse p� era mesmo �tima a nossa rela��o, duas pessoas interessant�rrimas juntas. Esse neg�cio de ser diretora da MLW com vinte e seis anos sobe � cabe�a... Eu confirmei o que j� desconfiava: era mesmo uma "interessant�rrima", porque s� uma intelig�ncia �mpar poderia fazer isso, e com tanto sucesso. Voc� tinha os nomes, as entradas, os caminhos. Linda troca. A gente tinha tudo para dar, n�o �?  Mas voc� lembra de uma s� promessa que um fez ao outro e cumpriu? Agora � que isso me ocorre: por mais que eu esprema meus neur�nios avariados pelo "papo pega-trouxa", n�o consigo lembrar.

Ele se virou para olh�-la de soslaio e escondeu as m�os nos bolsos do casaco. Luiza continuou:

- Mas posso te contar um epis�dio interessante? Depois que voc� foi embora, al�m da dor que eu senti, coincidiu de as coisas na MLW apertarem muito. O Conselho diretivo estava me pressionando, queria cortar gente e eu n�o concordava, e queriam porque queriam marcar uma mesa para o s�bado... Mas enfim, n�o vem ao caso. A verdade � que eu me senti sozinha e angustiada e n�o sabia o que fazer. Sei que isso n�o deve te importar muito, mas escute, por favor. Por um acaso, que n�o � acaso, eu estava lendo a B�blia nesse dia justamente num trecho que diz o seguinte (eu decorei as palavras e a passagem, � Filipenses 4:6 e 7): "N�o andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela ora��o e s�plica com a��es de gra�as; e a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardar� os bossos cora��es e os vossos pensamentos em Cristo Jesus."
Por favor, escute. Eu li aquilo e fiquei pensando. Eu n�o deveria ficar ansiosa e deveria pedir a Deus que me desse o consolo. Pois bem, o fiz, ent�o. Nada aconteceu. Eu continuava agoniada e pra baixo. Normal, n�o �? Eu deveria estar acostumada com esse neg�cio de promessas n�o cumpridas. A� alguma coisa me fez perceber que havia algo de errado. "A��es de gra�as", dizia l�. Pensei, ent�o: Deus � poderoso para fazer qualquer coisa, correto? O meu estado de esp�rito, ent�o, � fichinha para Ele. Bom, tamb�m � verdade que Ele me ama, ent�o n�o tem porque n�o fazer o que para Ele � t�o f�cil fazer e que vai ser t�o bom para mim!
Estranhamente, eu comecei a cantar. Eu lembro perfeitamente, era um domingo, l� pelas seis da tarde, a casa estava vazia e eu, que nunca gostei de cantar, comecei a cantar uma m�sica que aprendi na igreja e que fala de gratid�o. Entende? Antes de receber, eu estava agradecendo, porque n�o havia porque n�o receber! E a verdade � que aquela noite de domingo eu senti uma paz que eu n�o conhecia, Denis! Voc� me pediria para explicar e eu diria: n�o d�! Excede o meu entendimento, vai al�m! � que eu senti "a paz de Deus", Denis! De Deus!

Denis abanava a cabe�a olhando para o ch�o. Luiza terminou:

- A� eu entendi muitas coisas, mas entre elas esta: eu n�o tinha tanto assim para dar. Ali�s, eu n�o tinha nada para dar para ningu�m, porque o que eu tinha n�o pode ajudar quem quer que seja. Eu s� tenho algo para dar se recebo de fora de mim, e da fonte certa. E agora que eu achei a fonte certa, eu n�o quero largar, Denis. Troco o que for preciso pra ficar com ela. Por exemplo, eu hoje teria algo pra te dar, essa paz que eu recebi. Voc� gostaria de receber?

Denis deu as costas e atravessou a rua sem falar palavra.

A chuva ca�a sobre a cidade cansada e Luiza secava suas l�grimas. Depois, rumava para o carro assobiando gratid�es.

-------------------------------------------------------
Ellen G. White, O Caminho a Cristo, cap�tulo Um Direito Seu, p. 51:
"Voc� n�o pode fazer expia��o pelos seus pecados do passado, nem pode mudar seu cora��o e tornar-se santo. Mas Deus promete fazer tudo isso por voc�. ...Se voc� cr� na promessa - cr� que est� perdoado e purificado - Deus supre o fato: � curado, exatamente como Cristo conferiu ao paral�tico poder para caminhar quando o homem creu que estava curado. Assim � se voc� cr�.
N�o espere at� sentir que est� curado, mas diga: 'Eu o creio; assim �, n�o porque eu o sinta, mas porque Deus o prometeu"

Marco Aur�lio Brasil Lima
Voltar
Pr�ximo
passo
Hosted by www.Geocities.ws

1