Passos - V

N�o, obrigado

- N�o, obrigado

Jonas n�o saberia dizer se o tom da voz do amigo ou alguma palavra que ele dissera, mas algo ali despertara um trabalho mental de busca de imagens e sensa��es guardadas no ba�-mem�ria. Em uma fra��o de segundos viu outra vez.

Outra vez os amigos, Breno, Fl�vio, M�rcio e ele, jogando basquete na quadra do Sesc. Outra vez as risadas. M�rcio lhe falando das coisas do seu est�gio no Minist�rio P�blico. Breno armando alguma festa, tramando uma conquista, apresentando as meninas da sua faculdade. Outra vez as viagens, a praia lotada de Maresias. Mais para tr�s, o primeiro porre, a inicia��o no cigarro pelas m�os do Fl�vio, a briga dele com o Breno por causa da Jana�na, a reconcilia��o, os funerais da m�e do M�rcio.

De repente, ali, o telefone no ouvido e do outro lado o amigo esperando sua resposta, lhe ocorreu uma revela��o. Quer dizer, algo assim, com um impacto parecido... uma descoberta, enfim. Breno: mulherengo incorrig�vel. Vinte e oito anos, j� estava no segundo casamento e traindo compulsivamente a esposa sempre que havia oportunidade. Fl�vio: mera sombra do cara que desiquilibrava qualquer jogo; gordo, sem f�lego nenhum, de uns tempos para c� deu pra tossir demais, e � medida que sua carreira de consultor financeiro deslancha, mais carteiras de cigarro ele fuma por dia. M�rcio: desde a �ltima tentativa frustrada do concurso da magistratura exagera na bebida; Duda, a namorada, n�o ajuda em nada, bebe de tudo e muito. Mulheres, cigarro, bebida. E ele? Um resumo dos tr�s.

Houve um tempo em que isso era o sin�nimo perfeito da divers�o. Houve um tempo em que o mais agrad�vel, o melhor programa, o ideal de prazer n�o passava disso. Mas esse tempo passou.

- E a�, voc� vem? a voz insiste.

Eu vou? Jonas se pergunta. Ele pensa na fuma�a. Ele pensa no barulho, nas vozes e luzes.

- Breno - ele se surpreende respondendo - tive uma id�ia muito melhor! Pega todo mundo a� e vem pra c�. Eu t� pra inaugurar o forno a lenha h� quase dois meses! Vou fazer umas pizzas daquele jeito, como a D�bora diz, fa-bu-lo-sas.

- Hein?... intervalo - H�, bom, legal. Vou ver com a galera aqui. Se a gente for eu dou uma ligada em cinco minutos.

Ao desligar, Jonas sentou no ch�o e abra�ou Tadeu, que abanava o rabo ao seu lado. Pensou de novo na atmosfera do bar, na noite que "perdeu". E ent�o perguntou-se:

- Quando foi que nos tornamos incompat�veis? Quando foi que nossas formas se desencaixaram desse jeito?

Aquilo o maravilhava. No som, um CD novo, presente do C�lio, o arquiteto novo do escrit�rio, que lhe emprestara aqueles livros todos e com quem conversava tanto ultimamente, e a m�sica dizia "tudo entregarei".

O telefone tocou. Ele olhou no rel�gio e sorriu. N�o haviam passado mais do que tr�s minutos.

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Caminho a Cristo, Ellen G. White, cap�tulo "Consagra��o", p. 46:

"A que renunciamos n�s, ainda que renunciemos a tudo? - A um cora��o polu�do pelo pecado, para que Jesus o purifique, lavando-o em Seu pr�prio sangue, e o salve por Seu inef�vel amor. E ainda os homens acham dif�cil renunciar a tudo! ... Nosso Pai celeste n�o veda os caminhos dos prazeres a nenhuma de Suas criaturas. Os reclamos divinos t�o-somente nos exortam a abster-nos dos prazeres que sobre n�s trariam sofrimentos e desilus�es, e nos fechariam as portas da felicidade e do C�u..."


Marco Aur�lio Brasil Lima
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