Passos - IX

Cita��es

Luiza entrou na sala com um "boa tarde" quebra-gelo.

- Boa noite - resmungou seu pai (gelo derretendo, mas devagarinho).

Ela largou a bolsa, a blusa e as chaves sobre a poltrona e foi beijar a m�e com seu melhor sorriso, o sincero.

- Que � isso, pai!? N�o est� t�o tarde assim. N�o deu jeito de sair antes...

Beijou o pai apertando suas bochechas e antes que ele respondesse o celular tocou. Ela correu na bolsa para atend�-lo.

- Bom, vamos indo para a mesa - ele se apressou a dizer. Eu n�o vejo muita gra�a em lasanha � temperatura ambiente.

Luiza atendeu o telefone com a mesma alegria. Sua m�e, andando em dire��o � mesa, tocou de leve o bra�o do marido e disse:

- Fl�vio, n�o briga com ela, n�o. Deixa! Ela parece t�o feliz!

- Selma, serve o almo�o, por favor - ele ordenou � empregada aparentemente sem ligar para o que a mulher dizia. Sentou-se � cabeceira da mesa, desdobrou o guardanapo com a testa franzida e s� ent�o disse:

- Isso est� passando dos limites, Neiva. No come�o eu achei bom; era uma distra��o pra ela. Pelo menos tirava a cabe�a do trabalho. Apesar de ter criado a Luiza pra isso, voc� sabe, eu agora quero mais � que ela n�o seja como eu, que vivi pro trabalho...

- Viveu? ela al�ou as sobrancelhas, como quem diz: viveu ou vive?

- Pois �, mas agora a coisa t� ficando s�ria. T� com medo que tenham feito a cabe�a dela. Acho que ningu�m deveria mudar de religi�o, nasce com uma, morre com ela, oras. Voc� sabe o que a tua fam�lia pensa desse neg�cio...

- Sei, mas olha pra ela. Olha pra ela, Fl�vio!

Luiza consolava algu�m pelo telefone, dava �nimo, encorajava, andando sem parar pela sala. O homem fingiu prestar aten��o na comida que chegava.

- Ai, que cheiro bom, Selma! Luiza chegava do lavabo ocupando seu lugar. Seu pai limpou a garganta.

- Ent�o, o que voc� tanto fez hoje?

Teve de esperar Luiza fazer uma prece silenciosa para ouvir a resposta, que veio com a boca cheia de cenoura:

- A gente foi outra vez l� no Hospital das Cl�nicas. T�o triste quanto fant�stico. Andamos por dois andares, s� (que s�o enormes, n�?), mas a gente sai de l� cansado, porque em cada quarto n�s temos que... meio que trocar energia, sabe? Deixar alguma coisa boa e levar embora a tristeza, a desperan�a. � uma sensa��o inexplic�vel. Vi a Maria Luiza de novo, aquela menina da leucemia, lembram? Ela estava bem melhor. Chorou tanto quando viu a gente. J� combinamos de sair quando ela estiver melhor.

- E em todos esses lugares voc�s fazem o que?

- A gente conversa, pergunta da vida deles, pacientes e familiares que estejam por ali, depois ora com eles, l� alguma coisa na B�blia.
- E precisa ler a B�blia? - ele pergunta entre garfadas, sem levantar os olhos.

- Claro! Como disse Pedro, o disc�pulo: "n�o podemos deixar de falar nas coisas que temos visto e ouvido".

- Eu vejo e ou�o uma por��o de coisas que n�o falo pra ningu�m, n�o encho as paci�ncias de ningu�m.

- Fl�vio! sua esposa reclamou, mas Luiza logo emendou, com gra�a:

- U�, pai, como � que diz mesmo teu escritor predileto, o Albert Camus? "N�o h� vergonha alguma em algu�m ser feliz, mas seria vergonhoso ser feliz sozinho." �s vezes eu acho que a felicidade genu�na � uma coisa meio comunista: se voc� �, quer que todo mundo seja tamb�m!

- Felicidade � viver e deixar viver - ele respondeu titubeante.

- Isso! Pai, � isso mesmo! E, como disse Jesus - nossa, estou cheia de cita��es, hoje! - "eu vim para que tenhais vida e vida em abund�ncia"!

Abocanhou uma batatinha e completou:

- Outra cita��o, vai: "Viver � a coisa mais rara deste mundo. A maior parte apenas sobrevive."

- Oscar Wilde! entusiasmou-se a m�e. Luzia sorriu aquele seu melhor sorriso, levantou-se e entrou no meio dos pais, abra�ando-os.

- E, por essas e muitas outras, eu quero voc�s na igreja, este s�bado. Pela primeira vez eu vou participar l�, vou fazer um neg�cio que a gente chama de "passar a li��o". Voc� vai adorar, pai, vamos falar bastante de hist�ria e profecia! N�o quero saber o que voc� pode ter para fazer naquela sua empresa, n�o me interessa!

Um longo e intenso beijo. Gelo absolutamente derretido e o domingo continuou com o colorido da felicidade de Luiza.

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Ellen White, "Caminho a Cristo", cap�tulo  "Atividade e vida", p.78:

"T�o depressa uma pessoa se chegue para Cristo, nasce-lhe no cora��o o desejo de revelar aos outros que precioso amigo encontrou em Jesus... E o esfor�o no sentido de aben�oar aos outros reverter� em ben��os para n�s mesmos... Esta � a mais elevada honra, o maior gozo que Deus pode conferir ao homem... A for�a se desenvolve pelo exerc�cio; a atividade � a pr�pria condi��o de vida. Os que procuram manter a vida crist� aceitando passivamente as ben��os que lhes v�m pelos meios da gra�a, nada fazendo por Cristo, est�o simplesmente procurando comer para viver, sem trabalhar. E, no meio espiritual, como no natural, isto implica em degenera��o e ru�na. "


Marco Aur�lio Brasil Lima
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